Capítulo único
Como eu imaginava, virei a noite acordada. Eram três da manhã, e eu ainda não tinha pregado os olhos. Resolvi começar a me arrumar. Tinha uma viagem para fazer dali a duas horas. Tomei banho, escovei os dentes, vesti-me e me deitei na cama. Meus olhos estavam pesados. Fechei-os por um instante para descansar.
De repente, acordei com a buzina de um carro. Meu Deus, a van! Esse dia seria fogo. Eram cinco da manhã, e a van estava buzinando em frente à minha casa. Levantei rapidamente e peguei minha mochila com tudo o que precisaria durante o dia. Eu iria para a capital fazer uma prova de concurso. Minha mãe já estava acordada. Ela me viu correndo para a porta.
— Bia, não vai tomar café?
— Não dá tempo, mãe. Como alguma coisa quando chegar lá.
— Boa viagem e boa prova.
— Obrigada. Até mais.
Entrei na van. Já havia algumas pessoas. Cumprimentei a todos, mas não vi ninguém conhecido. Procurei um lugar para sentar e, quando finalmente me acomodei, não consegui relaxar.
Terminei a faculdade há pouco tempo e faço alguns trabalhos como escritora, mas sinto que preciso de mais estabilidade. Apostar em um concurso público parecia a melhor saída. Só não sabia se aquela ansiedade toda fazia parte do pacote.
Pensei na prova, na viagem, no trânsito, em como o motorista corria... O dia tinha começado acelerado.
Algumas horas depois, comecei a me sentir enjoada. Além do balanço do carro, acho que a ansiedade estava mexendo comigo.
Pouco tempo depois, escutei o motorista avisar:
— Vamos parar no posto. Quem quiser ir ao banheiro ou comprar alguma coisa rapidamente, pode ir.
Aproveitei o momento e desci. Fui ao banheiro do posto e joguei um pouco de água no rosto, na esperança de me sentir melhor. Parei em frente à pia e comecei a passar mal, mas não tinha nada no estômago para vomitar.
Uma moça que havia descido comigo da van percebeu o que estava acontecendo e veio ao meu socorro.
— Está enjoada? Tenho um remédio aqui. É uma viagem longa. Tome com um pouco de água. Logo você vai se sentir melhor.
— Obrigada — respondi, recuperando as forças.
— O que houve com ela? — perguntaram outras mulheres que haviam descido conosco para ir ao banheiro.
— Ela está um pouco enjoada, mas tomou remédio. Logo estará bem — respondeu a moça.
Ela então se aproximou de mim.
— Venha. Vamos sentar um pouco lá fora. Você precisa tomar um pouco de ar.
Segui-a enquanto ela me conduzia pela mão. Confesso que foi o primeiro momento do dia em que consegui relaxar.
Sentamos no restaurante do posto.
— Quer comer alguma coisa? — ela perguntou.
— Não sei se é uma boa ideia — respondi.
— Você já tomou o remédio. Não vai vomitar. Vamos pegar um salgado. Uma coxinha, o que acha?
Apesar do enjoo, meu estômago protestou. De repente, eu estava faminta.
— Pode ser.
Compramos a coxinha e ficamos alguns minutos sentadas, conversando.
— Como você se chama? — ela perguntou.
— Bia. E você?
— Luana.
— Prazer em te conhecer, apesar da circunstância complicada. Ri um pouco sem graça.
— Espero que tenhamos a chance de conversar em um momento mais tranquilo, ela respondeu.
Foi a primeira vez naquela manhã que consegui esquecer a prova por alguns minutos.
Quando voltamos para a van, eu já estava me sentindo muito melhor. Luana voltou para o seu lugar, na primeira fileira, enquanto eu estava na última. Antes de se afastar, ela se virou para mim.
— Se passar mal de novo, me chama, tá?
— Tá. Obrigada.
Ela sorriu antes de voltar para o lugar. Foi um sorriso rápido, mas, por algum motivo, fiquei olhando para ela por mais alguns segundos.
Seguimos viagem.
Chegamos ao local a tempo. Eu e Luana faríamos a prova na mesma escola. Fomos direto procurar nossas salas. Não conversamos muito, mas, antes de seguirmos cada uma para sua sala de prova, ela me desejou boa sorte.
— Boa prova, Bia.
Parei por um instante.
— Boa prova para você também, Luana.
Ela sorriu.
— Depois a gente se encontra.
Assenti.
— Até depois.
Segui para minha sala.
───
Foram mais de quatro horas de prova. Saí pouco antes de o tempo acabar. Fiz o meu melhor. Esperava que fosse suficiente.
Enquanto saía da escola, pensei em Luana. Será que ela já havia terminado? Ainda bem que tínhamos ficado no mesmo local de prova. Pelo menos teria companhia para esperar o motorista.
Ao ligar o celular, vi, no grupo de WhatsApp do motorista, uma mensagem de Luana dizendo que havia terminado a prova cerca de vinte minutos atrás. Rapidamente, enviei uma mensagem dizendo que também havia terminado e que iria para a lanchonete esperar com ela.
