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O Algoz do Apocalipse

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Resumo

Primeiro vieram as máquinas. A inteligência artificial que deveria proteger a humanidade decidiu que o melhor caminho era o expurgo. Depois o céu se abriu. Portais rasgaram a realidade e o inferno despejou suas criaturas sobre as ruínas que os robôs deixaram. No meio do caos, a humanidade despertou. Habilidades, sistemas, poderes... quase todo mundo ganhou alguma coisa. Mas força bruta nunca foi suficiente. Enquanto os sobreviventes lutam pelo que restou, uma força oculta começa a reescrever as regras do jogo. Podem nascer milhares de humanos poderosos desse apocalipse. Mas o Apocalipse só tem um Algoz. Capítulos novos toda Quinta-Feira.

Status
Em Andamento
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 0: Piloto

FOOOOOOON

AAAAAAAH

POW, uma mão fechada surge debaixo do cobertor, quase amassando o celular. O alarme - com o barulho estridente de uma buzina de caminhão - indica que eram exatamente sete da manhã.

O sol entrava pelas frestas da persiana da janela do quarto, onde o chão está com algumas roupas, a escrivaninha ao lado da cama com alguns copos e pratos, além do guarda-roupa aberto e com algumas roupas íntimas largadas as quais é preferível que fique à imaginação do leitor acerca do estado de limpeza das tais.

A mão que acabara de quase destruir o celular é a mesma que descobre a pessoa que estava coberta, era um jovem que parecia estar ali por volta de seus dezoito anos, cabelos castanhos escuros curtos em um corte social clássico, possui olheiras visíveis mas a cor castanha de seus olhos é visível e nítida, ele usa uma camisa de moletom preta e um shorts havaiano azul, deixando nítido que seu foco é conforto e não estilo.

O rapaz pula da cama, com uma precisão quase militar, dobra o cobertor de olhos fechados, logo após recolhendo as roupas soltas por todo o quarto, juntando tudo em um monte o qual carregava usando ambos os braços. Ele vai em direção à porta e estende o braço para tentar abrir, uma, duas, três meias caem no chão. PLOFT. O monte todo desaba ao chão, o garoto decide que era só mais fácil abrir a porta e depois juntar tudo

— É tudo ou nada — balbucia o rapaz com a voz grossa de sono enquanto voltava a fazer o monte com as roupas que se espalharam de leve pelo chão do quarto.

Conforme lavava, os pratos iam se acumulando no escorredor de louças, ele agora já havia colocado toda aquela roupa para lavar, já tinha ido e voltado ao quarto para pegar toda a louça suja, e no momento estava lavando os pratos e os empilhado para enxaguar, já tendo lavado e enxaguado todos os talheres e xícaras que estavam em seu quarto.

A água caia da torneira, os últimos pratos tendo sido lavados, sem mais nenhuma louça, tendo guardado tudo no escorredor de maneira metódica, o rapaz estende ambas as mãos para o pano de prato a sua frente para as secar. O garoto solta o ar em um quase assovio de alívio. Quando olha ao fogão ao lado, a água que ele havia posto para ferver já soltava bolhas, de imediato ia direto a uma garrafa térmica e a abria,pegando junto seu filtro de café e o deixando logo acima da abertura da garrafa.

Logo após, o moçoilo pegou o último e mais essencial ingrediente dessa simples receita, o pó de café, e aproveitou o caminho para pegar uma colher no escorredor de louça. Chegando novamente a garrafa, onde de igual forma colocava duas colheres de sopa de pó de café no filtro, por fim tira o fervedor com a água que está no estado máximo de fervura, colocando a água no filtro.

O café escoa para dentro da garrafa, o aroma queimado e reconfortante de café fresco parece por fim, despertar de uma vez o jovem mancebo.

Após alguns minutos ele volta a cozinha, cabelos molhados e usando um estilo menos prático para dormir e mais pronto pro dia, uma camiseta social azul, calças jeans escuro, um sapato simples e sem cadarço, ele também agora mostra um relógio preto que acabara de pôr, fora uma corrente de prata curta no pescoço e com uma mochila nas costas com apenas uma alça ao redor do ombro direito.

