Chapter 1
Capítulo 1 - Encontros22h17
A porta do carro se fechou atrás de Maya.
Ela permaneceu na calçada por alguns segundos, olhando para o prédio diante dela.
Depois olhou para Alex.
— Não.
Alex, que já caminhava alguns passos à frente de mãos dadas com Hayley, virou-se.
— Eu nem falei nada.
— Exatamente. Essa é a sua cara de quem deliberadamente não falou alguma coisa.
Donna riu.
— Onze anos de amizade serviram para alguma coisa.
— Vocês quatro estão estranhas desde que saímos do carro.
— É meu aniversário — disse Alex. — Tenho direito a ser estranha.
— Você é estranha gratuitamente nos outros trezentos e sessenta e quatro dias.
Hayley levou a mão ao peito.
— Não fala assim da minha namorada.
— Você fala pior.
— Mas eu transo com ela. Tenho privilégios contratuais.
Emma soltou uma gargalhada.
Maya fechou os olhos por um instante.
— Por que eu vim?
Alex aproximou-se e passou um braço pelos ombros dela.
— Porque me ama.
— Questionável.
— Porque é meu aniversário.
— Argumento melhor.
— E porque passou as últimas três sextas-feiras trabalhando até quase meia-noite.
— Eu sou editora-chefe. Trabalhar faz parte.
— Você está se escondendo no trabalho.
O sorriso de Maya desapareceu.
Alex percebeu imediatamente.
— Hoje não — disse, antes que Maya precisasse responder. — Prometo. Nada de interrogatório sobre Adam. Nada de “como você está?”. Nada de terapia coletiva. Hoje você vai beber comigo, dançar e comemorar meu aniversário.
— Obrigada.
— E amanhã eu volto a infernizar sua vida.
— Aí está a Alex que eu conheço.
As cinco seguiram para a entrada.
Maya voltou a observar o edifício.
Não havia letreiro luminoso, fila interminável ou música ensurdecedora atravessando as paredes. A fachada era escura e arquitetonicamente limpa.
Uma mulher de terno preto permanecia junto à porta.
Maya conhecia luxo.
Crescera profissionalmente em uma indústria que transformava a capacidade de parecer despretensiosamente cara em ciência.
E aquele lugar era caro.
Muito caro.
A recepcionista encontrou o nome de Alex em um tablet.
— Senhorita Harper. Boa noite. Sua mesa está preparada.
As portas se abriram.
Maya entrou.
O lugar era lindo.
Não bonito.
Lindo.
Havia uma espécie de disciplina estética em tudo.
Concreto aparente encontrava madeira escura e metal preto. Algumas superfícies tinham acabamento fosco; outras refletiam apenas fragmentos da iluminação âmbar. Sofás baixos formavam pequenos ambientes que permitiam conversar sem isolamento completo. Plantas de folhagem escura quebravam a rigidez industrial.
Nada parecia excessivo.
Nem mesmo a música.
O grave podia ser sentido no corpo, mas não obrigava ninguém a gritar.
Ao fundo, um restaurante ocupava uma área ligeiramente elevada. À esquerda ficava a pista. À direita, um longo bar de pedra escura parecia atravessar quase toda a parede.
Maya examinou as pessoas.
Mulheres.
Somente mulheres.
Maya piscou.
Depois virou o rosto para Alex.
— Você me trouxe para uma boate lésbica.
— Eu trouxe você ao meu aniversário.
— Em uma boate lésbica.
— Um estabelecimento voltado para mulheres — Alex corrigiu.
— Isso foi assustadoramente corporativo.
Emma apontou para ela.
— É por isso que ela é CEO.
Hayley envolveu a cintura de Alex.
— Eu sugeri.
Maya olhou para Hayley.
— Evidentemente.
— Não começa. Você vai gostar.
— Isso parece ameaça.
— Promessa.
Maya riu.
Foram conduzidas até uma mesa reservada próxima à pista.
