Capítulo 1
O Homem que Arruinou Minha Família.
Às nove e quatorze da manhã de segunda-feira, Sienna Vale já tinha rejeitado duas versões da apresentação da campanha, mudado a disposição das cadeiras na Sala de Reuniões Três e lembrado a si mesma cinco vezes para não parecer nervosa.
Às nove e dezesseis, Nora Rowe encostou-se no batente da porta de sua sala.
“Você está fazendo aquela coisa com a sua caneta.”
Sienna olhou para baixo.
A caneta prateada entre seus dedos girava lentamente, de um lado para o outro.
Ela parou.
“Estou pensando.”
“Você está ameaçando o material de escritório.”
“Eu consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo.”
Nora entrou mais, com o tablet apertado contra o peito. “A equipe da Kessler chegou cedo.”
O estômago de Sienna deu um nó.
“Quão cedo?”
“Oito minutos.”
“Claro que chegaram.”
“Aparentemente, grupos de luxo bilionários gostam de fazer empresas menores suarem.”
“Nós não somos pequenas.”
“Eu disse menores.”
Sienna lançou-lhe um olhar.
Nora deu um sorriso. “Viu? Lá está ela.”
Sienna colocou a caneta ao lado do laptop e se levantou.
O dia de hoje importava demais para nervosismos.
A Kessler International estava se preparando para lançar uma nova divisão de hotéis de luxo na Europa e na América do Norte. Se a Vale & Rowe garantisse o contrato global de branding, a empresa deixaria de ser apenas uma firma promissora de Nova York, daquelas que as pessoas mencionam quando as agências maiores estão ocupadas.
Elas se tornariam uma das grandes agências.
Três anos de prazos impossíveis, fins de semana não remunerados, contratações cautelosas, contas perdidas e noites demais jantando em cima de rascunhos de apresentações a tinham trazido até aqui.
Sem dinheiro de família.
Sem um pai famoso ligando para alguém em seu nome.
Sem um sobrenome que abrisse portas.
Apenas ela.
Apenas Nora.
Apenas a empresa que tinham construído a partir de duas mesas em um estúdio emprestado.
Sienna alisou a frente de sua blusa creme sob o blazer preto.
“Quantas pessoas a Kessler trouxe?”
“Quatro.”
“Jurídico?”
“Um.”
“Financeiro?”
“Um.”
Sienna hesitou. “Financeiro?”
“Essa foi a minha reação.”
A Kessler deveria estar avaliando uma proposta de marca, não os comprando.
“Disseram o porquê?”
“Não. Mas Martin já está lá dentro.”
Martin Bell, o diretor financeiro da Vale & Rowe, tinha soado estranho ao telefone naquela manhã. Distraído. Cauteloso.
Sienna tinha assumido que era porque ainda estavam finalizando o acordo de refinanciamento da empresa.
Agora, ela não tinha tanta certeza.
Ela pegou seu tablet.
“Vamos descobrir.”
Nora se afastou. “Quer que eu entre?”
“Você é a diretora de operações.”
“Eu sei. Estava perguntando se você queria apoio emocional.”
“Eu tenho café.”
“Isso não é apoio emocional.”
“Nunca me decepcionou.”
Nora a seguiu pelo corredor.
A Vale & Rowe ocupava o décimo segundo andar de um prédio reformado em Midtown, com tijolos aparentes, salas de reunião de vidro e móveis caros na medida certa para convencer os clientes de que a empresa ia melhor do que costumava parecer.
Sienna amava cada centímetro daquilo.
Ela tinha escolhido os pisos.
Aprovado a parede com o logo.
Discutido sobre a iluminação.
Assinado o contrato de locação enquanto seu contador a avisava de que estava sendo imprudente.
Aquele lugar era a prova de que perder tudo uma vez não significava perder para sempre.
A Sala de Reuniões Três a esperava no fim do corredor.
Através do vidro jateado, ela conseguia distinguir várias figuras.
Uma delas estava perto da janela.
Alto.
Terno escuro.
Mãos nos bolsos.
Sienna diminuiu o passo.
Algo gelado deslizou sob suas costelas.
Nora quase esbarrou nela.
“O quê?”
Sienna encarou o vidro.
A figura virou-se levemente.
Ela viu o perfil primeiro.
Nariz forte.