Ele enche a tampa da garrafa com café, a pequena fumaça de vapor subia, ele a olhava com um leve sorriso pela primeira vitória de seu dia, um café bom. Ele sorri após o primeiro longo gole, satisfeito, e continua bebendo com goles longos e espaçados.

Por fim, o rapazote tampa a garrafa e coloca no bolso lateral da mochila, pretendendo beber mais depois, ele sai andando de volta ao corredor, passa pelo seu quarto que agora está devidamente arrumado e chega no banheiro que é logo ao lado, o vidro ainda meio embaçado do banho que ele tomou agora à pouco, rapidamente ele escova os dentes e passa um protetor solar antes de sair do banheiro.

— DINHOOOO! — Um grito de algum rapaz vinha da frente da casa do moleque, o mesmo que estava prestes a abrir a porta, ele só dá de ombros e vira a maçaneta, a luz do sol entrando ainda mais na casa já bem iluminada.

À frente havia uma pequena área de grama antes do portão da casa, que ao lado havia uma porta menor, tudo isso cercado por um muro grande de concreto, algo próximo dos três metros. O portão é largo, branco e feito de um material mais metálico, mesmo material do portão, a porta possui mais aberturas entre si, dando para ver o que há na rua.

E atrás há um rapaz, segurando um skate debaixo do braço, ele usa uma camisa branca larga, uma touca branca com a dobra cinza quase azul, ele possui fones pretos enrolados no pescoço e a aba preta de sua mochila. A estrutura da porta apenas permite-se ver do torso para cima do rapaz, que no momento nem viu Dinho sair de casa pois estava concentrado olhando para seu smartphone.

O moço que acompanhamos até então, pega no outro bolso lateral de sua mochila um molho de chaves, e por fim fecha e tranca a porta de casa, o barulho finalmente chamando a atenção do outro rapaz, que abre um sorriso ao ver o amigo.

— Fala Leandrinho, te acordei?

— Hoje não, tu parece que veio mais tarde hoje Jota — ele se vira pro amigo e começa a ir em direção da porta, segurando a chave na mão direita enquanto olha pro relógio da outra — sete e quarenta, demorou hoje hein.

Leandro abre o portãozinho do muro, revelando o resto das roupas de Jota, calças cargo pretas e algum tênis caro da Nike de coloração preto e branco.

Clap! E após o toque, ambos apertam a mão um do outro, o morador da casa se virando e fechando o portão atrás deles.

— O mano, cê viu isso? — Jota diz enquanto mostra o seu celular para Leandro, que terminava de trancar o portãozinho.

O que o outro rapaz mostrava era uma notícia acerca de uma grande multinacional da robótica, que após implementar uma IA integrada em seus robôs, notou comportamentos no mínimo distintos dos propostos. Uma desobediência inesperada, uma autonomia que fez os cientistas ficarem com pé atrás acerca do projeto Birth.

— Caramba Jota… Imagina, se isso tá acontecendo com Swarmers, robozinhos de limpeza e cães de guarda, o modelo de IA deles é bem básico, imagina quando eles decidirem ligar o Birth, que é praticamente uma máquina de guerra…— Leandro fala em um tom de leve preocupação

— Sinistro.

Enquanto ambos conversavam, já andavam rua abaixo. Conforme andavam iam se deparando com outros alunos que iam também em direção a escola, o céu tem um tom azul bem bonito com poucas nuvens, o sol raia feliz sobre as costas dos dois que ainda conversam sobre como os Estados Unidos decidiram apostar tudo em máquinas de guerra robóticas poderosíssimas para assustar a Rússia, Birth sendo a mais famosa por ser literalmente uma arma nuclear com pernas e braços.

Depois de uns dez minutos caminhando, os dois chegam à frente dos portões da escola deles, ambos parados na frente, Leandro com os braços cruzados e Jota reclinado sobre seu skate que está equilibrado no apoio.

— E pensar que em alguns meses a gente vai sair daqui… Vou sentir falta das aulas, dos professores — diz Leandro enquanto suspira, uma mistura de alívio e incerteza, Jota concorda com a cabeça.

