Crossing Boundaries
Dez Anos Atrás
A cidade brilhava abaixo deles como um mar de estrelas.
Do terraço da cobertura da propriedade De Luca, o mundo parecia enganosamente belo. Luzes infinitas se estendiam pelo horizonte, iluminando a escuridão abaixo em tons de ouro e prata. Arranha-céus caros perfuravam o céu noturno, com suas janelas brilhando como lanternas. Carros de luxo rastejavam pelas ruas como pequenos insetos e, em algum lugar distante, o som fraco de sirenes ecoava pela cidade antes de desaparecer no vento.
Lá em cima, tudo parecia pacífico e perfeito.
Vittoria De Luca apoiou os cotovelos no parapeito de pedra fria e encarou o horizonte, tentando ignorar o barulho que vinha do salão de festas abaixo. Risadas, música e o tilintar das taças de champanhe. As conversas intermináveis entre homens e mulheres poderosos que passavam a vida fingindo que não estavam constantemente conspirando uns contra os outros.
"Eu odeio este lugar." As palavras escaparam antes que ela pudesse impedi-las. Uma risada familiar soou atrás dela.
"Você diz isso toda semana." Vittoria sorriu, apesar de si mesma, e se virou. Lorenzo De Luca estava na entrada que dava para a mansão. A gravata estava frouxa em seu pescoço e o botão superior da camisa social havia sido desabotoado em algum momento da noite. Seu cabelo escuro estava levemente bagunçado, como se ele tivesse passado as mãos nele vezes demais. Ele parecia exausto.
E irritantemente bonito.
Aos quinze anos, Lorenzo já se portava como um homem destinado a herdar um império. Todos viam isso; eles comentavam. O futuro chefe da família De Luca. O futuro rei de uma das organizações mais poderosas do país. Todos viam aquela versão dele, como o futuro Don.
Todos, menos Vittoria. Para ela, ele era simplesmente Enzo.
O menino que roubava biscoitos da cozinha quando tinham oito anos. Que brigava para defendê-la quando eram crianças. O menino que tentou ensiná-la a dirigir, apesar de quase ter batido o carro três vezes. Ele conhecia cada história embaraçosa, cada medo secreto, cada sonho que ela nunca ousou contar a ninguém. Seu melhor amigo e sua pessoa favorita. A única constante em um mundo que mudava rápido demais.
Sou fratello gemello.
"Você parece miserável", disse ele enquanto caminhava em sua direção.
"Você também."
Ele se juntou a ela no parapeito. Não se tocaram, mas ficaram mais próximos do que o necessário. Por alguns momentos, nenhum dos dois falou. O silêncio que caiu entre eles não era estranho, como sempre.
Ela olhou de soslaio para Enzo. Ele observava a cidade, e o luar destacava os ângulos marcantes de seu rosto. Em algum momento, ele havia mudado. Não fisicamente. Bem, fisicamente também, mas não era disso que ela falava; algo mais havia se transformado. Um dia, ele era simplesmente Enzo, seu irmão. O garoto irritante que a desafiava constantemente para corridas, discussões e competições ridículas.
Então, de repente, ele não era mais.
De repente, ela começou a notar coisas. Como o jeito que o sorriso dele fazia seu estômago dar voltas. O som da risada dele. Ou o modo como os olhos dele suavizavam sempre que olhava para ela. O jeito como outras garotas olhavam para ele. Esse último a irritava mais do que queria admitir. Ela odiava a sensação estranha que se instalava em seu peito sempre que isso acontecia.
A pior parte?
Ela não entendia o porquê. Ou talvez entendesse. Talvez entendesse perfeitamente, ela só não estava pronta para admitir.
"Você já se perguntou o que estamos perdendo?" A pergunta escapou baixinho, fazendo Enzo franzir a testa levemente.
"O que você quer dizer?"
Ela gesticulou em direção à cidade abaixo. "Tudo." O olhar dele seguiu o dela, para as luzes, as ruas, as pessoas vivendo vidas comuns. Pessoas que podiam acordar e decidir o que queriam fazer sem consultar as expectativas da família. Que podiam se apaixonar por quem quisessem. Aqueles que podiam cometer erros sem que esses erros virassem manchetes. Pessoas que eram livres. "Uma vida normal", ela continuou suavemente. "Escolhas."
