Capítulo 1
A Noite do Despertar.
Lyra Valeborn odiava cerimônias.
Elas sempre terminavam do mesmo jeito.
Alguém celebrava.
Alguém se transformava.
Alguém encontrava a prova de que pertencia àquele lugar.
E Lyra voltava para casa com as mesmas perguntas que carregava há anos.
Ela ajeitou a cesta pendurada no braço e agachou-se ao lado de uma touceira de moonroot.
As folhas prateadas brilhavam sob a copa das árvores.
Pelo menos as ervas faziam sentido.
As plantas seguiam regras.
Os lobos também, na maior parte do tempo.
A Deusa da Lua abençoava seus filhos.
Eles despertavam.
Eles se transformavam.
Eles encontravam seu lugar.
Simples.
Exceto que nada disso tinha acontecido com Lyra.
Vinte e dois anos de idade.
Ainda sem despertar.
Ainda sendo alvo de sussurros.
Ainda a garota por quem as pessoas tinham pena quando achavam que ela não estava olhando.
Sua faca cortou a terra com cuidado.
A moonroot soltou-se.
Ela a colocou na cesta.
Um calafrio estranho percorreu sua pele.
Lyra franziu a testa.
A floresta tinha ficado silenciosa.
Não um silêncio normal.
Um silêncio errado.
Sem insetos.
Sem folhas farfalhando.
Sem chamados de animais à distância.
Nada.
Ela se endireitou lentamente.
Os pelos de seus braços se arrepiaram.
Alguém estava ali.
Observando.
"Olá?"
Nenhuma resposta.
Apenas a escuridão entre as árvores.
Ela engoliu em seco.
Uma dor aguda surgiu abaixo de sua clavícula.
Lyra soltou um arquejo.
A cesta escapou de sua mão.
As moonroot espalharam-se pelo chão.
A dor atingiu novamente.
Mais forte.
Seus joelhos falharam.
"O que..."
Fogo explodiu em suas veias.
Não era calor.
Era algo mais brilhante.
Algo vivo.
Ela desabou contra o tronco de uma árvore, segurando o peito.
Uma luz brilhou sob sua pele.
Prata.
Depois violeta.
Símbolos estranhos apareceram em suas mãos.
Eles se moviam.
Torciam-se.
Fluíam como tinta viva.
Lyra olhou horrorizada.
Os símbolos desapareceram.
A dor se foi.
Tão de repente quanto surgiu.
Ela ficou paralisada no chão da floresta.
Respirando com dificuldade.
Esperando que voltasse.
Não voltou.
Alguns segundos se passaram.
Então ela notou as flores.
Cada planta de moonroot ao seu redor havia florescido.
Seu estômago deu um nó.
A moonroot florescia na primavera.
Era outono.
Isso não era possível.
Ainda assim, centenas de flores prateadas a cercavam.
"O que eu fiz?"
As palavras mal escaparam.
Uma trompa ecoou pelo vale.
A Cerimônia do Despertar.
Lyra fechou os olhos.
Claro.
Ela estava atrasada.
De novo.
A praça da vila estava transbordando de lobos.
Tochas iluminavam o local.
Crianças corriam entre as construções.
Música flutuava no ar.
O cheiro de carne assada fez seu estômago roncar.
Todos pareciam felizes.
Lyra quis ir embora imediatamente.
Tarde demais.
"Lyra."
Ela estremeceu.
A voz de seu pai.
Garrick Valeborn aproximou-se através da multidão.
Alto.
Ombros largos.
Tudo o que um lobo deveria ser.
Seu olhar pousou nela.
"Você quase perdeu."
"Eu estava colhendo ervas."
O maxilar dele se contraiu.
"Esta noite é importante."
A decepção doía mais porque ele tentava esconder.
Lyra desviou o olhar.
As conversas deles sempre terminavam do mesmo jeito.
Ele se preocupava.
Ela o decepcionava.
Nenhum dos dois sabia como consertar isso.
Um silêncio repentino espalhou-se pela praça.
O Alfa Ronan subiu no Altar da Lua.
As conversas morreram instantaneamente.
O poder emanava dele.
Nada forçado.
Natural.
O tipo de poder que os líderes carregavam.
"Esta noite", Ronan anunciou, "honramos aqueles que estão diante de seu Despertar."
Aplausos explodiram.
Lyra lutou contra o impulso de desaparecer.
Um por um, os jovens lobos deram um passo à frente.
Uma garota transformou-se parcialmente.
Aplausos seguiram-se.
Os olhos de um garoto brilharam em dourado pela primeira vez.
Mais aplausos.
Outro completou sua primeira transformação.
A multidão praticamente explodiu.
Lyra observava da beira da praça.
Tentando não pensar.
Tentando não lembrar.
Tentando não notar os olhares de pena.
Então o Alfa Ronan olhou diretamente para ela.
Seu estômago afundou.
Não.
Por favor, não.
"Lyra Valeborn."
A multidão silenciou.
Todas as cabeças se viraram.
O calor subiu pelo seu pescoço.
