Epílogo
. ~•~Hanna Ashford ~•~
Quanto uma vida pode mudar?
Uma pergunta simples, mas difícil de responder.
Os últimos três anos da minha vida não foram fáceis. Olho para o espelho e mal me reconheço. Minha aparência continua praticamente a mesma: um rosto bonito, olhos únicos... mas estou visivelmente abaixo do peso, consequência das circunstâncias. Ainda assim, isso é o de menos.
Será que eu deveria culpar meu pai por termos chegado a esse ponto? Ou simplesmente aceitar que a vida pode mudar da noite para o dia?
Esses questionamentos me atormentam constantemente.
Talvez eu devesse culpá-lo por nunca ter me ensinado que a vida nem sempre seria daquele jeito: sem problemas, sem preocupações, uma existência confortável, daquelas que muito dinheiro é capaz de comprar.
Meu pai veio de uma família pobre, e seu maior sonho sempre foi chegar ao topo. As pessoas riam dele. Afinal, era apenas um homem que cresceu em uma ilha tão pequena que muita gente sequer conseguiria encontrá-la no mapa.
Tuvalu, no extremo da Oceania. Um país com pouco mais de onze mil habitantes. Um lugar pequeno, cercado por pessoas de pensamentos ainda menores.
Era normal que rissem. Pessoas de mente limitada dificilmente conseguem compreender sonhos grandiosos.
Apesar do tamanho, Tuvalu estava em desenvolvimento naquela época, e meu pai enxergou uma oportunidade onde ninguém mais via futuro.
Mesmo sendo alvo de zombarias, ele nunca deixou de sorrir.
—" Desistir não é uma opção. Eu sou o grande Isaac Ashford."
Esse era o lema da nossa família.
Mas, em meio àquele povo de mente pequena, havia uma mulher de beleza única que acreditou nele desde o início.
—" Isaac Ashford e Noêmia Ashford... contra o mundo."
Mamãe sempre ria antes de responder:
—" Contra Tuvalu."
Ainda consigo me lembrar do som da risada dos dois. Era reconfortante.
Será que um dia papai voltará a sorrir daquele jeito?
Mais uma pergunta sem resposta.
Apesar de toda a cidade duvidar deles, eles conseguiram.
Meu pai entrou para o ramo imobiliário e, ao longo dos anos, construiu seu império. A Imobiliária Ashford nasceu da prova de que era possível sonhar. Todos aqueles que riram dele foram obrigados a vê-lo alcançar o topo.
E foi bonito ver como tudo aconteceu.
Papai e mamãe se casaram porque, "acidentalmente", ela engravidou de mim.
Quando eu estava prestes a completar três anos, mamãe engravidou da minha irmã, Scarlett, nossa pequena Scar.
Papai queria ter mais filhos, mas mamãe sempre dizia, entre risos, que não destruiria o próprio corpo porque nós duas já dávamos trabalho suficiente.
Morávamos em um apartamento de dois quartos.
Naquela época, eu não fazia ideia da vida que meus pais levavam. Eles nunca falavam sobre trabalho ou qualquer outro problema na nossa frente.
Quando completei seis anos, nos mudamos para uma casa com quatro quartos e um quintal enorme. Havia um pequeno parquinho onde Scar e eu passávamos a maior parte do tempo.
Como era bom...
Eu daria qualquer coisa para voltar àquela casa. Para ser apenas a menina do papai, a garota que enxergava beleza em tudo e sonhava em ser como o seu maior herói.
Quando completei doze anos, entendi que papai tinha vencido.
Ele comprou a casa dos sonhos da mamãe.
Oito quartos, sendo quatro suítes. Uma sala de jantar com uma mesa para dezesseis pessoas. Sala de jogos, sala de televisão, dois escritórios e uma cozinha enorme, onde Scar e eu sempre nos perdíamos entre tantos armários.
Do lado de fora, havia um jardim impecável e o meu lugar favorito: a área da piscina, com um espaço gourmet e churrasqueira.
Sim... aquilo era um sonho.
