Capítulo 1: Dores do crescimento
~Prince~
*algum tempo depois da escola, nono ano*
“Então, o Sr. Edwards simplesmente ficou olhando para ele por um minuto inteiro antes de chegar perto e dizer: ‘e você acha que isso vai te levar muito longe na vida, Sr. Francis?’. E quer saber? O Prince olhou bem nos olhos dele e deu uma risada antes de dizer que sim!” A voz do Kev falhou, ecoando naquele inferno de concreto e blocos que era a parte de baixo das arquibancadas, em maio.
Eu suspirei enquanto meu amigo contava o encontro com o Sr. Edwards como se fosse algo para se orgulhar, como se eu fosse alguém a ser admirado. Arranquei o baseado dos dedos dele e dei um trago, franzindo o nariz com o gosto daquela porra de erva barata.
“Porra.” Eu tossi, batendo no peito enquanto engasgava. “Cara, seu contato é um mão de vaca. Isso nem é erva de qualidade, mano.”
Kev bufou e balançou a cabeça.
“Não fode, cara, nem todo mundo aqui tem dinheiro pra gasolina.” Ele chutou meu sapato, me lembrando que era a minha vez de comprar naquela semana, mas minha mãe cortou minha mesada de novo porque minhas notas caíram dois pontos.
“Que porra eu deveria fazer, Kev? Sair me prostituindo? Minha mãe cortou minha grana porque, pelo visto, noventa e três não é cem, e essa porra importa nas inscrições para a faculdade.” Eu reclamei, já irritado.
“Porra, claro! Arruma uma tia legal e faz um programa com ela em troca de um pouco de fumo!” Ele riu e caiu na gargalhada, e eu apenas balancei a cabeça. Não tinha a menor chance de eu contar para o cara, apelidado de galo porque vivia cantando vantagem sobre tudo, que eu estaria muito bem se fosse "plugado" pelo meu próprio contato, se a situação chegasse a esse ponto.
“Enfim.” Heather interrompeu, olhando para Kev como se ele tivesse cagado no sapato dela. “O que vocês estão planejando para as férias de verão? Só faltam uns dois dias de aula.”
E eles começaram, todo mundo falando sobre seus planos.
Sair no shopping, trabalhar meio período na loja do tio de um primo, passar férias a três estados de distância. Então, todos pararam, esperando uma resposta, e eu olhei para eles dando de ombros.
“Alguma viagem chique para as Maldivas ou algo assim com um dos ‘amigos de trabalho’ da minha mãe, que ela jura que não está comendo.” Todos nós rimos e eles reclamam por um minuto sobre como nenhuma das viagens deles exige passaporte. Depois, o silêncio cai à medida que saem um a um, até que fico sozinho naquela escuridão empoeirada e sufocante, desejando poder apenas ficar em casa e ir ao shopping com meus amigos.
~
*férias de inverno do décimo ano, 3 dias após o aniversário de 16 anos do Prince*
“Cara, você está bem?” Kev se aproximou, seu cabelo escuro caindo sobre os olhos, escondendo as íris cor de avelã enquanto olhava para baixo. Eu rolei para o lado, peguei o baseado dos dedos dele e dei um trago sem dizer uma palavra.
“É, estou bem, mas seu contato ainda é uma bosta. Olha na minha gaveta de baixo e pega um pacote.” Eu suspirei. “Você sabe que pode comprar comigo agora, né? Vou manter o mesmo preço.” Ele se acomodou sobre o meu quadril como um bicho de pelúcia gigante e estreitou os olhos para mim enquanto eu ficava tenso e me afastava.
“Não, cara, sério. A gente se conhece desde que você estava na quinta série e eu na sétima. Eu sei que tem algo errado. Você está estranho desde o início do ano, mas simplesmente não quer falar comigo, cara.”
Eu me mexi de novo, tentando tirar o peso dele da metade inferior do meu corpo.
“Não é nada, Kev, ok? É só que... é uma merda, tudo bem? É uma porra de um drama de socialite que vai me fazer parecer mimado e pretensioso, então podemos, por favor, esquecer isso?” Eu implorei, olhando para ele.
Não era. Não era nada que me fizesse parecer alguém a ser invejado; não seria algo que ele pudesse simplesmente rir ou tirar sarro por eu ser um playboyzinho. Mas eu também não suportava a ideia de ele olhar para mim com pena ou nojo, então, eu menti.
“Pfft, cara, só de te ouvir reclamar já é tão raro que eu acho que não conseguiria te julgar, nem se você me dissesse que sua mãe estragou seu aniversário por convidar o Fall Out Boy em vez do Falling in Reverse.” Ele brincou, e eu soltei uma risada nasal.
“Ok, se ela tivesse feito isso, eu definitivamente teria reclamado. FOB é ótimo e tudo mais, mas perder o Ronnie!” Eu ri com uma careta falsa e rolei para pegar meus MP3s, colocando minha playlist de FiR.
