Capítulo 1
POV: WILLOW
A placa surgiu através da chuva logo após o pôr do sol.
BEM-VINDO A BLACKRIDGE, MONTANA
População: 18.247
Willow Hart apertou as mãos no volante e soltou o ar lentamente.
Três dias dirigindo. Três dias em motéis baratos, bebendo café de posto e olhando constantemente pelo retrovisor. Três dias se perguntando se tinha tomado a decisão certa.
A chuva batia forte contra o para-brisa enquanto ela passava pela placa e entrava na cidade. Pela primeira vez em meses, ela se permitiu acreditar que talvez estivesse realmente segura.
Blackridge não constava na maioria dos mapas. Não era um destino turístico e certamente não era um lugar onde as pessoas apareciam por acaso. Aninhada entre montanhas e densas florestas de pinheiros, a pequena cidade de Montana parecia saída de um cartão-postal.
A rua principal brilhava sob postes de luz à moda antiga; as vitrines das lojas refletiam uma luz dourada e acolhedora no asfalto molhado. Famílias caminhavam apressadas na chuva com sacolas de compras, e adolescentes riam na porta de uma lanchonete. Tudo parecia normal. Maravilhosamente normal.
Willow não conseguia se lembrar da última vez que tinha visto algo "normal".
Um nó se formou em sua garganta, mas ela o engoliu rapidamente. Nada de chorar. Ela já tinha chorado o suficiente. Aquele não era o fim, era um começo. Um recomeço. Exatamente o que ela precisava.
O GPS a direcionou para um pequeno complexo de apartamentos nos limites da cidade. Seu novo apartamento não era grande — um quarto, um banheiro, uma cozinha minúscula —, mas era seu. Naquele momento, aquilo parecia o maior luxo do mundo.
A chuva aumentou quando ela estacionou, e trovões ecoaram pelas montanhas. Willow pegou sua bolsa e saiu em meio à tempestade, ensopando o cabelo imediatamente.
“Perfeito.”
O resmungo foi abafado por mais um estrondo de trovão.
Ela correu para o prédio, equilibrando uma mala de viagem e duas caixas de papelão. O gerente do imóvel tinha deixado a chave embaixo de um vaso de flores — um nível de confiança típica de cidade pequena que Willow quase tinha esquecido que existia.
O apartamento tinha um cheiro suave de pintura fresca. Estava vazio, silencioso e, o mais importante, seguro.
Willow ficou no meio da sala e girou lentamente. Sem móveis caros. Sem acabamentos de luxo. Sem seguranças. Sem câmeras. Sem uma voz controladora lhe dizendo aonde ir ou o que fazer.
Apenas silêncio. Um silêncio lindo e ininterrupto.
Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios, seguido por outro.
E, de repente, ela começou a chorar de qualquer jeito.
Não por estar triste, mas por estar exausta — emocional, física e espiritualmente. Tudo o que ela vinha segurando por meses desmoronou de uma vez só.
Ela afundou no chão e escondeu o rosto entre as mãos. As lágrimas vieram rápidas e implacáveis, daquele tipo que ela vinha tentando segurar há tempo demais. Após vários minutos, elas finalmente diminuíram e, por fim, pararam.
Willow enxugou os olhos e riu de si mesma.
“Que bagunça.”
Sua voz ecoou pelo apartamento vazio.
Pela primeira vez em muito tempo, ninguém a respondeu, a julgou ou a controlou. A liberdade parecia estranha — quase assustadora —, mas era dela.
E ela pretendia mantê-la.
A manhã seguinte chegou clara e iluminada. Montana parecia completamente diferente sem a chuva, com a luz do sol brilhando sobre as montanhas e os pinheiros se estendendo infinitamente em direção ao horizonte. Um ar fresco entrava pela janela aberta, e só aquela vista já era o suficiente para fazê-la sorrir.
Às oito da manhã, ela já tinha desempacotado metade das caixas e consumido café demais. Às nove, estava inquieta. Às dez, saiu para explorar a cidade.
Blackridge acabou sendo exatamente o que ela esperava: amigável, acolhedora e cheia de vida. As pessoas sorriam umas para as outras, seguravam portas e conversavam com estranhos como se fosse a coisa mais natural do mundo. Uma senhora passou dez minutos explicando onde encontrar a melhor torta da cidade, enquanto outra insistiu para que Willow visitasse a feira de produtores no sábado.
Parecia quase surreal, como se ela tivesse entrado em um mundo diferente — um onde as pessoas não viviam olhando por cima dos ombros e a bondade não era tratada com suspeita.
Ela passou por uma livraria, uma padaria e uma floricultura, cada uma tão charmosa que parecia cenário de filme.
Sua barriga roncou alto. “Ok, ok”, ela murmurou.
