Capítulo 1
O táxi cheirava a pinho artificial e cigarros velhos, uma mistura que se tornou nauseante por volta da fronteira com Indiana. Adelle Becker encostou a testa no vidro frio do banco de trás e observou o horizonte de Chicago mudar de uma mancha cinzenta distante para um paredão de torres cintilantes. A cidade não se parecia em nada com o campus rural e espaçoso que ela deixara em Champaign-Urbana. Ali, os prédios se aglomeravam como velhos trocando segredos, suas janelas capturando a última luz da tarde e refletindo-a em brilhos angulares e intensos.
“Estamos quase chegando”, anunciou Sofia Tassi, sem desviar os olhos do celular. Seus polegares se moviam pela tela num borrão, com as unhas pintadas de um vinho brilhante que combinava com o lenço de seda amarrado no pescoço. Ela trocava mensagens sem parar desde que pousaram em O’Hare, com a expressão oscilando entre irritação e diversão a cada nova mensagem.
Adelle se ajeitou no banco, o estofado de couro rangendo sob ela. Vestira seu melhor vestido de viagem — um algodão creme macio com pequenas flores azuis —, mas as três horas de voo e quarenta minutos de táxi o deixaram amarrotado de um jeito que parecia impossível de consertar. Ela passou a mão pela coxa, tentando alisar o tecido, e viu seu reflexo na janela. Seus cachos loiro-avermelhados tinham armado nas têmporas por causa da umidade, e as sardas no nariz pareciam mais marcadas contra a palidez do cansaço da viagem.
“Sofia, acho mesmo que eu deveria ter ficado no hotel”, disse ela pela quarta vez desde que pousaram. “Não quero me intrometer no seu tempo em família.”
Sofia finalmente olhou para cima, revirando os olhos escuros com um exasperação teatral. “Já discutimos isso. Meu pai faz questão de conhecer minhas amigas. E é semana de folga. Você não vai passar esse tempo num Hilton de aeroporto de merda.”
“Não seria de merda. Eu pesquisei. Três estrelas.”
“Três estrelas”, repetiu Sofia, como se a palavra tivesse um gosto amargo. “Adelle, você vai ficar na minha casa. Fim de papo.”
O táxi saiu da via principal e entrou num bairro que pareceu silenciar no instante em que entraram. As ruas ficaram mais estreitas, ladeadas por antigos sobrados de tijolos e vitrines com nomes italianos pintados em folhas de ouro desbotadas. Little Italy. Adelle tinha lido sobre esse bairro em suas aulas de história romana, sobre como as comunidades imigrantes esculpiam bolsões na cidade e os mantinham por gerações. Mas os livros descreviam um lugar vibrante e caótico, cheio de festivais e mercados ao ar livre. O que ela via agora era algo mais silencioso e observador.
Homens estavam parados do lado de fora de um café na esquina, interrompendo as conversas à medida que o táxi passava. Um sedã preto estava parado perto de uma faixa de pedestres, com os vidros escuros demais para que se visse o interior. A cada poucas quadras, ela notava o mesmo rosto — um jovem de jaqueta cinza, uma mulher com um celular colado ao ouvido —, aparecendo e reaparecendo como marcações em um caminho.
“Sofia”, disse Adelle lentamente, “seu pai é dono da rua inteira?”
“Alguns prédios”, respondeu Sofia, com a voz cuidadosamente neutra. “Por quê?”
“Por nada.” Adelle olhou para as mãos, com as unhas roídas até a carne. “Só curiosidade.”
O táxi parou em um portão que não estava lá um instante antes — ou, pelo menos, não era visível da rua. Era alto e preto, com barras de ferro que se curvavam em pontas afiadas no topo. Um homem de terno escuro se aproximou, falou brevemente com o motorista e, então, o portão se abriu com um baixo gemido mecânico.
“Bem-vinda à propriedade dos Tassi”, disse Sofia, com um tom entre orgulho e resignação.
A casa não era uma casa. Era uma mansão construída no antigo estilo italiano, com janelas altas e arqueadas e uma fachada de pedra cor de mel. A hera subia pelas paredes em linhas cuidadosas e controladas, e uma fonte de mármore ficava no centro da entrada circular, com a água escorrendo da boca de um leão de pedra para uma bacia abaixo. A entrada era pavimentada com paralelepípedos que fizeram o táxi estremecer ao parar.