Nossa casa ficava no bairro mais nobre de Tuvalu. Era comum ver carros de luxo pelas ruas, mas o verdadeiro xodó do meu pai era sua Lamborghini Urus azul-metálica. Às vezes, eu tinha a impressão de que ele sentia mais ciúmes dos carros do que da própria família.
Nossa casa vivia cercada por festas.
Quando completei quinze anos, mamãe fez questão de organizar uma festa digna de um baile real. Não era exatamente o que eu queria, mas ela estava tão empolgada que simplesmente deixei tudo nas mãos dela.
Hoje, fico feliz por isso.
Ela pôde viver a festa que nunca teve na adolescência.
Então veio o ano de 2020.
A pandemia da COVID-19 atingiu o mundo, e tudo parou. As escolas fecharam, os mercados ficaram vazios e as festas glamourosas precisaram esperar.
Foi durante aquele período que Scar e eu percebemos que havia algo errado.
Mamãe já não era a mesma mulher alegre e cheia de vida. A mulher carinhosa que brincava conosco havia dado lugar a alguém silenciosa, sempre cansada, com um semblante de quem escondia uma dor constante.
Papai chegou a pensar que ela estivesse com COVID-19, mas o exame deu negativo.
— É só uma gripe. Vai passar.
Era isso que ela dizia.
Mas eu sabia...
Alguma coisa estava errada.
Mesmo assim, ela insistia que estava tudo bem.
Quando a pandemia acabou e a vida começou a voltar ao normal, mamãe também parecia estar recuperando o brilho de antes.
Foi um alívio.
Pelo menos era isso que Scar e eu acreditávamos.
Em março de 2023, mamãe pegou todos de surpresa ao anunciar que faria uma festa de quinze anos para Scarlett.
Nós até questionamos a decisão, afinal, ainda faltavam cerca de oito meses para o aniversário dela.
Mas papai não quis contrariá-la.
Diferente do que aconteceu comigo, ela deixou Scar escolher cada detalhe da festa. O tema foi fantasia.
E ficou perfeita.
Se eu soubesse que aquela seria a última festa da nossa família, teria aproveitado cada segundo.
Porque, depois dos quinze anos de Scarlett...
Nunca mais comemoramos nada.
Abril de 2023.
O mês em que tudo começou a desmoronar.
Encontramos mamãe caída no chão da sala, com sangue escorrendo pelo nariz.
Papai a levou às pressas para o hospital.
Foi ali que o nosso mundo desabou.
Mamãe foi diagnosticada com câncer de pâncreas em estágio quatro.
Ficamos sem chão.
Os médicos disseram que a doença já havia devastado o fígado. Se ela tivesse procurado ajuda quando os primeiros sintomas apareceram, talvez ainda houvesse uma chance.
Talvez...
Hoje ela ainda estivesse aqui.
Como Tuvalu não possuía estrutura para oferecer o tratamento necessário, fomos obrigados a deixar tudo para trás.
Papai queria levá-la para os Estados Unidos, onde ela teria acesso ao melhor tratamento possível.
Mas a doença já estava avançada demais.
Ela não suportaria uma viagem tão longa.
Nossa única alternativa foi nos mudarmos para a Ilha de Valen, localizada a nordeste da Austrália.
A viagem foi extremamente cansativa para mamãe. Era possível ver a dor estampada em seu rosto durante todo o percurso.
Papai vendeu tudo.
A mansão, a imobiliária, os carros...
Até o carro.
Sinceramente, pensei que ele fosse se arrepender. Mas não.
— Faço tudo pela minha mulher.
Era isso que ele dizia.
E fez.
Fiquei surpresa quando chegamos à ilha.
Era como se eu tivesse entrado em outro mundo.
Valen parecia saída de um dos filmes que eu tanto gostava de assistir. Apesar de ser uma ilha, havia prédios altos que se misturavam às árvores, criando uma paisagem que parecia impossível de existir.
Assim que saímos do aeroporto, percebi que teria de prestar muita atenção para não me perder. Tudo era novo.
Estávamos apenas com algumas malas. Como papai havia vendido tudo, restaram apenas nossos pertences pessoais.
