Ch 02 - Fly away
As últimas semanas foram uma loucura. As fundações ficaram prontas, sólidas e dentro do prazo antes do fim de março, e a construção da oficina já está a todo vapor.
Meu pai aprovou cada uma das minhas análises e cada decisão que tomei. Ele até pediu para que seus melhores analistas as revisassem. Ver o orgulho em seus olhos poucos dias antes da minha partida é o maior presente que ele poderia ter me dado.
De volta ao meu duplex com vista para Nova York, deixei-me desabar no sofá. Meu corpo desiste antes da minha mente.
Porra... não me dei uma pausa de verdade em quase dois anos. Valeu cada segundo. Eu não mudaria nada. Mas não sou velha o suficiente a ponto de ter esquecido como aproveitar a vida.
Durante minha última semana, resolvi a logística de tudo o que não poderei substituir quando estiver no Canadá. Todo o resto pode ser duplicado. Não faz sentido carregar tudo através da fronteira para nada.
Mais importante ainda: eu festejei. Quase sem parar. Longas despedidas, um drink atrás do outro, risadas que se estendiam até tarde da noite. Amigos, colegas de trabalho, família... Todos tiveram sua vez.
Digamos que a abstinência autoimposta dos últimos meses foi mais do que compensada em algumas noites sem arrependimentos. Apenas uma regra: nunca o mesmo cara duas noites seguidas. Estou aqui para me divertir, não para criar correntes que possam me impedir de seguir em frente.
Ouço a equipe de mudança carregando minhas caixas.
Isso ainda não me tira da cama. Minha ressaca nem me deixa abrir os olhos.
— Que se dane... eles sabem o que fazem.
Volto a dormir depois de engolir um ibuprofeno com um pouco de água. Eventualmente, sou arrastada da cama pelo meu motorista, assistente pessoal e guarda-costas. Minha sombra desde que eu tinha catorze anos.
Pete.
— Pete, menos barulho, por favor. Você está me matando...
Ele concorda com a cabeça sem dizer nada, coloca pasta de dente na minha escova e então começa a escovar meus dentes para mim.

Eu sei o ritual de cor. Deixo ele fazer. Afinal, aparecer com bafo de álcool não pegaria nada bem.
Em menos de vinte minutos, minha bagagem de mão está pronta: maquiagem, itens de higiene essenciais, todos os meus aparelhos e seus carregadores.
Obrigada, Pete.
Caio no sono novamente e só acordo quando pousamos.
Forço meus olhos a abrirem o suficiente para parecer meio humana. Então o modo de sobrevivência entra em ação, e coloco meus óculos de sol enormes.
Um arroto alto faz com que todas as cabeças no corredor se virem para mim enquanto aguardamos para sair do avião. Não vou pedir desculpas. Se eu vomitar, também vou ter que pedir desculpas por isso?
Muito ocupada justificando minha total falta de modos para mim mesma, escuto:
— Esses americanos acham que podem fazer qualquer coisa.
Não reajo.
Mas toda a comoção me lembra que esqueci completamente de falar com a Sissi sobre onde vou ficar. Sinceramente, a casa dela ou o clube do White Ash, qualquer um dos dois serve. É só até a oficina estar funcionando.
Minha dor de cabeça diminuiu um pouco, mas no momento em que a porta da cabine se abre, nem meus óculos de sol conseguem impedir a luz do sol de perfurar direto o meu cérebro.
Eu a ouço antes de vê-la, e franzo o nariz.
Aguenta firme, Mandy. Você consegue.
— MANDYYYYYY!
Sissi se joga nos meus braços. E, assim, toda a dor desaparece. A alegria pura toma o seu lugar.
Giramos, rindo. Ela enterra o rosto no meu cabelo comprido, como se estivesse tentando lembrar do meu perfume. Passo a mão pelo lado raspado da cabeça dela. Nós duas soltamos o mesmo gemido instintivo.
Um cara que nunca vi antes nos observa com um sorriso divertido. O jeito que ele olha para minha amiga não deixa dúvidas.
Aquele é o Fire.
— Não vai nos apresentar?
Se todo motoqueiro for assim, preciso seriamente repensar meus hábitos alimentares. Eu poderia facilmente comer um desses no café da manhã. Talvez dois.
Expulso esse pensamento da minha cabeça na mesma hora.
Péssima hora.
— Mandy, este é o Fire.
Sissi finalmente se afasta, ainda segurando em mim com uma mão, e lança a ele um sorriso radiante.
Os olhos dele percorrem lentamente da minha cabeça aos meus pés.
Porra...
Minha melhor amiga tem um ótimo gosto.
— Fire, esta é a Mandy. A minha Mandy.
O olhar de Fire muda de Sissi para mim, curioso, divertido, perfeitamente à vontade. Um sorriso torto sugere uma piada que ele está prestes a fazer... e que, sabiamente, decide evitar no último segundo.
— Prazer em conhecê-la, Mandy. Mas se você está planejando monopolizar a Sissi, talvez tenhamos um problema. Por outro lado, tenho muitos irmãos que posso te apresentar como compensação.
Sissi dá um soco brincalhão no ombro dele.
É.
Definitivamente...
Horrível timing.








