Capítulo 1: A Mulher que Era Dona da Cidade
A cidade nunca dormia quando Victoria Blackwell estava acordada.
E Victoria Blackwell estava quase sempre acordada.
5h47 da manhã. A cobertura no quinquagésimo quarto andar da Blackwell Tower brilhava intensamente, enquanto o resto de Manhattan mergulhava na escuridão antes do amanhecer. Da rua — e as pessoas sempre estavam em algum lugar abaixo de Victoria — as janelas do chão ao teto deviam parecer uma lanterna no céu. Algo belo. Algo intocável.
Ambos estavam certos.
Ela estava parada diante dessas janelas agora. Descalça sobre o mármore frio. Um copo d'água em uma mão, um relatório trimestral de ganhos na outra. Ela não tinha dormido. Isso não era incomum. O sono, na experiência de Victoria, era uma interrupção — uma pequena rendição que seu corpo exigia e sua mente ressentia. Ela treinou a si mesma para dormir apenas quatro horas. Esta noite não lhe concedeu nem isso.
A cidade se espalhava abaixo dela como algo que ela mesma tivesse organizado. O rio Hudson brilhava fracamente ao oeste. Táxis. Caminhões de entrega. As primeiras artérias do dia começando a pulsar. Lá de cima, cada prédio parecia pequeno.
Cada pessoa — invisível.
Ela preferia desse jeito.
Victoria colocou o relatório de ganhos de lado e pressionou uma palma da mão contra o vidro. O frio a atingiu imediatamente. Agudo. Esclarecedor. Ela manteve a mão lá, com os olhos fechados. Trinta e quatro anos de idade. Um patrimônio líquido que os jornalistas financeiros pararam de tentar calcular com precisão. Um nome que aparecia na capa da Forbes, Time e Wired com uma frequência que há muito tempo deixara de parecer uma conquista e começara a parecer uma sentença.
Ela abriu os olhos.
Lá embaixo, um táxi parou no sinal vermelho. Ela observou o veículo, mesmo que fosse impossível enxergar através do teto dele lá do quinquagésimo quarto andar. Ela observou assim mesmo. Era um hábito seu — fixar o olhar em coisas pequenas e comuns quando seus pensamentos começavam a se curvar para dentro como fumaça. Quando a cobertura começava a parecer menos um lar e mais como o que realmente era.
Uma caixa muito cara e muito vazia.
Ela se afastou da janela.
O ritual da manhã começava às seis. Sua assistente executiva, Margot, certa vez descreveu isso a uma nova funcionária como "religioso". A palavra chegou aos ouvidos de Victoria, como quase tudo chegava. Ela não corrigiu.
Primeiro: quarenta minutos na academia particular no andar de baixo. O único som era o da esteira e da cidade acordando lá fora. Victoria corria com a inclinação no ajuste máximo e sua expressão vazia refletida no espelho. Sem música. Sem televisão. Outras pessoas precisavam de distração quando forçavam seus corpos. Victoria precisava do oposto. Ela precisava sentir — cada centímetro ardendo, cada respiração que custava algo. Na maioria das manhãs, era o mais perto que ela chegava de se sentir real.
Depois da academia: um banho que ficava frio nos últimos noventa segundos, porque o conforto era temporário e seu corpo precisava saber disso. Depois do banho: o guarda-roupa.
Era ali que Victoria Blackwell se tornava Victoria Blackwell.
O guarda-roupa ocupava um cômodo inteiro. Prateleiras do chão ao teto em madeira de bétula clara, cada item organizado por cor, ocasião e estilista. Sua governanta, a Sra. Okafor, cuidava de tudo com uma dedicação quase temerosa. Victoria circulava pelo espaço da mesma forma que circulava pelas salas de reunião — de maneira decisiva, sem hesitação, já sabendo o que queria antes mesmo de estender a mão.
Hoje: azul-marinho. Valentino. Com um corte tão preciso que parecia menos moda e mais um aviso. Uma blusa de seda creme por baixo. Saltos que acrescentavam quase oito centímetros a uma altura que já impunha respeito em qualquer ambiente. Cabelo preso em um coque baixo e impecável — nem um único fio fora do lugar.
Ela ficou diante do espelho de corpo inteiro quando terminou.
A mulher que a encarava era extraordinária. Estrutura óssea que os fotógrafos haviam descrito, de várias formas, como severa, real, quase arquitetônica. Olhos escuros que captavam a luz como obsidiana polida e não devolviam nada. Uma boca marcada por sua expressão padrão — nem um pouco carrancuda, nem neutra. Precisa. Selada.
Victoria sustentou o próprio olhar por três segundos. Tempo suficiente para confirmar que a armadura estava no lugar.
Então, ela foi trabalhar.
