Capítulo 1 A Sensação
Capítulo 1
Eu tenho uma sensação estranha de que vou morrer em breve.
Não hoje.
Não amanhã.
Não na semana que vem.
Apenas... em breve.
É um pensamento ridículo. Ele aparece todas as manhãs, sem falta, e se recusa a ir embora, não importa o quanto eu tente ignorá-lo. Os médicos dizem que estou saudável. Meu coração está bem. Minha pressão arterial está ótima. Não há nada de errado comigo.
Pelo menos nada que eles consigam medir.
Ainda assim, todas as manhãs eu acordo com a mesma sensação no fundo da minha mente. Como se eu tivesse esquecido algo importante. Como se houvesse um destino sobre o qual todos sabem, menos eu.
Fiquei encarando o teto acima da minha cama.
O mesmo teto.
A mesma rachadura percorrendo a pintura.
A mesma mancha no canto.
O mesmo quarto.
A mesma vida.
O relógio na minha mesa de cabeceira marcava 6:17 da manhã.
Eu não tinha dormido muito.
De novo.
Dormir tornou-se algo estranho nos últimos anos. Eu conseguia fechar os olhos. Eu conseguia sonhar. Mas, de alguma forma, eu nunca me sentia descansado ao acordar. Era como se meu corpo dormisse enquanto minha mente vagava sem fim por memórias antigas e pensamentos inacabados.
Com um suspiro, sentei-me.
O apartamento me recebeu com silêncio.
Não um silêncio de paz.
Não um silêncio reconfortante.
É aquele tipo de silêncio que te faz notar cada pequeno ruído.
O zumbido da geladeira.
Os canos nas paredes.
O tique-taque fraco do relógio.
O silêncio que te lembra que não há mais ninguém ali.
Esfreguei o rosto e levantei.
O chão estava frio sob meus pés.
Do lado de fora da janela do meu quarto, a cidade já estava despertando. Carros passavam pelas ruas lá embaixo. Pessoas corriam para empregos que provavelmente odiavam. Em algum lugar à distância, um cachorro latiu.
A vida estava acontecendo.
Sempre parecia acontecer em outro lugar.
Vaguei até a cozinha.
Um prato.
Uma caneca.
Uma cadeira na mesa.
Tudo no apartamento parecia temporário, apesar de eu morar aqui há quase cinco anos.
Nada parecia ser meu.
Parecia mais que eu estava vivendo uma vida emprestada.
Enchi a chaleira e esperei.
A água começou a ferver.
O vapor subiu.
Observei sem realmente ver.
Meus pensamentos já tinham vagado para outro lugar.
Eles sempre faziam isso.
Era fácil pensar no passado.
O passado tinha forma.
Eu conseguia me lembrar de ter doze anos e andar de bicicleta por uma colina perto da casa da minha infância. Conseguia lembrar da minha mãe rindo de algo que meu pai disse enquanto cozinhavam juntos. Conseguia lembrar dos aniversários. Manhãs de Natal. Tardes de verão que pareciam intermináveis.
As memórias eram claras.
Brilhantes.
Vivas.
O futuro não era.
Isso era o que me assustava.
Houve um tempo em que eu conseguia imaginar tudo.
Uma esposa.
Filhos.
Uma casa.
Um cachorro dormindo na varanda.
Discussões sobre qual cor pintar a cozinha.
Férias em família.
Sapatinhos deixados perto da porta da frente.
Coisas normais.
Coisas simples.
O tipo de futuro que todo mundo imagina quando é jovem.
Agora, quando tentava imaginar meu futuro...
Não havia nada.
Apenas névoa.
Uma página em branco.
Uma estrada vazia que se estendia sem fim em direção ao horizonte.
Franzi a testa.
Quando isso aconteceu?
Quando foi que parei de enxergar o amanhã?
Eu não conseguia me lembrar.
Talvez seja assim que essas coisas aconteçam.
Não tudo de uma vez.
Pequenos pedaços desaparecendo um por um, até que um dia você percebe que algo importante se foi.
