Capítulo 1 — O número desconhecido
O celular vibrou às 23h47.
Lívia ignorou.
Estava deitada, encarando o teto escuro do quarto, tentando convencer a si mesma de que aquela noite seria diferente.
Sem pesadelos.
Sem lembranças.
Sem aquela sensação horrível de que alguém estava olhando.
O celular vibrou novamente.
Ela fechou os olhos.
— Não...
Mais uma vibração.
Lívia pegou o aparelho.
Número desconhecido.
Por alguns segundos, ficou apenas olhando para a tela.
Então abriu a mensagem.
Você ainda dorme com a janela aberta.
Seu coração parou.
Lívia olhou imediatamente para a janela.
Fechada.
Trancada.
Ela sentou na cama.
Talvez fosse uma brincadeira.
Algum idiota da escola.
Talvez alguém tivesse visto sua janela durante o dia.
Ela digitou:
Quem é?
Apagou.
Digitou novamente:
Como conseguiu meu número?
Enviou.
A resposta chegou antes mesmo que ela pudesse colocar o celular sobre a cama.
Você não deveria responder estranhos.
Lívia sentiu um arrepio percorrer os braços.
Ela bloqueou o número.
Respirou fundo.
Pronto.
Acabou.
Até o celular vibrar novamente.
Dessa vez, não era uma mensagem.
Era uma foto.
Lívia abriu.
E o ar desapareceu de seus pulmões.
Era ela.
Dormindo.
Seu quarto estava escuro na fotografia, iluminado apenas pela pequena luz azul do carregador ao lado da cama.
A mesma cama onde estava sentada naquele instante.
A mesma parede.
O mesmo abajur.
A mesma janela.
Mas havia algo pior.
A foto não tinha sido tirada naquela noite.
Lívia reconheceu imediatamente a camiseta que usava na imagem.
Reconheceu o lençol.
Reconheceu até o pequeno curativo no dedo indicador.
Aquilo tinha acontecido meses atrás.
Naquela noite.
A noite que ela havia prometido esquecer.
Seu celular vibrou mais uma vez.
Uma nova mensagem apareceu.
Eu estava lá naquela noite.
Lívia deixou o aparelho cair.
O som ecoou pelo quarto.
Ela não respirava.
Não conseguia.
Porque, pela primeira vez em meses, uma lembrança voltou inteira.
A chuva.
O sangue.
A voz de um homem.
E aquelas três palavras sussurradas no escuro:
— Não olha para trás.
Lívia levantou os olhos lentamente.
A janela continuava fechada.
Mas, do outro lado do vidro...
havia uma silhueta.