No caminho, entretanto, Maya percebeu algo.
Um corredor.
Estava parcialmente recuado da área principal e integrado de tal maneira à arquitetura que alguém distraído poderia simplesmente não percebê-lo.
Maya não era alguém distraído.
A entrada era revestida em metal escuro. Uma iluminação linear âmbar percorria discretamente uma das paredes e desaparecia para dentro.
Havia apenas uma funcionária posicionada junto à entrada.
E três palavras gravadas no metal.
CONSENTIMENTO.
DISCRIÇÃO.
RESPEITO.
Maya diminuiu o passo.
Uma mulher aproximou-se da funcionária, apresentou uma pulseira preta e desapareceu pelo corredor.
Maya acompanhou-a com os olhos.
Donna apareceu ao seu lado.
— Não.
Maya olhou para ela.
— Eu não disse nada.
— Não precisava. Você acabou de olhar para aquele corredor como olha para um problema que pretende desmontar peça por peça.
Maya voltou a andar.
— Isso é uma acusação muito específica.
— Trabalho com você há tempo suficiente.
Maya apontou discretamente para trás.
— O que existe naquele corredor?
— Nada que diga respeito a você.
Maya parou.
— Agora diz.
— Maya...
— É aniversário da Alex.
— E?
— Vai beber.
— Você sabe o que tem lá?
Donna sorriu.
Era resposta suficiente.
* * *
Às 23h06, Maya havia esquecido temporariamente o corredor.
Alex estava de pé enquanto as amigas faziam um brinde absolutamente incompatível com qualquer noção de dignidade que cinco executivas deveriam possuir.
— À mulher que conseguiu transformar “vamos comemorar o meu aniversário” em uma reserva que provavelmente exige análise de crédito — disse Maya.
Alex ergueu a taça.
— Inveja é muito feio.
— Não preciso ter. Eu ganho bem.
— Eu sei, eu que assino seu pagamento.
Maya apontou a taça para ela.
— Golpe baixo.
As taças se encontraram.
Maya bebeu.
O álcool começava a produzir aquela agradável redução de ruído dentro da cabeça.
Não estava bêbada.
Estava apenas...
Menos vigilante.
O que, ultimamente, era raro.
Adam atravessou seu pensamento sem autorização.
Ela o expulsou.
Não naquela noite.
Havia passado três anos ao lado de um homem com quem tudo funcionava.
Essa era provavelmente a descrição mais cruel que conseguia formular.
Funcionava.
Eles combinavam socialmente. As famílias aprovavam. As agendas encaixavam. Os objetivos pareciam compatíveis.
Havia carinho.
Havia sexo.
Havia planos.
Só nunca houvera aquela coisa absurda sobre a qual as pessoas escreviam músicas ruins.
Maya havia acreditado que relacionamentos adultos talvez fossem simplesmente aquilo.
Até descobrir que Adam aparentemente conhecia paixão.
Só não sentia por ela.
— Ei.
Alex tocou sua mão.
Maya percebeu que estava olhando para a taça.
— Estou bem.
Alex não perguntou.
Por isso eram amigas.
Maya terminou a bebida.
— Vou buscar outra.
— Eu peço.
— Eu tenho pernas.
— Confirmado pela diretora de fotografia — Hayley disse.
— Excelentes pernas — Donna acrescentou.
Maya mostrou o dedo médio enquanto se afastava.
* * *
O bar estava mais movimentado.
Maya encontrou um espaço entre duas mulheres e apoiou os antebraços na pedra.
— Gin tônica, por favor.
A bartender assentiu.
Enquanto esperava, Maya voltou a fazer aquilo que fazia quase compulsivamente.
Observar.
Não pessoas bonitas.
Pessoas.
Era diferente.
Postura. Roupa. Comportamento. Quem procurava aprovação. Quem fingia não procurar. Quem tinha dinheiro. Quem queria parecer que tinha.
Anos trabalhando com moda haviam transformado observação em reflexo.
