A Proposta do Diabo
Alira
A cidade não tinha mudado. Pelo menos não de verdade. O horizonte continuava cortando o céu como lâminas de prata, e as ruas ainda pulsavam com buzinas, ambição e indiferença. Mas Alira Quinns tinha mudado. Ela já não era a garota que costumava rir nas esquinas com sua melhor amiga. Aquela versão dela morreu há seis anos, enterrada junto com Lena Blackvale em um caixão pequeno demais para alguém tão cheia de vida.
Ela saiu do táxi, com os olhos subindo para a estrutura imponente da Blackvale Industries. O prédio era feito de vidro, aço e ângulos afiados, exatamente como o homem que o comandava. Sua respiração embaçou o ar condicionado do saguão enquanto ela entrava, e o som dos seus sapatos baixos e gastos parecia alto demais contra o mármore. Suas palmas estavam suadas. Ela alisou o vestido — azul-marinho, modesto, levemente desbotado. Era tudo o que ela tinha que parecia remotamente profissional. “Posso ajudar?”, perguntou a recepcionista, observando-a como se ela fosse um arquivo fora do lugar. “Eu... eu tenho uma reunião. Com o Sr. Draven Blackvale.” A sobrancelha perfeitamente arqueada da mulher deu um pulo. Ela digitou algo, lançando um olhar rápido para Alira. “Nome?” “Alira. Alira Quinn.” Um segundo de silêncio. O reconhecimento brilhou no olhar da recepcionista, seguido rapidamente por algo mais frio; julgamento, talvez. Alira estava acostumada com isso. Aquele sobrenome carregava um peso enorme nesta cidade, e nada disso era bom. “Pode subir”, disse a mulher, com a voz curta. “Último andar. Ele está esperando por você.”
A viagem de elevador pareceu interminável. Ela conseguia ver seu reflexo nas portas de prata: rosto pálido, olhos arregalados, cachos castanhos macios que armavam na umidade do verão. Havia sombras tênues sob seus olhos. Seis anos de sobrevivência esculpidos silenciosamente em suas feições. Ela não era mais frágil. Apenas... exausta. Mas nada poderia tê-la preparado para a porta pela qual ela estava prestes a passar.
O escritório de Draven era uma catedral de poder: paredes de vidro com vista para a cidade, painéis de madeira preta e móveis minimalistas tão caros que fizeram sua garganta apertar. E ele. Ele estava parado perto da janela, alto e absolutamente imóvel. O terno cinza-chumbo sob medida se prendia aos seus ombros largos como se tivesse sido costurado nele. Seu cabelo preto estava cortado mais curto do que ela se lembrava, penteado para trás com perfeição, revelando maçãs do rosto marcadas e um maxilar que parecia esculpido no gelo. Ele não se virou. Por um momento, Alira pensou em ir embora. Simplesmente sair dali. Mas então o rosto de sua mãe passou por sua mente — frágil, definhando, o peito subindo e descendo entre as tosses — e Alira lembrou por que estava ali.
Ela respirou fundo. “Obrigada por concordar em me receber.” Ainda assim, ele não se moveu. O silêncio os envolveu como uma corda de forca. Quando ele finalmente falou, sua voz era tão fria quanto o chão sob seus pés.
“Você não deveria ter voltado.”
Não era raiva na voz dele. Era algo pior.
Desinteresse.
“Eu não tive escolha”, ela disse, baixinho. “Minha mãe está...” “Doente.”
“Sim, eu sei.” Alira piscou.
“Você sabe?”
“Eu sei tudo sobre você, Alira”, ele disse, finalmente se virando.
Os olhos dele pousaram nela como a mira de um atirador. Cinzas, aço frio, sem expressão. O tipo de olhar de quem viu a perda e a transformou em armadura. E aqueles olhos a encaravam como se ela fosse sujeira em seu sapato.
“Você fugiu desta cidade como uma covarde”, ele continuou.
“Desapareceu. Não encarou o que seu irmão fez. Nem apareceu para o inquérito da Lena.” A garganta de Alira apertou.
“Eu tinha dezessete anos.”
