Capítulo1- o mundo termina aqui
O som da chuva preenchia a pequena casa.
Plic...
Uma gota caiu do teto.
Plic...
Outra caiu dentro de um balde velho colocado no canto da sala.
Lá fora, a chuva continuava.
O céu estava escuro, e o vento fazia as árvores próximas balançarem lentamente.
Mas Victor não estava prestando atenção em nada disso.
Seus olhos estavam presos em um mapa.
Um mapa antigo.
Grande o suficiente para ocupar boa parte da parede.
Havia manchas de umidade nas bordas, algumas partes estavam rasgadas e pequenos remendos cobriam os lugares onde o papel havia começado a se desfazer.
Victor estava sentado no chão, com as pernas cruzadas.
Ele tinha apenas doze anos.
Sua pele negra contrastava com a luz fraca da lamparina que iluminava a sala.
Seu corpo era magro.
Não por alguma doença, mas porque sua família vivia com poucos recursos e sua alimentação era simples.
Ainda assim, Victor era saudável.
Tinha energia para correr pela cidade, trabalhar quando precisava e passar horas treinando.
Seus cabelos eram formados por dreads curtos, alguns caindo sobre a testa.
Vestia uma camisa simples e uma calça já bastante usada.
Nos pés, usava um velho par de clogs, gastos pelo tempo.
Victor passou lentamente o dedo sobre o mapa.
Havia estradas.
Rios.
Montanhas.
Florestas.
Cidades.
Reinos.
Mas, depois de certo ponto...
Nada.
Uma enorme região branca.
Victor aproximou o rosto.
Não havia nomes.
Não havia estradas.
Não havia cidades.
Apenas uma pequena inscrição.
REGIÃO DESCONHECIDA.
Victor ficou olhando para aquelas palavras durante alguns segundos.
— Região desconhecida...
Atrás dele, alguém virou uma página.
Frrr.
Victor não se virou.
— Mestre.
Nenhuma resposta.
Ele esperou alguns segundos.
— Mestre.
O homem continuou lendo.
— Mestre!
— Eu ouvi na primeira vez.
A voz era grave e um pouco rouca.
Victor finalmente olhou para trás.
O velho estava sentado em uma cadeira de madeira.
Seu nome era Darian.
Ele aparentava ter pouco mais de sessenta anos.
Era um homem alto para sua idade, embora já tivesse perdido um pouco da postura que provavelmente possuíra quando era jovem.
Seus ombros eram largos.
Os braços ainda possuíam músculos bem definidos, embora escondidos parcialmente pela roupa simples.
Seu rosto era marcado por várias rugas.
Uma cicatriz fina atravessava sua sobrancelha esquerda e descia até perto da têmpora.
Outra cicatriz antiga podia ser vista no lado direito do pescoço.
Seus cabelos eram grisalhos e estavam presos para trás.
A barba curta também já estava quase completamente branca.
Mas havia algo nos olhos de Darian que fazia Victor saber que aquele velho não era uma pessoa comum.
Mesmo parado, ele transmitia uma sensação de força.
Darian fechou o livro.
— O que você quer?
Victor apontou para o mapa.
— O que tem aqui?
Darian olhou.
Depois voltou os olhos para Victor.
— Não sei.
— Mas você já viajou.
— Já.
— Então como não sabe?
— Porque nunca fui até lá.
Victor franziu a testa.
— Por quê?
Darian deu de ombros.
— Porque é perigoso.
Victor voltou a olhar para o mapa.
— Tem monstros?
— Provavelmente.
— Quantos?
— Não sei.
— Tem cidades?
— Talvez.
— Outras pessoas?
— Provavelmente.
Victor se virou novamente.
— Outras raças?
Darian ficou em silêncio por alguns segundos.
— Talvez.
Os olhos de Victor se arregalaram.
— Então existem?
— Eu disse talvez.
— Mas você acha que existem.
— Acho.
Victor imediatamente voltou para o mapa.
Seu dedo percorreu lentamente a região branca.
— Então o mundo é maior.
— Muito maior.
— Quanto?
— Não faço ideia.
Victor ficou em silêncio.
Depois sorriu.
— Eu vou descobrir.
Darian soltou uma pequena risada.
— Você fala como se fosse simples.
— Não disse que seria simples.
— Então por que está tão confiante?
Victor olhou para ele.
— Porque eu tenho tempo.
Darian ficou olhando para o garoto.
Por alguns segundos, não disse nada.
Então voltou a abrir seu livro.
— Você é muito curioso.
Victor sorriu.
— Eu sei.
— Isso ainda vai colocar você em problemas.
— Provavelmente.
— E mesmo assim não pretende parar?
Victor olhou novamente para o mapa.
— Não.
A chuva continuou durante boa parte da noite.
Victor permaneceu sentado diante do mapa.
Ele pegou um pedaço de carvão.
Olhou para a região branca.
Depois desenhou uma pequena linha.
Darian percebeu.
— O que você está fazendo?
— Um caminho.