Foi por isso que seus olhos passaram por uma desconhecida uma primeira vez.
E retornaram.
Maya não soube dizer exatamente por quê.
A mulher simplesmente estava ali.
Ainda assim, alguma coisa nela destoava.
Não pela roupa.
Pela maneira como ocupava o espaço.
Maya conhecia mulheres poderosas. Trabalhava cercada por elas. Sabia reconhecer autoridade antes mesmo que alguém abrisse a boca.
Naquela mulher havia algo parecido.
Mas não exatamente.
Maya desviou o olhar antes que fosse percebida.
Ou acreditou ter feito isso.
Sua bebida chegou.
Ela agradeceu, pegou o copo e virou-se para procurar as amigas.
Uma mulher passou diante dela.
Maya recuou para abrir espaço.
Alguém surgiu do outro lado.
Ela tentou corrigir o movimento.
Tarde demais.
Seu ombro encontrou outro corpo.
O impacto não foi forte, mas bastou para inclinar sua mão.
O gin ultrapassou a borda do copo.
Parte atingiu o chão.
Outra parte caiu diretamente sobre a roupa da mulher à sua frente.
— Merda.
Maya endireitou o copo.
— Desculpa.
Ergueu os olhos.
E reconheceu a desconhecida.
Era ela.
A mulher que observara poucos minutos antes.
Excelente.
Maya olhou para a mancha úmida e depois para o rosto dela.
— Eu normalmente consigo atravessar um bar sem atacar desconhecidas com gin.
A resposta da mulher não era, nem remotamente, uma das possibilidades que Maya havia previsto.
A desconhecida observou a própria roupa molhada e depois Maya com uma tranquilidade quase ofensiva.
— Existem maneiras piores de acabar parcialmente molhada por uma mulher atraente.
Maya ficou imóvel por um segundo.
Seus olhos desceram por reflexo até a mancha que ela mesma provocara e voltaram imediatamente para o rosto da mulher.
Havia um problema naquela frase.
Mais precisamente, havia dois.
“Molhada.”
E “mulher atraente.”
Maya soltou uma risada curta, quase incrédula.
O elogio a atingiu de um jeito estranho.
Não desagradável.
Esse talvez fosse o problema.
Estava acostumada a ser elogiada. Sua aparência fazia parte de um universo profissional no qual pessoas comentavam roupas, corpos, rostos e beleza com a naturalidade de quem discutia previsão do tempo.
Mas aquilo não tinha sido uma avaliação estética.
A mulher estava flertando com ela.
Maya sabia reconhecer um flerte.
Naturalmente.
Só nunca precisara descobrir o que fazer quando vinha de uma mulher.
— Certo... — murmurou.
Levou o copo aos lábios e interrompeu o movimento antes de beber.
Definitivamente não usaria gin para ajudá-la a processar aquilo.
Olhou novamente para a desconhecida.
Ela parecia perfeitamente confortável.
O que era irritante, considerando que Maya havia acabado de perder alguns segundos tentando decidir o que fazer com a própria expressão.
— Essa foi uma maneira impressionantemente eficiente de transformar meu pedido de desculpas em outra coisa.
A frase saiu antes que Maya precisasse pensar.
Melhor.
Ali estava um território conhecido.
Palavras.
Com palavras ela sabia trabalhar.
Um pequeno sorriso surgiu.
— Mas vou aceitar o elogio.
Estendeu a mão.
— Maya Queen.
A mulher aceitou o gesto.
— Katherine Cox.
Maya repetiu mentalmente o nome.
Katherine.
A conversa seguiu com a mesma facilidade desconcertante.
Quando Maya ofereceu pagar uma bebida ou lavanderia em reparação pelo acidente, Katherine observou, com uma segurança inabalável, que talvez devessem começar pela bebida antes de pensar em tirar peças de roupa para lavar.
Maya riu outra vez.
Era impossível não perceber agora.
Katherine estava definitivamente flertando.
E fazia aquilo com uma tranquilidade desconcertante.
