Terraço/48h
Capítulo 01
Terraço
Era noite.
No terraço de um prédio de três andares, uma mulher alinhou-se com o rifle silenciado em mãos. Uma brisa fria tocava a pele, trazendo um cheiro de asfalto seco no ar. Contornou seus traços delicados, esvoaçando fios ondulados castanhos como os olhos que não pediam permissão.
A cidade respirava ao longe: buzinas, motores, vozes.
Aqui em cima... silêncio.
Perfeito.
Ela passou um lenço no cano da arma e guardou. Puxou o capuz do moletom cinza escuro, cobrindo os cabelos presos em um coque baixo e arrumou a gola, ocultando a cicatriz antiga na clavícula. Rumou para o guarda-corpo, apoiou o rifle no concreto frio, puxou as mangas até alinharem. Lá embaixo, um homem caminhava sozinho pela calçada, distraído demais para alguém naquele horário.
Sem pressa.
Ela enquadrou o alvo. Ajustou o foco por milímetros. O retículo travou no centro do peito dele.
Respiração estável.
Dedo no gatilho.
Agora.
—
Ele ergueu a cabeça, olhando direto para a lente. O indicador dela estremeceu, quase finalizando o movimento. Mas não.
...Como?
Não era possível.
Observou com mais atenção a imagem dele através do vidro: traços finos, cabelo escuro desarrumado. Ele ergueu a mão à altura do peito e fez um gesto simples.
Não.
Calmo. Como alguém que chegou cedo demais a um lugar marcado.
O olho dela se afastou da luneta, a testa franzida.
“Mas que...?”
Calibrou a mira outra vez, e ele ainda lá: mesmo lugar, mesmo olhar. A cabeça inclinada, as mãos espalmadas ao lado do tronco. Ela soltou o ar pela boca.
Preciso entender...
Recuou do guarda-corpo, guardou o rifle e fechou o case com um estalo seco. Apalpou as laterais da cintura, checando os cabos da pistola e da faca sob o tecido.
“Ótimo. Tudo aqui.” Assentiu para si mesma. “Ainda dá pra fechar isso.”
Disparou pela escadaria interna, as solas das botas estalando no chão de pedra. Ao ganhar a calçada, manteve o tronco inclinado e os olhos atentos.
O homem não se moveu: mãos nos bolsos, ombros relaxados, nenhum sinal de alerta. Alto, presença contida.
A atiradora puxou a arma do coldre e empunhou-a na direção dele enquanto se aproximava.
“Levanta as mãos!” O tom não admitia réplicas. “Agora!”
Ele deixou que os braços flutuassem para o alto, as palmas abertas.
Ela focou o rosto do homem quando a distância caiu para três metros, e deparou-se com olhos verdes que atravessavam as coisas sem tocá-las.
“Como você sabia?!” Não desalinhou o cano da testa dele.
Ele abriu um sorriso deslocado.
“É difícil explicar. Você não acreditaria.”
“Tenta! Talvez eu te surpreenda.”
O suspiro dele foi curto.
E por um instante, teve a impressão de já ter dito o que diria.
“Às vezes eu vejo umas coisas antes de acontecerem.”
Ela deu uma risada seca.
“Peraí. Você tá dizendo...” Estreitou as pálpebras. “Que vê o futuro?”
Ele balançou a cabeça, divertindo-se com a reação.
“Viu só?”
Ela recuou um passo, sem tirá-lo da mira.
“Então prova!” Ergueu o queixo. “Quero ver.”
O vidente dobrou o cotovelo, lento e deliberado, e coçou a nuca.
“Sabe, isso não funciona quando eu quero. Na maioria das vezes, só vem.”
A mulher aguardou, impassível.
“Ah... tem uma coisa.” Ele inclinou a cabeça. “Um dia desses você vai me beijar.”
O pescoço dela se retraiu.
“O quê?! E por que eu te beijaria?”
“Eu só vi isso. Não sei do resto.” Olhou para as próprias mãos e voltou para ela. “Posso abaixar os braços? É que meus ombros já estão meio que queimando, sabe?”
Ela enrijeceu o maxilar. Afastou-se três passos.
“Devagar.”
Ele obedeceu, retornando as mãos aos bolsos.
“Obrigado.”