“Você tinha idade suficiente para escolher o silêncio”, ele disparou.
“Você deixou minha irmã morrer e foi embora.”
“Isso não é justo”, ela sussurrou, com a voz embargada.
Draven deu um passo à frente, lento e deliberado.
“Justo? Você acha que eu me importo com justiça? Minha irmãzinha morreu com o veneno do seu irmão nas veias, e você quer falar de justiça?”
Alira engoliu em seco.
“Eu não vim aqui para justificar nada. Eu vim porque preciso da sua ajuda.”
Um sorriso cruel surgiu no canto de sua boca.
“Sim. Você precisa.”
Ele caminhou até trás de sua mesa, sentando-se como um rei em seu trono. “Você precisa de dinheiro. Muito. Para o tratamento da sua mãe.”
Ela não respondeu. A verdade já estava posta sobre a mesa.
“Eu vou te dar”, ele disse, entrelaçando os dedos.
“Mas vai te custar caro.”
O estômago de Alira revirou. Ela assentiu, quase imperceptivelmente.
“O que... você quer?”
Ele se levantou novamente, circulando a mesa lentamente como um predador. Quando chegou perto dela, parou a poucos centímetros.
“Você”,
ele disse simplesmente.
Ela paralisou.
“Eu?”
“Eu quero um casamento.”
A palavra a atingiu como um golpe.
“O quê?”
“Você será minha esposa. Publicamente, é claro. Legalmente. Você vai morar na minha casa. Usar minha aliança. E, em troca, pagarei pelos cuidados da sua mãe. Cada conta do hospital. Cada especialista. Cobertura total.”
Ela o encarou. “Por que... por que você iria querer isso?”
“Porque eu quero você sob meu controle, Alira. Onde eu possa te ver sofrer.”
O rosto dela perdeu a cor. Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
“Você foi embora”, ele disse, com a voz mais baixa agora, mais venenosa.
“Você nem a enterrou. Não venha se fazer de vítima agora.”
Seus olhos arderam. “Eu também a amava. Eu era a melhor amiga dela.”
“E eu era o irmão dela. Aquele que teve que escolher o caixão.” O silêncio tomou conta do ambiente.
Ele a observava atentamente.
“Um ano. Esse é o contrato. Você faz o seu papel. Fica de boca fechada. E quando o tempo acabar, você recupera sua liberdade.”
Alira deu um passo atrás, com a respiração trêmula.
“Isso é cruel.”
“Eu sei”, disse Draven, suavemente.
“Esse é o objetivo.”
Ela se virou para a porta, mas a voz dele a deteve.
“Você pode sair. Mas sua mãe morre.” A mão dela tremia na maçaneta. Sua garganta ardia com lágrimas que ela não deixaria cair. Draven acrescentou: “Você me deve, Alira. Você deve à Lena.”
E, assim, ela soube que estava presa. Ela assentiu uma vez, quieta, destruída.
“Eu faço.”
Ele deu um passo à frente, com uma expressão indecifrável. “Então estamos noivos.”
Draven
A cidade lá embaixo brilhava com luzes falsas. As pessoas se moviam como formigas, ocupadas, cegas, famintas. Exatamente como seis anos atrás, no dia em que ele perdeu a única pessoa que fazia a vida parecer menos uma prisão. Lena. O riso dela ainda ecoava na cabeça dele às vezes, agudo e lindo. Alto na sua cobertura, mais alto ainda nos seus pesadelos. E então, num piscar de olhos, tudo sumia. Levada na mesma noite em que tomou os comprimidos. Aqueles dados a ela por aquele bastardo. O irmão de Alira Quinn.
Ele não dizia o nome dela há anos, não em voz alta. Mas lembrava da garota: quieta, sempre grudada no lado de Lena como uma sombra, como um segredo. Olhos castanhos arregalados, cachos macios e uma boca cheia de desculpas por coisas que ninguém pediu para ela explicar. Ele não esperava que ela voltasse. E certamente não para ele. A recepcionista tinha ligado minutos antes: “Alira Quinn está aqui para a reunião”. E Draven riu, um som oco e sem humor. Ela tinha muita audácia de entrar no prédio dele com aquele sobrenome. Mas, por outro lado, o desespero sempre coloca as pessoas de joelhos. Bom. Ele não se virou quando ela entrou. Não precisava. Ele podia ouvir a hesitação nos passos dela, sentir o desconforto irradiar pelo ar como calor. Ainda suave. Ainda insegura. Exatamente como ele se lembrava.