Os dedos de Adelle tremiam enquanto ela alcançava a maçaneta da porta. Apertou-os contra as coxas, esperando o tremor passar, e então saiu para os paralelepípedos.
O ar a atingiu primeiro. Cheirava a chuva, embora o céu estivesse limpo, e, por baixo disso, algo verde e vivo. A névoa da fonte umedeceu seus tornozelos expostos, e ela estremeceu apesar da temperatura amena de abril.
“Vamos”, disse Sofia, já na metade do caminho até a enorme porta da frente. “Eu preciso de uma bebida.”
A porta abriu antes que Sofia a tocasse, revelando uma mulher de vestido preto com os cabelos grisalhos presos em um coque firme. Ela era mais velha, talvez uns sessenta anos, com um rosto que poderia parecer severo se não fosse pelo brilho de calor em seus olhos ao olhar para Sofia.
“Signorina Sofia”, disse a mulher, com um sotaque carregado e musical. “Bem-vinda ao lar.”
“Obrigada, Giulia.” Sofia entrou, e Adelle a seguiu, com as rodas da mala prendendo no batente. O interior era ainda mais imponente do que o exterior — pisos de mármore polidos como espelho, uma escadaria curva com um corrimão de ferro ornamentado e um lustre que pendia do teto abobadado como um fogo de artifício congelado. Mas, antes que pudesse absorver tudo, Adelle ouviu algo que a fez parar bruscamente.
Uma mulher estava chorando.
O som vinha de algum lugar profundo da casa, abafado pelas paredes e pela distância, mas inconfundível — um soluço baixo e lamurioso que subia e descia como uma sirene. O estômago de Adelle se contraiu.
“Sofia”, sussurrou ela, segurando o braço da amiga, “alguém está ferido?”
A expressão de Sofia oscilou, algo sombrio passando por trás de seus olhos. “Ignore”, disse ela, com a voz sem emoção. “Alguns dos sócios do meu pai têm problemas familiares. Não é da nossa conta. Mas agora você sabe por que eu queria você aqui. Pode ser… muita coisa.”
“Muita coisa”, repetiu Adelle, com a boca seca.
Uma porta se abriu em algum lugar à esquerda, e o choro parou tão subitamente quanto se alguém tivesse apertado um botão de silenciar. Uma mulher em um terno azul-marinho sob medida apareceu, com o rosto inexpressivo e um tablet segurado contra o peito como um escudo. Ela acenou para Sofia sem falar e passou por elas em direção à porta da frente, seus saltos deixando ecos pequenos e precisos no chão de mármore.
“Quem era aquela?”, perguntou Adelle, com a voz mal passando de um sussurro.
“A advogada do meu pai, talvez? Não sei, não acompanho essas coisas.” Sofia já estava andando novamente, seus saltos fazendo barulho enquanto atravessava o saguão. “Vamos. Vou te mostrar o seu quarto.”
O quarto ficava no segundo andar, no final de um longo corredor forrado com pinturas que Adelle presumiu serem originais. Ela reconheceu um Caravaggio — ou, pelo menos, parecia um — e a visão a deixou tonta. Sofia abriu a porta e deu passagem.
“Esta é a suíte de hóspedes. Você terá seu próprio banheiro. Tem uma TV, mas a senha do Wi-Fi está no criado-mudo. Se precisar de qualquer coisa, a cozinha fica no andar de baixo e a Giulia fará o que você quiser.”
Adelle entrou e colocou a mala no chão. O quarto era lindo da mesma maneira que museus são lindos — papel de parede de seda, uma cama com dossel e lençóis brancos, portas francesas que davam para uma pequena varanda com vista para o jardim. Parecia um lugar que tinha sido montado para uma cena, não habitado. Como um cenário de uma peça sobre riqueza.
“É perfeito”, disse ela, porque não sabia o que mais dizer.
Sofia ficou na porta, com os braços cruzados. “O jantar é às sete. Meu pai gosta de pontualidade.”
“Seu pai”, disse Adelle, sentindo o coração cair. “Eu deveria me trocar. Eu deveria… o que eu visto? Não trouxe nada elegante.”