A pistola desceu um centímetro.
“Você tem dois dias, e vai continuar sendo alvo.” A voz menos cortante, mas ainda firme. “Se tentar fugir... não chega lá.”
“Ok.” Assentiu.
A atiradora memorizou os traços dele por um último segundo antes de recuar alguns metros, ainda de frente para ele. Deixou o punho armado cair ao lado da perna.
“Dois dias.”
“Certo.”
Ela deu as costas e andou até sumir nas sombras.
O vidente continuou ali, observando o lugar onde ela esteve. O semblante vazio, sem surpresa.
Como se tudo aquilo já tivesse acontecido.
48h
A vibração dos veículos chegava pelo piso. Lia percorreu o corredor com o peso do case nos ombros, as paredes cor de areia banhadas pelo brilho fraco de uma lâmpada amarela no teto. Levou a mão à maçaneta, o metal frio absorvendo o calor da palma. Girou-a, empurrou a porta e trancou. Os ombros, sempre tensos lá fora, enfim relaxaram.
O case foi para o armário com o cuidado de quem guarda algo insubstituível, a única coisa naquele quarto com função clara. O resto do apartamento existia em torno dela como cenário alugado: paredes brancas, móveis simples distribuídos de forma prática. Tudo funcional, sem rastro.
Desfez o coque, jogou-se no sofá e inspirou fundo, puxando o aroma de madeira com notas de tecido limpo. As pálpebras pesaram.
Que droga foi aquilo no terraço?
Permaneceu ali, perdida. No teto, uma mancha de umidade que não parecia um rosto, mas fez lembrar de um. Um choque percorreu a nuca.
E por um instante, teve a impressão de que não estava no mesmo lugar.
Levantou-se e foi direto ao banheiro. Despiu o moletom, as botas e todo o resto da armadura cotidiana. Aguardou a água aquecer sob o chuveiro, o calor das gotas reconfortando a pele e lavando o frio que não estava do lado de fora.
Ainda sentia as felpas da toalha úmida no ombro quando o celular zumbiu no quarto. Caminhou, pegou e atendeu.
“Fale.”
Voz grave do outro lado.
“O corte foi executado?”
“Não houve janela.”
Meio segundo.
“Improvisou?”
“Avaliei.”
“E decidiu não agir.”
“Decidi não errar.”
Um segundo.
“Hesitação é falha.”
“Execução cega também.” As unhas cravaram-se na toalha, amarrotando o tecido.
Silêncio total.
“Aguarde novas instruções.”
A ligação caiu.
Lia enrijeceu o maxilar, batendo o telefone na mesa. Foi até o espelho e mirou-se no reflexo, os lábios repuxados.
“Você ainda atira palavras tão bem quanto balas.” Um sopro de riso. “Bom trabalho, Lia Morrow.”
Continuou ali até ouvir alguém rindo lá fora. Quando foi à janela e viu que um casal passeava na rua, deteve a atenção neles pelo tempo que levou para inflar os pulmões e esvaziá-los devagar. Depois cortou a própria vista, virando-se para a escuridão do quarto.
Os risos ficaram para trás.
Dia seguinte, lanchonete no centro da cidade. Através da janela, carros deslocavam-se de um lado para o outro, reluzindo sob o brilho do sol da tarde. Lá dentro, notas aconchegantes de café recém-passado mesclavam-se ao cheiro de gordura quente e hambúrguer na chapa.
Com os cotovelos apoiados sobre a mesa de fórmica azul, Yuri girava a xícara entre os dedos, o vapor subindo em espirais irregulares. Um jazz lento, quase repetitivo tocava nos fones de ouvido, preenchendo o espaço entre um pensamento e outro.
Você vai querer sem açúcar?
A frase pairou na mente dele. A garçonete se aproximou.
“Você vai querer—”
“Sem açúcar.”
Ela hesitou.
“...sem açúcar?”
Yuri assentiu, ainda olhando para a xícara. Quando a moça se afastou, suspirou fundo.
Só repetição... como sempre.
Bebeu um gole.
“Hm.” Inclinou a cabeça. “Pelo menos tá quente.”
