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Maré De Nós Dois

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Summary

Quatro anos se passaram desde aquela noite escondida entre as pedras da praia — uma noite que Isadora nunca conseguiu esquecer. Agora, à beira de um novo ano, ele está de volta. Alex, o irmão mais novo do padrasto, o homem que ela sempre tentou apagar da memória... e do coração. Mas o que foi deixado na areia, o mar não levou. Enquanto velhos sentimentos ressurgem e segredos ameaçam vir à tona, Isadora se vê dividida entre o desejo que nunca deixou de existir e o medo de reviver tudo o que a marcou tão profundamente. Um reencontro. Um verão. Um amor proibido. Algumas paixões, por mais que se escondam, sempre retornam com a maré.

Genre
Romance
Author
Taysa
Status
Ongoing
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
18+

E o ano novo traz o passado

Enquanto todos aguardam ansiosos pelos fogos que anunciarão a chegada do novo ano, minha expectativa está em outro lugar. Ou melhor, em outra pessoa.

Alex volta para o Rio de Janeiro depois de amanhã. Foram quatro anos longe, trabalhando na construção de uma ponte no Norte do país. Engenheiro civil, vinte e oito anos, e irmão caçula do meu padrasto. Tecnicamente, meu tio. Na prática, minha primeira paixão.

Quando o conheci, eu tinha doze. Ele, dezoito. Já estava indo para a faculdade enquanto eu ainda usava uniforme do ensino fundamental. Era para eu tê-lo visto como um irmão mais velho, mas desde o início, meu coração decidiu seguir por outro caminho. Frio na barriga, timidez, coração acelerado... Eu já lia romances o suficiente para entender o que era aquilo.

E ele sempre foi lindo. Vi fotos da infância dele — nem ali teve fase estranha. Moreno, alto, forte, olhos claros... um clichê ambulante de beleza. Só que Alex tem algo a mais. Um “molho”. Tudo nele é intenso: o olhar, o jeito de andar, a voz. É impossível não sentir.

Não estou pronta para revê-lo.

Durante esse tempo, ele sumiu das redes. Mais reservado do que nunca. Eu me forcei a esquecê-lo. Evitei notícias, cortei qualquer possibilidade de saber como ele estava. Achei que o tempo apagaria tudo. Mas falhei miseravelmente.

Agora estou à beira de um ataque de ansiedade, sabendo que ele vai voltar — e que eu não tenho para onde fugir. Continuo morando com minha mãe e o Evandro, meu padrasto, numa casa à beira-mar, na Costa Verde. Já Alex vive oficialmente com a mãe dele no município do Rio. Mas eles sempre vieram passar fins de semana e feriados por aqui. E mesmo sem o filho, dona Eva manteve o costume. Veio até mais vezes, talvez por se sentir sozinha depois da viagem do caçula.

Todos estão empolgados com a volta do Alex. Todos, menos eu — que tento manter minha máscara de indiferença. Sempre foi assim. Nunca contei para ninguém o que sentia. Nem para a Bianca, minha melhor amiga. Ela é leal, mas bocuda. Medo demais dela soltar algo sem querer.

Foi difícil guardar tudo. Mas consegui. Acredito que ninguém jamais desconfiou.

— Se as pessoas soubessem… — murmuro, colocando minha taça de champanhe sobre o guarda-corpo do terraço. Os fogos já estouraram. O ano velho se foi.

— Deu pra falar sozinha, Isadora? Você nem deu um abraço na sua tia!

— Ai, tia Mary, desculpa. Muita gente pra cumprimentar. Feliz ano novo! — abraço uma das irmãs mais novas da minha mãe. Tia Mary é uma das duas que vieram passar o réveillon com a gente. A outra é a tia kátia.

— Tudo de bom pra você, minha querida. Saúde, que é o mais importante!

— Com certeza, tia. Muita saúde pra senhora também.

— Longe de mim ser intrometida, mas você parece meio aérea, pensativa. Tá acontecendo alguma coisa?

— Não... Só tô com sono mesmo.

— Eu sei que você é mais quietinha, mas achei que tava triste.

— É só sono mesmo... — e bocejo na hora certa, como um golpe de mestre.

— Ah, mas não vai dormir agora, né? A festa tá só começando!

Acho que vou decepcionar minha família festeira. Não consigo entrar no clima. Minha cabeça não para de pensar no Alex. Muito menos no que aconteceu da última vez que estivemos juntos... ali, naquela praia, atrás das pedras grandes que consigo ver daqui de cima.

Sinto a garganta seca. Pego a taça novamente, mas minhas mãos tremem e acabo deixando-a cair no chão.

— Caramba, Isa! Você se machucou?

— Não, tia. Só respingou bebida nos meus pés. Vou pegar algo pra limpar...

Saio praguejando baixinho, ignorando os olhares. Tia Mary vem atrás de mim.

— O Evandro já catou os cacos de vidro.

— Tá bom. Vou lavar meus pés.