“Não acredito que você ainda tem um desses, e que ele funciona.” Kev provoca, e a música pulsa através das minhas caixas de som.
Eu dou de ombros e volto para o lado, ficar encolhido dói menos do que ficar esticado.
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*Férias de inverno do décimo segundo ano, uma semana após o aniversário de 18 anos do Prince*
“Ei, eu não vou voltar essa semana também. Pelo visto, a mamãe reservou o resort por mais uma semana. Algo sobre ‘aproveitar ao máximo o nosso tempo’. Espero estar de volta antes do ano novo para a gente ir ver as novidades no shopping, ouvi dizer que abriram duas lojas novas.”
Minha voz estava rouca e trêmula. Depois de quase dois anos de ligações como essa, Kev nem questionava mais, apenas bufava.
“Cara, tanto faz, é sempre assim. Você aparece quando quer e desaparece quando te convém, com desculpas no meio. Só me liga quando estiver de volta e a fim de sair.”
Ele nem diz tchau, apenas desliga.
Eu suspiro e coloco o telefone de lado, enquanto um braço envolve minha cintura e me puxa para trás.
“Aww, seu amiguinho ficou bravo com você? Talvez você devesse deixar ele te comer quando voltar, hum?” Um beijo molhado e descuidado pousa na curva do meu pescoço, puxando-me contra um peito macio.
Eu quero chorar, não por causa dos dedos gordos do Mitch me apalpando e me abrindo para me rechear como o peru de Natal que comemos ontem à noite — não mais, pelo menos —, mas porque Kev estava desistindo de mim. Honestamente, não me restam lágrimas. Acho que esqueci como chorar durante o verão do nono ano, quando a mamãe me deixou com o Mitch pela primeira vez. Mas eu quero, quero chorar por essa perda recente.
Em vez disso, eu gemo. Eu ofego, gemo e imploro como o Mitch gosta, para que ele me dê uma boa gorjeta quando minha mãe finalmente vier me buscar. Assim, posso pagar umas coisas boas para o Kevin, a Heather e, porra, até para o Jake. Eles merecem por terem me aguentado e o meu jeito depressivo pelos últimos três anos.
~
*Último ano, logo após as férias de inverno*
“Você ouviu?”
“Ah, sobre o Prince e sua família real de profissionais da putaria.”
“Ainda não acredito que ele era um deles.”
Eu endireito meus ombros e agarro a alça da minha bolsa. Eu tinha implorado para a mamãe fazer o advogado dela me transferir. Ela me chamou de Judas e desligou. E, pelo visto, a empregada contava como guardiã na escola, já que eu tinha 18 anos.
“Ei, ator pornô!” Um braço caiu sobre meus ombros, o peso pesando como chumbo enquanto a voz, antes amigável, rasgava meu peito como farpas, com veneno pingando. “Ainda está vendendo?”
Uma pausa para o máximo de dor.
“Erva, quer dizer. Não quero a sua bunda.” Kev olhou para mim, seus olhos cor de avelã, antes quentes, agora afiados e defensivos.
“É, passa lá depois da escola, eu te arrumo uma onça como sempre.” Ele me empurrou, e eu cambaleei um pouco, fazendo uma careta.
“Não quero passar na sua casa, sua puta. É só jogar na minha caixa de correio e eu te dou a grana de manhã.”
Eu esqueci como respirar, piscando lentamente enquanto observava meu agora, aparentemente, ex-melhor amigo me ferir o mais fundo que podia no meio da multidão.
“É, tá bom, já entendi como é que é. Que se foda.” Eu rosno. “Pagamento adiantado. Se quer a erva da boa, vai ser do meu jeito, não do seu. Caso contrário, continue comprando da Shelly e aquela porra de mistura de resto de planta com orégano. Ah, e já que você quer ser um completo filho da puta comigo: preço de mercado, porra. 300 dólares por uma onça. Só amigos ganham o desconto de família e amigos.”
Eu giro nos calcanhares e marcho para longe. Continuo passando pela sala de aula, pelo meu armário, pela Sra. Santonelli e seu cheiro de bala de caramelo, pelos banheiros onde gritos e risadas ecoavam. Empurrei as portas dos fundos e corri para os campos esportivos, passando pela brecha na cerca e abandonando minha bolsa quando o alambrado não a soltou. Desci a pequena colina até o campo e entrei debaixo da arquibancada, onde passamos tantas tardes falando merda, ficando chapados e fazendo planos sobre o que faríamos depois que nos formássemos.
Caminho até o fundo, o canto mais escuro, encolhendo-me o máximo que podia debaixo da arquibancada de pedra até estar encolhido no nível mais baixo, com a terra grudando em mim enquanto deitava ali, ofegando baixinho no solo mofado. As lágrimas que eu pensei terem sumido escorriam pelo meu rosto enquanto meu corpo tremia.