Maya não sabia exatamente o que fazer com essa informação.
Curiosamente, também não queria encerrar a conversa.
Katherine inclinou-se para a bartender.
— Vésper Martini. Três medidas de Gordon’s, uma de vodca, meia medida de Kina Lillet. Agite com gelo e adicione uma fatia fina de casca de limão. Batido e não mexido.
Maya arqueou uma sobrancelha.
— Vésper Martini?
Olhou para Katherine e depois para a bartender.
— E com instruções completas.
Quase comentou que aquilo dizia bastante sobre uma pessoa.
Não teve tempo.
— Administro estabelecimentos voltados para a experiência feminina — Katherine respondeu quando Maya perguntou o que fazia.
A formulação chamou sua atenção.
Estabelecimentos.
No plural.
E ampla o suficiente para parecer deliberada.
Antes que Maya pudesse explorar a resposta, Katherine continuou:
— Editora-chefe? Parece perfeito para quem gosta de estar no controle.
Maya sorriu.
Até aí, tudo bem.
Então veio a pergunta.
— Em algum momento você abre mão de estar no controle? Ou só quando atravessar o salão com uma taça de gin não sai como o planejado?
Maya permaneceu em silêncio por um instante.
A pergunta era simples.
Mas havia alguma coisa no modo como Katherine a fizera que tornava difícil responder sem pensar no que exatamente estava sendo perguntado.
Maya girou o copo entre os dedos.
— Depende.
Seu olhar encontrou o de Katherine.
— No trabalho? Não, se eu puder evitar. Pessoas que dizem que adoram improvisar geralmente só estão tentando dar um nome elegante para falta de planejamento.
Tomou um pequeno gole.
— Na vida...
Hesitou.
Adam surgiu em algum lugar indesejado de sua memória.
Talvez porque, nos últimos meses, Maya tivesse descoberto da pior maneira possível que acreditar estar no controle e realmente estar eram coisas bastante diferentes.
Ela afastou o pensamento.
— Acho que nunca pensei nisso.
A resposta saiu mais sincera do que pretendia.
Maya percebeu e imediatamente sentiu necessidade de recuperar algum terreno.
— Mas certamente não vou discutir minhas questões de controle com uma mulher que conheci há cinco minutos.
Fez uma pausa.
A lembrança das provocações anteriores apareceu tarde demais.
— Especialmente uma que parece estranhamente interessada no destino das minhas roupas.
Pronto.
Era para ter sido uma saída elegante.
Então Maya ouviu a própria frase.
Estranhamente interessada no destino das minhas roupas.
Ótimo.
Talvez não tivesse recuperado terreno nenhum.
Um calor discreto subiu por seu pescoço.
Maya tomou um gole do gin antes que Katherine pudesse perceber.
Ou antes que Maya descobrisse se ela havia percebido.
A bartender colocou o Vésper diante de Katherine.
Maya aproveitou a distração.
— Embora essa escolha esteja começando a fazer sentido.
Indicou a taça.
— James Bond pede exatamente o que quer, exatamente como quer...
Parou.
Katherine a observava.
Maya teve a incômoda impressão de que havia alguma segunda conversa acontecendo por baixo daquela.
Uma que Katherine entendia perfeitamente.
E Maya não.
Terminou:
— ...e aparentemente não aceita improvisações.
Seus olhos ficaram por um instante na mulher à sua frente.
Katherine era bonita.
Maya já havia percebido isso.
Agora, porém, começava a perceber coisas que normalmente não registraria.
A maneira como ela sustentava o olhar.
A segurança.
A voz.
Maya desviou os olhos para a bebida.
Aquilo era novo.
Não assustador.
Só...
Novo.
— “Estabelecimentos voltados para a experiência feminina” — repetiu. — Essa foi uma resposta muito bem construída, aliás.
Finalmente um assunto no qual sabia exatamente o que estava fazendo.
— Você conseguiu me responder sem realmente me contar quase nada.
