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Não Sou Seu Ômega

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Resumo

Ethan é um estudante universitário de dezenove anos que vive uma vida completamente fabricada para se proteger. Quando ele tinha dez anos, sua mãe, uma Ômega, abandonou-o e ao seu pai, um Beta chamado Arthur, fugindo com um Alfa rico e dominante apenas por atração biológica. Esse evento partiu o coração de Arthur e incutiu em Ethan um ódio profundo e vitalício pelos Alfas. Quando Ethan se apresentou como um Ômega aos onze anos, seu pai o ajudou a esconder sua identidade usando bloqueadores de feromônios e supressores, temendo o tratamento social severo e a objetificação que os Ômegas enfrentam. Após o falecimento de seu pai, quando Ethan tinha dezoito anos, ele se mudou para a cidade para cursar a universidade, mantendo seu disfarce de Beta comum à risca.

Gênero
Lgbtq
Autor
미소
Status
Completo
Capítulos
55
Classificação
4.5 2 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

Ethan sabia como ser discreto. Não era porque ele fosse um garoto tímido, nem porque não tivesse nada a dizer. Era porque ele passara os últimos nove anos de sua vida percebendo uma verdade muito simples: se você não faz barulho, as pessoas o deixam em paz. Se você não se destaca, ninguém tenta te destruir. Aos dezenove anos, ele se tornara muito, muito bom em se misturar ao ambiente. Quando caminhava pela rua, mantinha a cabeça baixa. Quando se sentava em uma sala cheia, certificava-se de que sua voz não estivesse alta demais, suas roupas fossem comuns e sua postura não convidasse ninguém a olhar duas vezes.

Se você olhasse a papelada oficial dele na universidade, dizia que ele era um Beta. Era isso que o seu senhorio pensava quando ele entregava o dinheiro do aluguel todo mês. Era isso que seus colegas pensavam quando se sentavam ao lado dele nos anfiteatros. Era a história que ele contava para todo mundo, todo santo dia, apenas para sobreviver em um mundo que se importava demais com aquilo que você era ao nascer.

Mas esconder um segredo como o dele é muito parecido com tentar prender a respiração debaixo d'água. No começo, você acha que aguenta. Acha que é forte o suficiente. Mas, conforme os minutos passam, seu peito aperta. Seus pulmões começam a parecer que estão em chamas, e você percebe que está sempre a apenas um segundo ruim de ter que buscar ar e expor tudo.

Ethan não odiava os Alphas porque eles foram fisicamente cruéis com ele quando criança, ou porque sua casa de infância era cheia de gritos e violência. Na verdade, se ele fechasse os olhos e pensasse em suas primeiras lembranças, sua casa costumava ser um lugar bem feliz. Era um apartamento pequeno, o papel de parede descascava nos cantos e o radiador estalava alto sempre que o aquecedor ligava, mas era um lugar seguro. Seu pai, Arthur, era um Beta que trabalhava em um escritório comum em uma empresa de logística local. Arthur era um homem gentil e quieto que não queria muita coisa da vida. Ele não se importava em ficar rico ou se tornar poderoso. Tudo o que queria era trabalhar suas oito horas, voltar para casa e passar a noite com as pessoas que amava.

A pessoa que Arthur mais amava no mundo era a mãe de Ethan. A mãe de Ethan era um Omega homem. No mundo em que viviam, Omegas homens eram raros, mas, em seu pequeno lar, ele era simplesmente o coração da família. Era um homem gentil com olhos doces, e o apartamento inteiro costumava ficar quente e iluminado sempre que ele estava por perto. Ethan se lembrava do cheiro da cozinha naquela época, uma mistura de livros antigos, baunilha doce e o sabão em pó barato que seu pai comprava. Era uma vida boa, uma vida normal.

Mas tudo se quebrou em um milhão de pedaços em uma noite úmida de terça-feira, quando Ethan tinha dez anos.

Ethan estava sentado à mesa de madeira da cozinha, tentando terminar uma lição de matemática antes do jantar. A televisão estava ligada baixinho na sala e seu pai lia o jornal no sofá. De repente, a porta da frente foi destrancada e aberta. Ethan olhou para cima, esperando que sua mãe sorrisse e reclamasse que as sacolas de compras estavam muito pesadas. Mas sua mãe não parecia ele mesmo. Ele entrou no apartamento, mas seus pés se arrastavam. Seus olhos estavam arregalados, olhando para o nada, completamente vazios. Parecia que ele estava andando durante o sono, totalmente desconectado do ambiente.