Eu estava encantada.
Até então, lugares assim só existiam para mim nas fotos do Instagram. Sempre achei que aquelas imagens fossem editadas demais para serem reais.
Mas eu estava errada.
Enquanto seguíamos de táxi, papai pediu ao motorista que nos mostrasse e explicasse os principais pontos da ilha.
Confesso que não prestei muita atenção.
Naquele instante, passávamos por um parque cuja paisagem parecia ter sido pintada à mão.
— É o Parque das Sakuras. Vocês chegaram bem no começo da primavera. Este é o lugar mais bonito de Valen. — disse o motorista.
Olhei para ele apenas por educação. Acho que ele nem se importou, porque voltou a conversar com meu pai.
Eu continuava hipnotizada pela paisagem.
É claro que tirei várias fotos. Sabia que as publicaria quando tivesse tempo.
Queria que meus amigos vissem que estávamos bem...
E que, apesar de tudo, tínhamos chegado a um lugar lindo.
Antes mesmo de nos mudarmos para Valen, papai já havia providenciado uma casa para ficarmos e matriculado Scar e eu na escola. Faltava apenas preparar o quarto da mamãe e comprar outro carro.
Minha única preocupação era que ela ficasse bem.
Viemos para esta cidade porque papai se recusou a aceitar o diagnóstico de apenas seis meses de vida.
Ele tinha certeza de que os médicos daqui conseguiriam examiná-la melhor. Nós também acreditávamos que o diagnóstico de câncer em estágio quatro era um exagero.
Quem dera...
Ainda me lembro da expressão da Scar quando chegamos à casa.
Seu rosto era de pura reprovação.
Aquele lugar não chegava nem perto da casa onde crescemos, da casa onde passávamos horas brincando no parquinho.
Pela primeira vez na vida, estávamos morando em uma casa que não havia sido escolhida pelo conforto, mas pela necessidade.
Papai nos garantiu que aquilo era apenas temporário.
Assim que o dinheiro da venda da mansão, da imobiliária e dos carros fosse totalmente liberado, procuraríamos um lugar melhor.
— Não importa onde os Ashford estejam, numa mansão ou debaixo de uma ponte. Sempre seremos o lar um do outro.
Foi isso que mamãe nos disse naquele dia.
Até hoje, não consigo esquecer daquele sorriso carregado de dor... nem dos olhos cheios de culpa.
Como sinto falta dela.
As primeiras semanas em Valen foram difíceis.
Uma casa nova, uma escola nova e pessoas completamente diferentes daquelas com quem estávamos acostumadas.
Para o desespero da Scar, papai nos matriculou em uma escola pública.
Eu não me importei.
Parecia uma boa escola e, além disso, aquele seria meu último ano antes da faculdade.
As semanas seguintes foram ainda mais corridas para mamãe.
Ela precisou passar por uma infinidade de exames, todos extremamente caros.
Mas papai não ligava para o dinheiro.
Ele queria salvá-la.
E faria qualquer coisa por isso.
Preparar o quarto também não foi barato. Uma cama hospitalar, suporte para oxigênio, monitor de sinais vitais e diversas adaptações.
Eu não fazia ideia de como tudo aquilo estava sendo pago.
Mas, de alguma forma, papai sempre dava um jeito.
Então veio a confirmação.
Mamãe realmente estava com câncer de pâncreas em estágio quatro.
A doença já havia atingido o fígado e parte do intestino.
O tratamento não seria capaz de curá-la.
Serviria apenas para prolongar seus dias.
Os médicos deram, no máximo, mais um ano de vida.
Depois disso...
Só um milagre.
Meu pai se agarrou a essa palavra como se ela fosse sua última esperança.
Passou a procurar respostas nas crenças da ilha, nas igrejas que encontrava pelo caminho e em qualquer pessoa que dissesse conhecer um caminho para alcançar esse milagre.
Certa vez, ele acendeu dezenas de velas no quarto da mamãe.
Havia velas de todas as cores. Segundo ele, cada cor representava um pedido diferente.
