Capítulo 1
## Capítulo Um: A Bússola de Sangue
### Lilitha
O ferro era um veneno lento e tóxico correndo em minhas veias.
Toda vez que a pesada carruagem de madeira solavancava contra os sulcos congelados da trilha do norte, as algemas pesadas e marcadas com runas cravavam-se ainda mais fundo em meus pulsos em carne viva. Não era apenas dor física; era um vazio sufocante e aterrorizante. O ferro antigo agia como uma mortalha de chumbo, cortando violentamente os fios dourados da minha conexão com a alcatéia.
Onde antes havia a presença estrondosa e protetora de Dorek, o intelecto afiado e calculista de Jaxon e o calor feroz e inabalável de Klaus, agora havia apenas um silêncio ensurdecedor e ecoante.
Eu estava totalmente cega. Completamente sozinha.
— Continuem se movendo! — um guerreiro renegado gritou do lado de fora, sua voz cortando o vento uivante do norte. — Os Alphas estarão rastreando as estradas principais! Vamos cortar caminho pelas escarpas antes do pôr do sol!
Pressionei minhas costas trêmulas contra a parede fria de madeira da carruagem, minhas mãos caindo instintivamente para o meu ventre plano. *Eles não sabem*, sussurrei silenciosamente para o vazio da minha própria mente, rezando para que a centelha de vida minúscula e frágil crescendo dentro de mim pudesse de alguma forma me ouvir. *Eles acham que pegaram um prêmio, mas não sabem quem você é. Aguente firme, meu pequeno Alpha. Seus pais estão vindo.*
Pela pequena janela gradeada da carruagem, observei os picos irregulares e cobertos de neve do Norte se fecharem ao nosso redor como dentes. O exército de Vance estava recuando rápido, esgueirando-se para as sombras da natureza selvagem desconhecida como covardes. Eles pensaram que tinham apagado a luz da Tríade. Pensaram que o ferro tinha me tornado impotente.
Mas, enquanto sentia a pulsação pesada do meu próprio batimento cardíaco contra o metal frio das minhas correntes, um calor dourado e feroz tremeluziu no fundo da minha alma. Eu tinha deixado um rastro para eles. Eu tinha deixado meu sangue.
Eles viriam. E quando viessem, o Norte queimaria.
### Jaxon
O arsenal cheirava a aço negro, couro e o fedor sufocante e volátil da fúria de um alpha.
Klaus era um borrão de movimentos destrutivos, jogando violentamente placas de armadura pesada nas alforjes de seu cavalo de guerra. Seus olhos cor de âmbar estavam completamente injetados de sangue, suas presas totalmente estendidas enquanto rosnados guturais e animalescos rasgavam sua garganta a cada respiração. Do outro lado do pátio, Dorek parecia uma estátua imponente de pura matança; suas mãos enormes apertavam o punho de sua espada larga com tanta força que o revestimento de couro gemia sob a pressão. Sua aura de alpha era um peso esmagador, tão forte que os sentinelas de baixa patente não conseguiam nem olhá-lo nos olhos sem tremer.
— Estamos perdendo tempo! — Klaus rugiu, sua voz sacudindo as vigas dos estábulos de pedra enquanto ele batia uma correia de couro no lugar. — A cada segundo que ficamos aqui respirando esse ar viciado, aquele bastardo está com as mãos na nossa companheira! Vou arrancar a garganta dele! Vou destruir todo o Norte pedaço por pedaço!
— Klaus, cale a boca e escute — eu disse, minha voz cortando o caos com uma precisão fria e clínica que forçou ambos a congelarem.
Caminhei para o centro do pátio, meus dedos longos segurando o pingente de gaiola de prata oca. A safira havia desaparecido; o mecanismo se abriu com um clique para revelar o pequeno compartimento escondido dentro.
— A conexão com a alcatéia está morta, Jaxon! — Dorek rosnou, sua voz profunda vibrando em meu peito como um trovão distante enquanto ele voltava seu olhar sombrio e letal para mim. — Vance usou ferro antigo. Estamos cegos. Não podemos rastrear o cheiro dela pela nevasca, e não podemos ouvir seus pensamentos. Se você tem uma estratégia, diga agora antes que eu cavalgue para o norte sozinho.
— Estamos cegos pelos meios comuns, sim — respondi calmamente, embora uma clareza gélida e letal estivesse endurecendo em meu próprio peito. Inclinei o pingente, deixando a luz fraca da tocha iluminar a mancha escura e incrustada de material escondida lá dentro. — Mas Vance a subestimou. Lilitha não nos deixou apenas um mapa dos túneis de gelo. Ela nos deixou o sangue dela.
Klaus se aproximou, seu peito arfando enquanto seu lobo interior captava o cheiro fraco, doce e magnético da nossa companheira impregnado na prata. — O sangue dela...
— O sangue puro de uma Omega — expliquei, meus olhos se estreitando com uma inteligência perigosa. — A assinatura divina da linhagem de Selena. Vance acha que as algemas de ferro são infalíveis, mas uma conexão de sangue não pode ser suprimida pelo metal. Para um rastreador comum, isso é apenas uma mancha morta. Mas, para uma bruxa de sangue, isso é uma bússola infalível. É um farol vital que pode atravessar qualquer feitiço de ocultação que Vance tente lançar contra nós.
Os olhos de Dorek brilharam com uma compreensão súbita e brutal. — Precisamos de uma bruxa.
— Exatamente — eu disse, fechando o pingente de prata com um estalo e guardando-o com segurança contra o peito. — E só existe um lugar perto o suficiente que detém o tipo de poder de que precisamos para quebrar uma ocultação do norte de alto nível.
Caminhei até a minha montaria, puxando as rédeas com força enquanto olhava para meus primos.
— Vamos cavalgar para Ebonmoor — ordenei, a finalidade no meu tom se estabelecendo sobre o pátio como uma sentença de morte. — A cidade das bruxas. Se queremos nossa Luna de volta, faremos um pacto com as sombras.