O carro a esperava às 7h15. James, seu motorista, estava com ela há seis anos e aprendera a linguagem de seus silêncios. Quais significavam "não fale". Quais significavam "estou pensando e você pode existir na minha periferia". E quais — o tipo mais raro — significavam algo que ela jamais diria em voz alta. Ele segurou a porta da Mercedes preta sem olhar para o rosto dela, da mesma forma que se evitaria olhar para algo ofuscante.
"Bom dia, Sra. Blackwell." Todos os dias, sem falha. Ela dava um único aceno de cabeça. Essa era a totalidade da troca humana entre eles. Servia bem a ambos.
Quatro minutos da entrada residencial até o saguão da empresa. Nesses quatro minutos, Victoria leu três e-mails, aprovou dois contratos e rejeitou — sem nem ler além da linha de assunto — um convite para jantar de um senador cujo nome ela associava exclusivamente ao desperdício.
O saguão da Blackwell Innovations subia quase vinte metros de pisos polidos até um teto de vidro angular. O nome da empresa estava gravado atrás da recepção em letras de quase um metro de altura, com iluminação de fundo em um branco frio. Os funcionários circulavam pelo espaço da forma de pessoas que tentam parecer ocupadas. Cabeças levemente baixas. Crachás presos. Cafés nas mãos.
Tudo parava, quase imperceptivelmente, quando Victoria entrava.
Não de forma dramática. Nada tão óbvio. Mais como uma mudança de pressão — a maneira como uma sala muda quando alguém abre uma janela. As conversas baixavam de tom. Os corpos se rearranjavam com um pouco mais de cuidado. Os olhos se voltavam para ela e, rapidamente, desviavam.
Ela não reconheceu nada disso.
As portas do elevador abriram antes que o botão terminasse de acender. Seu elevador pessoal tinha sido calibrado para ficar à disposição entre sete e nove. Ela entrou. As portas se fecharam. Ela subiu.
O quadragésimo segundo andar era dela em todos os sentidos que importavam. Seu escritório ocupava o canto nordeste, com janelas em duas paredes voltadas para Midtown. Os móveis eram minimalistas e agressivamente deliberados: uma mesa de nogueira preta do tamanho de um país pequeno, duas cadeiras de couro cinza para convidados e um aparador contra a parede do fundo. Nele, precisamente centralizada, havia uma única orquídea em um vaso branco.
Sempre branca. Sempre uma Phalaenopsis. Substituída no momento em que mostrava o primeiro sinal de declínio.
A Sra. Okafor perguntou-lhe uma vez por que ela a mantinha.
"Porque está viva", Victoria dissera. Então ela voltou a olhar para seus e-mails. A Sra. Okafor entendeu que a conversa tinha acabado.
Margot estava esperando às 7h22, com o tablet na mão. Em pé, com a postura de alguém que estava ali há algum tempo e nem sonharia em sugerir, sentando-se, que a chegada de sua empregadora era esperada.
Margot Chen tinha vinte e oito anos, era implacavelmente competente e quase impossível de abalar. Três anos como assistente executiva de Victoria. Nesse tempo, ela negociou com secretários de chefes de estado estrangeiros, gerenciou uma apresentação para o conselho durante o que Victoria considerava, em particular, um pânico de Categoria 3, e uma vez — calmamente, sem qualquer mudança de expressão — informou a um CEO da Fortune 500 que a Sra. Blackwell não atenderia sua ligação agora nem num futuro próximo. Ela era, na estimativa silenciosa de Victoria, a pessoa mais útil que ela já contratara.
"Bom dia", Victoria disse, passando por ela.
Margot começou a acompanhá-la com a eficiência suave de quem aprendeu a nunca andar à frente nem ficar para trás. "Chamada com o Meridian Group às oito. Apresentação da Hendricks às dez e meia — eles confirmaram as revisões nos slides. O almoço está bloqueado para o pré-briefing de Pequim. O escritório de arquitetura quer um retorno antes das quatro sobre o redesenho do campus em Singapura."
"Passe a ligação da arquitetura para amanhã." Victoria colocou sua bolsa no aparador sem diminuir o passo. "E diga à Hendricks que eles têm vinte minutos, não trinta. Se não tiverem apresentado seus argumentos até lá, os dez minutos extras não os salvarão."
"Anotado." Uma pausa — a duração exata que significava que Margot estava prestes a dizer algo que ela já tinha avaliado quanto a possíveis reações antes de decidir dizer mesmo assim. "O perfil de Weller foi publicado no balcão de negócios da Bloomberg esta manhã."
Victoria parou. Ela estava de costas para Margot. Ela olhou para a orquídea no aparador.
"E?"
"Eles citaram uma fonte dizendo que a aquisição da Nexus foi, e estou lendo literalmente, 'um exagero calculado que pode sinalizar o início de uma correção no domínio de Blackwell no setor de médio porte'."
Silêncio. Daquele tipo que tem peso.
