Prólogo
Airotsi a criação A Voz de Ayra
*Essas são as memórias de Ayra, filha de Avuhk e Eloá, Rainha dos Iluim ao lado de Arenon, sobre a origem de tudo — o relato da criação e a rebelião de Saruziel e Skarlith, antes mesmo da fundação do mundo de Anera.*
--- O Início de Tudo
Eu lembro do tempo antes do tempo. Quando tudo era silêncio e vazio. Não havia forma, luz ou cor. Havia apenas Avuhk, o primeiro pensamento, a primeira vontade.
Mas mesmo em sua grandeza, Avuhk estava em conflito. Havia algo sombrio nascido dele, um abismo que tomou consciência e forma. Esse abismo chamou-se Orgen — uma força faminta, insaciável, que desejava tomar tudo para si.
Por muito tempo, Avuhk lutou sozinho. Mas até mesmo ele, o Criador, sabia que não poderia vencer essa batalha sozinho. E então… dele nasceu a esperança.
Eloá, a essência da criação, a mãe de tudo que viria a existir. Ela era luz onde havia escuridão, equilíbrio onde havia caos. E juntos, Avuhk e Eloá lutaram contra Orgen em batalhas que estremeceram as dimensões.
Eu não estava lá ainda. Mas eu carrego essa memória como se fosse minha — porque o eco dessa guerra ainda pulsa nas profundezas da criação. E houve um tempo em que achei que nunca venceríamos.
Mas houve um momento… um momento em que Avuhk e Eloá perceberam que apenas juntos poderiam conter Orgen. Foi quando uniram todo o poder que tinham — e, num último golpe, selaram Orgen no abismo de onde havia surgido.
Paz. Pela primeira vez, a criação respirou em paz.
Foi então que começaram a moldar o mundo. Das suas essências nasceram os primeiros elementos: Raio, Luz, Ar, Água, Fogo e Terra. E com eles, criaram a expansão dimensional, um espaço onde a vida poderia florescer.
Foi nesse tempo que Avuhk e Eloá se uniram não só como criadores, mas como casal. E de sua união… viemos nós. Os Iluim.
Eu lembro da primeira vez que senti o mundo — a energia pulsando ao meu redor, a luz da criação tocando meu espírito. Eu sabia quem eu era. Eu era filha deles. Eu era parte do que havia sido construído. E junto aos meus irmãos, fomos chamados para sermos regentes da criação, moldadores das forças elementares.
Eu escolhi o roxo, a cor do Raio. E com isso, tornei-me uma com esse elemento — a força da mudança, a criação e a destruição entrelaçadas. Mas não escolhi essa cor sozinha.
Ao meu lado, sempre esteve Arenon.
Ele era… é… mais do que meu parceiro. Ele é minha outra metade, a tempestade ao meu relâmpago, a força que nunca me deixa cair. Juntos, temos domínio do Raio, e por ele, tocamos todos os outros elementos — mas sempre através da nossa cor, da nossa essência.
Meus irmãos também escolheram suas cores e essências:
Nizar e Frésia, com o laranja do Ar — livres como o vento, sempre em movimento. Adnan e Malva, com o vermelho do Fogo — intensos, apaixonados, como uma chama que nunca cessa. Kalim e Laylah, com o verde da Terra — firmes, pacientes, cultivadores da vida. Daysan e Dália, com o azul da Água — profundos e serenos, mas tão imprevisíveis quanto o mar. Saruziel e Skarlith, com o amarelo da Luz — brilhantes… mas distantes, como estrelas inalcançáveis.
E havia… a cor preta.
Nenhum de nós ousou tocá-la. Sabíamos o que ela representava — o eco do abismo onde Orgen ainda dorme. Sabíamos que aquilo não era apenas uma cor… era uma ameaça.
Com o tempo, criamos mais. Moldamos os arquétipos da criação, construímos palácios e monumentos que levavam nossos nomes. E então vieram os Tabulim — Ogam, Ahlarum e Aglavam — a segunda linhagem de filhos de Avuhk e Eloá, nossos irmãos de essência diferente.
Depois vieram os Elequim — a terceira linhagem dos filhos de Avuhk e Eloá, que posteriormente se tornaram as raças imortais: Magnis, Nifres, Elfos, Eltris, Folens, Daemolis… E finalmente, os Anerim, a quarta linhagem, que habitaram a dimensão central.
Era um mundo perfeito. Um mundo de ordem, onde cada um tinha seu papel. Eu acreditei nessa paz… acreditei na beleza do que havíamos construído.
Mas eu sabia — no fundo, eu sempre soube — que o abismo nunca fica em silêncio por muito tempo.
E às vezes, mesmo nos salões dourados do nosso palácio… quando a noite cai e tudo se aquieta… eu ainda ouço os sussurros.
Eu sei que Orgen ainda espera.
E se ele voltar… eu estarei pronta.