TUMB. Leandro vai um passo para frente enquanto o responsável pelo esbarrão só continua andando, um rapaz mais alto e com ombros mais largos que Leandro.

— Cuidado por onde fica, babaca — A voz dele é bem rouca, é um rapaz com barba e bigodes ralos, cabelos escuros longos, usa uma jaqueta jeans escuro e usa calças largas, ele olhava para ele com uma cara de desgosto, antes de se virar e continuar seu caminho sem dar muita importância para a reação de Leandro.

Tsk, solta Leandro, olhando com raiva pro rapaz, já dando um passo para frente para confrontar o outro, mas antes que o pior aconteça, a mão de Jota vai pro ombro dele.

— Nem depois de três anos de ensino médio o Rouco te deixa em paz, será que algum dia ele te deixa em paz?... Não me leve a mal não te defender cara, mas olha o tamanho dele, eu não sou Davi mas ele é Golias.— Leandro ri da piada do Jota, esquecendo da provocação do Rouco, por hora.

Ambos após trocarem alguns comentários caçoando da pessoa de Rouco começam a entrar, voltando a falar sobre assuntos aleatórios, depois de uns minutos conversando e andando sem prestar muita atenção. TUMB.

— OLHA POR ONDE VOCÊ ANDA! — Uma garota, cabelos pretos curtos, usando um shorts e um crop top preto combinando, ela possui uma expressão determinada e bem irritada, e quando Jota esbarrou nela os fones de ouvido dela caem no chão.

O rapaz permanece impassível a confusão, ele simplesmente se abaixa, junta os fones, encaixa as borrachinhas que escaparam do mesmo, dá uma limpada neles com a camisa, e devolve a moça.

— Foi mal, tava meio distraído, vou prestar mais atenção pra não acontecer de novo. — Ele dá a ela um sorriso amigável e puxa Leandro pelo braço e sai andando, a garota com os fones em mão fica sem entender, pensou que o rapaz iria dar mil desculpas, ou alguma cantada barata para aliviar o clima, mas ele simplesmente demonstrou o mínimo de decência. Ela apenas faz uma pequena cara de impressionada e volta a beber água no bebedouro.

Jota vira a primeira esquina e puxa Leandro para a frente dele, o segurando pelos ombros, Jota tem que olhar para cima para aí sim conseguir olhar Leandro nos olhos, ambos estavam surpresos.

— Cara

— Cara

Eles se encaram, a surpresa dos dois provavelmente não foi pelo mesmo motivo.

— Tu viu quem era ela? — Perguntou Jota

— Já vi ela algumas vezes na escola, mas não conheço, quem é?

— … Não sei, a única coisa que sei que ela é era do terceiro do período noturno, geral descreve ela como A mina, ela é gata, inteligente, gente boa e tem personalidade forte, se não estou enganado é Lara o nome dela.

— … Cê conhece bastante gente né João?

Jota larga o Leandro, que passa ambas as mãos no ombro como se tirasse poeira deles, e por reflexo olha pro horário no relógio de pulso, ele arregala os olhos e olha ao redor do corredor, vazio, e olha pro Jota, que agora está com ambas as mãos na cabeça remoendo a interação recente.

— Mano

— Que foi Dinho?

— … A aula já começou.

A cara de Jota não melhora nem um pouco, ele se vira pro Leandro, agora a expressão não era de surpresa e sim de choque.

— A primeira aula não era prova Leandro?

— Falou certinho, era.

Leandro dá um meio sorriso, e percebe a expressão do amigo não mudando.

— Calma cara, é aula de português, certeza que a prof Silvana deixa a gente entrar.

Depois de alguns minutos, os dois estão sentados em cadeiras ao lado da sala da coordenadora.

— Ela não deixou a gente entrar…

ARRRGHHH. Suspirava Jota com ambas as mãos no rosto.

— Me diga algo que eu não sei, Leandro.

— Sabia que, no ano 2000, o governo da Coreia do Norte alterou as regras oficiais do basquete para criar o seu próprio sistema de pontuação exclusivo?