“Você vai ficar bem. Somos só nós.” Mas o sorriso de Sofia não chegou aos olhos. “Só nós e meu pai. E talvez alguns amigos dele. Depende.”
“Depende de quê?”
Mas Sofia já estava se afastando, seus passos sumindo pelo corredor. Adelle ficou parada no centro do quarto, com os braços envoltos em si mesma, e ouviu a casa se acomodar ao seu redor como um ser vivo.
O banheiro era todo de mármore branco e metais dourados, e o chuveiro tinha mais botões do que Adelle sabia como usar. Ela conseguiu descobrir a água quente e ficou sob o jato por mais tempo do que o necessário, deixando o calor aliviar a tensão de seus ombros. A pressão da água era extraordinária, batendo em sua pele como uma massagem firme, e, por alguns minutos, ela esqueceu onde estava.
Depois de se secar, abriu a mala e avaliou as opções. Tinha feito as malas para férias na praia — vestidos leves, sandálias, um único jeans —, não para um jantar com um chefão da máfia. Optou por um vestido verde-escuro de alças finas com a bainha pouco acima dos joelhos. Era modesto, pensou, mas a cor destacava o castanho de seus olhos e o calor de seu cabelo. Prendeu os cachos em um coque solto, deixando algumas mechas emoldurando o rosto, e passou um pouco de hidratante labial.
O espelho mostrava uma versão de si mesma que mal reconhecia — uma garota em um quarto lindo, vivendo uma vida emprestada.
Ela olhou o celular. Eram 18h58. Seu coração bateu mais rápido enquanto caminhava para a porta do quarto, e ela se forçou a respirar devagar, contando até dez a cada inspiração. É apenas um jantar, disse a si mesma. Pessoas jantam todos os dias. Isso é normal.
Mas os soluços da mulher ecoavam no fundo de sua mente, e nada naquela casa parecia normal.
O jantar foi servido em uma sala de jantar formal com uma mesa longa o suficiente para vinte pessoas. O ambiente era todo de madeira escura e luz de velas, as chamas tremeluzindo contra taças de cristal e talheres de prata. Os sapatos de Adelle batiam no chão polido enquanto seguia Sofia através da porta, e o som parecia anunciar sua chegada como um rufar de tambores.
Na cabeceira da mesa, um homem se levantou.
Ele era mais baixo do que ela esperava — talvez um metro e setenta e cinco —, mas com um porte de boxeador, ombros largos e um peito sólido sob uma camisa Brioni cinza-carvão. Seu cabelo era escuro e ondulado, recuando levemente nas têmporas, e salpicado com um cinza distinto que combinava com a barba curta e quase toda prateada, mantida rente ao maxilar. Seus olhos eram da cor de âmbar quente e se fixaram em Adelle com uma intensidade que a fez perder o fôlego.
Ele era perigoso. Não do jeito dos bandidos ou criminosos que ela via em filmes, mas do jeito dos homens acostumados a serem temidos. Havia uma quietude nele, uma energia contida, como um predador descansando entre as caçadas.
“Adelle”, disse ele, e sua voz era quente, sutilmente acentuada e rica. “Ouvi falar muito sobre você.”
Ele atravessou a sala com um caminhar fluido que pareceu encurtar a distância entre eles. Quando chegou até ela, estendeu a mão.
Por um momento, Adelle não se moveu. Seus pés pareciam enraizados no chão, os braços pesados ao lado do corpo. Então, lentamente, levantou a mão e deixou que ele a tomasse na sua.
O aperto dele era quente e firme, a pele seca, com a palma calejada de um jeito que a surpreendeu. Ele não a cumprimentou com um aperto de mão comum, mas a segurou, seu polegar roçando o dorso dos dedos dela enquanto ele a observava.
“Sou Silvio”, disse. “Pai da Sofia. Você é ainda mais bonita do que ela descreveu.”
O calor inundou as bochechas de Adelle. “Obrigada, Sr. Tassi. Sou muito grata por estar aqui.”
“Silvio”, repetiu ele, com os lábios se curvando em um sorriso. “Por favor. Sr. Tassi era meu pai.”
