Anatomia Da Ruína por Lady Vellichor em Inkitt
Personalizar legibilidade
Aa

Anatomia da Ruína

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Anos atrás, Thomas Barrington se apaixonou por Lívia Dias porque ela foi a única pessoa, em uma sala cheia de advogados, que se recusou a ceder diante dele. Agora, casados e cercados por uma vida que parece perfeita, a firmeza que o fascinou nela tornou-se justamente aquilo que ele tenta conter. Thomas ama Lívia com intensidade, mas aprendeu a amar como aprendeu tudo o mais: oferecendo segurança, luxo e desejo em troca de ordem. Pouco a pouco, ela abandonou a carreira, silenciou as próprias ambições e se transformou na esposa impecável que ele se orgulha de exibir. Até que Victor Santiago, o novo sócio de Thomas, a enxerga para além do vestido, do sobrenome e da imagem cuidadosamente construída. Ao reconhecer a inteligência que Lívia quase havia esquecido possuir, Victor não cria uma fissura no casamento, apenas ilumina aquela que já estava ali. Entre o nascimento de uma paixão arrebatadora e a lenta desintegração de um casamento, essa é uma história sobre amor, poder, desejo, dependência e reconstrução. Porque o mais difícil não é descobrir quando o amor começou a ferir, mas decidir se é possível salvá-lo sem desaparecer dentro dele.

Status
Em Andamento
Capítulos
2
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1 — O Peso do Que se Exibe

O restaurante se chamava Aethelred.

Lívia achava o nome pretensioso demais. Era uma palavra arcaica, feita de consoantes pesadas, que o maître pronunciava com a solenidade de quem recita um versículo. Uma refeição custava o equivalente ao aluguel de um apartamento no East End e consistia em pedaços de carne vermelha sobre poças de molho reduzido, ladeados por legumes dispostos na porcelana branca com a precisão de evidências catalogadas numa cena de crime. Tudo era calculado para impressionar.

Tudo era, fundamentalmente, uma performance.

Mas Thomas adorava o Aethelred.

Adorava a reverência antecipada do maître, que o chamava pelo sobrenome antes mesmo que ele atravessasse o hall de entrada. Adorava a adega subterrânea, que cheirava a carvalho e umidade e, sob a luz baixa, lembrava uma pequena capela gótica onde homens ricos se prostravam diante de garrafas empoeiradas. Adorava a acústica do salão principal, projetada para manter as conversas contidas e civilizadas, como todo o resto naquele universo de toalhas engomadas, cristais finos e discrição cara.

Adorava, acima de qualquer outra coisa, o modo como a luz difusa dos lustres incidia sobre a pele exposta pelo vestido vermelho que ela usava.

O tecido era uma seda pesada, esculpida contra o corpo de Lívia com uma precisão quase anatômica. Abraçava a curva dos quadris e comprimia sua respiração apenas o suficiente para manter a postura ereta. Era um vestido deslumbrante — ela sabia disso; Thomas sabia disso; qualquer pessoa no salão que a cruzasse com o olhar saberia.

Mas não fora escolhido por ela.

O decote que emoldurava a curvatura farta dos seios e a fenda lateral, aberta o bastante para revelar a face interna de uma das coxas a cada passo, constituíam uma mensagem endereçada ao mundo. Ela era a peça mais valiosa da galeria particular de Thomas Barrington, o homem sentado à sua esquerda que, antes de se acomodar, puxou os punhos da camisa para fora do paletó num gesto cirúrgico de quem recalibra a própria compostura antes de uma sessão no tribunal.

Lívia conhecia de cor aquele movimento. Era o modo silencioso pelo qual ele reafirmava o controle sobre o espaço onde entrava. O puxão seco no linho, o ajuste exato das abotoaduras de prata — herança do pai, um advogado renomado que acreditava que a desordem no vestuário era o primeiro sintoma da desordem moral.

