Capítulo 1: Mais um dia normal
Balançava a cabeça ao som da musica, sentindo cada batida forte, ativando sentidos no meu corpo de forma impressionantemente rápida, um sorriso divertido surge nos meus lábios, pego na escova de dentes e posiciono como se fosse um microfone.
“Vem... sim. Vem... sim.”
Começo a cantar seguindo a melodia, embora possa estar mais desafinada do que nunca.
Olho-me ao espelho, os meus cabelos ainda estão desajeitados, mas neste instante isso não me importa, ainda com a euforia do momento pego no telefone e aumento o som, fecho os olhos e não consigo evitar o sorriso no rosto, a musica sempre teve este efeito em mim.
Continuei ali, por mais alguns segundos ou até minutos.
Por um instante me lembro que não estou sozinha em casa, tiro os auriculares do ouvido, voltando para a realidade e ouço um grito.
Abro a porta desesperada e corro até a sala, seguindo a voz.
Os meus ombros descontraem-se ao saber do motivo.
Jorge continua gritando levando o seu carro para o alto fingindo estar em uma nave espacial, dou um leve suspiro e tento caminhar pela sala desarrumada cheia de brinquedos.
— Au! — grito depois de pisar em um deles.
— Desculpa mana. — ele faz uma carinha fofa tentando me fazer esquecer da dor.
— Arruma isso agora, se não queres que eu os ponha no lixo. — disse com o tom firme.
No mesmo instante, ele guardou os brinquedos na caixa de madeira do seu quarto, o título de ser irmã mais velha dando resultado. O som da fritura leva-me correndo para a cozinha, havia fumo saindo pela panela de forma descontrolada, ligo rapidamente o exaustor para sugar, enquanto isso pego na tampa para abri-la, mas a quentura do inox chega a tocar no meu osso.
— Droga! — digo, com a voz mais alta do que o normal, sacudindo os dedos depois de largar a tampa ao chão.
Eu tinha colocado isto no mínimo.
Passo a mão pelo rosto, e dou um leve suspiro.
Era só o que me faltava, o frango queimado para ter que cozinhar novamente.
Clico no botão para diminuir a intensidade do fogo. Com a pega colada a parede, arrasto a frigideira na pedra da cozinha.
Inclino a cabeça para trás em um jeito cansativo.
— Estou com fome. — Jorge chega na cozinha, olhando para a mesa, diminuindo qualquer paciência que restava dentro de mim.
Talvez não esteja assim tão queimado, pego um garfo e volto o olhar para a frigideira, tentando encontrar um salvo, eu só precisava de apenas um para ele poder comer, quando mim, poderia tomar um chá e seguir o dia.
Rodo o primeiro, sem chance, está mais preto que a cor do meu cabelo, rodo o segundo que parece ser o mais aceitável, mas o cheiro de queimado invadiu ele todo.
— Mana, estou com fome. — Jorge começa a sua birra, batendo a colher na mesa.
— Espera que eu já sirvo. — respondi tentando ganhar mais alguns minutos.
Abro uma lata de atum, retiro todo o liquido e depois de picar algumas cebolas levo ao seu prato junto com a massa pronta.
— Aqui. — coloco o prato na mesa. — Come tudinho esta bom?
Jorge pega na colher e começa a comer, não me perguntem como ele consegue fazer isto.
Caminhei para o quarto, torcendo a cada passo para receber a bendita mensagem do Ceceu.
Estes dias está uma loucura e eu não estou conseguindo dar conta.
Mas porquê que têm que ter ferias na creche?
Quem foi que inventou isso?
Me jogo na cama, já cansada do dia, mesmo sendo de manhã.
Pego no telefone e começo a rolar as propostas de trabalho, até agora nunca fui aceite a nenhuma, mesmo depois de tantos currículos enviados as empresas.
Mas sabe o que mais?
Eu nunca desisto, nem mesmo se eu quisesse... sou pobre e não tenho condições para isso.