A chaleira apitou.
Servi café para mim.
Preto.
Amargo.
Do jeito que eu sempre bebi.
Dei um gole.
Fiz uma careta.
Ainda terrível.
Mesmo assim, de alguma forma, eu continuava bebendo todas as manhãs.
Esse pensamento quase me fez rir.
Quase.
Em vez disso, encarei a janela.
Uma menininha caminhava pela calçada segurando a mão do pai.
Ela não devia ter mais do que cinco anos.
Ela falava animadamente sobre algo.
O pai balançava a cabeça pacientemente.
A menina apontou para algo que só ela conseguia ver.
O homem sorriu.
O sinal fechou.
Eles atravessaram a rua.
E, assim como vieram, desapareceram da minha vista.
Algo se contorceu dentro do meu peito.
Uma dor estranha.
Não era ciúme.
Não exatamente.
Era mais como nostalgia de algo que eu nunca tive.
Desviei o olhar.
O café, de repente, parecia mais frio.
O que há de errado comigo?
A pergunta aparecia com frequência ultimamente.
O que exatamente estava faltando?
Por que tudo parecia tão distante?
Por que cada dia parecia uma cópia do anterior?
Mais importante ainda...
Por que parecia que minha vida, de alguma forma, já tinha acontecido?
Eu só tinha vinte e oito anos.
Vinte e oito anos não é ser velho.
Mas algumas manhãs eu sentia como se estivesse no fim de algo, em vez de no começo.
Fiquei encarando meu café.
O reflexo escuro que me encarava de volta parecia cansado.
Talvez todo mundo se sentisse assim.
Talvez ninguém falasse sobre isso.
Talvez envelhecer fosse apenas perceber que a vida não era o que você pensou que seria.
Ou talvez...
Talvez eu tenha me acostumado tanto a sobreviver que esqueci como viver.
O pensamento permaneceu.
Pesado.
Desconfortável.
E por razões que eu não sabia explicar...
Ele ficou comigo muito tempo depois que saí para o trabalho.
A cidade já estava desperta quando Noah saiu de seu prédio.
A luz do sol da manhã refletia nas fileiras de janelas bem acima da rua, transformando torres de vidro em pilares de ouro. Carros passavam constantemente pelos cruzamentos enquanto as pessoas corriam pelas calçadas carregando xícaras de café, mochilas, pastas e sacolas de compras. Todos pareciam estar indo em direção a algo. Um destino. Um propósito. Alguém esperando por eles no fim do dia.
Noah enfiou as mãos nos bolsos do casaco e juntou-se ao fluxo de pedestres.
Ele se perguntou como era aquela sensação.
Não a caminhada.
Não o trabalho.
O pertencimento.
Houve uma época em que ele supôs que isso aconteceria naturalmente. Quando ele era mais jovem, o futuro parecia menos um mistério e mais uma promessa. Um dia haveria alguém. Um dia haveria uma família. Um dia haveria um lugar que parecesse um lar. Ele nunca questionou isso, porque ninguém questionava quando era jovem. Você simplesmente assumia que o amanhã traria as coisas que você queria.
Então, o amanhã virou o ano seguinte.
O ano seguinte virou cinco anos.
Cinco anos viraram dez.
E, de alguma forma, a vida que ele imaginou nunca chegou.
O prédio do escritório ficava à sua frente, alto e esquecível no horizonte. Noah entrou pelas portas da frente e pegou o elevador para o sétimo andar. Ao seu redor, as pessoas olhavam para seus celulares ou trocavam conversas rápidas sobre o trânsito e o tempo. Noah ouvia sem prestar atenção. Ele provavelmente poderia passar um dia inteiro cercado por pessoas e ainda se sentir sozinho.
Sua mesa estava exatamente onde ele a tinha deixado na noite anterior.
Um monitor de computador.
Um teclado.
Uma pequena planta em um vaso que deveria ter morrido meses atrás, mas que teimosamente se recusava a morrer.