Thomas Edward Barrington não entrava em lugar algum sem antes reorganizar a arquitetura de si mesmo.

A mesa estava posta com uma simetria irretocável: toalha espessa, taças alinhadas e flores baixas o bastante para não obstruírem a visão. Do outro lado, a cadeira de Victor Santiago, ainda vazia, aguardava com a indiferença elegante de quem ainda não sabia o que estava prestes a testemunhar.

— Nervoso? — perguntou Lívia.

A voz saiu um pouco mais fina do que pretendia e se perdeu no rumor baixo do salão. Ela passou o polegar pela borda do cardápio fechado, contendo o impulso de reformulá-la. Havia muito tempo que não tentava atravessar a superfície polida do marido para alcançar o homem que, no início do namoro, respondia a perguntas assim sem transformá-las em inconvenientes.

Ele curvou os lábios. A expressão era simétrica, produzida com a fluidez de anos de prática — calorosa para quem o observasse de fora, impenetrável para quem o conhecesse pelo avesso.

— Ansioso, meu bem. — O sotaque britânico cortou o ar com elegância afiada. — Victor é um dos litigantes mais letais que já vi atuar. Trazê-lo como sócio é a peça que faltava no tabuleiro.

— Ele parece gentil. Pelo pouco que você comentou.

— E é. — Thomas inclinou levemente o queixo, os olhos azuis percorrendo o rosto da esposa com aquele fascínio particular, em parte carinhoso, em parte predatório. — Quase excessivamente. Mas isso é uma moeda inestimável nos negócios. Júris confiam em pessoas que parecem genuínas; clientes milionários assinam contratos com elas. Facilita o trabalho.

Parecem.

A palavra permaneceu entre as taças por alguns segundos antes de se dissipar sem deixar resíduo. Lívia baixou os olhos para o cardápio encadernado em couro, cujas páginas já conhecia quase por inteiro, e sentiu o escrutínio do marido pousar sobre seus ombros com um peso quase físico.

Tudo nela, naquela quinta-feira à noite, era a personificação do verbo parecer: o batom vermelho que Thomas deixara sobre a penteadeira naquela manhã não fora um presente, mas uma instrução de figurino; as ondas escuras e volumosas do cabelo haviam sido disciplinadas numa elegância que não era inteiramente sua; os saltos faziam seus passos soarem exatamente como ele gostava sobre o piso do hall de entrada.

Sentia-se amada e, ainda assim, com uma sofisticação triste, reduzida a uma extensão decorativa do homem que a amava.

Victor Santiago atravessou o salão dez minutos depois, desfazendo a formalidade severa do Aethelred com a própria fisicalidade. A despreocupação o precedia.

O sorriso surgiu antes do cumprimento formal. A barba escura conservava um desalinho deliberado, em contraste com o corte impecável do terno grafite. Os dois primeiros botões da camisa estavam abertos, e a ausência de gravata subvertia o código britânico com um charme avassalador.

Uma barra prateada atravessava a cartilagem da orelha, enquanto um pequeno alargador ocupava o lóbulo, detalhes que destoavam do requinte discreto do salão. Na base esquerda do pescoço, uma tatuagem escura acompanhava o músculo e desaparecia sob o colarinho.

— Tom! — A voz trazia a aspereza musical do sotaque colombiano. Ele estendeu a mão grande, marcada pelas veias salientes, apertou a do sócio com um entusiasmo que fez Thomas piscar; foi um milissegundo de desarme diante da quebra do protocolo que ele tanto prezava, prontamente corrigido no instante seguinte.

— Victor. É excelente tê-lo conosco esta noite. — Thomas retirou a mão com elegância e girou o tronco na direção da esposa. — Permita-me apresentar minha esposa, Lívia.

Ela ergueu o rosto e aceitou a mão estendida. O aperto de Victor foi firme, mas breve, destituído do exibicionismo de força que os colegas de Thomas costumavam aplicar.