Ela pensou em correr.
Em vez disso, ela deu um passo à frente.
Um passo após o outro.
A caminhada parecia não ter fim.
Sussurros a seguiam.
Não eram altos.
Nunca eram altos.
Mas ela os ouvia.
A garota que nunca despertou.
A estranha.
A decepção.
A pergunta que ninguém conseguia responder.
Ela subiu no altar.
A pedra estava morna sob suas botas.
A expressão do Alpha Ronan suavizou.
"Você está pronta?"
Não.
"Sim."
A mentira veio facilmente.
Ele fez um sinal em direção à pedra central.
"Coloque sua mão aí."
Lyra obedeceu.
No momento em que sua palma tocou o altar, a montanha estremeceu.
Seus olhos se arregalaram.
Ninguém mais reagiu.
Talvez ela tivesse imaginado.
Então aconteceu de novo.
Uma vibração.
Lá nas profundezas da terra.
Antiga.
Desperta.
O altar começou a brilhar.
Ofegos se espalharam pela multidão.
Uma luz prateada derramou-se sobre a pedra.
Depois azul.
Depois violeta.
A praça ficou em silêncio.
Lyra puxou a mão.
A luz a acompanhou.
O pânico agitou-se em seu peito.
"O que está acontecendo?"
Ninguém respondeu.
O chão tremeu.
Um estalo de energia disparou pelo altar.
O vento aumentou violentamente.
As tochas tremeluziram.
Várias se apagaram completamente.
O Alpha Ronan deu um passo à frente.
Pela primeira vez na vida, Lyra viu medo no rosto do Alpha.
"Lyra."
A vibração tornou-se um rugido.
Uma coluna de luz violeta explodiu para cima.
A força empurrou os lobos para trás.
As pessoas gritaram.
O próprio céu parecia se partir.
Lyra não conseguia se mexer.
Não conseguia respirar.
Não conseguia pensar.
Símbolos apareceram ao seu redor.
Milhares deles.
Os mesmos símbolos da floresta.
Eles giravam pelo ar como estrelas vivas.
Uma voz ecoou dentro de sua mente.
Feminina.
Antiga.
Finalmente.
Lyra prendeu a respiração.
Os símbolos avançaram contra ela.
Um após o outro.
Direto para o seu peito.
O mundo desapareceu.
Ela estava em uma cidade de torres de cristal.
O luar refletia-se em torres impossíveis.
Bandeiras prateadas estendiam-se pelo céu.
Mulheres usando coroas de luz estelar caminhavam por ruas ancestrais.
A magia preenchia o ar.
Não era selvagem.
Não era perigosa.
Era viva.
Um trono ficava no centro de tudo.
Nele sentava-se uma mulher.
Linda.
Aterrorizante.
O poder irradiava dela como a luz do sol.
Seus olhos encontraram os de Lyra.
Os lábios da mulher se moveram.
Corra.
A visão se despedaçou.
Lyra foi jogada de volta à realidade.
A pedra do altar arranhou suas palmas.
A praça da vila estava em silêncio total.
Ela levantou a cabeça lentamente.
Centenas de lobos olhavam para ela.
Ninguém parecia confuso.
Eles pareciam aterrorizados.
Seu pai estava paralisado.
A cor havia sumido do seu rosto.
O Alpha Ronan parecia ter visto um fantasma.
Lyra engoliu em seco.
"O que aconteceu?"
Ninguém respondeu.
Um historiador idoso empurrou a multidão.
Suas mãos tremiam.
Seus olhos não saíam dela.
"Não."
O velho deu um passo para trás.
"Isso não pode ser."
O Alpha Ronan franziu a testa.
"Do que você está falando?"
O historiador olhou para Lyra.
O medo preenchia sua expressão.
Não medo dela.
Medo do que ela representava.
"As histórias eram verdadeiras."
Um nó frio formou-se em seu estômago.
"Que histórias?"
A boca do velho se abriu.
Por um momento, ele pareceu com medo de falar.
Então as palavras escaparam.
"A Primeira Linhagem."
Um murmúrio varreu a multidão.
Vários anciãos trocaram olhares alarmados.
Lyra olhou entre eles.
Ninguém explicou.
Ninguém se moveu.
O silêncio se estendeu.
Então, um estalo ensurdecedor partiu o céu noturno.
Todas as cabeças se voltaram para cima.
Um rastro de luz violeta rasgou os céus.
Não era um relâmpago.
Não era uma estrela cadente.
Algo mais.
Algo vivo.
Algo observando.
O medo estranho retornou.
Mais forte desta vez.
A voz de sua visão ecoou fracamente dentro de sua mente.
Corra.
A luz violeta desapareceu atrás das montanhas.
A multidão permaneceu paralisada.
E, pela primeira vez na vida, Lyra compreendeu uma verdade aterrorizante.
A cerimônia não tinha despertado um lobo.
Tinha despertado algo que o mundo pensava estar morto há muito tempo.
E, em algum lugar muito além de Black Hollow, algo havia despertado em resposta.










