Capítulo 1
Já penso nisto há semanas, mas nunca tive a coragem de o fazer. Encosto a cadeira levemente para trás, ainda sentada, olhando para a tela do computador.
Inscreva-se já e faça parte da nossa equipa.
Está escrito num tipo de letra que parece Times New Roman. Dou um leve suspiro, ainda sentindo um pequeno nervosismo dentro de mim.
Sempre quis trabalhar ali. Há semanas que adio este momento.
Olho pela janela do quarto e vejo a paisagem linda que cobre todo o espaço. Há carros estacionados ao lado, uma relva bem cortada e verde como alface, o céu limpo e claro, e as nuvens separadas de um jeito impecável, movendo-se tão lentamente que quase não se nota.
Consigo ver alguns pássaros a voar lentamente, e sentir a doce brisa tocar cada fio do meu cabelo.
Fecho os olhos por alguns segundos para melhor sentir este momento.
A paz e a tranquilidade que este dia me oferece.
Viro a cabeça e volto a olhar para o site, mas desta vez mais decidida.
Eu quero isto.
Posso não ser aceite mas pelo menos quero tentar.
Quero dar a mim mesma a chance de dizer que fiz alguma coisa para que pudesse dar certo.
Começo por preencher os primeiros espaços de identificação, anexo os documentos necessários e, depois de alguns minutos, finalmente chego ao último passo.
Roço os dedos pelo rato do computador por um instante, fazendo pequenos movimentos circulares sobre a palavra que se encontra no canto inferior direito, em azul brilhante:
CONCLUIR CANDIDATURA
O meu coração bate mais rápido, fazendo com que o meu peito acompanhe cada movimento.
Uma parte de mim quer recuar mas a outra está cansada de esperar, então sem medo, dou um leve clique.
No mesmo instante, recebo um e-mail da academia militar com datas marcadas e alguns detalhes sobre o local dos primeiros testes.
Serão feitas quatro fases: testes físicos, psicotécnicos, exames médicos e a entrevista.
Sinto um pequeno alívio dentro de mim quando vejo a frase do fim do e-mail ”Apresente-se no local indicado com roupa desportiva adequada.”
Os resultados só saem depois de todos os testes, mas em cada fase há eliminações, o que torna cada momento ainda mais decisivo.
Os meus pensamentos são interrompidos pelo barulho da porta a abrir-se atrás de mim. O meu corpo vira-se ligeiramente por impulso e vejo o Sérgio, o meu irmão mais velho, entrando no quarto.
— Então, mocinha — disse Sérgio, atirando-se para a minha cama, relaxado. — O que fazes trancada neste quarto a tarde toda?
— Nada de mais... só a analisar possíveis formas de te deixar irritado. — disse, com um leve sorriso no canto da boca.
— Nem me venhas com essa. Da última vez que fizeste isso, quase te tirei do meu testamento. — comentou o Sérgio, entre risos.
— Quase. — respondi, ainda sorrindo, virando-me para a secretária. — Agora vá, sai daqui e deixa-me sozinha na minha torre.
Virei-me para a tela do computador.
— Conseguiste? — perguntou ele, levantando-se da cama e caminhando na minha direção.
Sérgio percorreu o olhar pela tela do computador.
— Sim, começo com os testes amanhã. — disse, sentindo um pequeno aperto no peito, mas mantendo a voz firme. — Queres ir correr agora?
— Fala sério. — murmurou ele, passando a mão pelo cabelo, meio incrédulo, mas com um leve sorriso de orgulho.
— Agora é só esperar... ser aceite... ou rejeitada. — Baixei um pouco o olhar por um instante.
— Rejeitada? A minha irmãzinha? — disse ele, aproximando-se e cruzando os braços com confiança. — Claro que não. Eles é que não sabem no que se estão a meter.
Dei uma gargalhada ao ver a pose exagerada dele.
— Achas mesmo que consegues lidar com aquilo? — disse, mostrando-lhe uma imagem dos militares no site. — Sem hipótese, mano.
— É claro que sim. — respondeu ele, encolhendo os ombros, mas com um brilho competitivo no olhar. — Nunca ouviste dizer que: tamanho não é documento?