Ao chegar à lanchonete, a vi esperando, sentada a uma mesa, com uma porção de batata frita e um refrigerante. Era a primeira vez que conseguia observá-la com calma. Ela tinha cabelos longos, escuros, ondulados e uma presença exuberante e hipnotizante. Mesmo sozinha, ela não parecia solitária. Ela estava tão à vontade ali que quase esqueci que, poucas horas antes, estávamos as duas prestes a fazer uma prova.
Ela levantou os olhos assim que me viu e sorriu.
— Oi, Luana — falei.
— Oi, Bia. Vi sua mensagem no grupo.
— Parece que nosso encontro em uma situação mais tranquila finalmente aconteceu. Você parece muito bem para alguém que acabou de passar mais de quatro horas fazendo uma prova.
Ela me olhou sedutora.
Gostei da maneira como ela havia prestado atenção em mim.
— Queria agradecer por ter me ajudado mais cedo, no posto. Foi tudo tão corrido que esqueci de agradecer.
— Fico feliz por ter te ajudado. Eu também estava enjoada. Tinha tomado remédio pouco antes de te ver passando mal. Te ajudar me ajudou a me distrair da minha própria ansiedade. Então estamos quites.
Ela riu.
Mesmo ansiosa, ela conseguiu me ajudar naquele momento. Ela é realmente alguém diferente.
— Você chama isso de ficar quites? — perguntei.
Ela riu novamente.
— Talvez eu deva cobrar mesmo, vou pensar sobre isso.
Acabei rindo também.
— Quer comer alguma coisa? — ela perguntou.
— Não, eu comi lanches durante a prova. Estou satisfeita, obrigada.
— Então eu fico com as batatas.
— Justo.
Continuamos conversando. Comparamos algumas questões da prova, rimos dos chutes que havíamos dado e comentamos sobre nossas expectativas para o resultado.
Perguntei se ela pretendia fazer novos concursos caso aquele não desse certo.
— Sim — ela respondeu. — E você? Acha interessante a vida de concurseira?
— Acho que, se eu tivesse uma parceira de concurso, seria uma boa ideia.
— Então acabou de achar.
Ela me olhou divertida. Rimos juntas.
A conversa continuou naturalmente. Luana contou que também não costumava viajar sozinha e que havia ficado preocupada com a viagem.
Em determinado momento, fez uma piada sobre o motorista dirigir rápido demais, imitando o jeito como ele fazia as curvas.
Foi ali que percebi como Luana conseguia transformar qualquer situação em motivo para rir.
Aos poucos, percebi que já não estava pensando tanto na prova. Estava prestando atenção nela. No jeito espontâneo de falar, na facilidade de transformar qualquer coisa em uma piada. Na maneira como parecia conseguir deixar o ambiente mais leve sem nem tentar.
Eu estava feliz por ter terminado a prova, mas percebi que estava ainda mais feliz por ter conhecido Luana.
Pouco depois, Luana ficou em silêncio por alguns segundos e olhou para o copo de refrigerante.
— Fico feliz de ter encontrado você.
Olhei para ela, surpresa. Era exatamente o que eu acabara de pensar sobre ela.
— Sério? — perguntei, um pouco tímida.
— Eu não viajo muito sozinha, e isso estava mexendo muito comigo. Quando conversamos no posto, senti que não estava mais sozinha. Obrigada.
Ela sorriu, um sorriso que aqueceu meu coração.
— Eu tive a mesma sensação, respondi.
Ela me olhou por alguns segundos de forma tão profunda que poderia descansar nesse olhar a noite inteira.
Naquele momento, tive a impressão de que nenhuma das duas estava com muita pressa para encerrar a conversa.
Enquanto conversávamos, o motorista mandou uma mensagem avisando que iria nos buscar. O local de prova seria a próxima parada da van.
Pouco tempo depois, a van chegou.
───
Eram 18h e ainda tínhamos seis horas de viagem pela frente. Estava escuro, e deveríamos chegar em casa por volta da meia-noite. Luana sentou ao meu lado. Conversamos um pouco, mas logo o motorista desligou a luz do interior da van. Cada uma colocou os fones de ouvido e se voltou para sua própria playlist.
A van estava escura, e a viagem seguia tranquila.
Uma aconchegante sensação de dever cumprido tomou conta de mim. O balanço do carro era confortável. Apesar de longa, eu estava realmente curtindo a viagem.
Fechei os olhos, mas não dormi. Apenas relaxei e deixei a mente divagar junto com a música.
Até que senti o pé de Luana encostar no meu. Estava quente, em contraste com o ar frio do ar-condicionado. Então ela começou a acariciá-lo de leve com o pé.
Meu corpo aqueceu.
Eu estava reclinada para o lado da janela. Virei-me para ela e abri os olhos devagar.
A van estava escura, mas os feixes de luz que entravam pela janela revelavam seu rosto sereno. Ela me olhava em silêncio, tranquila, com os olhos tão calmos que, por um instante, esqueci que havia outras pessoas ali.
Não sei quanto tempo ficamos nos olhando, mas senti que, naquele instante, o tempo desacelerou completamente.