Recebo uma mensagem no mesmo instante.
“Estou aqui fora filha.”
Pulo automaticamente da cama e vou correndo para o quarto de Jorge pegar a sua pasta. Porem antes, a abro para me certificar de que tudo esteja pronto, roupa, brinquedos, escova.
Parece perfeito, vou para a cozinha.
— O teu pai chegou. — anunciei, sentando-me na mesa.
— Ehh! — Ele saiu da cadeira, e foi correndo para a entrada.
— Não corras porque acabaste de comer. — digo indo atrás dele, com a voz mais alta do que o normal.
Mas ele ignora, claro.
Abro a porta e lá esta ele.
— Bom dia, filha. — disse, tentando um abraço.
Corto na hora entregando-lhe a pasta do Jorge.
Agacho o corpo para chegar na sua altura.
— Porta-te bem, ouviste? — passo a mão pelo seu cabelo levemente.
— Sim mana. — Ele dá-me um beijinho quente e rápido nas bochechas.
Espero que eles se vão até fechar a porta, levo as costas nela e baixo aos poucos apreciando o silencio que a casa me oferece.
Fico assim durante alguns minutos, até me aperceber de ter que arrumar a cozinha.
Começo por deitar os frangos fritos, quer dizer... queimados.
Coloco o detergente no fogão e deixo agir por alguns minutos, enquanto isto, lavo a louça que tinha se acumulado na noite passada, passo uma vassoura no local, e volto a esfregar o fogão.
No mesmo instante recebo um e-mail, é de uma empresa de cosméticos daqui, já tinha me esquecido de me candidatar lá. Eles querem fazer uma entrevista amanhã para a vaga assistente de contabilidade.
Suspirei de alivio e pus no calendário a hora e o local para não me atrasar. Larguei o telefone na mesa, coloquei uma musica na televisão e fui tomar um banho rápido.
Andei pelo quarto, peguei na primeira peça de roupa que vi no armário, um calção jeans, uma camisa da ultima corrida que fui e as minhas pantufas de coelhos castanhas.
Depois de me vestir fui para a sala com o meu caderno tentando me preparar para a entrevista de amanhã, no meu currículo sempre escrevo que sei falar inglês, o que não é mentira mas não pratico há um bom tempo, então decido ler apenas o básico.
Por vezes, acabo por errar a pronuncia o que me leva a voltar no início da frase. O que mais me dificulta nesta língua nunca foi a fala, mas sim a escrita. Eu seria capaz de ter um vinte em uma prova oral e três em uma prova escrita.
Sério!
Depois do inglês comecei a praticar respostas padrão para entrevistas, como: Porque você escolheu nossa empresa e o que você tem a oferecer a ela.
Na real, nem precisei pesquisar na internet, porque com tantas respostas de reprovada que tive, acabei sabendo estas perguntas.
As horas foram passando lentamente, a minha barriga começava a fazer aquele som de que não poderia aguentar por mais tempo.
Abro a geleira e pego o iogurte em liquido de uva guardado ao fundo, já que Jorge não passará a noite aqui, não tem mal nenhum beber o dele. Caminho até a fruteira, pego uma banana e corto-a em rodelas em uma tigela junto com o iogurte.
Ao comer, ouço o meu telefone a chamar.
Olho pela tela.
Mãe.
Atendo de imediato.
— Alo. — digo, depois de levar uma colher a boca.
— Filha, como estão as coisas?
— Normal. — fiz um pausa. — O Jorge foi hoje de manhã.
— Tomara que ele se divirta.
— E você mãe?
— A loja hoje esta muito corrida por conta da promoção.
— Imagino. — dei um gole de água.
— Só consegui sentar agora na pausa para o almoço.
— Eu também só consegui comer agora.
— Você só esta comendo agora?
— Estava sem fome. — disse, enquanto um calor agradável me inundava no peito. — recebi uma proposta de emprego.