"Descubra quem é a fonte", disse Victoria, com a voz na mesma temperatura da manhã lá fora. "E envie flores para o editor da Bloomberg. Rosas brancas. Das caras."
Margot piscou uma vez. "O cartão deve dizer algo?"
"Não."
As flores não eram um pedido de paz. Eram um lembrete. Victoria não precisava explicar isso. Margot era inteligente o suficiente para entender.
"Mais alguma coisa antes das oito?"
"Sua mãe ligou." A voz de Margot permaneceu neutra, como sempre fazia ao entregar esse tipo de informação. "Ela estará em Nova York no próximo fim de semana e esperava que você pudesse jantar."
Victoria sentou-se atrás da mesa. Abriu seu laptop. Não levantou os olhos.
"Responda que minha agenda não permitirá."
"Com certeza."
Margot saiu com a eficiência silenciosa de quem aprendeu que portas, quando Victoria estava trabalhando, devem ser fechadas até o fim.
Ao meio-dia, Victoria tinha feito duas ligações, encerrado uma negociação de contrato que ela decidira que não levaria a lugar algum e enviado um e-mail para seu chefe de engenharia que tinha dezessete palavras e teria feito o destinatário dar uma caminhada de dez minutos pelo quarteirão antes de responder. Ela almoçou em sua mesa — uma salada, o mesmo pedido, o mesmo restaurante, todos os dias úteis, porque ela decidira anos atrás que escolher comida não valia o esforço mental — e trabalhou nos materiais do pré-briefing de Pequim.
A tarde passou da forma como suas tardes sempre passavam. Uma procissão de decisões. Números se organizando em sua mente com uma clareza que os outros achavam desconcertante. Padrões surgindo nos dados antes mesmo que seus analistas tivessem terminado de processá-los. Em uma negociação, ela conseguia ler a estrutura de um acordo, encontrar suas fraquezas e reestruturá-lo a seu favor antes que o outro lado tivesse terminado suas observações iniciais.
Ela era assim desde a infância. Sozinha em salas grandes. Aprendendo a ler os ângulos.
Às 18h30, ela ficou novamente nas janelas. A cidade lá embaixo mudando do dourado do fim de tarde para o roxo arroxeado do início da noite. Luzes se acendendo uma por uma, depois em grupos. Ela as observava. Um copo d'água na mão, o mesmo que estava às 5h47 daquela manhã. Nas últimas treze horas, ela tomou três cafés, uma salada e cerca de quarenta e cinco minutos de conversa — a maior parte dos quais eram faturáveis.
Ela pensou, sem querer, sobre o convite para jantar do senador. Outros nomes estavam lá também. Nomes que ela reconhecia da arquitetura social dos escalões superiores de Nova York. Pessoas que ela conheceu em galas, jantares de caridade, o tipo específico de festa de coquetel onde toda conversa era sobre dinheiro fantasiado de arte. Pessoas que acreditavam, porque ela sorria e fazia as perguntas certas e vestia as roupas certas, que a conheciam.
Ninguém a conhecia.
Ela não tinha certeza, parada ali na luz moribunda de um dia que fora, por qualquer padrão mensurável, um sucesso, se aquilo era uma escolha que ela fizera ou algo que simplesmente se acumulara — ano após ano escolhendo o trabalho em vez do calor humano. Confiando em uma planilha em vez de em uma pessoa. Até que ela acordou uma manhã em uma cobertura de doze milhões de dólares e percebeu que não poderia, se pressionada, nomear uma única pessoa no mundo que notaria genuinamente se ela não voltasse para casa naquela noite.
A orquídea captou a última luz da noite.
"Porque está viva", ela dissera à Sra. Okafor.
O que ela não disse — o que ela jamais diria — era o resto. A parte que ficava em seu peito em noites como esta, como uma pedra que ela há muito tempo desistira de tentar remover.
Porque ela está viva, e não precisa de nada de mim. E eu a mantenho viva de qualquer maneira. E essa é a coisa mais próxima que tenho de ser conhecida por algo.
Ela terminou sua água. Pegou sua bolsa e seu telefone. Caminhou até o elevador e desceu.
No saguão, cada funcionário que passava sorria, acenava, murmurava um boa noite. Ela retribuía cada um com a fração apropriada de reconhecimento.
Então ela entrou no carro que a esperava. A cidade se fechou ao seu redor, brilhante, enorme e completamente indiferente. Ela a observou da mesma forma que observava tudo: com controle perfeito e praticado, e algo atrás de seus olhos a que ela deixara de dar nome há muito, muito tempo.
A porta se fechou. O carro partiu. A cidade ficou para trás.
Victoria Blackwell voltou para casa, para sua cobertura vazia, e as luzes queimaram cinquenta e quatro andares acima da rua e, à distância, aquilo parecia uma lanterna.
E lanternas, apesar de todo o seu brilho, mantêm sua chama sozinhas.









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