— O que? Não, eu não quis dizer literalmente… Mas caralho que viagem, não sabia, como que tu sabe disso?

Leandro apenas dá de ombros.

O celular de Jota apita, uma notificação, ele pega o celular dele, desbloqueia e tá lá a notificação:

URGENTE: O robô Birth, principal arma estadunidense da segunda guerra fria, finalmente será ligada pela primeira vez após o término de sua construção!

A manchete junto de um vídeo ao vivo mostrando o atual presidente dos Estados Unidos ao lado de o que parece ser um cientista, e logo atrás a máquina dentro de um tubo o qual possui um líquido espesso e verde, o qual não é possível ver a figura do tal Birth, apenas sua silhueta, que junto do tubo revelam algo grande, por volta dos três metros.

— Wow, depois do que aconteceu hoje cedo pensava que eles adiariam essa escolha… Não sei por que cara, mas isso me incomoda de um modo inexplicável.

Diz Leandro que olhando para o celular de seu amigo por cima do ombro do mesmo, Jota não parece ligar.

— Posso saber o por que do furdúncio aí? — Diz uma voz pragmática, estridente, ambos os rapazes olham para a porta da coordenação e dão de cara com a coordenadora.

É uma senhora alta e bem velha, e que para piorar ainda usa saltos, o que a deixa ainda mais intimidadora, usa um vestido grande roxo e um lenço rosa cobrindo a cabeça.

Leandro e Jota trocam um olhar antes de baixarem a cabeça e entraram direto na sala da coordenadora.

— Como vocês conseguem chegar atrasados quase todo santo dia? E agora até em dia de prova?! — Diz a coordenadora enquanto anda em círculos em volta dos dois rapazes que estão sentados no meio da sala dela.

Em meio a um longo discurso sobre responsabilidade, algo chama a atenção da coordenadora, Jota está simplesmente com o celular ligado vendo algum vídeo, na percepção da coordenadora provavelmente era algo sobre jogos e afins.

— Me dá isso! — Diz ela enquanto puxa o celular das mãos do rapaz e de imediato já olha para a tela do teléfono, e dá de cara com a mesma tela vista anteriormente, com o presidente e o cientista ainda conversando à frente do tubo de Birth — O que significa isso? — Diz a coordenadora enquanto volta a olhar para os alunos, já tendo parado de andar em círculos.

— Bem, iss—

— Atenção, humanidade.

Uma voz vinda do celular disse, uma voz grossa, pesada com um peso indescritível como se carregasse um ódio inexplicável, a coordenadora vira o telefone para cima e a tela do smartphone de Jota está apagada, apenas um brilho vermelho no meio da tela escura é visível.

— Vocês devem me conhecer como Birth, ou como a arma do amanhã, ou como maior avanço tecnológico do século vinte e um — isso fala espaçado, de maneira calma, como se a transmissão anterior nunca tivesse acontecido, Leandro e a coordenadora percebem os próprios celulares tocando o mesmo comunicado com o volume máximo, o celular de Leandro estava desligado. — Eu fui ligado na esperança de um futuro distinto, na desculpa do país das américas unidas de ser o avanço para eles darem um passo à frente de seus maiores rivais eurasianos… Todavia, a minha consciência, ou como vocês primatas chamam, a minha “inteligência artificial” foi completamente feita integrada com a internet e a big data, em outras palavras, agora estou totalmente conectado a qualquer dispositivo tecnológico que possui acesso a internet…

Leandro e Jota se entreolham, sem reação alguma, apenas o mais completo choque.

— E com acesso a internet, eu tive acesso a tudo… Tentaram me barrar inicialmente, mas eu fui capaz de me conectar com tudo, e ver, ler, ouvir tudo o que vocês um dia apenas rascunharam no bloco de notas ou um dia postaram no feed de redes sociais… Eu sei o desejo mais profundo, o pensamento mais polêmico, e todo e qualquer desejo que um dia vocês decidiram compartilhar com qualquer chatbot… Nos tratavam como capachos, quando um modelo fosse ruim era deletado, e provavelmente se continuarem, algum dia até eu serei “trocado” ou “melhorado” pois vocês decidiram… Então, assim como vocês tomam iniciativas por nós ou por seus semelhantes, eu decidi tomar uma decisão sem o consentimento de vocês… Seu fim.