— Que bom filha. — conseguia sentir o seu sorriso mesmo a distancia.
— Mas não vamos colocar muita animação mãe.
— Vamos sim, querida.
Ouvi-la falar estas palavras acabou por me arrancar um sorriso. Mari sempre me apoiou em tudo.
— Vou trazer aquele frango que tu gostas.
— Ah, mãe. — disse arrastando as palavras.
— Você tem que pensar positivo filha. — ouvi a voz de alguém a chamá-la. — Tenho que desligar, falamos em casa.
— Beijo mãe.
— Tchau querida.
Levei a tigela na máquina e voltei para a sala continuar com a revisão.
Desta vez, tinha um pouco mais de motivação. As palavras dela acenderam algo dentro de mim, como sempre.
Olho para o telefone.
Quinze horas.
Ainda com a música ligada, resolvo alguns exercícios básicos de contabilidade financeira, com a prática, aquilo que terminava em dez minutos passaram para três, incrível. Quem diria que a disciplina que mais detestava estudar, pudesse ser fácil para mim um dia.
Depois de tanto tempo ali, precisei de descansar os olhos, nem a pessoa que inventou o estudo estudou assim tanto.
Falando nisto, quem foi que inventou isto?
Levo o olhar para a janela.
As pessoas andavam descontraídas nos seus caminhos enquanto que os carros iam se acumulando aos poucos criando um pequeno engarrafamento na estrada. O sol só me convida a ficar mais tempo em casa mas não estou com disposição para dormir tarde, hoje não.
Então decido pegar a roupa de treino.
Ainda bem que já tomei banho, pego na pasta coloco o calção de treino, uma garrafa de água e a fecho. Organizo os cadernos na minha secretária, coloco uns tênis e antes de sair do quarto pego nos auriculares.
Vou para a sala e desligo a televisão, ao mesmo tempo que coloco os auriculares, tiro as chaves de casa e coloco no bolso da pasta, ao chegar na porta entro no aplicativo de transportes para ver que horas sai o próximo autocarro.
Doze minutos.
Ótimo.
Levo oito minutos caminhando até a paragem, o que me da quatro de descanso.
Clico no play na minha lista de musicas e ponho-me a andar.
Quando ouço musica, tudo fica mais leve, e quando canto?
Pode não ser a melhor voz do mundo mas é como se fosse o único impulso de paragem no tempo.
Sério.
Num piscar de olhos, estou na paragem, eu e mais duas senhoras. Tiro o auricular em um lado para ouvir a rua, um hábito estranho que ganhei da minha mãe, procura sempre estar atenta ao que te rodeia.
Sentei-me em uma das cadeiras de espera e fiquei olhando o telão de anúncio do autocarro.
O vento batia de forma suave, e o barulho das crianças gritando a frente completava a vizinhança. Detesto vir para este parque, fica sempre muito cheio, o que me faz querer dobrar a atenção sempre que vou com o Jorge.
O autocarro chega, levanto-me para fazer o sinal, e ele estaciona então pego na minha pasta de documentos, depois de duas vista de olhos, não encontro o passe Jovem, me lembrei que tinha trocado de pasta e tinha usado na ultima saída, portanto terei de pagar em dinheiro mesmo.
Que maravilha!
Já não tenho muito e o pouco que resta é desperdiçado desta forma.
Claramente não fui feita para ser adulta.
Entrego os valores ao motorista e depois de receber o troco, procuro um acento disponível.
Voltei a colocar os auriculares no ouvido e apoiei a cabeça na janela, as pessoas caminhavam tranquilamente embora algumas pareciam cansadas dos seus afazeres diários, as arvores balançavam num ritmo suave, sem pressa, trazendo paz a cada segundo, e os carros moviam-se devagar.
Felizmente, a academia não é tão distante.
Cliquei no botão da paragem.
Assim que desci, fui tomada pelo barulho de algumas buzinas descontroladas, o semáforo tinha acabado de avariar, trazendo consigo vozes erguidas dos condutores e o caos habitual de um cruzamento sem orientação.