Atrás de sua mãe, estava um estranho. O homem era alto, facilmente uma cabeça mais alto que o pai de Ethan, e vestia um casaco de lã escuro e incrivelmente caro que parecia deslocado em seu corredor apertado. Ele não pediu permissão para entrar. Apenas atravessou o batente da porta e parecia ser o dono do mundo inteiro só de estar ali. No momento em que aquele homem entrou, o ar no pequeno apartamento mudou. Instantaneamente tornou-se pesado, denso e sufocante. Cheirava totalmente diferente, como se uma tempestade violenta estivesse acontecendo dentro da casa. Era o aroma agudo e avassalador de um Alpha dominante.

Arthur não sentiu cheiro de nada. Sendo um Beta, ele literalmente não conseguia perceber os intensos feromônios biológicos que inundavam o corredor. Betas eram completamente cegos para odores. Viviam em um mundo sem as mensagens invisíveis de raiva, desejo ou dominância que Alphas e Omegas trocavam todos os dias. Mas Arthur não precisava do olfato para reconhecer o perigo parado em sua casa. Ele podia ver isso no tamanho descomunal do homem, no tecido caro de seu casaco e no olhar vazio e enfeitiçado nos olhos de seu próprio marido.

Sem dizer uma única palavra para Ethan, e sem sequer olhar para o marido no sofá, a mãe de Ethan caminhou direto para o quarto. Ele tirou uma mala do armário e começou a jogar roupas dentro dela. Ele não as dobrou com cuidado; apenas as empacotou com uma pressa desesperada e frenética.

Arthur levantou-se do sofá, o jornal escorregando de suas mãos e espalhando-se pelo chão. Ele correu para o quarto, seu rosto empalidecendo ao perceber o que estava acontecendo. Ethan observava da porta da cozinha, seus dedos pequenos agarrando o batente da porta com tanta força que seus nós dos dedos doíam.

Arthur caiu de joelhos no chão de linóleo. Ele agarrou a bainha do casaco do marido, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Ele parecia ter envelhecido dez anos em questão de segundos. Arthur implorou. Ele chorou, perguntando o que tinha feito de errado, prometendo que faria turnos dobrados, compraria uma casa melhor, compraria qualquer coisa que sua mãe quisesse e faria absolutamente tudo para manter sua família unida.

Mas o Alpha parado no corredor não hesitou. Ele não ficou bravo nem gritou. Apenas olhou para Arthur com um sorriso cruel e pequeno, como se estivesse olhando para um cachorrinho triste. O Alpha entrou no quarto, colocou sua mão grande e pesada na cintura da mãe de Ethan e o puxou para perto. No momento em que aquela mão o tocou, a mãe de Ethan soltou um suspiro suave, seus ombros relaxando completamente. Ele não lutou contra isso. Ele não olhou para o marido chorando no chão, nem olhou para trás, para a mesa da cozinha, onde seu filho de dez anos estava vendo seu mundo inteiro acabar.

O impulso biológico era forte demais. O desejo dinâmico de um Alpha apagou instantaneamente dez anos de um casamento feliz, um marido leal e um filho pequeno. Eles saíram do apartamento juntos, seus passos pesados na escada, e a porta da frente se fechou com um clique. A mãe de Ethan nunca olhou para trás. Ele escolheu um Alpha chamativo e poderoso em vez do menino que ele tinha dado à luz.

Aquela foi a noite em que Ethan aprendeu a odiar os Alphas. Para ele, eles não eram os protetores ou líderes que a sociedade elogiava na televisão. Eram apenas valentões biológicos. Eram ladrões que pegavam o que queriam, quando queriam, simplesmente porque a natureza lhes dera o poder para fazer isso e a sociedade deixava que eles saíssem impunes. Eles não se importavam com os corações que partiam, as vidas que destruíam ou as criancinhas que deixavam para trás no escuro.