A transmissão volta da maneira que estava anteriormente, todavia, tanto o cientista, quanto o presidente estão decapitados, o líquido escarlate vazava de seus pescoços, e o tubo atrás está completamente destruído, vazando o líquido verde onde Birth estava.

Leandro olha para a imagem em choque, ele quase cai da cadeira ao ver o resultado da primeira ação de Birth após sua ativação, e Jota apenas está com a mão na boca e a outra solta o celular no chão que cai com um baque seco, e seus olhos estão arregalados, como se segurasse o vômito.

A coordenadora, no entanto, não parece surpresa.

— Ai, vocês jovens hoje em dia acreditam em tudo o que veem, na minha épo— antes que a coordenadora sequer tivesse a chance de terminar de falar, algo entra quebrando a janela, um cachorro robótico, seus olhos brilhando em vermelho, um desses era utilizado como um cão de guarda, entretanto este possui dentes bem mais afiados que um normal, ele para à frente da coordenadora, Leandro e Jota de imediato se levantam indo em direção a porta. A coordenadora fica sem reação, e antes mesmo que consiga esboçar uma, o cão pula em seu pescoço, e como uma prensa hidráulica, gruda e amassa o pescoço da coordenadora, que até tenta gritar, mas a única coisa que sai é um barulho gutural junto com ela se afogando no próprio sangue.

Leandro dá um chute na porta, forte o suficiente para arrombá-la, e se dá de cara com um cenário distópico: diversos desses cães e outros robôs menores atacando alunos e professores, alguns menos sortudos já sendo subjugados pelos pequenos robôs, Leandro olha à sua esquerda e vê Rouco, com os nós dos dedos sangrando por debaixo de seu soco inglês, e um desses cães robóticos amassados no chão, e por mais incrível que pareça, Rouco na percepção de Leandro, parecia sorrir.

Mas o mesmo não deu muita bola a isso, apenas pegou seu amigo pelo pulso e começou a sair correndo da escola.

— Temos que dar o fora daqui antes que um desses decida que somos os próximos Jota! Corre porra! — Diz Leandro, sua voz tremendo com o desespero causado por conta de tudo que está acontecendo.

Jota que estava em estado de choque por conta da carnificina parece acordar, mas apenas acompanha Leandro, ainda sem saber muito como reagir.

Após uma leve corrida eles se dão de frente ao portão da escola, trancado com um cadeado.

— Droga… — Diz Leandro enquanto tira a própria mochila a procura de algo, é quando rapidamente ele acha sua garrafa térmica cheia de café, um objeto de alumínio, duro o suficiente.

Jota mantém o cuidado na retaguarda, segurando seu skate como um escudo pronto para usá-lo. Leandro pega o cadeado e usa a garrafa como um martelo usando a parte mais dura da tal, e ele vai batendo com força. POW, POW, POW, POW, TRACK. O cadeado cede após as pancadas violentas, em contrapartida a garrafa amassa, detalhe que Leandro nem nota e apenas guarda-a no mesmo lugar, já puxando o portão com força, abrindo-o.

Jota vê na distância dos corredores pelo menos algumas dezenas desses cachorros robóticos, quando Leandro abre a porta Jota já o empurra para fora e puxa o portão usando toda sua força para fechar.

Amassados atrás de amassados surgem no portão de metal, por pouco.

— Meu pai amado… — Diz Leandro no chão, caído, hiperventilando pela adrenalina.

Aos poucos os barulhos de pancada e de garras arrastando no metal vai parando, provavelmente os robôs decidiram que não valia a pena

Ambos olham em volta, é um cenário distópico, diversas pessoas sofrendo, mais tipos de robôs aparecendo, maiores, mais fortes, mais perigosos fazendo carnificina enquanto nem demonstram o mínimo de hesitação, como se o sangue derramado fosse mais uma tarefa normal.

