A garota improvável
Prólogo
A primeira vez que Helena entendeu que o amor podia destruir uma pessoa, ela tinha dez anos. Na época, ela ainda acreditava que adultos sabiam o que estavam fazendo. Que mães eram indestrutíveis. Que pessoas boas sempre venciam. Era uma terça-feira chuvosa. Ela lembra disso porque estava desenhando flores na mesa da cozinha - rosas tortas, margaridas enormes e um sol desproporcionalmente feliz - quando ouviu vozes.
Homens.
Graves.
Bem vestidos.
Assustadores daquele jeito silencioso. Não estavam gritando exatamente. Mas havia algo pior do que gritos. Aquela calma estranha dos adultos quando alguma coisa está muito errada. A mãe estava diferente.
Pálida.
Tensa.
Falando baixo demais.
Helena não conseguia ouvir as palavras. Só pedaços.
- Não podem fazer isso...
- Ela não sabe de nada.
- Já acabou.
Depois veio o barulho de papéis rasgando. Uma porta batendo. E um silêncio tão pesado que até hoje Helena associava chuva à sensação de estar prestes a perder alguma coisa.
Depois daquela manhã...
A mãe nunca mais foi a mesma.
Ela continuou sorrindo.
Mas de um jeito cansado.
Como quem estava fingindo não estar com medo. Como quem olhava pela janela mais do que o normal. Como quem verificava portas duas vezes.
Às vezes três.
E dois anos depois...
Ela morreu.
Assim.
Rápido demais.
Sem explicação suficiente. Sem despedida suficiente. Sem tempo suficiente.
O pai?
Helena nunca conheceu.
Nem nome.
Nem rosto.
Nem história.
Como se tivesse evaporado da própria existência.
Restou apenas Amélia.
Sua tia.
Costureira.
Mãos sempre cheias de alfinetes.
Cheiro constante de sabão em pó e café recém-passado. Uma mulher que transformava tecido barato em vestido bonito e tristeza em abraço.
Amélia nunca teve filhos.
Mas amou Helena com uma intensidade que fazia parecer que o mundo inteiro ainda podia ser um lugar seguro.
- Você nasceu pra coisas grandes, Lena - dizia enquanto costurava perto da janela. - Nunca deixa ninguém fazer você acreditar que vale menos.
Helena acreditava nela. Mesmo quando a vida insistia no contrário. Até conhecer a família Ferraz. E descobrir que algumas pessoas conseguiam destruir vidas...
Sorrindo.
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Capítulo 1 - A garota improvável
A universidade parecia outro planeta. Sinceramente. Outro planeta mesmo. Um daqueles lugares onde as pessoas aparentemente nasciam sabendo coisas importantes.
Como qual vinho pedir.
Ou como parecer elegante segurando café.
Ou como reclamar de uma viagem internacional como se Paris fosse logo ali depois do mercado.
Helena definitivamente não pertencia àquele lugar.
Isso estava bem claro.
Especialmente quando olhava para o próprio tênis já meio gasto enquanto meninas perfeitamente arrumadas passavam usando bolsas que provavelmente custavam mais do que sua casa inteira.
Mas ainda assim...
Ela estava ali.
Por mérito.
Bolsa integral.
Melhor nota do vestibular em Administração.
E uma tia absurdamente orgulhosa que pegava faxinas extras escondido só para garantir dinheiro de passagem, apostilas e aquele lanche horrivelmente caro da faculdade.
Helena fingia não perceber. As duas fingiam muito bem, na verdade. Era uma espécie de acordo silencioso. Amor em forma de negação.
Ela era bonita. Embora honestamente não parecesse saber disso.
Cabelos loiros longos.
Olhos azuis claros.
Pele delicada.
Um jeito naturalmente gentil.
Mas havia algo ainda mais raro nela: Helena escutava as pessoas.
De verdade.
Não aquele tipo de escuta distraída enquanto mexe no celular.
Ela prestava atenção.
Lembrava detalhes.
Fazia perguntas.
Parecia realmente se importar.
E isso era perigosamente raro.
Foi numa terça-feira completamente comum - porque tragédias românticas sempre começam em dias absurdamente normais - que Noah Ferraz entrou atrasado na sala.
E sinceramente?
Foi irritante.
Porque ninguém deveria ter permissão legal para ser tão bonito às oito da manhã.
Alto.
Cabelos castanho-escuros levemente bagunçados. Camisa social dobrada até os braços. Aquele ar cansado de quem provavelmente dormia pouco.
E olhos...
Nossa.
Olhos intensos.
Como se escondessem histórias. Ou problemas. Ou os dois. E ainda tinha aquele detalhe inconveniente:
Rico.
Muito rico.
Filho de Augusto e Beatriz Ferraz. Empresários conhecidos. Elegantes. Intocáveis. Ou pelo menos era isso que todo mundo acreditava.
Noah entrou, olhou rapidamente a sala lotada e-
Claro.
Claro.
Foi sentar exatamente ao lado dela.
Destino?
Azar?
Problema?
Difícil dizer.
Ele largou a mochila na cadeira e soltou um suspiro cansado.
Depois olhou pro quadro.
Depois pro caderno dela.
Cheio de anotações impecáveis.
Depois olhou pra ela.
- Você entendeu essa matéria?
Helena piscou.
Surpresa.
Porque homens daquele tipo normalmente nem percebiam a existência dela.
- Um pouco - respondeu.
Ele sorriu.
Um sorriso rápido.
Torto.
Daqueles perigosos.
- Então acho que acabei de achar minha salvação.
E pronto.
Foi ali.
Naquela terça-feira comum. Naquele sorriso inconvenientemente bonito. Que começou a ruína dos dois.