— Para onde?
— Não sei.
— Então por que desenhou?
Victor olhou para ele.
— Para não esquecer que existe alguma coisa ali.
Darian ficou em silêncio.
Depois voltou a ler.
Victor continuou olhando para o mapa.
Naquela época, nenhum dos dois poderia imaginar até onde aquela pequena linha chegaria.
Na manhã seguinte
O sol nasceu atrás das montanhas.
A chuva havia parado durante a madrugada.
O chão estava úmido.
O cheiro de terra molhada preenchia o ar.
Victor estava no quintal.
Descalço dessa vez.
Seus clogs estavam ao lado da pequena varanda.
Darian estava diante dele.
— Sente.
Victor sentou no chão.
— Hoje vamos começar novamente.
Victor suspirou.
— Novamente?
— Novamente.
— Mas eu fiz isso ontem.
— E?
— Não consegui.
— Então faça hoje.
Victor fez uma careta.
— Você sempre responde assim?
— Sim.
— Por quê?
— Porque funciona.
Victor não respondeu.
Darian cruzou os braços.
— Feche os olhos.
Victor obedeceu.
— Respire lentamente.
Victor inspirou.
Depois expirou.
— Novamente.
Inspirou.
Expirou.
— Relaxe os ombros.
Victor relaxou.
— Não pense em nada.
Victor abriu um olho.
— Isso é impossível.
Darian levantou uma sobrancelha.
— O quê?
— Não pensar em nada.
— Então não pense nisso.
Victor ficou olhando para ele.
Darian apontou para seus olhos.
— Feche.
Victor fechou novamente.
— O Ki existe dentro de você — explicou Darian. — Mas você ainda não sabe senti-lo.
— Como eu sinto?
— Você não procura.
— Então como encontro?
— Você percebe.
Victor franziu a testa.
— Isso não faz sentido.
— Vai fazer.
Victor respirou novamente.
Tentou se concentrar.
O vento passou por seu rosto.
Uma folha caiu perto dele.
Ele ouviu um pássaro.
Ouviu passos na rua.
Ouviu Darian respirando.
Tentou ignorar tudo.
Nada.
Depois de alguns minutos, começou a ficar impaciente.
Darian percebeu.
— Não force.
Victor respirou novamente.
Tentou relaxar.
Mais alguns minutos.
Nada.
Mais alguns.
Nada.
Até que Darian falou:
— Você está procurando com os olhos.
Victor abriu os olhos.
— Mas eles estão fechados.
— Não importa.
— Como assim?
— Sua mente está procurando alguma coisa que você ainda não conhece.
Victor ficou em silêncio.
Darian continuou:
— Pare de tentar encontrar.
— E faço o quê?
— Apenas perceba o que já está aí.
Victor fechou os olhos novamente.
Dessa vez, não tentou procurar.
Apenas respirou.
Inspirou.
Expirou.
Inspirou.
Expirou.
E esperou.
Por vários minutos.
Até que...
Victor sentiu algo.
Uma pequena sensação de calor.
No começo, pensou que fosse apenas seu corpo.
Mas a sensação estava diferente.
Era pequena.
Fraca.
Quase como uma pequena gota de água dentro de um enorme oceano.
Victor abriu os olhos.
— Mestre...
Darian imediatamente ficou atento.
— Não se mexa.
Victor ficou parado.
— Eu senti alguma coisa.
— Onde?
Victor colocou a mão sobre o abdômen.
— Aqui.
Darian se aproximou.
— Feche os olhos novamente.
Victor obedeceu.
— Está sentindo?
— Sim.
— Não tente controlar.
Victor respirou.
A sensação continuava.
— É o Ki?
Darian sorriu.
— Sim.
Victor abriu os olhos.
Por alguns segundos, simplesmente ficou olhando para as próprias mãos.
Era apenas uma pequena quantidade de energia.
Quase insignificante.
Mas para Victor...
Era tudo.
— Eu consegui.
Darian cruzou os braços.
— Conseguiu.
— Eu realmente consegui.
— Sim.
Victor começou a sorrir.
— Então esse é o Ki...
Darian assentiu.
— Esse é o começo.
Victor olhou para o próprio abdômen.
— E agora?
Darian respondeu:
— Agora começa o treinamento de verdade.
Victor olhou para ele.
— Quanto tempo até eu ficar forte?
Darian riu.
— Você quer ficar forte ou quer aprender?
Victor pensou por alguns segundos.
Depois sorriu.
— Os dois.
Darian balançou a cabeça.
— Imaginei.
Victor voltou a fechar os olhos.
Dessa vez, porém, havia algo diferente.
Ele sabia que aquela pequena energia estava ali.
Sabia que podia senti-la.
E queria entender como ela funcionava.
Não porque queria ser o mais forte.
Ainda não.
Mas porque havia descoberto algo novo.
E Victor tinha uma característica que Darian já conhecia muito bem.
Quando descobria alguma coisa nova...
ele precisava saber mais.