Cabelo escuro.
Aquela postura irritantemente calma.
Não.
Por um segundo irracional, ela pensou que sua memória o tinha criado.
Então ele se moveu.
E seis anos desapareceram.
Sienna tinha vinte e um anos de novo, parada do lado de fora do escritório do pai, enquanto vozes aumentavam atrás da porta.
Sua mãe chorando.
Seu pai dizendo que o banco tinha congelado outra conta.
Telas de televisão exibindo a mesma manchete repetidamente.
MORETTI GLOBAL ADQUIRE A VALE INTERNATIONAL EM CRISE.
E, abaixo dela, fotografias do jovem executivo que tinha liderado a aquisição.
Dante Moretti.
Os dedos de Sienna apertaram seu tablet.
Nora olhou através do vidro.
“Ah.”
Aquela única palavra foi quase respeitosa.
“Você sabia?”, perguntou Sienna.
“Não.”
“Nora.”
“Eu juro.”
A porta se abriu antes que qualquer uma delas pudesse dizer mais.
Martin apareceu.
Ele parecia dez anos mais velho do que na sexta-feira.
“Sienna.”
Ela não olhou para ele.
Sua atenção permaneceu fixada no homem atrás dele.
Dante Moretti virou-se completamente para ela.
Seis anos o tinham mudado.
Aquela foi a primeira coisa que ela odiou.
Ele tinha vinte e seis anos quando destruiu a Vale International. Jovem demais, todos disseram depois. Ambicioso demais. Impiedoso demais.
Agora, aos trinta e dois, não havia nada de inacabado nele.
Seu terno cinza-chumbo estava com o corte perfeito sobre os ombros largos. Camisa branca. Gravata escura. Nenhum relógio chamativo visível sob o punho, embora Sienna soubesse o suficiente sobre homens como ele para suspeitar que custava mais do que o salário anual de qualquer pessoa.
Ele parecia exatamente o tipo de homem que as revistas de negócios adoravam colocar nas capas ao lado de palavras como visionário e imparável.
O olhar dele encontrou o dela.
Ele não sorriu.
“Sienna.”
O nome dela na voz dele trouxe uma raiva tão súbita que quase a manteve firme.
“Sr. Moretti.”
Nora lançou um olhar para ela.
Sienna ignorou.
Os olhos de Dante ficaram nela por meio segundo antes de se desviarem para a mesa.
“Devemos nos sentar.”
Sienna deu uma risada curta.
Baixa.
“Não.”
Martin pigarreou. “Sienna, houve alguns desenvolvimentos.”
“Estou vendo.”
As quatro pessoas que ela supunha serem da Kessler International estavam sentadas ao redor da mesa.
Nenhuma delas parecia confortável.
Sienna reconheceu apenas uma.
Daniel Kessler, vice-presidente executivo do grupo de hotelaria.
Ele se levantou.
“Sra. Vale, peço desculpas. Deveríamos ter entrado em contato antes de vir.”
“Antes de trazê-lo?”
Daniel olhou para Dante.
Dante não se deu ao trabalho de fingir que a pergunta não era sobre ele.
“Nós não trouxemos o Sr. Moretti.”
É claro que não trouxeram.
Homens como Dante Moretti não são trazidos a lugar nenhum.
Eles chegam, e todos os outros se adaptam.
Sienna entrou na sala.
Nora entrou atrás dela e fechou a porta silenciosamente.
Sienna colocou seu tablet sobre a mesa, mas não se sentou.
“Alguém vai explicar por que o CEO da Moretti Global está na minha sala de reuniões na manhã da apresentação da Kessler.”
Dante tirou uma das mãos do bolso.
“Porque não haverá apresentação.”
Silêncio.
Sienna olhou para Daniel.
Ele teve a decência de parecer constrangido.
“Nosso conselho suspendeu o processo de seleção esta manhã.”
“Por quê?”
“A análise financeira levantou preocupações.”
Os olhos de Sienna se moveram para Martin.
“Que preocupações?”
Martin engoliu em seco.
Foi aí que ela soube.
Não foi um palpite.
Ela soube.
Algo havia acontecido antes de ela entrar na sala.
Algo ruim o suficiente para que seu diretor financeiro mal conseguisse encará-la.
“Martin.”
“As instalações de Harrington”, disse ele.