— É um enorme privilégio conhecê-la finalmente, Senhora Barrington. — Victor pareceu genuinamente satisfeito. — Tom fala de você com tanto orgulho que eu já começava a desconfiar que pretendia mantê-la em segredo.

— Por favor. Apenas Lívia. — Ela ouviu o próprio sotaque arredondar as sílabas e não tentou contê-lo. Havia anos que ela polia as arestas da própria voz para caber nos salões londrinos, mas algo na descontração de Victor a fez relaxar a vigilância. — O prazer é meu, Victor.

O jantar começou com o estalo seco da rolha deixando a primeira garrafa de Bordeaux. A conversa mergulhou quase de imediato no direito corporativo: fusões hostis, litígios internacionais e a arte de desestabilizar advogados adversários antes que eles alcançassem a sala de audiência.

Thomas estava em seu território.

Falava com a taça suspensa entre os dedos, construindo cada argumento com a segurança de quem passara uma década aperfeiçoando não apenas a profissão, mas o domínio sobre qualquer mesa que ocupasse. Victor o acompanhava com interesse, interrompendo-o vez ou outra para discordar de algum detalhe ou contar um caso próprio.

Lívia mantinha a espinha longa contra o encosto e intervinha apenas quando uma pergunta lhe era dirigida. Atenta, elegante, presente na medida exata em que uma esposa deveria estar sem alterar a direção da conversa.

Foi durante a retirada das entradas, contudo, que uma fissura se abriu.

Enquanto acompanhava a conversa com o automatismo de quem percorre um caminho conhecido, observava a garçonete que os servia. A jovem tinha os cabelos loiros presos num rabo de cavalo e um perfume que lembrava lavanda. O nervosismo aparecia de outras formas: no bloco apertado contra o peito, na rapidez com que confirmava os pedidos, na mancha rosada que se espalhava pelas bochechas sempre que Thomas lhe dirigia a palavra.

A mudança nele foi mínima. O tronco se inclinou alguns centímetros. A voz perdeu a objetividade usada com Victor e adquiriu uma maciez que Lívia conhecia bem. Quando a garçonete se curvou para completar sua taça de água, Thomas ergueu o rosto e reteve a atenção dela por uma fração de segundo além do necessário. Havia ali apenas a expectativa tranquila de um sorriso que ele já sabia que viria. E que, de fato, veio, como tantas outras vezes.

— Muito obrigado, querida.

A palavra não carregava promessa alguma. Era um gesto automático, empregado com a segurança de quem sabia o efeito que causava nas mulheres e apreciava confirmá-lo de tempos em tempos.

— O risoto de lagosta trufada… — prosseguiu, a voz baixa e maleável. — É tão espetacular quanto dizem?

— É… é o favorito dos nossos clientes mais exigentes, senhor Barrington. — O rubor subiu pelas bochechas da moça, e seus olhos fugiram para o bloco de notas, como se ali ela pudesse se recompor.

Thomas esperou que ela tornasse a encará-lo.

— Então vou confiar em você — disse, enfim, deixando que um sorriso se formasse. — Imagino que não me indicaria algo que não estivesse à altura.

A garçonete sorriu, quase involuntariamente.

Lívia baixou os olhos e sentiu o incômodo familiar acomodar-se no fundo do estômago. Nos primeiros meses de casamento, cenas assim a atravessavam como vidro. Agora, a dor havia perdido as bordas.

Era uma fadiga de sentinela: o desgaste de vigiar sinais que nunca se tornavam graves o bastante para justificar uma acusação, mas também nunca cessavam por completo. O ciúme permanecia, gasto pelo uso, acompanhado de algo mais difícil de admitir — a exaustão de se importar.

É sempre assim, ela pensou, dobrando e desdobrando uma prega do guardanapo no colo. Em algum momento da noite, ele vai encontrar um par de olhos para esse jogo.