Ao terminar, dirigiu-se ao caixa, pagou a conta e saiu. Enquanto caminhava pela calçada com as mãos nos bolsos do sobretudo, o som da música pendeu para um lado: os graves da esquerda se afrouxaram, e o ruído da rua vazou para o tímpano. Parou, retirou o aparelho e inspecionou.
“Tsc.” Pôs de volta, retornou as mãos aos bolsos e seguiu caminho.
Ao chegar em casa, trancou a porta e foi para o quarto, um lugar que estava sempre a um passo da ordem perfeita, mas nunca chegava lá. Janelas fechadas, o ar mais quente e abafado do que lá fora.
O fone esquerdo não fechava direito. Yuri girou a pequena chave de fenda entre os dedos e voltou ao problema pela terceira vez. Deveria ser um conserto simples, mas não estava sendo. Largou na mesa, olhou por um segundo e pegou de volta.
Do outro lado do quarto, a caixa de som jogava algo eletrônico e matemático no ar, em volume alto o suficiente para ocupar o espaço, mas baixo demais para ocupar a cabeça. Ele sabia disso, e deixou assim mesmo.
A visão tinha chegado há três dias, sem muita nitidez. Uma mulher, proximidade, o calor do rosto irradiando no dele. E um beijo que ele sentiu tão bem que parecia reconhecer.
A chaleira ferveu sozinha atrás dele por um tempo. Visões assim, pequenas e pessoais, eram as mais difíceis. Não havia perigo claro, e nenhuma urgência.
Qual é a importância disso?
Apagou o fogo, fez o chá e tentou não pensar mais nesse assunto.
Não deu certo.
O aparelho fechou com um clique plástico. Encaixou no ouvido, bateu com o indicador, segurou e testou. Funcionou. Depositou-o na bancada com mais cuidado do que o necessário para um fone velho. Os olhos buscaram o teto.
“Hoje foi diferente,” disse para ninguém.
Não se tratava do rifle, nem do ultimato, mas da forma como ela tinha olhado para ele depois. O canto da boca subiu de leve.
“Como se eu fosse um problema que não estava no manual.” Um riso curto. “Dois dias... Poderia ser pior.”
A música parou. O álbum tinha acabado. Yuri não foi apertar o play: ficou no silêncio por um tempo que não mediu, os olhos em algum ponto entre a parede e lugar nenhum. Na prateleira à esquerda, entre um manual técnico e uma caixa de ferramentas, havia uma foto pequena com a moldura torta. Ele só olhou, sem endireitar.
Levantou, foi até a janela e abriu uma fresta por onde o ar da noite entrou frio, com cheiro de sereno urbano. Lá fora, a cidade ainda respirava. Ficou ali um segundo a mais.
Fechou.
Lia terminava de vestir seu moletom, dessa vez um bege escuro. O sol poente tingia o céu do horizonte com um laranja melancólico, a luz morrendo no branco das paredes.
Terminou de amarrar o coque, moveu-se até o peitoril de ferro e, num gesto delicado, espalhou algumas sementes. Recolheu a faca no criado-mudo, guardou na bainha e rumou até a porta.
Parou, olhou para a janela e notou que um pardal já estava ali, alheio ao perigo que ela representava. O ar fugiu pelas narinas.
“Não é só você.”
Saiu.
Yuri estava de pé em frente à mesa, arrematando o último gole do café preparado pela manhã. Foi até o cabideiro, pegou o mesmo sobretudo azul-escuro e vestiu. Verificou o horário no celular.
“É... Acho que tá na hora.”
Encaixou os fones, escolhendo um rock instrumental. Fechou os olhos marcados por olheiras e balançou a cabeça, aguardando os acordes se assentarem. Então caminhou até a porta, indo ao encontro daquilo que já esperava.
E do resto.
Lia avançava pela rua com uma cadência técnica: passos largos, velozes, quase inaudíveis. As pupilas dilatadas mapeavam os arredores.
Yuri caminhava com as mãos nos bolsos, sem ligar para o tempo. Parou numa lanchonete, comprou uma lata de refrigerante e saiu bebendo. Distraído. Ou não.
O peito disparou quando Lia o viu. Escondeu-se atrás de um carro, espreitando por detrás da lataria.
Ele dobrou a esquina à esquerda.
Ela foi atrás.









Um otimo primeiro capítulo. Me deixou bem curiosa com o que vai acontecer.