O cheiro de café fresco vinha de um café próximo. Decisão tomada, Willow entrou. Foi recebida imediatamente por um calor aconchegante, misturado ao aroma de canela e grãos de café recém-torrados.
Todas as mesas pareciam ocupadas. Professores, operários, estudantes universitários e aposentados preenchiam quase todos os assentos, fazendo parecer que a cidade inteira tinha se reunido ali para o café da manhã.
Uma garçonete alegre a cumprimentou com um sorriso. “Primeira vez aqui?”
Willow piscou. “Está tão na cara?”
A mulher riu. “Querida, todo mundo conhece todo mundo por aqui.”
Willow sorriu. “Eu sou a Willow.”
“Emma.” A garçonete entregou o cardápio e apontou para uma mesa vazia perto da janela. “Bem-vinda a Blackridge.”
Algo naquela gentileza simples aqueceu o peito de Willow. “Obrigada.”
Ela pediu café e o desjejum antes de se acomodar na mesa da janela. Lá fora, a rua principal fervilhava de atividade. Era a vida normal — exatamente o que ela estava procurando.
Seu pedido chegou rápido. O café estava incrível, e as panquecas quase mudaram a vida dela.
No meio do café da manhã, ela ouviu uma conversa na mesa ao lado.
“…evento beneficente do Steel & Sin no próximo fim de semana.”
Outra voz respondeu: “Eles sempre arrecadam a maior quantia.”
Steel & Sin.
O nome surgiu novamente alguns minutos depois, e outra vez logo em seguida. Interessante.
Eventualmente, a curiosidade venceu. Willow olhou para Emma. “Posso perguntar uma coisa?”
A garçonete sorriu. “Manda ver.”
“O que exatamente é o Steel & Sin?”
Emma riu, e a reação surpreendeu Willow. “Você vai descobrir logo, logo.”
Aquilo não foi uma resposta.
Emma se inclinou levemente sobre a mesa. “É um motoclube, o Steel & Sin.”
Willow assentiu. Ok. Isso explicava o nome. Mais ou menos.
O sorriso de Emma aumentou. “Eles praticamente são donos de metade da cidade.”
Aquela afirmação deveria ser preocupante. Em vez disso, soou estranhamente carinhosa, o que deixou Willow ainda mais confusa.
“Um motoclube é dono de metade da cidade?”
“Não literalmente.” Emma fez uma pausa antes de acrescentar: “Pelo menos não a maior parte.”
Willow riu. A garçonete riu também, antes de ser chamada por outro cliente.
Sozinha, Willow olhou pensativa através da vitrine do café.
Um motoclube.
Interessante.
Muito interessante.
O que ela não sabia — o que era impossível saber — era que, em vinte e quatro horas, o Steel & Sin se tornaria o centro de todo o seu mundo.
E um motociclista em particular mudaria sua vida para sempre.
Ao meio-dia, Willow tinha concluído duas coisas: tinha explorado quase toda a rua principal e gastado muito mais dinheiro do que pretendia.
Uma sacola de pano cheia de livros pendia em seu ombro, uma pequena planta estava cuidadosamente equilibrada em seus braços, e um saco de papel da padaria carregava o que ela pretendia chamar de "rolinho de canela de emergência". Afinal, mudar para uma cidade nova contava como uma emergência — pelo menos na opinião dela.
O sol da tarde aquecia seu rosto enquanto ela caminhava em direção ao carro. Pela primeira vez em meses, ela não estava checando cada reflexo, observando cada estranho ou esperando por notícias ruins. A sensação era estranha, quase perigosa, como se a felicidade fosse algo frágil que ela pudesse quebrar sem querer.
Seu telefone vibrou.
Instantaneamente, seu estômago despencou. O medo veio forte — agudo, automático, impossível de ignorar. A reação a irritou. Ela sabia melhor. Estava segura. Ninguém ali sabia quem ela era.
Ainda assim, seu pulso acelerou enquanto ela tirava o telefone da bolsa.
Número Desconhecido.
Por vários segundos, ela apenas encarou a tela. Então o telefone vibrou novamente — uma notificação de mensagem de voz.
Willow engoliu em seco.
Não.
Não aqui.
Não agora.
Lentamente, ela abriu a mensagem. Seu coração batia mais forte a cada segundo, até que finalmente pressionou o botão de reproduzir.
Nada.
Nenhuma voz.
Nenhuma respiração.
Nenhuma mensagem.
Apenas dez segundos de silêncio absoluto.
A gravação terminou.
Um arrepio percorreu sua espinha. O número estava bloqueado e desapareceu quase imediatamente depois. Suas mãos tremiam levemente.