Antes que pudesse continuar, os primeiros acordes de uma música atravessaram o salão.
Maya parou.
Reconheceu imediatamente.
— Não...
Do outro lado do bar, alguém gritou:
— MAYA!
Ela virou o rosto.
Donna estava na entrada da pista, apontando para ela com as duas mãos. Emma já ria. Alex tinha uma taça erguida no ar e Hayley tentava arrastá-la para o centro da pista.
Donna gritou novamente:
— NOSSA MÚSICA!
Maya soltou uma gargalhada.
— Meu Deus.
Alguma coisa mudou imediatamente.
Por alguns segundos, desapareceu a mulher que comandava reuniões, decidia capas e fazia executivos aguardarem enquanto concluía se alguma coisa estava boa o suficiente.
Maya tinha vinte anos outra vez.
Deu dois passos na direção das amigas.
Então parou.
Olhou para trás.
Katherine continuava ali.
Maya hesitou.
Não porque soubesse o que queria fazer.
Era justamente o contrário.
Sabia apenas que não queria sair sem dizer nada.
— Parece que estou sendo convocada.
Donna tornou a gesticular desesperadamente.
Maya riu.
— E aparentemente é uma emergência nacional.
Deu outro passo.
— Foi um prazer atacar você com gin, Katherine Cox.
Um pequeno sorriso.
— Espero que sua roupa sobreviva.
Virou-se antes que pudesse acrescentar qualquer coisa que precisasse analisar depois.
Caminhou até as amigas.
No meio do caminho, porém, olhou por cima do ombro.
Foi automático.
Katherine ainda estava no bar.
Os olhares se encontraram.
Maya sentiu aquela mesma sensação estranha outra vez.
A de estar participando de alguma coisa cujas regras não conhecia.
Sustentou o olhar por um instante.
Então Donna agarrou sua mão e a puxou para a pista.
— Onde você estava?!
— No bar!
— Eu vi o bar!
— Então por que perguntou?
Donna aproximou-se para vencer a música.
— Eu estava perguntando com quem você estava.
Maya olhou para ela.
— Ninguém.
Donna apenas a encarou.
Maya conhecia aquele silêncio.
— O quê?
— Nada.
— Donna.
— Você estava há vários minutos conversando com uma mulher que não conhece.
— Eu derramei gin nela.
Donna piscou.
— Isso é alguma técnica nova?
— Foi um acidente.
— Claro.
— Donna.
— Estou quieta.
Maya tentou voltar a atenção para a música.
— O nome dela é Katherine.
Donna abriu um sorriso imediatamente.
— Ah.
— Não faça isso.
— Isso o quê?
— Seja lá o que estiver prestes a fazer.
Alex apareceu ao lado delas.
— O que ela está prestes a fazer?
— Nada — Maya respondeu.
— Maya conheceu uma mulher chamada Katherine — Donna informou.
— Eu não “conheci Katherine”. Eu derramei uma bebida em uma pessoa chamada Katherine.
Alex olhou para Donna.
Depois para Maya.
— Certo.
Maya estreitou os olhos.
— Por que esse “certo” pareceu ofensivo?
Hayley surgiu atrás da namorada.
— O que aconteceu?
— Nada aconteceu.
Maya percebeu que estava se defendendo de uma acusação que ninguém havia feito.
Isso a irritou ainda mais.
— Podemos dançar?
Donna imediatamente levantou as mãos.
— Podemos.
E, para surpresa de Maya, ninguém insistiu.
A música tomou o lugar da conversa.
Por alguns minutos, Katherine desapareceu de seus pensamentos.
Adam também.
Havia apenas música, amigas, álcool e uma versão de si mesma que Maya não encontrava havia tempo demais.
Até que, durante um giro, seus olhos atravessaram casualmente o salão.
Foi então que se viu as voltas novamente com aquele corredor.
A curiosidade voltou.
