CAPÍTULO 1 — O SOM QUE NINGUÉM OUVE
Kael acordou com o zumbido do despertador — um som grave e constante, como se o próprio mundo estivesse sempre em sintonia com uma nota que ninguém mais ouvia.
Ele abriu os olhos. O quarto estava escuro, mas ele não precisava de luz para sentir o espaço ao redor. As paredes emitiam um tom baixo e seco. O chão vibrava em uma frequência firme. A janela cantava em um tom mais agudo, como vidro prestes a se quebrar.
Ele se sentou e passou a mão pelo rosto.
O café de pó de estrela estava na mesa. Uma colher do pó fino, água quente, um fio de mel. A bebida tinha um gosto metálico e doce, que deixava a língua formigando.
Ele bebeu e o dia começou.
No caminho para o Posto de Ajuste, Kael caminhou com os olhos semicerrados — não por causa do sol, mas porque estava ouvindo. Sempre ouvindo.
As calçadas tinham um som seco e áspero. As portas dos comércios vibravam em tons diferentes, cada uma com sua própria assinatura. Os carros não roncavam — eles zumbiam, como cordas esticadas.
Kael ouviu cada um deles. Sem esforço. Como quem respira.
O Posto de Ajuste ficava no fim da rua, em um prédio baixo que ninguém notava. Não havia placa. Não havia nome. Apenas uma porta cinza que rangia em uma frequência específica — a mesma de sempre.
Ele entrou.
A sala era pequena e silenciosa. Sobre a mesa, um cristal escuro descansava sobre uma base de metal. Era do tamanho de uma mão, preso a uma haste fina e metálica. Kael o pegou com cuidado e encostou a haste contra a têmpora.
Fechou os olhos.
A cidade se abriu como um espectro de vibrações. Prédios emitiam tons graves. Pessoas zumbiam em frequências irregulares. A eletricidade chiada como um ruído branco constante.
Sobre a mesa, pequenas placas de metal começaram a vibrar — cada uma marcando uma frequência diferente. A terceira placa tremia mais que as outras. Algo estava fora de sintonia.
Kael tocou a placa com a ponta do dedo. A vibração diminuiu. Ele repetiu até que a placa ficasse imóvel.
O mundo, por um instante, pareceu mais calmo.
E então ele ouviu.
Uma nota nova. Não vinha de lugar nenhum que ele reconhecesse. Parecia vir de dentro da própria vibração do mundo — como se a realidade tivesse um segundo canal que ele nunca tinha sintonizado.
Kael abriu os olhos e afastou o cristal da têmpora.
A sala estava em silêncio.
Mas a frequência ainda estava lá. Distante. Pulsando. Como se alguém estivesse tentando chamar sua atenção.
— O que é isso? — murmurou.
Ninguém respondeu.
Ele sabia que não poderia ignorá-la.