Provavelmente não significava nada. Um número errado. Spam. Algum tipo de falha. Qualquer uma das cem explicações perfeitamente razoáveis.
No entanto, a sensação de inquietação permaneceu.
Porque ela passou tempo demais olhando por cima do ombro e tempo demais com medo. O medo tem o hábito de seguir a gente. Mesmo quando o perigo não segue.
“Moça?”
Willow piscou. Uma mulher de meia-idade estava por perto com um carrinho de bebê, a preocupação suavizando sua expressão.
“Você está bem?”
Willow forçou um sorriso. “Desculpe.” Ela guardou o celular rapidamente. “Apenas distraída.”
“Acontece”, disse a mulher gentilmente antes de continuar pela calçada, deixando Willow sozinha com aquela sensação desconfortável se contorcendo em seu estômago.
Após um momento, Willow balançou a cabeça. Chega.
Ela se recusava a deixar o passado arruinar aquilo. O dia deveria ser sobre recomeços, não sobre medos antigos.
Determinada a recuperar seu ânimo, ela caminhou em direção ao carro. O saco da padaria balançava suavemente em sua mão enquanto o ar da montanha trazia o perfume limpo de pinho e luz do sol.
A vida continuava ao seu redor, normal e segura, exatamente como deveria ser.
Uma hora depois, Willow se viu dirigindo por uma estrada sinuosa fora da cidade. Segundo a mulher da livraria, aquela rota oferecia a melhor vista de Blackridge.
A recomendação não decepcionou.
Montanhas se estendiam infinitamente em direção ao horizonte enquanto florestas de pinheiros cobriam os vales abaixo. O céu parecia incrivelmente vasto e, por um momento, Willow apenas ficou olhando.
Ela nunca tinha visto nada parecido.
De onde ela vinha, prédios sempre bloqueavam o horizonte e o barulho sempre preenchia o ar. Ali, tudo parecia aberto e livre.
Um pequeno mirante apareceu à frente, e Willow entrou na área de estacionamento de cascalho antes de sair.
A vista lhe tirou o fôlego de uma maneira que nenhuma fotografia jamais conseguiria.
A luz do sol dançava sobre os picos distantes das montanhas enquanto uma águia sobrevoava o local. O silêncio parecia quase sagrado.
Por vários minutos, ela apenas ficou ali — observando, respirando, permitindo-se existir sem medo. Sem pressão. Sem expectativas. Sem perigo. Apenas paz.
O ronco distante de motores tornou-se mais alto e potente à medida que se aproximava. Willow se virou.
Um grupo de motocicletas contornou a curva da estrada da montanha — pelo menos uma dúzia de pilotos, talvez mais. O cromo brilhava sob a luz do sol, o som ecoando pelo vale como um trovão distante.
Cada piloto usava um colete de couro preto com o mesmo emblema costurado nas costas: uma caveira de aço envolta em asas. Abaixo dela, duas palavras: STEEL & SIN. Bem. Aquilo respondia a um mistério.
Vários pilotos reduziram a velocidade; outros acenavam casualmente para os veículos que passavam. A descontração entre eles chamou a atenção de Willow imediatamente. Eles pareciam perigosos, mas estranhamente relaxados — como homens completamente confortáveis em sua própria pele.
Uma motocicleta se separou do grupo e entrou no mirante a apenas seis metros de distância. O pulso de Willow falhou — não por medo, mas porque era impossível não notar o homem.
Alto. Ombros largos. Cabelo escuro. Tatuagens. Moto preta. Colete preto. Uma confiança que não precisava ser anunciada. Ele removeu o capacete e olhos azuis encontraram os dela. Por um segundo ridículo, Willow esqueceu como as conversas funcionavam.
O olhar dele permaneceu ali — avaliando, curioso, indecifrável — antes que ele voltasse a olhar para as montanhas, como se mulheres bonitas em mirantes fossem uma ocorrência diária. O que, de alguma forma, a irritou. E muito.
Willow limpou a garganta. O motoqueiro permaneceu em silêncio. O constrangimento se arrastou. Finalmente, ela cruzou os braços.
“As pessoas costumam encarar tanto assim em Montana?”
Uma sobrancelha escura se ergueu. O canto da boca dele se contraiu — levemente. “Depende.” A voz dele era grave, áspera, perigosamente atraente.
“Depende do quê?”
“Do que vale a pena olhar.”
A resposta a pegou completamente desprevenida. Flerte? Insulto? Ambos? Ele pareceu notar a confusão dela, porque aquele quase sorriso apareceu novamente. Quase. Não exatamente.
Willow estreitou os olhos. “Você é muito estranho.”
“Já me disseram isso.”