E, alimentada pelo gin, parecia consideravelmente menos disposta a aceitar que determinadas portas simplesmente não lhe diziam respeito.
00h41
Maya não soube dizer exatamente em que momento curiosidade virou decisão. Talvez tivesse sido o quinto ou sexto gin.
Foi, então que ela se aproximou. A mulher de preto que guardava a entrada do corredor ergueu os olhos.
— Primeira vez?
Maya hesitou.
— Está tão óbvio assim?
Um sorriso profissional.
— Pulseira.
Maya olhou para o próprio pulso.
Em algum momento da chegada, recebera uma pulseira junto às demais credenciais da reserva de Alex. Até então não dera importância a ela.
A mulher conferiu-a.
— Antes de entrar: não fotografe, não toque em ninguém sem permissão e não interfira em nenhuma sessão. Portas fechadas são privadas. Portas abertas permitem observação, não participação.
Maya assentiu.
— Entendido.
— Se alguma coisa deixar você desconfortável, basta sair.
Aquilo chamou sua atenção. Não era exatamente o que esperava ouvir.
Embora, pensando bem, Maya nem sequer soubesse o que esperava encontrar.
A mulher afastou-se. Maya entrou.
---
A mudança foi imediata. Não havia ruptura estética entre a boate e o corredor. Era como se tivesse atravessado para uma versão mais escura e privada do mesmo lugar.
Couro. Muito couro. Não de maneira espalhafatosa. Aparecia em painéis acolchoados, bancos, revestimentos de portas e pequenos detalhes da decoração.
A iluminação âmbar vinha de linhas estreitas embutidas junto ao piso e às paredes.
O corredor era comprido.
Muito mais do que Maya imaginara quando o observava da pista.
E havia portas. Muitas. Algumas fechadas. Outras entreabertas.
Outras completamente abertas.
Maya caminhou devagar.
Então ouviu um som vindo da primeira porta aberta.
Parou. Olhou. E congelou.
Duas mulheres estavam juntas dentro do quarto.
Não havia dúvida sobre a natureza sexual da cena, embora a disposição do ambiente chamasse quase tanta atenção quanto elas: iluminação baixa, uma cama ampla, mobiliário específico e uma pequena mesa lateral onde objetos haviam sido organizados cuidadosamente.
Maya desviou os olhos imediatamente.
Deu dois passos.
Parou.
— Certo...
Seu cérebro demorou alguns segundos para reorganizar as informações.
Aquilo explicava algumas coisas.
Na verdade, explicava muitas coisas.
Ela continuou.
A porta seguinte estava fechada.
Na terceira, uma mulher estava deitada enquanto outra trabalhava com algo que Maya inicialmente confundiu com uma pequena vela comum.
Uma gota caiu sobre a pele.
Maya prendeu a respiração.
A mulher deitada reagiu.
Mas não da maneira que Maya esperava.
Seguiu andando. Outra porta.
Franziu a testa.
Precisou olhar novamente.
Uma mulher estava de quatro sobre um tapete espesso. Usava acessórios que Maya não compreendeu imediatamente e era conduzida por outra mulher através de comandos tranquilos e recompensas.
Não parecia exatamente sexual.
Havia coleira. Postura. Comandos.
Maya percebeu uma pequena placa discreta junto à porta.
PET PLAY — SESSÃO PRIVADA / OBSERVAÇÃO AUTORIZADA
— Pet play...
Pronunciou baixinho.
Não fazia ideia de que aquilo existia.
Continuou andando pelo corredor.
Mulheres dando ordens.
Mulheres ajoelhadas recebendo ordens.
Maya continuou.
Alguma coisa estava mudando dentro dela.
Não era simplesmente excitação.
Também não era repulsa.
Era desorientação.
Durante toda a vida, sexo fora uma coisa relativamente simples.
Com Adam, principalmente.
Beijos, cama, corpos, quase não tinham variações.
Prazer quando funcionava.
Frustração quando não.
Nunca existira... isso.
Ritual.
Poder.
Expectativa.