Ele segurou a mão dela um pouco mais do que o apropriado, depois a soltou com uma lentidão que pareceu deliberada. Adelle puxou a mão e a segurou com a outra, como se quisesse protegê-la.
Atrás dela, Sofia pigarreou. “Podemos nos sentar? Estou morrendo de fome.”
O jantar foi uma lição de contradições. A comida era extraordinária — um risoto que derretia na língua, um prato de vitela macio e rico —, mas Adelle mal conseguia sentir o gosto. Seus sentidos estavam focados em Silvio, que sentava à cabeceira da mesa e conduzia a conversa com a facilidade de um maestro liderando uma orquestra.
Ele perguntou sobre seus estudos, seus cursos de história romana, seus planos após a formatura. Ouvia atentamente quando ela falava, os olhos nunca deixando seu rosto, concordando nos momentos que pareciam ser exatamente os certos. Ria das piadas de Sofia, mas seu olhar sempre voltava para Adelle, como uma bússola encontrando o norte.
“Sofia me disse que você é uma devoradora de livros”, disse ele, girando o vinho na taça. “O que está lendo agora?”
Adelle empurrou um pedaço de vitela pelo prato. “Uma biografia de Cleópatra. É para uma aula sobre mulheres na antiguidade.”
“E o que acha dela?”
“Acho que ela tem uma fama ruim”, disse Adelle, a voz ganhando confiança. “Ela era uma estrategista brilhante, uma estudiosa, uma política. Mas a história se lembra dela como uma sedutora porque os homens que a escreveram não conseguiam imaginar uma mulher vencendo pela inteligência.”
Algo brilhou nos olhos de Silvio — algo como diversão, ou admiração. “Você tem opiniões fortes. Eu gosto disso.”
“Adelle é muito inteligente”, disse Sofia, com o tom um pouco brilhante demais. “Ela é a melhor da turma.”
“Não estou surpreso.” Silvio tomou um gole de vinho, os olhos ainda em Adelle. “Diga-me, Adelle, o que você sabe sobre o meu mundo?”
A pergunta pairou no ar como fumaça. Os dedos de Adelle apertaram o garfo, seus nós dos dedos ficando brancos. Ela sabia, de forma abstrata, que a família de Sofia estava envolvida em algo arriscado. Sofia nunca tinha dito abertamente, mas havia sussurros na faculdade, boatos que seguiam Sofia como uma sombra. O nome Tassi tinha peso em certos círculos, e esse peso não foi ganho por meios legais.
Agora, com os olhos âmbar de Silvio perfurando-a, Adelle sentiu toda a gravidade daquele peso.
“Eu sei que sua família possui muitas propriedades”, disse ela com cuidado. “E que vocês são muito respeitados.”
O sorriso de Silvio se alargou, mostrando um lampejo de dentes brancos. “Respeitados. Essa é uma palavra diplomática. Você tem bons instintos.”
Ele pousou a taça de vinho e recostou-se na cadeira, sem desviar o olhar do rosto dela. Adelle sentiu-se como um espécime sob um microscópio, cada centímetro do seu corpo examinado e catalogado. O calor no ambiente parecia aumentar, e a luz das velas projetava sombras nas paredes que oscilavam a cada respiração.
“Eu possuo muitas coisas”, continuou Silvio, com a voz grave e melodiosa. “Restaurantes. Imóveis. Empresas de importação. Mas o que eu mais valorizo é a minha família. A minha filha. E as pessoas que são importantes para ela.”
Os olhos dele desceram para os lábios dela, apenas por um momento, antes de voltarem a encontrar os seus olhos.
“Você é importante para Sofia. O que significa que é importante para mim.”
A boca de Adelle ficou seca. Ela buscou a taça de água, com a mão a tremer levemente, e deu um longo gole. A água estava gelada, mas não serviu para amenizar o calor que se espalhava pelo seu peito.
“Obrigada”, conseguiu ela dizer. “É muito gentil da sua parte.”
“Gentileza não tem nada a ver com isso.” A voz de Silvio estava suave agora, quase íntima, como se fossem as únicas duas pessoas na sala. “No meu mundo, a gentileza raramente é dada de graça. Mas você não é do meu mundo, é, Adelle?”