A conversa simplesmente... terminou. Ele parecia perfeitamente satisfeito com o silêncio, deixando Willow se sentindo estranhamente sem chão. Quem era aquele homem? E por que ele conseguia ser irritante e atraente ao mesmo tempo? Uma combinação perigosa.
O som de motocicletas se aproximando quebrou a tensão conforme o resto do grupo chegava.
Vários motoqueiros estacionaram por perto, rindo e conversando enquanto removiam seus capacetes. Um deles imediatamente avistou o homem silencioso.
“Sin!”
A atenção de Willow se aguçou. Sin. Como em Steel & Sin? Interessante.
O motoqueiro ao lado dela suspirou, claramente esperando evitar interação. Sem sucesso. Um piloto mais jovem se aproximou com um sorriso — então notou Willow, e o sorriso se alargou.
“Ora, agora isso é interessante.”
O motoqueiro tatuado lhe lançou um olhar. O homem mais jovem o ignorou.
“Quem é a sua amiga?”
“Não somos amigos”, respondeu Willow antes que o motoqueiro pudesse.
O piloto mais jovem riu. O motoqueiro ao lado dela pareceu irritado, o que ela achou surpreendentemente satisfatório.
O homem mais jovem estendeu a mão. “Mason. Mas a maioria me chama de Devil.”
Willow a apertou. “Willow Hart.”
“Prazer em conhecê-la.” O sorriso dele se alargou ainda mais. “Você acabou de se mudar para cá.”
Ela piscou. “Como você sabe disso?”
“Cidade pequena. Nós sabemos de tudo.” Aterrorizante.
Outro motoqueiro chamou Mason. Ele revirou os olhos. “Aparentemente, minha popularidade é necessária em outro lugar.” Ele se inclinou para mais perto. “Boa sorte.”
Willow franziu a testa. “Com o quê?”
Mason apontou para o motoqueiro silencioso. “Com ele.”
Então ele se afastou, deixando Willow olhando para ele.
Ela se virou de volta para o motoqueiro tatuado, que parecia profundamente indiferente. O motoqueiro não tinha dito uma palavra desde que Mason se afastou. A maioria das pessoas corria para preencher o silêncio. Ele parecia perfeitamente confortável vivendo dentro dele.
Estranhamente... ela também estava.
“Seus amigos são estranhos.”
O motoqueiro assentiu. “Eles são.”
Pela primeira vez, um sorriso genuíno cruzou seu rosto. Breve. Inesperado. Devastador. Então ele colocou o capacete de volta, e o momento desapareceu.
Antes de subir em sua moto, ele olhou para ela uma última vez.
“Tome cuidado.”
“O quê?”
Mas o motor rugiu. Os olhos dele encontraram os dela novamente — frios, sérios, nada parecidos com o homem que quase sorriu para ela.
“Blackridge não é tão tranquila quanto parece.”
Ela observou as motos desaparecerem na curva até que a última lanterna traseira sumiu entre os pinheiros. O aviso permaneceu muito tempo depois que o som dos motores diminuiu.
Blackridge não é tão tranquila quanto parece.
Ela disse a si mesma que ele provavelmente estava falando sobre a vida selvagem. Ou turistas. Ou o clima da montanha.
No fundo... ela não estava totalmente convencida.
POV: JAXON
O mirante desapareceu atrás dele enquanto as motos desciam a estrada da montanha. Mason emparelhou a moto.
“Então...”
Jaxon manteve a atenção na estrada sinuosa. “Então o quê?”
“A loira.”
“Havia uma turista no mirante.”
Mason riu. “Uma turista que você avisou.”
“Eu aviso todo mundo.”
“Mentira.”
Jaxon o ignorou, principalmente porque discutir com Mason exigia mais energia do que ele estava disposto a gastar. O vice-presidente não tinha terminado.
“Você sorriu.”
“Eu não sorri.”
“Você quase sorriu.”
A voz de Road estalou pelo rádio. “Eu também vi.”
Maravilhoso.
Aparentemente, ele estava cercado por traidores.
A sede apareceu entre os pinheiros. Jaxon estacionou em frente à Steel & Sin Customs e removeu o capacete. Por alguma razão... ele olhou de volta para a montanha. Para o mirante. Para a mulher com olhos verdes brilhantes que claramente carregava mais peso nos ombros do que queria que qualquer pessoa visse.
Não era porque ela era bonita, embora ela inegavelmente fosse. E não era porque ela o tinha desafiado, embora poucas pessoas o fizessem. Era outra coisa. Algo para o qual ele não conseguia encontrar um nome.
Anos de instinto o mantiveram vivo. Esse mesmo instinto agora sussurrava o mesmo aviso de sempre antes que problemas chegassem.
Preste atenção.
Jaxon não gostava daquela sensação. Nem um pouco.








