Chapter1
Ecos do Passado
O despertador rugiu cortando o silêncio do quarto, mas Lucas já estava acordado havia muito tempo. Sentado na beirada da cama, imóvel, olhando fixamente para o breu.
O corpo doía de um jeito difuso, um cansaço que não passava, como se ele tivesse dormido a noite inteira com um peso no peito. Respirou fundo, devagar, tentando controlar o coração descompassado. Tentando não tremer antes mesmo de o dia começar.
O lençol grudava na pele, úmido e frio - resultado de outro sono cheio de pesadelos que ele tentava esquecer assim que abria os olhos. O quarto cheirava a mofo e suor velho, um cheiro cimentado nas paredes descascadas.
Na cabeça dele, o mecanismo começou a rodar. Algo que ele mesmo inventara para sobreviver.
A trava.
Trincou os maxilares. Fechou os olhos por um segundo e imaginou uma porta de ferro se fechando no fundo da mente, separando o que sentia do que mostrava para o mundo. Não curava a dor, mas fazia ela ficar presa lá atrás, enquanto ele seguia em frente.
- Lucas! - A voz de Sônia explodiu de baixo, áspera, subindo pelas escadas. - Levanta dessa cama agora! Ou eu subo aí e arrasto você pelos cabelos até lá embaixo!
Ele contou mentalmente. Um. Dois. Três. Era o único jeito de não se assustar mais do que já estava.
Ela só grita porque a vida dela é ruim e precisa colocar a raiva em alguém. Hoje sou eu.
- Já vou - murmurou. A voz saiu rouca, mas ele tentou manter firme.
- FALA ALTO, CARALHO! FALA COMO GENTE! - berrou ela, seguida do estrondo de uma panela batendo na pia.
Lucas abriu os olhos. O quarto pareceu menor. Desce. Aguenta. Não olha muito. Não fala muito. Aí passa rápido.
Sentou-se direito. Os pés tocaram o chão frio. Havia só o peso de ser ele mesmo naquela manhã cinzenta.
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A cozinha tinha cheiro de óleo queimado e café requentado. Sônia mexia a frigideira com golpes secos, como se a culpa de todos os males do mundo estivesse ali, no aço que ela riscava com a espátula.
Lucas parou na porta, braços rígidos ao lado do corpo. Jorge estava curvado sobre a mesa, os ombros caídos, uma sombra ocupando espaço, tentando desaparecer dentro da própria camisa surrada. Ele não disse nada. Não se mexia.
Se eu ficar igual a ele, talvez ela nem veja que eu estou aqui, pensou Lucas, com a garganta apertada.
Caminhou até a mesa e sentou na beirada da cadeira, corpo rígido, postura de quem espera um golpe.
- Bom dia - disse. Palavras pequenas, só para cumprir o ritual.
Sônia virou-se bruscamente, os olhos injetados buscando o rosto dele.
- Bom dia? Bom dia o caralho! - gritou. - Eu passo a noite inteira em claro fazendo conta, vendo o dinheiro acabar antes do mês, me matando de trabalhar pra vocês, e você me vem com essa merda de "bom dia" com essa cara de sonso?
Lucas abaixou os olhos para as mãos no colo. Eu só disse bom dia. O que eu fiz agora?
Ela virou-se para o marido do nada, apontando o dedo na cara dele.
- E você! O que tá olhando, hein? Cala a boca! Fica aí calado me olhando com essa cara de coitado! Os dois são um peso morto! Um me dá desgosto, o outro me dá nojo! Não servem pra nada!
Jorge só baixou mais a cabeça, encolhendo-se, o corpo cada vez menor. Acostumado. Domesticado.
Será que um dia eu vou ficar igual ele?, pensou Lucas. Não falando, não olhando, só levando tudo calado até morrer por dentro?
Pegou um pedaço de pão duro da cesta. Mastigou devagar, só para parecer ocupado. Não sentiu gosto. Só a textura seca arranhando a garganta.
- A camisa... - disse, pausadamente. - A mancha de ontem não saiu. Eu tentei lavar, juro que tentei, mas não saiu.
- AH, É?! - Os olhos dela brilharam de ódio. - Agora é minha culpa?! Você faz de propósito! Você suja tudo pra me provocar! Você é igual a ele! Só serve pra me dar dor de cabeça!
O ar da cozinha mudou de repente. No meio do barulho, um cheiro veio forte: talco barato, perfume velho, suor. Gelou a espinha de Lucas.
Era o cheiro que aparecia nos pesadelos.
Flash.
Nove anos de idade. Quarto escuro. A luz do corredor fazendo uma fresta fraca na porta. Uma mão grande, unhas pintadas de vermelho descascando, agarrando seu pulso.