— Também vou tirar meus saltos. Você me empresta um chinelo?

— Claro, tia.

Foi minha deixa para desaparecer. Quando todos estiverem bêbados, ninguém notará minha ausência. Me jogo no sofá. O celular vibra com mensagens de feliz ano novo, mas não tenho paciência para responder. Juro que não sou assim sempre. Não costumo deixar ninguém no vácuo.

Era pra eu estar aproveitando. Alex só deve aparecer por aqui lá pelo dia 3 ou 4. Dona Eva deve ir embora amanhã, esperar por ele lá. O estranho é o Evandro não estar planejando um churrasco de boas-vindas. Ele ama uma comemoração. E ali está ele, cantando rock dos anos 80 com um dos amigos, os dois bêbados.

Todos se divertem. Só eu estou sentada, à parte. Ainda bem que tia Mary não insistiu. Ela tinha razão. Eu sou reservada, mas em festas de família costumo me soltar mais. Às vezes até canto e danço. Talvez, se eu fosse contar sobre o Alex para alguém, seria pra ela. Tia Mary sempre foi acolhedora. Diferente da minha mãe.

Vera é autoritária, gosta de controle. O Evandro a obedece — talvez por isso se deem tão bem. Ela releva o jeito festeiro e a bebedeira dele porque, no fundo, são parecidos. Ainda bem que os dois ficam alegres quando bebem. Nada de brigas.

Gosto do Evandro. Ele nunca forçou intimidade, nunca quis parecer meu pai. E eu já tenho um. Nossa relação é ótima. Curioso como me entendo melhor com ele e com meu pai do que com a minha mãe. Minhas tias também são minhas amigas, mas tia Mary é a mais próxima.

De repente, sinto que alguém chegou. Não vejo quem é, mas sei que não é ninguém que já estava ali. Meu corpo inteiro reage. Olho por cima do ombro... e lá está ele.

Alex.

Seus olhos verdes me encaram com intensidade. As sobrancelhas grossas, os cílios longos, o cabelo mais curto, quase raspado. A barba bem-feita. O maxilar quadrado. O furinho no queixo.

Tudo ao redor desaparece. Só ouço o barulho do meu coração.

— Alex!

A voz da dona Eva estoura nossa bolha. Ela corre para abraçá-lo. Evandro larga o microfone e grita:

— Surpresa!

Então era isso. Uma armação.

— Não acredito que vocês estavam enganando a gente! — minha mãe diz, dando um tapa no ombro do Evandro.

— O combinado era ele chegar à meia-noite, mas não deu tempo! — ele responde, rindo.

Todos se agitam para cumprimentar Alex. Eu aproveito para fugir. Ninguém vai notar minha ausência. O problema é que minhas pernas estão bambas. Ainda assim, desço a escada. Vou me trancar no quarto.

E não pretendo sair tão cedo.


Flashback — Entre as Pedras e o Mar


O cheiro do mar ainda me invade quando fecho os olhos. E, por alguns segundos, é como se eu estivesse de volta àquela noite.

Era verão. A casa estava cheia, como sempre. Muita música, muita risada, bebida rolando solta. Eu e Alex tínhamos escapado da festa com desculpas diferentes, mas o destino foi o mesmo: a praia. Um silêncio combinado que dizia tudo sem dizer nada.

A areia estava fria sob nossos pés. A lua cheia refletia nas ondas, e as pedras gigantes ofereciam um abrigo perfeito para quem queria desaparecer do mundo por algumas horas. Ou minutos.

Sentamos próximos, quase nos tocando, mas ainda sem coragem. A tensão era palpável. Eu sentia o calor do corpo dele mesmo com a brisa noturna soprando. Meus pensamentos eram um turbilhão.

Ele quebrou o silêncio.

— Tá tudo bem, Isa?

Assenti, sem saber como usar a voz. Estava tudo bem, mas também era o caos. Um caos bom. O tipo de confusão que eu desejava há anos.

Alex se virou de lado, apoiando um dos braços na pedra atrás de nós. Seus olhos me estudavam com cuidado.

— Por que você me olha assim? — arrisquei, num fio de voz.

— Porque você cresceu. E eu não consigo mais fingir que não vejo.

Meu coração disparou. Como se aquelas palavras fossem a senha que destrancava tudo.

— Eu também nunca parei de ver você — confessei, com o rosto em chamas.

Ele se aproximou, devagar, como se pedisse permissão. E eu dei. Com os olhos, com o corpo, com tudo que eu era. O beijo veio suave, mas carregado de anos de desejo reprimido. Quando nossas bocas se encontraram, eu soube. Aquilo não tinha volta.

Nos deitamos sobre a areia úmida. A brisa tocava minha pele com a mesma delicadeza que ele usava para me despir. Seu corpo se encaixava no meu com uma naturalidade assustadora.

Até que ele parou. Me olhou nos olhos, com a respiração pesada.

— Isa... tem certeza que quer ir até o fim?