Ainda bem que cheguei e não terei que esperar por nada.
Assim que abri a porta, já conseguia sentir aquele cheiro caraterístico do suor misturado com o desinfetante usado para a limpeza do tatame. Tinha alguns alunos conversando encostados a parede, enquanto outros terminavam de amarrar as suas fitas na cintura.
— Chegou cedo hoje. — disse Suzete depois de dar por mim.
— Não tanto quanto você. — apontei-lhe com um sorriso.
Suzete abanou a cabeça levemente depois de voltar a se concentrar no exercício.
O som dos corpos a cair no chão ecoava pelo ginásio em batidas secas e ritmadas, um grupo estava praticando quedas, de outro lado, dois atletas disputavam silenciosamente por posição, rolando pelo tatame.
Dirigi-me para o balneário, alguns minutos depois estava vestida com o quimono azul e a faixa devidamente amarrada à cintura.
Deixei a mochila no canto de sempre, cumprimentei alguns colegas com um simples aceno e entrei no tatame sem hesitar. Depois de alguns anos, este lugar tornou-se como uma segunda casa para mim.
— Queres ajuda para rever a raspagem que o professor ensinou a semana passada? — sugeriu Vitorino, aproximando-se do meu campo de visão.
— Não. — respondi com um leve sorriso apertando novamente a faixa.
— Nem sei porque pergunto. — levantou as mãos num jeito dramático. — Sempre dizes não.
— Não é sempre. — ajustei a manga do quimono e inclinei a cara num jeito pensativo. — Todas as vezes.
Sorrimos os dois no mesmo instante.
— Eu sei que um dia você vai ceder. — prometeu, caminhando de costas sem tirar os olhos de mim.
— Quem sabe. — respondi dando de ombros.
No mesmo instante, o professor reuniu a turma para o aquecimento.
Começamos por uma corrida leve a volta do espaço, seguido de alguns rolamentos a frente e para trás, conseguia sentir uma gota de suor escorrendo lentamente sobre o meu corpo, fizemos também deslocamentos laterais e exercícios de mobilidades. Neste momento, o frio de fora parecia distante.
Tivemos alguns minutos para poder recuperar o fôlego.
Encostei-me a parede, ainda sentido o coração batendo com mais força depois deste aquecimento, passei a mão pela testa, na tentativa de tirar o suor que tinha se instalado gradualmente.
Peguei na minha garrafa e bebi um pouco de água, mas pouco mesmo.
— Não sei se algum dia irei me habituar com estes exercícios de mobilidade. — Suzete sentou-se ao meu lado. — Posso aguentar todos, mas este?
— Já devias ter te habituado faz tempo. — respondi, ainda ofegante.
Suzete empurrou levemente o meu ombro.
— Mas é verdade. — soltei uma gargalhada.
Ela acabou por não resistir.
— Olha. — Suzete apontou com o nariz para o lado.
Tinha um atleta que tentava impressionar, colocando uma garrafa de água na cabeça equilibrando-a.
Por alguns segundos pareceu funcionar, até que no quinto segundo a garrafa escapou, batendo no seu ombro, quando ele tentou agarrar, foi tarde demais. A água tinha se espalhado por completo na frente do seu quimono.
— Quase conseguiu. — comentou um colega, arrastando as palavras.
— O objetivo sempre foi deixa-la cair. — respondeu. — Vocês é que não perceberam de início.
As gargalhadas começaram a ecoar pelo ginásio, até ele acabou por rir dele mesmo.
Começamos os treinos em dupla, cumprimentei o meu adversário de luta, depois posicionei-me.
Ao som do apito, começámos. Já não precisava de pensar no que fazer. O meu corpo movia-se por instinto, reagindo a cada ataque como se conhecesse aquele ritmo de cor. Afinal, era o resultado de centenas de aulas, de horas e horas passadas naquele mesmo tatame.