Enzo ficou em silêncio por um momento, então assentiu.
"Todo dia." A honestidade em sua voz a surpreendeu. Não porque ela achasse que ele estivesse mentindo, mas porque ela sabia exatamente o quão difícil era admitir algo assim. No mundo deles, a gratidão era esperada. O privilégio deveria apagar a infelicidade. Eles tinham dinheiro, poder, influência, tudo o que as pessoas sonhavam. Eles não deveriam reclamar. Não deveriam reconhecer a gaiola que os cercava, mesmo que as barras fossem feitas de ouro.
"Fico feliz em saber que não sou só eu", ela disse suavemente. A expressão dele suavizou.
"Definitivamente não é só você." O vento aumentou ao redor deles. Algumas mechas do cabelo escuro dela sopraram sobre seu rosto. A mão dele se ergueu sem aviso. Sem pensar, ele alcançou o cabelo dela como fizera centenas de vezes antes. Mas no meio do caminho... ele parou.
Seus dedos pairaram no ar perto da bochecha dela, como se tivessem esquecido o que deveriam fazer. A pausa foi longa demais. Vittoria sentiu isso imediatamente; algo havia mudado. Ela não se moveu e nem ele. Então, a mão dele finalmente a tocou, cautelosa demais no início. Colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. Só que seus dedos não saíram. Eles ficaram, por apenas um segundo a mais.
E depois mais um.
O polegar dele roçou a bochecha dela — levemente, como se o corpo dele estivesse tomando decisões sem ele. Aquilo era novo. Aquele não era Enzo. A respiração dela falhou antes que pudesse conter. A mão dele finalmente caiu, mas não totalmente. Ela desceu até a metade, como se tivesse esquecido como obedecê-lo.
O ar entre eles tornou-se algo que nenhum dos dois conseguia ignorar. Vittoria sentiu seu coração disparar. Ela podia ouvir a música lá embaixo, as risadas distantes, os sons da festa continuando sem eles. No entanto, tudo parecia distante, abafado e sem importância.
Porque, de repente, ela estava consciente de apenas uma coisa.
Lorenzo.
O jeito que ele a olhava. Seus olhos pareciam mais escuros do que o habitual. Nenhum dos dois desviou o olhar. Por anos, ela se perguntou se estava imaginando aquilo, a tensão, a possibilidade. A sensação de que algo existia entre eles que nenhum dos dois tinha coragem de nomear.
Esta noite, pela primeira vez, ela soube que não estava imaginando. Ele também sentia. A percepção a aterrorizava e a fascinava. Porque, se ela estivesse certa, tudo estava prestes a mudar. Para melhor ou para pior.
Vittoria virou a cabeça levemente. Foi só o que bastou. Os olhos dele a seguiram imediatamente. Rápido. E então... ele não desviou o olhar. Nem quando deveria ter feito. Nem quando ficou óbvio que ele deveria ter feito.
Ela deveria ter se afastado. Algo na expressão dele se partiu. Como um fio esticado demais finalmente percebendo que ainda pode romper. O olhar dele desceu para a boca dela. Desta vez, ele nem tentou esconder. Ele viu acontecer e não impediu. Vittoria sentiu imediatamente. Não era atração.
Poder.
Tarde demais para desfazer: ela não apenas o afetava, ela o desestabilizava.
Ela engoliu em seco. Pela primeira vez na vida, não sabia o que dizer. E era exatamente por isso que falava. Decisões impulsivas sempre foram sua especialidade.
"E se parássemos de nos perguntar?" Enzo piscou.
"O quê?" O pulso dela martelava contra as costelas.
"E se parássemos de nos perguntar como a vida poderia ser?" Ele a encarou, confuso e curioso.
"Do que você está falando?" Ela respirou fundo. Depois outro. Todo instinto lhe dizia para parar, para rir da situação, para mudar de assunto, para proteger o que já tinham. Em vez disso, ela deu um passo mais perto.
"E se escolhêssemos algo para nós mesmos?" As palavras ficaram suspensas entre eles. Aterrorizantes. Enzo não respondeu imediatamente; ele simplesmente a encarou.
Um segundo se passou.
Depois dois.
Depois cinco.