Ver seu pai completamente destruído naquela noite mudou Ethan para sempre. Arthur não ficou bravo, não gritou e não recorreu ao álcool. Em vez disso, a luz em seus olhos simplesmente se apagou por completo. Ele se tornou um fantasma em sua própria casa. Ele ficava sentado na poltrona por horas depois do trabalho, encarando a tela da televisão desligada, completamente em silêncio. Mas, mais do que a tristeza, Arthur ficou consumido por um terror profundo e desesperado de que a mesma coisa acontecesse com Ethan.

O teste real veio um ano depois, perto do aniversário de onze anos de Ethan.

Ethan acordou no meio da noite tremendo incontrolavelmente. Sua pele parecia estar em chamas, uma febre altíssima fervendo lá do fundo de seu peito. Ele se arrastou para fora da cama e foi ao banheiro, seus joelhos tremendo tanto que ele mal conseguia ficar em pé. Ele caiu no chão frio, buscando ar, enquanto um cheiro novo começava a exalar de sua pele. Era incrivelmente doce, como mel açucarado e flores frescas. Era o aroma inegável de uma apresentação de Omega homem.

Ethan começou a chorar, aterrorizado com o que seu próprio corpo estava fazendo com ele. Arthur o ouviu choramingar e entrou no banheiro. Como Arthur era um Beta, ele não conseguia sentir o cheiro de mel e flores que preenchia o pequeno cômodo. Ele não conseguia perceber os feromônios doces de jeito nenhum. Mas ele viu o suor, viu o rubor profundo na pele do menino e sabia o momento. Ele sabia como era uma febre de apresentação.

O rosto de Arthur se contorceu em pura dor. Ele se sentou no chão ao lado do filho, puxou Ethan para o seu colo e o segurou firme enquanto a toalha úmida que ele trouxera pingava água sobre os azulejos.

Para ter certeza absoluta, Arthur sabia que precisavam de um exame médico real, embora a ideia o aterrorizasse. Ele levou Ethan a uma clínica tranquila nos arredores da cidade, com as mãos tremendo no volante durante todo o caminho. Sentaram-se em uma sala de exame pequena e estéril, esperando em um silêncio pesado até que o médico voltasse com a papelada.

Os resultados estavam impressos em tinta preta, clara e inflexível. Era oficial: Omega homem.

Quando Arthur leu as palavras, um pânico frio e sem fôlego tomou conta de todo o seu corpo. Ele olhou para o médico e depois para seu filho pequeno e aterrorizado. Lembrou-se de seu marido partindo com o Alpha, lembrou-se de quão indefesa uma pessoa comum era contra aqueles monstros, e sua mente disparou. Ele não podia deixar seu filho passar por aquilo.

Arthur se levantou, sua voz mal passando de um sussurro quando pediu a Ethan que esperasse no corredor por um momento. Assim que a porta se fechou, Arthur se voltou para o médico. Ele era um homem comum que não tinha muito, mas tinha suas economias de uma vida inteira trancadas em uma pequena caixa de metal em casa. Arthur implorou ao médico. Ele abriu seu coração, chorando, suplicando pelo futuro de seu filho. Então, prometeu dar ao médico cada centavo que tinha por fora, se ele apenas mudasse o arquivo.

Dinheiro fala, mesmo em uma clínica médica. Foi preciso tudo o que Arthur economizou ao longo de uma vida de trabalho duro, mas o médico finalmente cedeu. O homem voltou para o computador, deletou o registro original e digitou uma classificação completamente diferente. Quando Arthur saiu daquela sala, a nova papelada falsificada em sua mão dizia: Classificação: Beta.

Arthur levou Ethan para casa e olhou para ele com olhos que estavam completamente vazios pelo medo. "Você tem que ser um Beta, Ethan", seu pai sussurrou, a voz falhando enquanto se sentavam no sofá da sala. "Olhe para mim, filho. Nós mudamos os papéis, mas você tem que dizer a todos que é um Beta. O mundo lá fora é perigoso demais, cruel demais para um Omega homem sozinho. Se os Alphas na escola ou na cidade descobrirem o que você realmente é, não vão te ver como uma pessoa. Vão te tratar como um prêmio a ser conquistado, um brinquedo a ser possuído. Vão olhar para você exatamente da mesma forma que aquele homem olhou para a sua mãe. Eu não posso te proteger deles, Ethan. Eu não aguento perder você também."