Maya passou por outra porta.
Parou.
Voltou um passo.
Uma mulher estava sendo presa cuidadosamente por cordas enquanto outra verificava cada ponto antes de prosseguir.
Um pequeno estojo de primeiros socorros.
Maya olhou para aquilo por mais tempo do que para as cordas.
Aquilo a confundia ainda mais.
Tudo parecia perigoso.
E, ao mesmo tempo, assustadoramente organizado.
Ela seguiu. O álcool agora parecia ter mudado de função.
Antes a deixara leve. Ali, tornava tudo mais intenso.
O corredor parecia maior.
A música do salão já não chegava até lá.
Maya virou uma esquina.
Outra sequência de portas.
— Quantas salas esse lugar tem?
Continuou andando.
Depois de alguns minutos, percebeu um problema.
Não sabia mais por onde havia entrado.
Virou-se.
Dois corredores aparentemente idênticos.
— Ótimo.
Escolheu um.
Andou.
Errado.
Voltou.
A iluminação baixa, o álcool e a sucessão de imagens que ainda tentava processar começaram a se misturar.
Maya sentiu o coração acelerar.
— Certo, Maya. Muito inteligente.
Tentou localizar uma funcionária. Ninguém.
Atrás dela, ouviu um som inesperadamente forte vindo de uma das salas.
Maya se assustou e avançou.
Abriu a primeira porta que encontrou.
Entrou.
Fechou-a atrás de si.
Silêncio. Respirou fundo.
---
Maya apoiou as costas na porta.
Respirou.
— Que porra...
Então finalmente olhou ao redor.
A sala estava vazia.
As paredes eram revestidas por tecido escuro, espesso o suficiente para absorver quase completamente o som.
Havia um sofá de três lugares em couro legítimo marrom.
Uma pequena mesa. Iluminação baixa. Nada mais.
Exceto pela parede diante dela. Vidro. Completamente negro.
Maya se afastou da porta.
— Isso é algum tipo de lounge?
Caminhou até o sofá. Passou por ele.
Um discreto clique. Alguma coisa detectou seu movimento.
Maya parou.
Uma linha de luz surgiu acima do vidro.
Depois outra nas laterais.
— Não, não, não...
O vidro começou a mudar. Primeiro revelou sombras. Depois a imagem foi tomando forma.
Maya aproximou-se involuntariamente.
Do outro lado existia um espaço enorme.
Uma arena.
O centro era ocupado por um palco circular, cercado por fileiras de assentos em diferentes níveis. Mulheres observavam em absoluto silêncio.
Maya levou alguns segundos para compreender que aquela sala era uma cabine de observação.
E então viu o centro do palco.
Uma cruz de madeira em formato de X.
Presa a ela estava uma mulher nua.
Maya parou de respirar por um instante.
A disposição dos braços e pernas deixava claro que ela estava imobilizada, mas Maya já aprendera o suficiente nos últimos minutos para procurar outras coisas.
Não havia pânico. Havia concentração. Entrega.
Então Maya ouviu uma voz.
Feminina.
Calma. Sensual. Poderosa.
Amplificada pelo sistema de som da cabine.
— Cor?
A mulher presa à cruz respondeu.
— Verde.
Maya não compreendeu.
Foi quando ela apareceu.
A mulher de máscara. A mulher vestia couro escuro de corte impecável. Não parecia fantasia. Era claramente alfaiataria construída para uma espécie de cerimônia.
A máscara escondia o suficiente do rosto para impossibilitar uma identificação.
Os scarpins escuros alteravam a postura e faziam cada passo produzir um som seco contra o palco.
Tac.
Tac.
Tac.
Maya ficou imóvel diante do vidro.
Havia uma cama enorme em carvalho, pesada, quase austera.
Ela caminhou até uma grande estrutura de madeira ao fundo. Um armário.
Ela abriu as portas. E isso chamou a atenção de Maya.
Instrumentos de diferentes formatos.
