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ENTRE SILÊNCIOS E GAROTOS

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Resumo

Noah sempre acreditou que ninguém consegue ser completamente feliz. Nascido em uma pequena cidade do interior da Bahia, ele aprendeu desde cedo a conviver com seus próprios medos e sentimentos. Até que um simples vídeo de um garoto dançando balé desperta nele uma sensação que nunca havia experimentado. Entre descobertas, medo de julgamento, amizades, desejos e amores que talvez nunca aconteçam, Noah começa a questionar quem realmente é e até onde pode ir sem precisar esconder uma parte de si mesmo. Mas essa não é apenas a história de Noah. É também a história de tudo aquilo que carregamos em silêncio — e das marcas que ficam quando tentamos ser alguém que não somos.

Gênero
Lgbtq
Autor
E. SILLVH
Status
Em Andamento
Capítulos
2
Classificação
n/a
Classificação Etária
13+

O elevador existencial

Normalmente, devemos ser gratos pela vida, mesmo que, às vezes, nossa existência seja como um elevador sem cordas, em um buraco sem fim. Às vezes, e por muitas vezes, você deita na sua cama e tenta dormir, mas a única coisa que acontece são seus demônios brincando em sua mente, fazendo você ser uma marionete estúpida.

— E as lágrimas?

As lágrimas, elas começam a descer pelo seu rosto, mas lágrimas não machucam. Elas não fazem você sentir aflição ou desejo de morte. Elas só significam que seu poço está cheio e transbordou.

— O que realmente machuca?

O que machuca vai muito além da compreensão de nós mesmos. São tantas dores que carregamos desde quando começamos a entender que a vida não é um conto de fadas e que estamos presos em um labirinto sem saída de sentimentos. Às vezes, o sentimento é tão estúpido que acreditamos ser imoral ter certos pensamentos, principalmente quando se trata de amor.

— Você já amou?

Que pergunta patética. Todos nós já amamos, mesmo que seja algo ou alguém. Dizem que psicopatas não amam nada. Você acredita nisso? Eles são violentos e matam, não sentem a dor do outro. Mas o que seria mais doentio: não sentir nada por ninguém e matar essa pessoa, ou você amar alguém e, mesmo assim, trair, violentar físicamente e mentalmente e, muitas vezes, fazer com que essa pessoa tenha um fim tão triste quanto o de Romeu e Julieta?

— Então, como deve ser o amor verdadeiro?

O amor verdadeiro não se trata apenas de sentimentos, mas também sobre quem você é e sobre quem você tem medo de perder. Ter medo de perder alguém não é algo que deve ser colocado no mesmo potinho da dependência emocional. É aquele sentimento de mãe, você sabe? Toda mãe — digo, toda mãe verdadeiramente mãe — terá medo de perder seus filhos, e da mesma forma deve existir esse sentimento no amor.

Jesus Cristo, para quem tem fé e religião, seguiu esse mesmo critério sobre o amor. Ele deu sua vida para salvar a nossa. Talvez, naquele momento, ele também tenha tido medo de perder seus filhos, mas não vamos falar sobre religião.

— Então, vamos falar sobre você?

Sobre mim? Bom, não tenho muito o que falar, mas digamos que eu já renasci algumas vezes, e todas elas fui destruído tão drasticamente que não renasci como uma fênix que renasce das cinzas. Até hoje tenho cicatrizes que doem, machucam e nunca terão cura.

— Você pode me contar uma história sua?

Claro que sim, mas quero que você entenda que nem todas as histórias contadas você vai saber como de fato aconteceram, porque você só vai saber o meu lado da história.

O começo da dor

Deveríamos ter dentro de nós todas as estações do ano. Apesar de que, se pensarmos bem, já é um pouco assim. Certamente, a melhor seria o outono. Imagina só um período do ano no qual poderíamos nos libertar de tantos sentimentos ruins. Esse era o pensamento constante de Noah.

Noah nasceu no interior da Bahia, em uma cidade com pouco menos de dez mil habitantes. Era como se toda a cidade fosse uma grande vizinhança, onde todos conheciam todos. Mas ele gostava daquela vida e da natureza em si. Não que fosse completamente feliz — Noah acreditava que ser feliz por inteiro era quase impossível, e ele percebeu isso de um jeito peculiar.

Desde que começou a sentir atrações amorosas, nunca havia acontecido de esse sentimento ter ultrapassado a barreira do que era considerado normal na sociedade, até que, assistindo a Reels em uma rede social, ele se percebeu assistindo a um vídeo de um garoto dançando balé.

Não era apenas um vídeo. Era um sentimento estranho de atração por alguém que ele não conhecia. As roupas do garoto dançando, justas e coladas ao corpo, fizeram com que seu corpo sentisse uma sobrecarga de emoções que, até então, só haviam acontecido por garotas. Mas era estranho, pois Noah sempre conversava apenas com garotas e já havia beijado meninas.

Ele então começou a seguir o garoto em sua rede social, e ver os vídeos postados por ele virou algo frequente. Isso foi fazendo com que, a cada dia, ele se afastasse das garotas. Mas não era algo ruim. Ele só estava descobrindo sentimentos que até então não havia percebido em si mesmo.

Mas, infelizmente, todos aqueles pensamentos estavam colocando-o em um buraco de formigas. Seus medos começaram a ganhar força. Se distanciar daqueles pensamentos era o certo a se fazer.

— Você é o Noah?

— Eu sou!

— Por que você não conta sua própria história, em vez de deixar que eu, apenas um narrador em terceira pessoa, conte por você?

— Não é patético contar uma história que parece não ser sua?

— Por que não parece ser sua?

— Bom, primeiro, eu não saberia por onde começar.