Ethan olhou para as bochechas encovadas de seu pai, para a mágoa permanente que vivia nas linhas ao redor de seus olhos, e entendeu perfeitamente. Ele não queria ser um prêmio. Ele não queria que algum Alpha arrogante olhasse para ele e pensasse que tinha o direito de possuí-lo apenas por causa da biologia. Ele queria pertencer a si mesmo.

Então, ali mesmo, Ethan aceitou a mentira. Pela paz de espírito de seu pai e por sua própria sobrevivência, ele se tornou um Beta.

Sem economias, eles tiveram que ser incrivelmente cuidadosos. Arthur conseguiu encontrar bloqueadores de cheiro de força clínica e supressores de feromônios em sites obscuros e clandestinos. Eles não eram as pílulas seguras e regulamentadas que você comprava em uma farmácia; eram fortes, amargas e faziam o estômago de Ethan doer toda vez que ele as engolia. Todas as manhãs, Ethan borrifava uma névoa química fria na nuca, removendo completamente seu cheiro doce natural e substituindo-o pelo perfume agudo e estéril de sabão em pó comum.

Eles praticaram por anos. Arthur fingia ser um estranho e Ethan praticava manter seu rosto completamente inexpressivo. Ele aprendeu a enrijecer os ombros para não parecer macio demais. Aprendeu a abaixar o tom de voz para algo plano e inflexível, que não tivesse altos ou baixos emocionais. Aprendeu a ignorar a pressão estranha e pesada em seu peito sempre que um Alpha passava por ele na rua. Ele trancou sua verdadeira natureza atrás de uma parede de puro ferro.

Quando ele terminou o ensino médio, a mentira era perfeita. Ele era invisível, apenas mais um garoto Beta comum tentando passar em suas aulas.

Arthur faleceu pacificamente durante o sono logo após Ethan completar dezoito anos. O coração de seu pai estava cansado demais, desgastado por todos aqueles anos carregando aquela tristeza silenciosa e pesada. Ethan não chorou no funeral. Ele já tinha chorado tudo o que precisava quando tinha dez anos. Em vez disso, ele colocou suas poucas roupas, seus livros e seu estoque de pílulas do mercado negro em uma única bolsa de lona, vendeu os móveis velhos para pagar uma passagem de ônibus e mudou-se para a cidade grande para cursar a universidade.

Ele não tentou encontrar a mãe que os tinha abandonado. Ele não se importava onde ele estava ou com quem estava. No que dizia respeito a Ethan, sua mãe estava morto, seu passado tinha acabado e seu futuro era a única coisa que importava.

Agora, aos dezenove anos, Ethan morava em um estúdio minúsculo e gelado na extremidade escura do campus. A janela rachava se o vento soprasse forte demais, e a água levava dez minutos para esquentar, mas era dele. Ele estava totalmente sozinho, mas, pela primeira vez em sua vida, sentia que era ele quem estava no comando. O sistema universitário o classificava como Beta, o que significava que ele podia circular pelo campus lotado como um fantasma. Ninguém olhava para ele no refeitório. Ninguém tentava sentar muito perto dele ou reivindicar seu espaço na biblioteca. Ele era apenas um personagem de fundo na vida de todo mundo, o que era exatamente o que ele queria.

Todas as manhãs, sua rotina era exatamente a mesma. Ele acordava às 5h, engolia sua pílula bloqueadora amarga e calcária com o estômago vazio, e borrifava a nuca até que sua pele ficasse dormente e não cheirasse a nada além de sabão industrial. Ele tinha dois empregos de meio período — um lavando pratos em uma lanchonete gordurosa e outro empilhando caixas pesadas no armazém de uma mercearia — apenas para complementar a bolsa de estudos que o mantinha na escola. Ele estudava até que seus olhos parecessem cheios de areia, e mantinha sua guarda alta a cada segundo em que estava fora de seu apartamento.

Ele tinha construído uma parede perfeita e inquebrável ao redor de sua vida. Tinha se convencido de que, enquanto fosse inteligente, mantivesse seu ódio pelos Alphas afiado e nunca perdesse uma dose de sua medicação, o mundo nunca poderia machucá-lo. Ele achava que tinha sido mais esperto que o sistema.

Ele não tinha ideia de que uma aula comum de terça-feira de manhã estava prestes a mudar tudo.

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