Alguns ela reconhecia. Outros, absolutamente não.
Tudo estava disposto com precisão quase obsessiva.
Passou os dedos por algumas opções.
Escolheu uma. Uma espécie de palmatória.
O estômago de Maya contraiu.
— Meu Deus...
Ela fechou o armário.
Virou-se.
E começou a atravessar o palco.
Tac. O salto encontrou a madeira.
Maya sentiu o som no próprio corpo.
Tac. Ela continuou.
Tac. Não havia pressa.
Essa era talvez a parte mais perturbadora.
A mulher mascarada não precisava correr. Era como se toda aquela arena esperasse por ela junto com a mulher no X.
Maya percebeu que estava apertando os dedos contra a própria palma. Tentou relaxá-los. Não conseguiu.
Olhou para a mulher que estava contida.
Depois para a mulher de máscara.
Aquilo deveria assustá-la.
Só que havia outra sensação misturada ao medo. Uma que Maya não queria examinar.
Ela parou diante da submissa.
Não a tocou imediatamente.
Perguntou alguma coisa.
A mulher respondeu.
Só então levantou o instrumento.
Maya compreendeu naquele instante algo que não havia compreendido ao atravessar as primeiras salas.
Aquilo não era simplesmente uma mulher fazendo o que queria com outra.
Havia regras.
Permissão.
Uma linguagem que Maya ainda não conhecia.
O primeiro movimento dela cortou o ar. Um gemido alto ecoou no ambiente.
Maya recuou instintivamente.
Seu coração estava rápido demais.
Ela deveria sair.
Não saiu. Os olhos de Maya permaneceram nela.
Então aconteceu algo ainda mais estranho.
A mulher de máscara virou ligeiramente a cabeça.
Na direção do vidro.
Maya congelou.
Era impossível que pudesse vê-la. O vidro fora construído justamente para impedir isso.
Mas, a iluminação da cabine havia se acendido quando Maya entrara.
Do palco, não era possível distinguir seu rosto. Somente uma silhueta.
A mulher permaneceu voltada naquela direção por um instante.
Maya sentiu um arrepio percorrer os braços.
Não. Aquilo era demais.
Deu um passo para trás.
Depois outro.
Tropeçou levemente no sofá.
Recuperou o equilíbrio.
— Eu preciso sair daqui.
Virou-se. Abriu a porta.
Maya começou a andar rapidamente.
Escolheu uma direção.
Finalmente reconheceu uma das salas pelas cordas penduradas na parede.
Seguiu em frente.
E finalmente encontrou as três palavras.
A música da boate atingiu-a como uma onda.
Ela procurou as amigas.
Não encontrou nenhuma imediatamente.
Precisava de ar.
Por alguns segundos seus olhos quase procuraram Katherine.
Mas, não. Não conseguia conversar com ninguém naquele momento.
Maya atravessou as portas da boate.
O ar frio da madrugada atingiu seu rosto.
Parou na calçada.
Inspirou profundamente. Uma vez. Duas.
Pegou o celular.
Havia mensagens das amigas. Não respondeu.
Chamou um carro.
Enquanto esperava, encostou-se à parede e fechou os olhos.
Imediatamente ouviu novamente:
Tac.
Abriu os olhos.
Passou a mão pelos cabelos.
Não sabia exatamente o que acabara de assistir.
Não sabia por que havia permanecido olhando.
E definitivamente não sabia explicar por que, entre todas as imagens daquela noite, era a imagem da mulher por trás da máscara que não saia de sua cabeça.
O que ela não fazia ideia era que, poucas horas antes, havia derramado gin sobre aquela mesma mulher.
O carro parou diante dela. Maya entrou. Quando a porta se fechou, olhou uma última vez para o edifício.
Horas antes, entrara ali porque Alex decidira onde comemoraria o aniversário.
Agora saía com uma pergunta que não sabia formular.
E com a perturbadora sensação de que alguma coisa naquela noite ainda não havia terminado.