"Vem cá, meu benzinho... fica quietinho... é nosso segredinho... ninguém pode saber..."
O estômago de Lucas revirou. Um gosto ácido subiu pela garganta. Ele apertou os olhos, tentando mandar a imagem embora.
A voz da mãe continuava batendo nos ouvidos, misturada com a voz daquela mulher antiga. Tudo parecia a mesma coisa: barulho, gritos, ele pequeno, sozinho, tendo que aguentar tudo calado.
Ele olhou para ela, vermelha, gritando, e pela primeira vez sentiu uma dor diferente do medo de sempre:
Por que tudo tem que machucar tanto? Se eu pudesse fazer tudo ficar quieto, eu faria qualquer coisa.
Era um pensamento de criança cansada. Não era maldade - era só desespero.
- Posso ir? - A voz saiu baixa, trêmula.
Sônia parou. Abriu a boca para gritar de novo, mas congelou no meio do movimento. Olhou para o rosto dele, os olhos cheios d'água que ele segurava com toda a força.
Por um segundo, ela parou. Não por pena - porque ele parecia tão quebrado que não valia mais a pena bater no mesmo lugar.
- Some da minha frente. Agora. - A voz saiu ríspida, mas sem a força de antes. - Antes que eu perca a cabeça de vez.
Lucas se levantou devagar. Passou por ela sem tocar, com medo de que qualquer contato a fizesse voltar a gritar. Abriu a porta. A batida foi seca, definitiva.
Ele saiu para o ar frio, pensando: Ela não vê. Eu tento fazer tudo certo, e ela só vê o que está errado. Será que o problema sou eu?
E lá no fundo, uma voz nova sussurrou baixinho: Não importa. Ninguém vai ver mesmo.
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O pátio da escola fervia como um caldeirão prestes a explodir. Cheiro de mato cortado e cigarro apagado na grama. O barulho era ensurdecedor, mas para Lucas parecia distante, como se ele estivesse dentro de um vidro ouvindo o mundo lá fora.
Ele caminhava com a mochila pesada, olhando para os próprios pés, tentando ser invisível.
- Ó o movimento! Ó o fantasma! - A voz de Bruno cortou o ar.
Lucas tentou mudar de rumo. Inútil. Eles se moveram rápido, fechando o cerco.
O impacto veio sem aviso. Um peito duro chocou-se contra o dele, jogando-o para trás. As costas bateram no muro de tijolos, o ar escapando dos pulmões. Sentiu o gosto metálico do sangue na boca, de onde mordera a língua.
- Onde pensa que vai, franguinho? - Caio apareceu na frente, bloqueando o sol.
Lucas ergueu o rosto devagar, a cabeça zumbindo.
- Deixa eu passar... - disse. - Eu não fiz nada...
Caio franziu a testa. A falta de reação o incomodava. Ele esperava choro, esperava pânico. E via só alguém sofrendo calado - o que o irritava ainda mais.
- Ah, agora tá pedindo por favor? - Caio invadiu seu espaço, hálito quente de chiclete barato. - O que tem aí nessa mochila? Remédio de doido? Vamos abrir pra geral ver o que o esquisito esconde.
- Não é nada... só livro... - Lucas manteve o contato visual, os olhos cheios de lágrimas que lutava para segurar.
Por que todo mundo quer me fazer mal? Eu sou gente. Por que vocês não veem isso?
- Então abre essa porra! - Caio agarrou a alça da mochila, puxando com força.
- Eu não fiz nada para vocês! - Lucas disse, mais alto, segurando a mochila com toda a força. - Deixa eu em paz!
- Esse é o problema! - Caio rosnou, irritado com aquela resistência muda. - Você fica aí com essa cara de coitado, achando que é melhor que todo mundo!
E desferiu o tapa.
PLAF.
O som estalou como um chicote. A cabeça de Lucas virou bruscamente, o ouvido zumbindo, a pele queimando.
Ele não levou a mão ao rosto. Não piscou rápido demais. Ficou parado, sentindo o calor subir pela bochecha - a vergonha queimando mais forte que a dor.
Virou a cabeça de volta devagar, os olhos cheios d'água, mordendo o lábio até sentir o gosto de sangue de novo. Olhou para Caio, para o sorriso feio de quem se diverte com a dor alheia.
E por um segundo, rápido como um raio, um pensamento estranho passou: Ele é grande, mas é mole. Se eu batesse primeiro... será que doía nele também?
A culpa veio logo em seguida. Ele abaixou os olhos, tremendo. Não. Eu não sou assim. Eu só queria que eles fossem embora.