Aquelas pequenas manifestações da vaidade dele a exauriam. Eram sinais de um ego masculino que precisava ser constantemente massageado por qualquer reflexo feminino disponível, um hábito tão integrado à rotina quanto o ato inconsciente de respirar.

No início, Lívia tentava ler cada gesto como uma provocação: olha como sou desejado; como poderia ter a mulher que eu quisesse. Mas, com o tempo, passou a considerar uma hipótese mais desoladora: a de que Thomas estivesse tão absorto na própria admiração que simplesmente se esquecia de que ela estava ali, bem ao lado dele.

A segunda possibilidade doía mais porque não lhe atribuía sequer a importância de uma provocação.

E naquele momento, como em tantos anteriormente, a pergunta retornou: se ele se comportava assim diante dela, com a naturalidade de quem não temia ser visto, como seria em sua ausência? Os gestos ganhariam ousadia? O tom se tornaria mais explícito? Ele se comportaria como alguém que não tinha a quem prestar contas?

Talvez fosse neurose. Lívia sabia que talvez fosse. Mas eram tantos fragmentos acumulados que a dúvida deixou de ser um pensamento e se transformou numa textura permanentemente desconfortável sob tudo.

A garçonete se afastou levando os pedidos, e Thomas retornou à conversa com Victor sem qualquer alteração visível. Para ele, o momento já terminara.

Victor, porém, acompanhou a jovem por um instante antes de voltar a atenção para a mesa. Seus olhos encontraram os de Lívia por acaso — ou perto o bastante disso.

Ela se preparou para a piedade constrangida de quem acabara de testemunhar uma intimidade conjugal mal disfarçada ou para a cumplicidade envergonhada de quem acabara de testemunhar algo que preferiria não ter visto. Mas encontrou um espelho limpo.

Victor apenas ergueu muito discretamente as sobrancelhas, como se reconhecesse que ambos tinham visto a mesma coisa. A expressão dele dizia: Eu vi. Você viu. Nós não precisamos fingir que não aconteceu.

Deixe Lady Vellichor saber o que você pensou sobre este capítulo!
Amo isso

0

Amo isso

Engraçado

0

Engraçado

Picante

0

Picante

De Suspense

0

De Suspense

Emocional

0

Emocional

Profundo

0

Profundo

Tocante

0

Tocante

Chocante

0

Chocante

Boa Escrita

0

Boa Escrita

Enredo Envolvente

0

Enredo Envolvente

Personagem Ótimo

0

Personagem Ótimo

Diálogo Forte

0

Diálogo Forte

Outras Recomendações

Die Wölfe von Welby

Silvia: Sehr gut geschrieben. Spannend von Anfang an. Lustig und doch fesselnd zugleich. Hoffe es geht gut aus für sie.

Leia Agora
Silver's Second Chance

Clare: Loved the second chance mate story line. But loved even more the strong female lead. Would love to a mini fic of this couple a few years down the line.

Leia Agora
The Easter Bunny

Angela: Liked this one. Character development was great and the little girl was sweet.

Leia Agora
Buried Alive

Saraa: Your story has become one of my favorites. I love how you developed the characters over time. Are you already working on another story, or do you have any ideas for future projects?

Leia Agora
Luna auf der Flucht

Manuela: Sehr spannende Geschichte voll und ganz gut geschrieben

Leia Agora
Milky Treasures on a Healing Love

ruth: I loved it so much I couldn't stop to rate it. I was that engrossed

Leia Agora
Sweet Caroline

Kuttu: So beautifully written

Leia Agora
The Orc's Pet

Aleesa: I loved reading this book! Great job Stephanie, you have a wonderful talent, thank you so much for sharing it☺️.

Leia Agora
SECRET BILLIONAIRE

walkerdebbie42: The book is amazingly interesting ,I absolutely love it, ready to see what happens next

Leia Agora
Anatomia da Ruína