O pulso dela desacelerou.
Curiosamente.
O perigo às vezes causava isso nela.
Ele estreitava tudo.
“O que tem elas?”
“O credor transferiu a posição na sexta-feira à noite.”
Sienna encarou-o.
A Vale & Rowe havia feito uma linha de crédito estruturada dezoito meses antes para financiar a expansão. Era administrável. Cuidadosamente negociada. Garantida em parte por contratos futuros e ativos da empresa.
Nada disso deveria ter afetado a Kessler.
“Transferiu para quem?”
Ninguém respondeu.
Sienna já sabia.
Sua cabeça girou em direção a Dante.
Ele a observava sem expressão.
“Não.”
A voz de Dante permaneceu calma.
“Sim.”
Algo quente pressionou atrás de suas costelas.
“Você comprou nossa dívida?”
“A Moretti Capital adquiriu a posição da Harrington.”
“A Moretti Capital é sua.”
“Ela é parte da Moretti Global.”
“Aquela não foi uma pergunta.”
Nora se moveu levemente ao lado dela.
Sienna mal notou.
“Quanto?”
Dante não respondeu imediatamente.
Aquela pausa tornou tudo pior.
Martin respondeu.
“O suficiente para se tornar nosso principal credor garantido.”
Sienna olhou para ele.
A sala pareceu ficar mais nítida em suas bordas.
“Quanto, Martin?”
“Sessenta e três por cento da dívida em aberto.”
Por um segundo, ninguém se moveu.
Sienna ouviu o zumbido baixo do sistema de ventilação.
A buzina de um táxi doze andares abaixo.
O celular de alguém vibrando contra a madeira.
Sessenta e três por cento.
Dante Moretti agora controlava mais da metade da dívida ligada à empresa que ela construíra.
Sua empresa.
Não do pai dela.
Não da Vale International.
Dela.
Sienna virou-se para ele novamente.
“Você tem quarenta segundos para explicar o porquê.”
Daniel começou a juntar seus documentos.
“Sienna, talvez devêssemos remarcar.”
“Não.”
Dante olhou para ele.
“Deixe-nos.”
Daniel hesitou.
A ordem não fora dada em voz alta.
Não precisava ser.
Em trinta segundos, os representantes da Kessler tinham ido embora.
Martin permaneceu.
Sienna olhou para ele.
“Você também.”
“Sienna, acho que deveria ficar.”
“Acho que você deveria explicar depois por que soube disso só depois que nosso cliente soube.”
Martin estremeceu.
Nora tocou no braço dele.
“Vá.”
Ele saiu.
Agora eram três.
Sienna.
Nora.
E o homem com quem ela passou seis anos esperando nunca mais ficar tão perto.
Dante caminhou em direção à mesa e apoiou uma das mãos no encosto de uma cadeira.
Sienna odiou o quão confortável ele parecia.
“Você está com raiva.”
Nora fez um pequeno som.
Sienna levantou um dedo sem olhar para ela.
“Por favor, não me diga que você atravessou metade de Manhattan para entregar essa análise impressionante.”
Algo quase mudou na expressão de Dante.
Não foi um sorriso.
Algo pior.
Diversão.
Isso desapareceu imediatamente.
“Eu adquiri a dívida porque Harrington estava se preparando para vendê-la.”
“Para você.”
“Para quem oferecesse as melhores condições.”
“E você espera gratidão porque ganhou?”
“Não.”
Aquela resposta a fez hesitar por um segundo.
Dante tirou uma pasta fina de cima da mesa e deslizou na direção dela.
Sienna não a tocou.
“O que é isso?”
“O seu problema.”
“O meu problema é um cara usando um terno de cinco mil dólares na minha sala de reuniões.”
“Mais perto de nove.”
Nora tossiu.
Sienna virou-se lentamente para ela.
“Desculpe”, disse Nora. “Resposta inesperada.”
O olhar de Dante voltou para Sienna.
“A dívida não é o motivo de eu estar aqui.”
“Você comprou o controle da minha empresa e, de alguma forma, não é por isso que está aqui?”
“Eu não comprei o controle.”
“Você se tornou meu maior credor.”
“Não tenho intenção de executar a dívida contra a Vale & Rowe.”
“Me perdoe se as promessas dos Moretti perderam o brilho na minha família.”
