Capítulo 1
PRÓLOGO
Grace
Minha mãe costumava dizer que eu era brilhante demais para o meu próprio bem.
Durante muitos anos, achei que aquilo fosse um elogio.
Demorei um pouco para descobrir que o mundo nem sempre gosta de pessoas que brilham demais.
Aprendi cedo que crianças também podem ser cruéis.
Enquanto outras meninas falavam sobre maquiagem, festas e cantores da moda, eu passava horas lendo sobre estrelas, planetas e discutindo respostas de provas com professores.
Eu era inteligente demais, falava demais, sabia demais.
E, aparentemente, isso era um problema.
Então eu aprendi.
Aprendi a levantar menos a mão, a esconder partes de mim, a sorrir menos e principalmente a me fechar.
Porque, se ninguém se aproximasse, ninguém poderia machucar.
Mas existia uma exceção.
Meu melhor amigo.
Nossas famílias eram próximas desde antes de nós nascermos.
Mas nossas vidas eram muito diferentes.
Minha mãe trabalhava duro por tudo o que tínhamos.
Meu pai sumiu logo depois que eu nasci. Nunca soube nada dele. Mamãe fazia questão de agir como se ele nunca tivesse existido em nossas vidas.
Eu sei bem que em partes isso era para não me fazer sentir a falta dele.
E deu certo, porque além de uma mãe maravilhosa, eu tinha o tio Frank e Annie.
Juntos os três me ensinaram que a vida nos entregaria tudo que lutássemos para conquistar. E foi assim que eu nunca desisti.
Conquistei bolsas de estudo. Vivia na biblioteca, estudando o máximo que podia.
Estagiei em alguns laboratórios.
Quando fiquei adolescente, eu comecei a trabalhar dando aulas extras e assim conquistei uma boa quantia em reserva, já que minha mãe não me deixava gastar um centavo do meu dinheiro na casa.
Ela dizia que já que ela não podia fazer isso por mim, que aquela fosse minha reserva para a faculdade.
E foi assim que eu fiz.
A família dele pertencia a um mundo de dinheiro e influência.
Um mundo que nunca me tratou como se eu não pertencesse.
Nem ele.
Enquanto outras crianças riam de mim, ele brigava por mim.
Enquanto me chamavam de estranha, ele agia como se eu fosse a pessoa mais normal do planeta.
Ou, pelo menos, a forma de loucura com a qual ele já tinha se acostumado.
As pessoas criavam suas próprias teorias.
Diziam que eu só andava com ele por causa da família dele.
Como se amizade fosse uma transação.
Mas nós nunca enxergamos as coisas daquela forma.
Nós nos escolhemos.
Repetidamente.
Primeiro como amigos.
Depois, quando a adolescência e os hormônios fizeram seu trabalho, como namorados.
Ele foi meu primeiro beijo.
Meu primeiro namorado.
A pessoa que me levou ao baile de formatura.
A pessoa que conheceu todas as minhas inseguranças.
A pessoa com quem compartilhei todas as minhas primeiras vezes.
E, por muito tempo, achei que aquilo era amor.
Porque era tudo o que eu conhecia.
Mas nós crescemos.
E, junto com o crescimento, veio uma verdade que demoramos anos para aceitar.
Nós éramos muito diferentes e estávamos chegando a fase de que deveríamos começar a trilhar nossos caminhos na vida adulta.
E foi assim que tomei uma decisão dolorosa, mas necessária. Fui seguir meu sonho de me formar na melhor universidade do país. Eu sempre quis entrar para na Briarwick. Eles tinhas um dos maios planos de ensino para termodinâmica. Então no dia que a minhas carta de aceitação chegou, eu quase surtei.
Eu estava indo para universidade dos meus sonhos, com bolsa de estudos, que era um reconhecimento por tudo que eu e minha mãe batalhamos.
E deixei para trás minha casa, minha cidade e meu melhor amigo. O único que tinha conseguido me amar mesmo eu sendo quem eu era.
E foi justamente por tudo isso que cheguei à universidade acreditando em uma mentira perigosa.
A de que ninguém completamente novo poderia me conhecer de verdade…
E mesmo assim decidir ficar.
Por isso eu tinha apenas um objetivo.
Estudar.
Nada de distrações. Nada de romances.
E, principalmente…
Nada de complicações.
Mas é claro que a vida não poderia facilitar nem um pouquinho pra mim.
Ethan
Meu pai acreditava em três coisas.
Disciplina, resultados e sucessão.
Desde criança, todos ao meu redor pareciam saber exatamente qual seria o meu futuro.
Administração.
Empresas Hayes.
Uma vida inteira planejada.
Exceto que ninguém parecia interessado em saber se era aquilo que eu queria.
E a resposta era não.
Eu não queria vestir ternos engomadinhos como meu pai.
Não queria ser conhecido apenas como filho de Richard Hayes.
Queria ser Ethan. Só o Ethan.
Mesmo sem saber exatamente o que isso significava.
Foi o hóquei que me salvou.
No gelo, ninguém se importava com sobrenomes.
Importava quem permanecia em pé, quem aguentava as pancadas, quem liderava.
Antes que eu percebesse, eu havia me tornado capitão do time.
Popular e respeitado.
E, segundo praticamente todo mundo, perigosamente bonito.
A última parte nunca tinha sido ideia minha.
Mas seria mentira dizer que eu não tinha aprendido a tirar proveito disso.
Os relacionamentos eram simples.
As mulheres eram simples. As despedidas mais simples ainda.
E talvez esse fosse exatamente o problema.
Porque, por mais divertida que aquela vida parecesse, alguma coisa estava faltando.
Eu só ainda não sabia o quê.
Então, naquele primeiro dia, entrei na secretaria para resolver um problema idiota relacionado ao time.
E a vi.
Uma garota parada diante do balcão.
Cabelos presos às pressas.
Óculos escorregando pelo nariz.
Braços carregados com livros demais.
Bonita.
Mas não era isso.
Era a expressão, concentrada, irritada.
Como se o mundo inteiro estivesse atrapalhando alguma coisa kn mais importante.
Por um instante, eu parei.
E naquele mesmo momento, ela levantou os olhos.
Nossos olhares se encontraram.
Por apenas um segundo.
Então, ela voltou a discutir com a secretária sobre algum erro na grade curricular.
E eu segui para o outro lado do balcão.
Mas naquele momento, eu já sabia que eu não poderia deixar aquele encontro de apenas poucos segundos, ser o único que tivemos.
Eu precisava descobrir quem era aquela garota de olhos castanhos e cabelos negros que, de alguma forma, parecia ter se instalado na minha mente.