Tempo suficiente para o pânico se infiltrar em seu peito. Sua confiança começou a desaparecer. Ela começou a se perguntar se tinha cometido um erro terrível. Talvez tivesse imaginado tudo. Talvez tivesse entendido errado. Talvez...
"Não diga coisas assim", disse ele. Mas sua voz o traiu; não era mais um aviso. Era uma súplica.
"Por quê?", ela sussurrou. A respiração dele mudou audivelmente.
"Porque você não entende o que está fazendo." Aquilo deveria ter soado controlado. Mas soou como uma confissão que ele não podia retirar. Ela se aproximou, não de forma intencional. Apenas inevitável. "Vittoria—"
A voz dele era baixa, suave. O modo como ele dizia seu nome a fez estremecer. Quebrado nas bordas. Ele estava se segurando, e falhando.
"Diga de novo", ela sussurrou. Os olhos dele escureceram imediatamente.
"Dizer o quê."
"Meu nome." Um tempo longo demais. Então...
"Vittoria." Saiu errado. Tenso. Como se doesse dizer. Como se custasse algo que ele não podia pagar.
Ele se aproximou no mesmo instante em que ela se inclinou para frente. Rápido demais. Perto demais. Nenhum dos dois planejou que acontecesse ao mesmo tempo, mas aconteceu. E de repente não havia mais espaço para corrigir. A mão dele agarrou o pulso dela. Desesperado. Como se não pudesse evitar se ancorar nela. O contato enviou algo afiado através de ambos.
A respiração dele falhou imediatamente, a dela também. Só existia este momento. Nada mais.
Apenas ele.
Apenas ela.
Algo lindo, imprudente. Algo que nenhum dos dois entendia totalmente. Até o ar parecia estranho, denso demais para se mover.
A testa dele quase tocou a dela, mas ele parou ali. Não porque escolheu, mas porque algo nele fisicamente não conseguia cruzar aquela linha. A respiração dele atingiu os lábios dela. Quente. Instável. Perto demais para ignorar.
Vittoria percebeu que não estava esperando que ele a beijasse; ela estava esperando para ver se ele conseguiria se conter. E ele não conseguiu. O aperto dele em seu pulso se intensificou levemente, como se ele estivesse se estabilizando através dela. Como se ela fosse a única coisa que o impedia de desabar completamente.
Aquilo deveria tê-la assustado. Mas a fez se sentir poderosa de um jeito que ela ainda não compreendia.
"Enzo", ela sussurrou. Foi o que bastou. O controle dele finalmente se fragmentou. Ele se inclinou, já não sendo cauteloso. E por meio segundo, tudo parou exatamente no ponto antes do impacto.
Respiração entrelaçada. Distância extinta. Escolha apagada.
E então...
"Vittoria!"
A voz cortou o ar como uma lâmina. Eles congelaram. Não separados. Ainda perto demais, segurando, respirando um ao outro como se nenhum dos dois lembrasse como parar.
Mas agora ambos sabiam. Não havia mais equilíbrio. E qualquer que fosse a coisa que tinha acabado de acontecer entre eles, já era irreversível. Que, se cruzassem aquela linha, não haveria volta. Nada seria o mesmo novamente. A amizade deles, a família, o futuro. Tudo mudaria.
E, ainda assim, ela não conseguia se importar.
Não quando ele a olhava daquele jeito. Quando cada parte dela queria fechar a distância entre eles. Ela passou anos fingindo que não sentia algo do qual nunca conseguiu escapar.
O olhar de Enzo desceu brevemente para os lábios dela. Depois voltou aos seus olhos. O movimento durou menos de um segundo. Mas foi o suficiente para confirmar tudo, para destruir cada mentira que já tinham contado a si mesmos.
O mundo pareceu prender a respiração.
Esperando.
Observando.
E, em algum lugar bem no fundo, Vittoria sabia que este momento os seguiria para sempre. Não importava o que acontecesse depois. Ou quanto tempo passasse. O quanto tentassem esquecer. Porque alguns momentos tornam-se parte da sua alma. Algumas escolhas deixam cicatrizes que nunca desaparecem de verdade.
Alguns amores se recusam a morrer.
Este era um desses momentos. O começo do fim. Algo que mudaria suas vidas para sempre. Algo que passariam os próximos dez anos fingindo que nunca aconteceu.
E falhariam.
Miseravelmente.