Demorei um segundo para responder, mas não porque duvidava. Era só medo de não dar conta do que aquilo significava.

— Tenho — falei, firme, mesmo com a voz baixa.

Ele franziu o cenho por um instante, como se algo tivesse passado pela mente dele. Então perguntou:

— Você já...?

Balancei a cabeça em negação. Foi a primeira vez que vi Alex realmente surpreso. Seus olhos se suavizaram, e ele encostou a testa na minha.

— Eu não fazia ideia. A gente pode parar, se quiser.

— Eu não quero parar.

E ele me beijou outra vez, como se aquela fosse a primeira vez de nós dois. Como se ele soubesse que, mesmo sendo minha primeira, aquele momento também marcaria a vida dele.

Foi lento. Foi bonito. Foi real.

O som das ondas era o único testemunho. A areia presa entre nossos corpos, as pedras nos cercando como cúmplices silenciosas. Nenhuma palavra depois. Só um abraço longo, demorado, e o coração batendo descompassado no peito dele, encostado ao meu.

Naquela noite, eu me entreguei ao homem que sempre desejei. E, mesmo que ele tenha partido logo depois... uma parte de mim ficou ali. Entre as pedras. Com ele.


Tranco a porta atrás de mim e arranco o vestido branco pela cabeça, jogando-o no chão sem o menor cuidado. Faço o mesmo com a calcinha e sigo direto para o banheiro, direto para debaixo do chuveiro. A água fria me atinge em cheio, mas não o suficiente para apagar o fogo que insiste em arder sob minha pele.

Cenas do Alex me tocando invadem a minha mente sem cerimônia. Me odeio por isso. Me odeio por ficar excitada só de lembrar daquele olhar, daquele toque. Como se ele tivesse me tocado de novo agora há pouco, só com os olhos. Esfrego minha pele com força, tentando lavar não só o corpo, mas tudo que ele me fez sentir. Em vão.

Minha vontade é de jogar qualquer roupa dentro da mochila e ir embora daqui. Sumir. Mas pra onde? Se não fosse o receio de atrapalhar o novo namoro do meu pai, eu iria direto pra chácara que ele comprou recentemente na Serra do Piloto, em Mangaratiba. Mas não quero segurar vela. Ele demorou tanto pra encontrar alguém... Eu não vou ser o incômodo justo agora.

Já era pra eu estar morando sozinha, se não fosse a maravilhosa intromissão da minha mãe. Meu pai tinha se oferecido pra pagar um aluguel perto da faculdade onde eu curso Estética. Eu bancaria o resto arrumando um trabalho.

Entreguei currículos em alguns lugares, mas bastou minha mãe perceber que eu estava mesmo disposta a sair de casa, que deu um jeito de cortar meu plano. Convenceu meu pai a desistir de bancar o aluguel. Os dois brigaram feio. E como eu detesto discussões familiares, fingi que não queria mais. Afinal, eu sei fingir muito bem.

Saio do banho e visto uma camisa longa, daquelas confortáveis, com uma calcinha grande por baixo. Nem me dou ao trabalho de secar o cabelo — ele que se vire. Só quero deitar na cama e ficar quietinha. Em paz.

É quando percebo: deixei o celular no sofá do terraço.

Nem a pau que vou subir lá pra buscar. Espero que minha mãe ou alguma das minhas tias encontre e traga pra mim. Por favor.

Uma batida na porta. Pronto, deve ser uma delas com meu celular.

Levanto da cama num pulo e abro a porta.

— Alex?!

Ele ergue o celular com a capinha púrpura, como se fosse uma oferta de paz.

— É seu?

— Sim... obrigada. — Pego da mão dele rapidamente e tento fechar a porta, mas ele impede, empurrando de volta com firmeza.

— Precisamos conversar — ele diz, sério.

— Não temos nada pra conversar.

— Você sabe que temos. Por que não age como a mulher adulta de vinte e dois anos que é e para de fugir de mim?

— Da última vez em que eu não fugi, você sabe muito bem o que aconteceu, não sabe? Mas talvez seja isso mesmo. Você deve estar querendo fazer de novo.

— Você falando assim parece que eu abusei de você. Mas foi tudo com consentimento.

— Sai daqui! — empurro a porta com força e, dessa vez, ele não consegue segurar.

Não sei de onde tirei forças, físicas ou emocionais. Talvez da raiva. Do nojo. Da mágoa. Do absurdo que foi ele aparecer no meu quarto como se nada tivesse acontecido. Como se ele tivesse me deixado ontem — e não quatro anos atrás.

E ainda tem a cara de pau de dizer que eu deveria me portar como adulta? O mais imaturo dessa história foi ele. Sempre foi ele. Fez o que quis, quando quis. Me teve, me largou. E agora quer conversa?

Tenho vontade de subir de novo e socar a cara dele no meio de todo mundo. Contar tudo. Mostrar quem ele realmente é.

Uma gota cai na tela do celular. Só então percebo que estou chorando.

Que péssima maneira de começar o ano novo.


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