Quando papai saiu do quarto, mamãe segurou minha mão.
— Apague as velas quando ele for dormir.
Franzi a testa, sem entender.
Ela apenas sorriu. Um sorriso triste, cansado... resignado.
— Eu não quero que ele viva preso a falsas esperanças.
Naquele dia, foi a primeira vez que vi minha mãe chorar diante de mim.
Ela me pediu perdão.
Disse que havia destruído nossas vidas.
Antes que eu pudesse responder, a abracei com toda a força que consegui.
— A senhora não destruiu nada, mãe.
Ela chorou.
Eu chorei.
E, por alguns minutos, tudo o que fizemos foi permanecer abraçadas, tentando acreditar que aquele não seria o nosso fim.
— Não importa onde estejam os Ashford...
— Sempre seremos o lar um do outro.
A frase que mamãe sempre dizia saiu carregada de dor.
Só de lembrar daquela noite, sinto as lágrimas inundarem meus olhos.
Essa lembrança ainda dói.
Naquela mesma noite, ela pediu que aumentassem a dose da morfina.
A dor já estava no nível sete.
Ela me confessou que tinha medo de chegar ao nível dez.
No início de dezembro de 2023, eu descobri o peso do nível dez.
Ao amanhecer, papai a encontrou sem vida.
Quatro meses depois daquela conversa.
O grito que ecoou pela casa foi o som mais assustador que já ouvi.
Naquele instante, eu soube que meu pai nunca mais seria o mesmo.
Desde então, dezembro se tornou um mês insuportável.
Depois daquele dia, nunca mais comemoramos o Natal.
Nunca mais comemoramos o Ano-Novo.
O nível dez destruiu a nossa família.
E eu só espero nunca mais sentir uma dor como aquela.
Este ano faz três anos que mamãe morreu.
Ela foi arrancada da nossa família.
Meu pai nunca mais voltou a ser quem era.
O homem que antes sorria para qualquer dificuldade se transformou em alguém triste, vazio... e completamente entregue à bebida.
Scarlett também mudou.
A menina doce que eu conhecia deu lugar a uma garota atrevida, impulsiva e que já não respeita ninguém.
Ultimamente, tem andado com pessoas de caráter mais do que duvidoso.
E eu...
Acho que sou quem tenta segurar os pedaços que restaram da nossa família.
Tenho dois empregos.
Nos dois, preciso sorrir o tempo todo porque trabalho com pessoas.
Foi assim que descobri que um sorriso falso quase sempre evita a mesma pergunta.
— Está tudo bem?
Não.
Não está nada bem.
Mas ninguém quer ouvir a resposta de verdade.
Então eu sorrio.
Porque é mais fácil fingir que sobrevivi...
Do que admitir que uma parte de mim morreu junto com a minha mãe.
E, como se tudo isso ainda não bastasse...
Por alguma razão...
Isaac Ashford está falido.
O motivo da falência eu ainda desconheço.
As brigas se tornaram constantes.
Por que eu tenho que me preocupar com uma garota de dezoito anos que age pior do que uma criança?
Porque Isaac está bêbado demais para ser pai.
Às vezes, me pego pensando...
Será que existe alguma forma de voltar no tempo?
É...
Acho que não.
E o bairro onde estamos morando também não ajuda.
Tivemos que vender a nossa antiga casa, porque papai não suportava mais viver cercado pelas lembranças da mamãe.
Agora moramos em um lugar completamente diferente.
Eu odeio este bairro.
Estou começando a odiar a minha vida.
Para qualquer lado que olho, tenho a sensação de que as paredes estão se fechando ao meu redor.
Mamãe...
Sinto tanto a sua falta.
O quanto uma pessoa pode mudar por causa das circunstâncias que a vida lhe impõe?
Meus pensamentos foram interrompidos pelo som de algo se quebrando na cozinha.
Levantei tão rápido que meu coração parecia querer sair pela boca.
Torci para que fosse apenas um copo...
E não mais uma discussão entre Scarlett e meu pai.
Continua...