— Ah é? Então também já ouviste: quem muito fala, pouco faz. — disse, levantando uma sobrancelha.
— Vais correr ou não? — perguntou, já impaciente, caminhando para a porta.
— Vou, só preciso de me preparar. — disse, levantando-me da cadeira e indo até ao armário.
— Vejo-te lá fora em cinco minutos. — afirmou Sérgio olhando para o pequeno relógio de pulso e encostando-se à porta.
— Achas mesmo que me arranjo em cinco minutos? — disse, soltando um suspiro exagerado.
— Jully, achas que na academia vais ter meia hora para isso? — perguntou, levantando uma sobrancelha. — Agora são quatro minutos. Despacha-te.
Vesti um colan cinza que estava dobrado dentro do armário, uma camisa preta que se ajustava ao meu corpo e, para os pés, escolhi uns ténis brancos com pequenas listas pretas, leves e confortáveis.
Prendi o cabelo num rabo-de-cavalo despojado, deixando alguns fios loiros soltos à volta do rosto.
Ajustei o pequeno relógio no pulso e saí do quarto, deixando o telemóvel em cima da secretária.
Quando cheguei à sala, vi o Simão sentado no sofá a ver um jogo da Copa. Impressionante como aquele homem não perde nenhum.
Estava vestido com um calção desportivo preto e uma camisa amarela vibrante, com a gola verde e o símbolo do Brasil no peito.
— Ah, olha para isto! Claramente foi falta, mãe.
— Filho, se fosse falta o árbitro assinalava. — respondeu a Olivia, distraída, sem tirar os olhos do telemóvel.
— Tu não entendes, mãe. — disse ele, abanando a cabeça.
Sorri para os dois e avisei que ia correr um pouco com o Sérgio.
Quando cheguei à porta, não o vi de imediato. Os meus olhos percorreram a rua de um lado ao outro, até que, com mais atenção, percebi que ele já tinha começado sem mim.
Suspirei.
Eu devo ter-me atrasado.
Sem perder tempo, comecei a correr na direção dele.
Aos poucos fui aumentando o ritmo no máximo que pude. A cada passo, o meu peito ficava mais ofegante, os pulmões a trabalhar cada vez mais rápido. A brisa batia contra o meu corpo e, sem me aperceber, senti uma gota de suor escorrer pelo peito.
Finalmente consegui alcançar o Sérgio.
Mas, claro assim que ele percebeu que eu estava ao lado dele, aumentou a velocidade só para me testar.
Revirei os olhos.
Ele ainda acha que, só porque fez atletismo, me vai fazer desistir.
O meu relógio acendeu e marcou quatro quilómetros a verde.
— Já estás cansada? — perguntou o Sérgio, virando-se para mim enquanto corria de costas, com um sorriso provocador.
— Sim. — disse, ainda ofegante, mas sem parar. — Podemos parar por um minuto?
— Só quando chegarmos aos sete quilómetros. — respondeu, olhando para o relógio. — Corre mais rápido.
Engoli em seco, cansada, e aumentei a velocidade.
Afinal se eu quiser entrar, tenho mesmo de estar pronta.
A rua estava silenciosa. Quase não havia pessoas, já era final da tarde, e a maioria devia estar em casa.
Minutos depois, parámos ao chegar ao parque.
Sentei-me num banco, tentando recuperar o fôlego, enquanto o sol se punha lentamente à nossa frente. O Sérgio, por outro lado, não parecia cansado ou, pelo menos, se estava, não o demonstrava.
Depois de exatamente quatro minutos, fizemos algumas flexões e corridas curtas.
Ele realmente estava em forma. O ginásio onde ele vai todos os dias afinal faz mesmo efeito.
O tempo passou tão rápido que nem demos conta de que já estava a escurecer. Então, voltámos para casa.
Sendo sincera, não faço esta candidatura apenas por mim mas sim por ele. Desde pequena, sempre planeei seguir os seus passos. Quero honrá-lo desta forma.
E, pela primeira vez, percebi que isto tinha deixado de ser um plano e passado a ser real.