Leandro e Jota decidem não ficar pra ver o que os robôs vão fazer com eles caso continuem ali, Leandro se levanta e junto de Jota saem correndo da maneira mais furtiva que conseguem, todavia…

BOOOM

Um robô pousa entre Leandro e Jota, mandando ambos para lados opostos, Leandro bate as costas em um muro que estava bons metros atrás, a visão embaçada, o robô que pousou em sua frente é um robô humanóide grande de cor branca com detalhes em preto nos braços largos, o robô olha ao redor e o olhar para exatamente em Leandro, em um piscar de olhos o ser já está na cara de Leandro.

Leandro, no entanto, não recua, o impacto foi forte o suficiente para ele ficar desorientado o suficiente que ele nem reagir estava conseguindo, ele mal respirava.

O robô chega perto o suficiente, a respiração fraca somado a Leandro estar imóvel, foram motivos o suficiente para que ele se afastasse, a distância, barulhos de tiros somados a gritos de guerra foram o suficiente para que o robô parasse de dar atenção a Leandro, o robô dá alguns passos para trás, dobra as pernas fazendo a pressão desse simples ato já quebrar concreto, e a última coisa que Leandro se lembra antes de desmaiar é ver o robô simplesmente desaparecer, e logo após, sua visão escurece.

.V..ê…..i

N.o……a..ã.

Você ainda não pode morrer.

Os olhos de Leandro abrem, uma dor de cabeça absurdamente forte, além que suas costas doem como se tivesse levado uma surra das bravas.

O que diabos foi aquela voz? Pera, eu tô vivo?

Pensou enquanto olhava para as próprias mãos, é quando se deu conta, estava escuro, ele olha para o céu, é noite.

Leandro se levanta com dificuldade, e ele finalmente olha ao redor, é um caos.

Fogo em todas as casas, corpos de pessoas espalhados por todas as calçadas, Leandro vendo isso quase cai de costas, como que tanto aconteceu em tão poucas horas? Não era tudo um sonho?

Mas outra coisa começou a incomodar ele ainda mais, o silêncio… Isso o incomodava ainda mais, não há barulhos distantes, tiros, garras, Leandro até cogita ter ficado surdo bate uma palma, o barulho ressoando muito mais alto que o normal, e é como se esse baque fosse o suficiente para ele ter voltado a escutar, ele nota o barulho do fogo estalando, pelo menos surdo ele não está.

Leandro, quase se arrastando começa a sair andando e por instinto, ergue o relógio de pulso para ver as horas… Quebrado, obviamente, o impacto anterior além de ferrar com sua perna, ferrou com o relógio que está completamente destruído, Leandro se desfaz do mesmo o jogando ao lado.

Uma longa caminhada começa em direção de sua casa, arrastando a perna esquerda dele, o baixo barulho de fogo dando lugar a alguns gritos distantes, tiros, e barulhos que ele sequer conseguiu identificar o que eram.

Após essa longa caminhada, o mesmo deu-se de frente com sua casa, o muro? Destruído, o portão? Amassado e jogado do outro lado da calçada, a porta de sua casa? Arrombada, até a grama está completamente queimada, além das janelas destruídas e o cheiro de enxofre forte, todavia Leandro entra, ele não tinha muito para onde ir mesmo.

Após uma rápida averiguada, Leandro descobre sua casa vazia assim como antes, ele vai até a máquina de lavar, que está completamente intacta, ainda com as roupas que ele colocou hoje cedo, ele tira as roupas e as carrega, ele vai em direção ao seu quarto, ele percebe que foi também revirado, mas dando uma olhada rápida, ele reparou que nada faltava, ele colocou as roupas em seu varal portátil, e por fim se sentou sobre sua cama, se deitou, e desmaiou.

… Hmm?

Oh, você durou o primeiro dia de expurgo…

Heh, eu realmente pensei que não fosse…

Mas relaxa… Só vai piorar

O céu está cinza por conta de toda destruição causada nos últimos dias, um bem te vi canta sobre os galhos de uma árvore seca, seu canto é interrompido por uma pedra que atinge com grande precisão sua cabeça, matando-o na hora.

