CAPÍTULO 1 — A ROTA DAS 23h40
O ônibus vinha descendo a ladeira da Rua das Palmeiras quando Clarice sentiu o cheiro.
Era o mesmo cheiro de todas as noites. Mistura de chuva seca no asfalto, plástico quente dos bancos e o perfume barato de uma passageira que usava o mesmo sabonete há quinze anos. Ela conhecia cada curva da linha 247, cada semáforo que demorava mais do que devia, cada ponto onde os passageiros entravam com pressa ou saíam sem olhar para trás.
Clarice dirigia aquele ônibus há quinze anos.
A linha noturna era a única que ela aceitava. Das 23h até as 5h da manhã, ela percorria o trajeto entre o Terminal Norte e o bairro dos Lagos. Vinte e sete paradas. Quarenta e dois minutos de ida. O mesmo número de voltas. Uma rotina que se repetia como um loop que ninguém mais notava.
Ela gostava disso.
Gostava do silêncio dos passageiros tardios. Gostava de ver a cidade dormir enquanto ela ainda estava acordada. Gostava de saber que, naquele horário, ninguém olhava para o motorista. Eles entravam, sentavam, olhavam o celular ou a janela, e desciam. Ela era invisível. Era o que ela queria.
Mas naquela noite, algo estava diferente.
— Última parada — ela anunciou, como sempre fazia.
O ônibus estava vazio. As 23h40. Ela estacionou no Terminal Norte, desligou o motor e ouviu o silêncio que vinha depois do ronco. O silêncio era pesado. Ela sempre estranhava esse momento. Quando o motor parava, parecia que o mundo inteiro parava junto.
Clarice pegou sua garrafa de água e desceu para esticar as pernas. O terminal estava deserto, com exceção de um segurança que fumava encostado no poste. Ela olhou para o relógio. 23h48. Tinha doze minutos até a próxima saída.
Foi quando ela ouviu.
Um barulho. Vindo de dentro do ônibus.
Clarice parou. O segurança também olhou. Ela segurou a garrafa e subiu de volta. A porta se fechou atrás dela com um chiado.
O ônibus estava vazio.
Ela percorreu o corredor com os olhos. Bancos vazios. Chão limpo. Nada. Ela estava prestes a descer quando viu o banco do fundo.
Não estava vazio.
Uma mochila. Velha, surrada, com uma alça rasgada. Ela não estava ali quando ela desceu. Clarice tinha certeza.
Aproximou-se devagar. A mochila estava aberta. Dentro, um caderno de capa preta, com as bordas desgastadas pelo tempo. Ela pegou.
Pesou na mão. Estava cheio de anotações. Ela abriu na primeira página.
A caligrafia a fez parar.
Ela conhecia aquela letra. Como podia conhecer? Era a dela. O mesmo jeito de fazer o "r" com uma curva um pouco mais longa.
Ela leu:
"Hoje é o primeiro dia. Comecei a dirigir a linha 247. Não sei se vou aguentar. Mas preciso ficar. Preciso encontrar."
Clarice franziu a testa. Ela nunca escreveu isso. Não lembrava de ter escrito um diário. E a frase final... "Preciso encontrar."
Encontrar o quê?
Ela folheou mais algumas páginas. Datas. Todas de quinze anos atrás. O ano em que ela começou a trabalhar na linha. O diário acompanhava dia após dia, entrada após entrada, até chegar a um ponto em que a letra ficava tremida, como se a mão estivesse trêmula.
Ela virou uma página e viu um nome rabiscado no canto:
"José."
O coração dela deu um pulo.
José.
O nome a atingiu como um soco. Ela não queria lembrar. Não queria pensar nele. Mas ali estava. Escrito por ela mesma.
Ela fechou o caderno com força e guardou na bolsa.
Não ia ler mais nada. Não ia pensar naquilo.
Mas, enquanto voltava para o banco do motorista, uma imagem surgiu na cabeça dela — um homem saindo por uma porta. Um rosto que ela tentou apagar. Um nome que ela nunca mais pronunciou.
Ela sentou no banco, ligou o motor e respirou fundo.
Não era nada. Era só um nome antigo.
O ônibus saiu do terminal.
Clarice não olhou para trás.