Noah muitas vezes sentia um respeito estranho por aquela planta.
Ela sobrevivia apesar de receber o mínimo necessário.
Em alguns dias, ele sentia que o mesmo poderia ser dito sobre si mesmo.
As horas passavam calmamente. E-mails viravam relatórios. Relatórios viravam reuniões. Reuniões viravam mais e-mails. O trabalho em si não era difícil. Era simplesmente interminável. Ao meio-dia, Noah se viu sentado sozinho em um banco de um parque próximo, com um sanduíche que ele mal sentiu o gosto.
Crianças brincavam ao redor de uma fonte enquanto os pais observavam de bancos à sombra ali perto. Uma garotinha de maria-chiquinha perseguia pombos pela calçada, rindo toda vez que eles escapavam dela. O pai a seguia alguns passos atrás, fingindo estar exausto com a perseguição. A performance fazia ela rir ainda mais.
Noah se viu observando-os por mais tempo do que pretendia.
A cena despertou algo dentro dele.
Não era inveja.
Não era ressentimento.
Era algo mais triste do que isso.
Um desejo por uma vida que nunca existiu.
Seu olhar desviou para baixo.
O sanduíche permanecia intocado em suas mãos.
Ultimamente, havia momentos em que Noah sentia como se estivesse do lado de fora da sua própria vida. Observando-a acontecer em vez de vivê-la. Os dias passavam com uma velocidade assustadora, e semanas inteiras pareciam desaparecer quando ele não estava prestando atenção. Às vezes ele acordava na segunda-feira e percebia, de repente, que já era sexta-feira. Às vezes, ele não conseguia lembrar o que tinha feito no dia anterior.
Isso o assustava mais do que ele gostava de admitir.
Não porque ele estivesse ficando mais velho.
Mas porque parecia que ele não estava criando memórias que valessem a pena guardar.
Quando ele era mais jovem, cada ano parecia enorme. Os verões pareciam intermináveis. Os feriados pareciam mágicos. Um único mês poderia conter memórias suficientes para durar uma vida inteira.
Agora, anos inteiros desapareciam na neblina.
A tarde acabou passando. Quando Noah saiu do trabalho, o sol começava sua lenta descida em direção ao horizonte. O céu estava pintado com tons de laranja e rosa, o tipo de pôr do sol que faz as pessoas pararem para fotografar. Noah notou apenas brevemente antes de continuar para casa.
Seu apartamento o recebeu com o mesmo silêncio de sempre.
O mesmo sofá.
A mesma cozinha vazia.
O mesmo zumbido fraco da geladeira.
Sem mensagens.
Sem chamadas perdidas.
Nenhuma razão para correr ao entrar.
Ele jogou as chaves no balcão e ficou lá por um momento, ouvindo.
O silêncio não era nada de novo.
Mas, hoje, parecia mais pesado.
Como se o próprio apartamento tivesse ficado cansado.
Como se as paredes estivessem exaustas de vê-lo entrar e sair sozinho.
Noah se sentou lentamente no sofá e encostou a cabeça. As sombras da noite se espalhavam pelo cômodo enquanto a cidade lá fora continuava seu movimento sem fim. Em algum lugar abaixo, as pessoas estavam encontrando amigos para jantar. Famílias estavam reunidas ao redor de mesas. Casais compartilhavam histórias sobre o seu dia.
A vida continuava ao seu redor.
E, pela primeira vez em muito tempo, Noah se perguntou se ele tinha, de alguma forma, ficado para trás.
O pensamento se instalou pesadamente em seu peito.
Ele fechou os olhos.
Uma exaustão estranha o dominou. Não era do tipo que o sono pudesse curar. Era algo mais profundo. Algo mais antigo. O tipo de cansaço que vem de carregar coisas invisíveis por tempo demais.
O que aconteceu comigo?
A pergunta passou silenciosamente por sua mente.
Nenhuma resposta veio.
Apenas o silêncio.
E, pela primeira vez, aquele silêncio parecia assustador.





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