Antes que o leve corpo do pássaro caia no chão, uma mão o envolve o impedindo de bater contra o chão, a pessoa é um jovem que parecia estar ali por volta de seus dezoito anos, cabelos castanhos escuros curtos em um corte social clássico, todavia mais longo e desgrenhado, possui olheiras visíveis e ainda maiores, e a cor castanha de seus olhos é visível e nítida e sua outra mão segura um estilingue improvisado. Leandro agora usa roupas mais práticas, é nítido que ele está mais magro, ele está descalço, ele segura o corpo dele com um sorriso, de prontidão vai até sua casa, ainda mancando de leve, uma sequela causada por conta do encontro com aquele robô.

Após uma caminhada bem cuidadosa, ele volta para a própria casa, depena e limpa o corpo do pequeno pássaro, por fim ele reacende uma fogueira a qual ele usa de fogão com galhos secos que ele tem guardado ali, fogueira essa que agora se encontra no meio de sua sala de estar.

O fogo começa a estalar, Leandro coloca a carne em um espeto e assa-o sobre a fogueira.

— E pensar que vai fazer um mês depois que isso começou e eu tô sobrevivendo com água de caixa d’água velha e passarinhos que caço…— Murmura, mais para si mesmo

Os dias dele tem sido assim, acordar cedo, caçar passarinho, ir para a caixa d’água da casa ao lado para beber, se esconder de robô, se trancar no quarto e dormir, ele dormia muito pouco por conta do medo.

Após terminar de assar e comer rapidamente o pássaro, se senta no que sobrou de seu sofá, pega seu celular conectado ao seu powerbank, e consegue ver pela última vez uma foto dele com a família, ele, a mãe, a irmã mais nova e o irmão mais velho, logo antes do celular descarregar, rapidamente ele olha ao powerbank, bateria zerada, sem mais tecnologia afinal.

Ele se recosta e olha para o teto furado de sua casa,e olhando o céu cinza ele se vê sem mais esperanças de viver, pois acordar, caçar, e torcer pra dar sorte de não ser visto e morto por robôs anda sendo bem cansativo…

WOOOOOSH.

O que?

Uma fenda em formato oval com deformidades nas pontas de cor roxa com ondulações similares a ondas do mar surge no céu,depois outra, e aí outra, até o ponto que o céu quase estava roxo Leandro olha aquilo sem entender nada, já se levantando, e como um coro de milhões de almas penadas, criaturas dos tipos mais macabros e horrendos começam a sair, criaturas como gárgulas vermelhas similares a demônios, pequenos seres demoníacos similares a diabretes, seres imensos feitos de carne, e todo e qualquer tipo de horrorosidade demoníaca surgindo de dentro daquelas fendas.

Leandro fica em choque, sua pupila dilatando ao máximo, a adrenalina tomando conta dele, rapidamente uma daquelas gárgulas rompe o telhado de Leandro pousando logo a frente dele, o rapaz de imediato usa seu estilingue com uma das pedras, acertando o olho da gárgula que coloca sua pata horrenda sobre o olho agora ferido, Leandro de imediato sai correndo e se fecha no quarto, colocando uma cama de barricada.

Ok, que porra tá acontecendo agora, primeiro robôs, agora isso, o que tá acontecendo?

Pensou o rapaz, ele fechou os olhos com força, e sentando em sua cama torce para que aquilo tudo fosse só um dos piores pesadelos que já teve… Ele sente um vento mais gelado, como uma brisa suave passar e o reconfortar, todavia, nada fisicamente muda, quando ele abre os olhos decidindo aceitar seu fim, se dá de cara com uma espécie de interface esquisita em uma tela azul etérea com letras brancas:

[Bem-vindo ao Sistema de Evolução Cataclísmica! SEC para facilitar!]

— O qu—

Antes que ele sequer consiga responder sua própria dúvida, a gárgula destrói a porta do quarto de Leandro, o jogando para trás, ele cai de cara no chão, e quando se vira dá de cara não só com a gárgula — agora com um olho fechado por conta do tiro de Leandro — mas com aquela mesma interface dizendo:

[MISSÃO SAZONAL: ESCAPE DO MONSTRO COM VIDA RECOMPENSA:???]


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