Não foi uma pergunta, não exatamente. Foi uma observação, uma linha traçada na areia, e algo na maneira como ele disse aquilo fez o estômago de Adelle se contrair. Ela pensou na mulher a chorar, no sedan preto, nos homens a observar das esquinas.
“Eu não sei em que mundo estou agora”, disse ela com sinceridade.
Silvio riu — um som grave e rico que parecia vibrar pela mesa. “Eu aprecio a honestidade. Também é algo raro.”
O restante do jantar passou como um borrão. Silvio contou histórias sobre a sua infância em Nápoles, a sua voz tecendo-se entre a luz das velas como um feitiço. Sofia interveio ocasionalmente, mas parecia distante, os olhos alternando entre o pai e Adelle com uma expressão que Adelle não conseguia decifrar. Quando os pratos da sobremesa foram retirados, a cabeça de Adelle girava, embora tivesse bebido apenas uma taça de vinho.
Sofia despediu-se primeiro, alegando exaustão da viagem. Adelle levantou-se para segui-la, ansiosa por escapar do calor do olhar de Silvio, mas a voz dele a deteve.
“Adelle”, chamou ele, e ela virou-se para encontrá-lo de pé logo atrás dela, perto o suficiente para que pudesse sentir o seu perfume — algo amadeirado e intenso, com um toque de couro. Ele meteu a mão no bolso e tirou uma pequena caixa de veludo.
“Um presente de boas-vindas”, disse ele, pressionando-a contra as mãos dela. “Para uma hóspede desta casa.”
Adelle encarou a caixa, os dedos dormentes. “Eu não posso... Senhor, isto é demais.”
“Abra”, disse Silvio, com a voz suave, mas firme.
Ela obedeceu. Dentro, acomodado sobre um leito de seda preta, havia um par de brincos de diamante — pequenos, delicados, mas sem dúvida autênticos. Eles capturavam a luz das velas e espalhavam-na em fragmentos, minúsculos arco-íris a dançar sobre as mãos trêmulas de Adelle.
“Eu não posso aceitar isto”, sussurrou ela. “É generoso demais.”
A mão de Silvio cobriu a dela, quente e firme. “A generosidade é uma escolha minha. E eu quero que você os tenha.” Ele inclinou-se para mais perto, a sua respiração roçando o ouvido dela. “Use-os amanhã. Eu gostaria de vê-los em você.”
Em seguida, ele recuou, com o rosto composto, e afastou-se sem dizer mais nada.
Adelle ficou sozinha na sala de jantar, a caixa de veludo embalada nas mãos, e ouviu o som dos passos dele a desaparecer pelo corredor. Os brincos brilhavam para ela.
Ela não dormiu. Deitou-se na cama com dossel, com as luzes apagadas, a encarar o teto, com os brincos de diamante a repousar na mesa de cabeceira como um desafio. A sua mente repassava a hora do jantar em fragmentos: o calor da mão de Silvio, o peso do seu olhar, a forma como o seu nome soava na voz dele. Ela sentia-se à deriva, como se a cama tivesse se tornado uma balsa num mar escuro.
O seu telefone vibrou. Uma mensagem de Sofia.
Você está bem?
Adelle respondeu, com os dedos a hesitar sobre a tela. Estou bem. Só cansada.
Que bom. Durma bem. Estou no final do corredor, se precisar de alguma coisa.
Mas o sono não veio. A casa estava silenciosa demais, quieta demais, cheia de segredos. Cada rangido das tábuas do chão fazia o coração de Adelle saltar. Ela pensou em ligar para a mãe, mas o que diria? Estou hospedada na mansão de um chefe da máfia, ele deu-me brincos de diamante e acho que ele quer alguma coisa de mim?
Essa conversa não terminaria bem.
Em vez disso, ela levantou-se e foi até às portas de vidro. O jardim lá embaixo estava banhado pelo luar, a fonte ainda a dançar, as cercas vivas a projetar longas sombras sobre o relvado. Uma figura movia-se perto do muro distante — um homem de casaco escuro, a caminhar lentamente. Um guarda, ela percebeu. Ou um predador.
Ela afastou-se das portas e fechou as cortinas.
Em algum momento, ela deve ter adormecido, porque acordou com o som de batidas. Por um momento, ela não se lembrava de onde estava. Então, o papel de parede de seda e os detalhes em ouro entraram em foco, e ela lembrou-se de tudo.