Aquilo atingiu o alvo.
Pela primeira vez, a rigidez no rosto de Dante se quebrou.
Quase nada.
Mas Sienna viu.
Bom.
Ela queria que ele se lembrasse.
Do pai dela.
Das fotos de jornal.
Dos repórteres do lado de fora da casa deles.
Da mãe dela vendendo joias silenciosamente antes que as pessoas percebessem o quão ruim a situação tinha ficado.
Dante se endireitou.
“Abra a pasta.”
“Não.”
“Sienna.”
“Não diga o meu nome como se fôssemos velhos amigos.”
“Não somos.”
“Excelente. Finalmente concordamos em algo.”
Nora deu um passo em direção à mesa.
“Sienna.”
Sienna olhou para ela.
A expressão de Nora tinha mudado.
Ela tinha aberto a pasta.
Dentro havia demonstrativos financeiros.
Registros de transferência.
Nomes de empresas.
Várias linhas haviam sido destacadas.
Nora virou uma página.
Depois outra.
“Sienna, você precisa ver isso.”
Ela não queria.
Foi exatamente por isso que ela se aproximou.
A primeira folha mostrava uma corrente de pagamentos roteada por três empresas de fachada.
Sienna não reconheceu nenhuma delas.
A quarta página era diferente.
Sua respiração parou.
No topo do documento estava um nome que ela não via há anos.
VMI Holdings.
Ela se lembrou dele do escritório do pai.
Das conversas sussurradas depois que a Vale International começou a colapsar.
De uma pasta que Alexander Vale tinha arrancado das mãos de Sienna tão rapidamente que ela nunca esqueceu as letras impressas nela.
VMI.
Sienna olhou para cima.
Dante a observava agora.
Não friamente.
Com cuidado.
“Como você tem isso?”
“Porque alguém usou aquela empresa três semanas atrás.”
“Aquela empresa foi dissolvida.”
“Seis anos atrás.”
Seus dedos apertaram a página.
Nora leu por cima do ombro dela.
“O que isso significa?”
O olhar de Dante permaneceu em Sienna.
“Significa que alguém dentro da Moretti Global está movimentando dinheiro pela mesma rede conectada ao colapso da Vale International.”
A boca de Sienna ficou seca.
“Não.”
“Eu verifiquei duas vezes.”
“A empresa do meu pai não existe mais.”
“Eu sei.”
“Você garantiu que isso acontecesse.”
Outra pausa.
“Sim.”
Nenhuma desculpa.
Nenhuma negação.
Apenas uma palavra.
Por algum motivo, aquilo a deixou mais irritada do que qualquer defesa teria deixado.
Sienna fechou a pasta.
“Então lide com isso.”
Dante não se moveu.
“Eu não posso.”
Ela quase riu.
O grande Dante Moretti admitindo que havia algo que ele não podia fazer.
“Que trágico.”
“Existem registros faltando da investigação original.”
“Isso soa como um problema dos Moretti.”
“Eles pertenciam ao seu pai.”
O sorriso dela desapareceu.
Dante deu um passo à frente.
Não o suficiente para ameaçar.
O suficiente para deixar o ar mais pesado.
“Alexander Vale descobriu algo antes de sua empresa colapsar.”
“Você não tem o direito de falar dele.”
“Eu preciso.”
“Não. Você precisa ir embora.”
“Sienna.”
Ela apontou para a porta.
“Agora.”
Dante olhou para ela por vários segundos.
Então, ele enfiou a mão dentro do paletó.
Nora ficou tensa.
Ele removeu uma única fotografia.
Antiga.
Dobrada em um dos cantos.
Ele a colocou sobre a mesa.
Sienna olhou para baixo.
Seu pai estava em frente à antiga sede da Vale International.
A data carimbada era de seis anos atrás.
Ao lado dele estava um homem que Sienna não reconhecia.
No verso, escrito com a caligrafia de Alexander Vale, estavam cinco palavras.
Se algo acontecer, encontre Sienna.
Sienna esqueceu como respirar.
A voz de Dante veio suave atrás dela.
“Seu pai sabia que isso não tinha acabado.”
Ela se virou.
A expressão de Dante tinha perdido qualquer traço de diversão.
“E quem quer que tenha começado”, ele disse, “começou novamente.”