“Obrigada por concordar em me receber”, ela disse, com a voz baixa, como um hematoma sendo tocado. Draven encarava o horizonte, com as mãos nos bolsos. “Você não deveria ter voltado.” Não era uma ameaça. Era um fato. Porque agora que ela tinha voltado, ela não sairia dali a mesma. Quando ela tentou falar de novo, ele a cortou. Frio, eficiente. “Você precisa de dinheiro. Para sua mãe.” Ele tinha a ficha dela. A mãe estava morrendo. Estágio quatro. Sem plano de saúde. Sem bens. Sem chance. E lá vinha a boa filha, o fantasma carregado de vergonha, rastejando de volta para a toca do leão sem nada além de esperança.
Esperança não servia para nada. “Eu vou te dar”, ele disse, virando-se lentamente, finalmente ficando de frente para ela. Os anos não tinham sido gentis com ela. Ou talvez tivessem sido; ela estava mais magra, mais pálida, mas algo nela também estava mais forte. Uma tristeza mais profunda atrás dos olhos. Uma coluna vertebral forjada na culpa. Mas isso não importava. Não mais. “Tem um preço”, ele disse, dando um passo em sua direção. Os lábios dela se abriram. “O que... você quer?” Você. A palavra veio fácil, mas significava algo que ela não entendia. “Eu quero seu tempo, seu corpo, seu silêncio”, ele disse, lento e cortante. “Você será minha esposa. No nome, na imprensa, nos papéis.” Ela recuou levemente, mas, para seu mérito, não desabou. Ainda não. “Eu não entendo. Por que você iria querer...” Ele a deixou terminar a frase. Deixou-a imaginar. Deixou o silêncio se enrolar nela como fumaça. “Porque eu quero você presa”, ele disse. “Porque eu quero que você sinta o que eu senti na noite em que me chamaram para identificar o corpo da minha irmã.” Ela estremeceu.
Bom. Draven caminhou ao redor da mesa, cada passo calculado. Ela olhou para ele com aqueles olhos suaves e feridos, e por um momento, apenas uma fração de segundo, ele se lembrou dela do jeito que Lena a defendia. “Ela não é fraca”, Lena dizia. “Ela só carrega mais do que deveria.” Agora ela também carregaria ele. “Você foi embora”, ele disse, com a voz baixa, mas a raiva por baixo queimando. “Você nem a enterrou.” “Eu tinha dezessete anos”, ela sussurrou. Ele trincou o maxilar. “Você tinha idade suficiente para falar. Mas não disse nada. Nem uma única palavra maldita.” O rosto dela se contorceu com algo como vergonha, ou dor. Ele não se importava. Ou, pelo menos, dizia a si mesmo que não. “Um ano”, ele continuou. “Você vai morar na minha casa, interpretar a esposa dedicada na frente das câmeras, sorrir quando eu disser para sorrir. E quando acabar, você pode ir embora com sua mãe, viva.” Ela não disse nada. Apenas encarou o chão como se estivesse se afogando nele. “Eu poderia ter deixado você apodrecer lá fora”, ele acrescentou, só para garantir que ela entendesse. “Mas prefiro manter você por perto. Onde eu possa te lembrar todos os dias do que o seu silêncio me custou.” A voz dela falhou. “Isso é cruel.” Ele se aproximou o suficiente para sentir o perfume suave dela, lavanda e algo mais doce por baixo. “Eu sei”, ele murmurou. “Esse é o objetivo.” Ela parecia que ia chorar, mas se manteve firme. Isso o surpreendeu mais do que deveria. Ela se virou para sair. E foi aí que ele disse. A corrente final. “Você pode sair. Mas sua mãe morre.”









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jeez,some people can be so rude. Constructive criticism my foot
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