“Adelle? O café da manhã está na varanda. Giulia vai te mostrar.” A voz de Sofia veio de trás da porta, já a afastar-se.
Adelle sentou-se, os seus cachos um emaranhado selvagem, a pele pegajosa de suor seco. Ela tomou um banho rápido e, em seguida, ficou diante do espelho com um roupão de algodão, sem saber o que vestir. Os seus olhos caíram sobre a caixa de veludo.
Ela abriu-a e encarou os brincos. Eram ainda mais bonitos na luz da manhã — limpos, frios e perfeitos. Ela pensou em deixá-los na caixa, fingindo que os tinha esquecido. Mas algo nela — alguma compulsão que ela não queria nomear — fez com que os tirasse da seda e os prendesse às orelhas.
Eles brilhavam contra a pele dela como estrelas capturadas.
Ela vestiu uma blusa branca simples e calças de ganga, deixando o cabelo cair solto sobre os ombros. Os brincos cintilavam entre os cachos, a exigir atenção.
O café da manhã foi servido numa varanda com paredes de vidro com vista para o jardim. A mesa era menor do que a da sala de jantar, posta para três, e Silvio já estava sentado quando Adelle chegou. Ele olhou para cima assim que ela entrou, os olhos encontrando os brincos imediatamente, e algo como satisfação espalhou-se pelo seu rosto.
“Linda”, disse ele, e ela soube que ele não estava a falar dos brincos.
Sofia também estava lá, com o rosto enterrado no telefone, um prato de fruta intocado diante dela. Ela mal reconheceu a chegada de Adelle, murmurando um cumprimento distraído.
“Sofia”, disse Silvio, a voz carregando um tom de aviso. “Guarde o telefone.”
Ela obedeceu, mas não sem um brilho de irritação. “Desculpa. Eu estava apenas a ver as notícias.”
“As notícias podem esperar.” Silvio gesticulou para a cadeira ao lado dele. “Sente-se, Adelle. Você parece pálida. Conseguiu dormir?”
“Um pouco”, mentiu ela, acomodando-se na cadeira. O assento estava quente devido ao sol, e o aroma de pães frescos enchia o ambiente. Giulia apareceu com uma cafeteira, servindo o café na xícara dela com mão firme.
“Eu tenho uma proposta para você”, disse Silvio, assim que Giulia saiu da sala.
A mão de Adelle apertou-se em torno da sua xícara de café. “Uma proposta?”
“Relaxe.” Ele sorriu, os olhos a enrugar nos cantos. “Eu quero mostrar-lhe a minha cidade. As partes de Chicago que a maioria das pessoas nunca vê. Você estuda história romana — eu posso mostrar-lhe a influência romana na nossa arquitetura, na nossa cultura. É um passeio particular.”
“Isso parece...”, Adelle procurou pela palavra certa. “Educativo.”
Silvio riu, o mesmo som rico da noite anterior. “Eu não estou a tentar seduzi-la com uma palestra, Adelle. Eu quero passar tempo com você. É só isso.”
O garfo de Sofia bateu contra o prato. “Pai, você não tem uma reunião de negócios esta tarde?”
“Eu remarquei.” Silvio não olhou para a filha. Os seus olhos estavam fixos em Adelle, pacientes e inabaláveis. “O que me diz? Algumas horas de história e almoço. Você vai gostar.”
O coração de Adelle batia acelerado, um ritmo selvagem que ela conseguia sentir na garganta. Todos os seus instintos diziam-lhe para recusar — para ficar no seu quarto, para fazer as malas, para fugir de volta para a segurança da sua vida no campus. Mas o seu corpo parecia mover-se independentemente da sua mente, o queixo dela a inclinar-se num aceno lento.
“Está bem”, disse ela, com a voz quase inaudível.
O sorriso de Silvio alargou-se, e pela primeira vez, Adelle notou o poder por trás dele — não apenas charme, mas certeza. O olhar de um homem a quem nunca tinham dito não na vida e que não pretendia começar agora.
“Bom”, disse ele, levantando-se da cadeira. “Encontro você na porta da frente daqui a uma hora.”