- Vamos embora, mano... - Tiago sussurrou atrás, recuando um passo. - Esse cara é esquisito pra caralho. Não fala nada, não faz nada. Não vale a pena.
O grupo sentiu o clima mudar. Era a sensação de bater numa parede - cansativo, sem graça. Se afastaram aos poucos, perdendo o interesse pela presa que não sangra, não grita, não pede piedade.
Lucas ficou sozinho, encostado no muro. Sentiu o ardor latejar no rosto, o coração batendo forte.
E por um segundo, a trava falhou. Sentiu uma fisgada atrás dos olhos. Vontade de sentar no chão e chorar até secar.
Por que comigo? Por que ninguém me ajuda?
Mas o medo de chorar na rua, de alguém ver, o fez se recompor. Apertou os punhos, respirou fundo, empurrou a dor para o fundo - um lugar onde nem ele mesmo conseguia mais tocar.
Endireitou a postura, devagar, como um robô ligando sozinho. Ajustou a mochila no ombro.
Chorar não resolve. Gritar não resolve. Só dói mais.
Ele ainda era humano. Tinha certeza. Mas já estava começando a entender, de um jeito duro, que a sua fraqueza era o que fazia eles baterem mais forte.
E estava começando a achar, sem querer, que talvez valesse a pena esconder tudo isso para sempre.
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O quarto estava em escuridão total. A única luz vinha da tela do notebook, um brilho azulado que banhava o rosto de Lucas, deixando-o pálido.
Ele abriu o caderno de capa dura, o couro desgastado nas bordas onde os dedos tocavam com frequência. A caneta estava cheia.
Escreveu - não com caligrafia bonita, mas com traços fortes que marcavam o papel até furar a folha de baixo. Era o único lugar onde podia falar.
Mãe:
Grita muito. Diz que odeia tudo, odeia a vida, odeia nós.
Não vê o que eu faço de bom. Só vê o que está errado.
Medo de chegar perto. Do jeito que ela olha, como se eu fosse lixo.
Pai:
Não fala. Não olha. Não faz nada.
Deixa ela gritar. Deixa ela bater. Deixa tudo acontecer.
Medo de ficar igual ele. De um dia também parar de existir.
Caio e a Gangue:
São grandes, são muitos. Gostam de ver sofrer.
Ficam bravos quando eu não reajo. Querem me ver pedir.
Medo de cada tapa. De cada vez que me humilham na frente de todo mundo.
Parou por um momento. A caneta pairou sobre o papel, a ponta cheia de tinta prestes a cair.
Pensou na manhã. No cheiro que voltou. No tapa. No desejo de fazer tudo parar.
Virou a página, escrevendo para si mesmo, com letras miúdas:
Sobre Mim:
Eu sinto tudo. Dói tudo. E parece que ninguém mais sente nada.
Hoje eu pensei, por um segundo, que se eu fosse duro, talvez doesse menos.
Eu tenho medo dos meus pensamentos. Às vezes queria bater também. Mas eu não sou assim. Ou será que sou?
Pergunta: o que é pior? Levar porrada e continuar sendo bom... ou aprender a bater de volta para parar de doer?
Uma lágrima caiu, escura no reflexo azul da tela. Pingou bem em cima da última palavra. Dói.
Lucas ficou olhando a mancha se espalhar, borrando a tinta, transformando a palavra em algo informe.
- Por que você caiu? - sussurrou para o nada, tocando o papel molhado. - Eu não pedi para você vir. Eu tento segurar. Por que insiste em me lembrar que sou fraco? Que sou só uma criança?
Foi só uma gota. Uma única gota quente em meio ao silêncio que ele tentava construir ao redor do coração. Veio, molhou, secou - deixando só o rastro apagado de que, um dia, talvez, houvesse ali algo que ainda sentia.
Fechou o caderno com um baque seco. Ninguém ouviu. Ninguém ligou.
Deitou-se na cama, as mãos cruzadas sobre o peito, olhando para a escuridão.
O pai era sombra. A mãe era barulho. Os valentões eram dor.
Não havia mais ninguém para impressionar. Não havia mais ninguém para protegê-lo. E ninguém para atrapalhar.
Um sorriso apareceu devagar nos lábios pálidos - fraco, distorcido. Não era felicidade. Era só o cansaço de quem entendeu, enfim, que estava sozinho.
O silêncio o envolveu, pesado como um abraço que não machuca.
E naquela noite, Lucas dormiu. Não mais como uma criança que acredita em justiça. Mas como alguém que acabou de aprender a lição mais dura:
Ninguém vai te salvar. Você tem que aprender a se salvar sozinho, de qualquer jeito que der.