— Você deveria começar pelo início de tudo. Aliás, comece me falando o motivo do nome deste capítulo.

— Ok, vou contar o que você quer saber.

O elevador existencial não é sobre meus sentimentos por gostar de meninos. Pelo contrário, acho que foi o sentimento mais livre que já tive em minha vida. É como se, naquele momento em que vi o garoto dançando pela primeira vez, eu tivesse encontrado o meu lugar dentro de mim mesmo.

Me senti tão livre que não existiam borboletas na minha barriga, mas era como se eu próprio tivesse ganhado asas e pudesse voar para onde quisesse ir.

— Talvez você fosse direto para os braços daquele garoto do vídeo.

— Não fale besteira, senão eu te tiro da minha história.

— Agora ela é sua?

Noah, naquele momento, suspirou fundo e deu um leve sorriso. Era notável que falar dele era mais que um desabafo; era uma libertação sobre quem, de fato, era dono de sua própria história.

— Noah?

— Desculpa, eu estava pensando em algo.

— Pensando em quê?

— Sobre para onde eu iria se eu tivesse asas.

— Para onde você iria?

— Talvez para um lugar onde eu não precisasse me esconder.

— E você se esconde de algo?

— Todos nós fugimos de algo. Todos temos medo e insegurança. Você deveria saber disso. Tantas histórias você já contou, e quantas não eram tão felizes?

— Eu não me lembro de nenhuma história. Eu só sei a sua até você colocar um ponto final.

— Qual é seu nome?

— Eu não tenho nome.

— Como você quer que eu te chame?

É estranho perceber que, às vezes, vivemos algo que não faz parte da nossa história, ou não deveria existir. Eu não podia dizer para o Noah, naquele momento, que a maioria das histórias que narrei sempre tinha finais tristes, até porque meu nome…

— Você não vai me responder?

— Nesse momento, eu gostaria que você voltasse a contar sua história.

— Eu não sei onde parei.

— Se sentiu livre.

Ah, viver em uma cidade pequena, até aquele momento, era bom. Mas depois tudo mudou. Eu conhecia todo mundo. Os garotos da cidade eram meus amigos. Costumávamos jogar bola juntos, ir a festas juntos. Então, eu não poderia simplesmente falar sobre meus sentimentos. Falar deles era um atestado de hábito, mesmo que eu continuasse vivo.

As pessoas iriam se afastar. A cidade toda iria saber. É o que acontece em cidade pequena. E esse medo não dava para simplesmente colocar de lado e fingir que não existia, porque estava presente a todo momento.

— Você não confiava nos seus amigos?

— Não é sobre confiança. É sobre como o mundo é, como as pessoas são. Não é fácil lidar com algo que a maioria das pessoas que você ama trata com nojo e crueldade. Você não entende as piadas, o olhar de julgamento. Você sabe quantas pessoas se matam ou são violentadas até a morte por apenas serem quem são?

— Acredito que muitas. Mas quantas delas já não estão mortas por dentro por não serem quem realmente são?

Era possível ver o semblante de Noah mudar completamente naquele momento. A pergunta que fiz não foi apenas para fazê-lo ver o outro lado da moeda, mas para deixá-lo perceber que não existe apenas a morte física. A pior morte é aquela que não está a sete palmos abaixo da terra, mas dentro de uma mente que pensa vinte e quatro horas por dia em não mais existir.

Noah, quando conheceu aquele garoto no vídeo, sentiu-se como se sua vida tivesse começado a fazer sentido. Porém, a situação não era tão simples. O amor não é simples. Talvez aquele sentimento de atração o tenha levado ainda mais ao fundo do poço, e sair de lá não era apenas esperar uma corda ser jogada e escalar.

— Você amava o garoto do balé?

— Não, eu não amava ele. Amar alguém vai muito além do que os olhos podem ver. Sentir atração não é amor.

Aquele garoto, com os cabelos jogados sobre o rosto, perfeitamente alinhados, tinha um estilo parecido com o de Will, de Stranger Things, só que bem mais delicado. Não era alguém que eu poderia amar. Afinal, eu não sabia o que estava acontecendo comigo naquele momento. Mas era impossível negar que eu fixava minha atenção em sua boca e observava seus olhos brilhando como vagalumes, enquanto meu coração acelerava como uma máquina a vapor e eu sentia minha boca seca. Talvez meu único desejo fosse sentir sua boca encostar na minha como um algodão-doce.

— Esse sentimento ainda continuou por muito tempo?

— Não. Era algo longe da minha realidade. Ele era apenas um garoto, com outros hobbies e talvez outros gostos, além de estar a centenas e mais centenas de quilômetros de distância de mim.

— E distância é um problema para o amor?

— Não, não é um problema. O amor é algo que encontramos verdadeiramente. A distância se torna só um detalhe. Triste, mas apenas um detalhe que pode ser resolvido. Mas…

— Mas o quê?

— Você não percebe como o amor é nos dias de hoje?

Noah, naquele momento, me fez pensar em todas as histórias de amor que eu já havia narrado. E, de fato, o amor desde sempre foi mudando conforme os interesses da humanidade. Não existem mais cartas de amor, serenatas e muito menos cortejo. Hoje, as pessoas não ligam em ficar com um, dois ou três. Traições são cometidas, e palavras de amor são ditas frequentemente em todos os relacionamentos. Mas a carne ser fraca se tornou um vício de consumo para desviar da falta de caráter.

— Sim, eu percebo que o amor está cada vez mais raro. Mas, e depois do garoto, você conseguiu deixar ele de lado?

— Podemos deixar isso para o próximo capítulo? Estou com sono, e você já está fazendo muito barulho na minha mente.

— Claro! Eu estou sempre com você.



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