Chapter - O herdeiro do reino
KAYON
O primeiro raio de sol rompeu o horizonte, tingindo de dourado as vastas planícies que se estendiam até onde os olhos podiam alcançar. Do alto da varanda de pedra do Palácio da Lua Prateada, Kayon permaneceu imóvel, apoiando as mãos sobre o parapeito frio enquanto inspirava profundamente o ar puro da manhã.
A brisa atravessava os campos, fazendo o mar de grama dançar em ondas suaves, como se o próprio reino respirasse em perfeita harmonia. Ao longe, rios cristalinos serpenteavam entre colinas verdejantes, refletindo a luz do amanhecer como fios de prata espalhados pela terra. Pequenas aldeias despertavam lentamente, envoltas pela fumaça que escapava das chaminés, enquanto crianças corriam entre as casas de pedra e madeira, completamente alheias às responsabilidades que sustentavam aquele lugar.
Circundando todo o território erguia-se a Grande Floresta de Ébano.
Imensa. Antiga. Quase infinita.
Suas árvores gigantescas pareciam tocar o céu, formando uma muralha natural que protegia o Reino dos Lobisomens desde tempos imemoriais. Ali viviam criaturas que poucos ousavam enfrentar, espíritos ancestrais e segredos que nem mesmo os alfas mais antigos conheciam por completo.
Kayon sorriu discretamente.
Não existia lugar no mundo que pudesse se comparar ao seu lar.
Cada campo, cada montanha, cada riacho e cada árvore carregavam séculos de história. Aquele reino não era apenas um território.
Era sua família.
Era seu legado.
E, muito em breve...
Seria sua responsabilidade.
Seu pai ainda ocupava o trono como Alfa Supremo, mas o tempo caminhava depressa. Nos últimos anos, quase toda a liderança já recaía sobre seus ombros. Treinamentos militares, julgamentos, reuniões entre alcateias, acordos comerciais, estratégias de defesa... tudo fazia parte da rotina daquele que herdaria a coroa.
Estranhamente...
Ele gostava daquilo.
Enquanto muitos príncipes sonhavam com liberdade, Kayon encontrava paz nas responsabilidades. Governar não lhe parecia um fardo. Parecia um privilégio.
Porque aquele povo confiava nele.
E ele jamais permitiria que essa confiança fosse quebrada.
Seu olhar percorreu novamente o horizonte antes que um pensamento inevitável invadisse sua mente.
Grace.
Um sorriso mais espontâneo surgiu em seus lábios.
Conhecia Grace desde a adolescência. Aos quatorze anos, quando ambos ainda descobriam o próprio lugar dentro da alcateia, ela já conseguia arrancar dele uma tranquilidade que ninguém mais proporcionava.
Os anos passaram.
As brincadeiras infantis deram lugar a conversas longas sob o luar, promessas silenciosas e um relacionamento que parecia destinado a durar para sempre.
Grace era gentil.
Delicada.
Sempre sabia exatamente o que dizer quando ele retornava exausto de um treinamento ou de alguma reunião difícil. Havia uma leveza nela que contrastava perfeitamente com o peso que ele carregava diariamente.
Kayon nunca havia parado para questionar o que sentia.
Para ele, aquilo era amor.
Como poderia não ser?
Ela o fazia sorrir.
Ele admirava sua inteligência, sua doçura e imaginava, com absoluta naturalidade, o dia em que ela caminharia ao seu lado como Luna Suprema de todo o reino.
A ideia lhe parecia tão correta que qualquer outro futuro soava absurdo.
Muitos anciãos insistiam em lembrá-lo sobre a companheira predestinada.
O vínculo sagrado.
A união escolhida pela própria Deusa da Lua.
Mas Kayon apenas achava graça.
Nunca acreditou que um destino invisível pudesse ser mais forte do que os anos que construiu ao lado de Grace.
Se algum dia essa suposta companheira aparecesse...
Ele a rejeitaria.
Sem hesitação.
Porque seu futuro já estava decidido.
Ou pelo menos era isso que acreditava.
Um suspiro escapou de seus lábios.
Ainda havia muito o que fazer antes do nascer completo do sol.
Afastou-se da varanda e caminhou pelos amplos corredores do palácio até seus aposentos.
O banheiro era revestido por pedras claras polidas, de onde uma água aquecida naturalmente pelas fontes termais do reino caía em uma ampla piscina esculpida na rocha. Kayon mergulhou, fechando os olhos por alguns instantes enquanto a água relaxava os músculos doloridos do treinamento do dia anterior.
Quando terminou, envolveu a cintura com uma toalha escura e aproximou-se do grande espelho ornamentado.
Por um breve instante, apenas observou o próprio reflexo.
Era impossível não reconhecer os traços herdados da linhagem real.
Tinha pouco mais de um metro e noventa de altura. O corpo era forte, largo e perfeitamente definido pelos anos de treinamento como guerreiro, com ombros robustos, peito amplo e músculos desenhados sem qualquer exagero, resultado de disciplina, não de vaidade.
Sua pele possuía um tom moreno claro, naturalmente dourado pelo sol das patrulhas diárias. Os cabelos negros eram espessos e levemente desalinhados, caindo sobre a testa de maneira quase indomável.
Os olhos...
Eram, sem dúvida, sua característica mais marcante.
Verdes.
Profundos.
Intensos como as florestas que protegiam seu reino.
Seu maxilar forte era coberto por uma barba curta, perfeitamente aparada, suficiente para acentuar ainda mais as linhas firmes de seu rosto sem esconder sua juventude.
Muitos diziam que ele possuía a aparência perfeita de um rei.
Kayon nunca deu importância a isso.
A beleza jamais venceria uma guerra.
Jamais protegeria um povo.
Jamais sustentaria uma coroa.
Desviou o olhar do espelho, vestiu a túnica negra bordada com fios prateados que identificavam a família real e prendeu à cintura a espada cerimonial.
Mais um dia começava.
E ele sequer imaginava que toda a certeza que carregava sobre sua vida estava prestes a ruir.