Ele deixou a sala sem olhar para trás, deixando Adelle e Sofia sozinhas na varanda. O silêncio estendeu-se entre elas, pesado e desconfortável.
“Tenha cuidado”, disse Sofia baixinho, com os olhos no jardim lá fora.
Adelle olhou para a amiga, à procura do significado por trás das palavras. “Cuidado com quê?”
Mas Sofia apenas balançou a cabeça, os lábios pressionados numa linha fina. “Com ele.”
A porta da frente estava aberta quando Adelle chegou, o ar fresco de abril a entrar no foyer. Silvio estava nos degraus, usando um casaco de couro preto sobre uma camisa branca impecável, calças de ganga escuras e ajustadas, e sapatos polidos que brilhavam como um espelho. Ele parecia mais jovem à luz do dia, menos como um chefe da máfia e mais como um homem que simplesmente se recusava a deixar que a idade o definisse.
“Pronta?”, perguntou ele, virando-se para ela com um sorriso.
Adelle assentiu, as mãos a mexer com a alça da sua bolsa transversal. Ela tinha mudado de roupa novamente — um vestido estilo envelope em azul suave e sandálias rasteiras, o cabelo preso com uma presilha simples. Os brincos de diamante ainda brilhavam nas suas orelhas, uma decisão que ela tomara sem entender completamente o porquê.
Silvio conduziu-a até um SUV preto parado na entrada, com janelas tão escuras que eram quase opacas. Um motorista estava ao lado da porta traseira, um homem enorme com um pescoço grosso e óculos de sol que escondiam os seus olhos. Ele abriu a porta quando eles se aproximaram, e Silvio gesticulou para que Adelle entrasse primeiro.
O interior cheirava a couro e fumo, e os bancos eram tão macios que Adelle afundou neles. Silvio deslizou para o seu lado, perto o suficiente para que os joelhos quase se tocassem. O motorista entrou e ligou o motor, e o SUV deslizou pela entrada de paralelepípedos e através do portão.
“Você viaja sempre com um motorista?”, perguntou Adelle, tentando manter a voz firme.
“Normalmente. É mais seguro.” Silvio virou-se para ela, com o braço a repousar no encosto do banco. “Não se preocupe, Adelle. Eu não vou magoá-la.”
“Eu não pensei que fosse.”
“Bom.” Ele ficou em silêncio por um momento, então acrescentou: “O medo é saudável, no entanto. Ele mantém-nos alerta. Mas você não precisa ter medo de mim.”
As palavras deveriam ser tranquilizadoras, mas havia algo na forma como ele as disse — algo possessivo, quase predatório — que fez o pulso de Adelle falhar.
O passeio foi extraordinário. Silvio levou-a à Basílica de Nossa Senhora das Dores, com os seus tetos altos e vitrais que pintavam os bancos em tons de joias. Ele contou-lhe sobre os arquitetos italianos que trouxeram o Renascimento para Chicago, a sua voz cheia de uma paixão que parecia genuína. Ele apontou detalhes que ela teria perdido — a forma como a luz incidia em certos ângulos, o simbolismo oculto nas esculturas, as camadas de história incrustadas na pedra.
“Você sabe mais sobre isto do que os meus professores”, admitiu Adelle, a passar os dedos por uma coluna de mármore.
“Eu amo esta cidade”, disse Silvio simplesmente. “Está no meu sangue.”
Caminharam por bairros onde as ruas eram ladeadas por cafés e padarias, o ar denso com o aroma de café expresso e pão fresco. As pessoas cumprimentavam Silvio respeitosamente, chamando-o de “Don” ou “Signore”, com os olhos baixos e os corpos ligeiramente virados para o lado. Adelle sentiu os olhares deles sobre si, afiados e curiosos, e soube que estava a ser avaliada, catalogada e memorizada.
O almoço foi numa pequena trattoria escondida numa rua lateral, onde o próprio dono foi até à mesa deles, a torcer as mãos e a falar um italiano rápido. Silvio pediu por ambos sem perguntar a preferência de Adelle, e ela descobriu que não se importava. Havia algo estranhamente libertador em abrir mão do controlo, mesmo que fosse apenas por uma refeição.
“Você é muito diferente das outras amigas da Sofia”, disse Silvio, enrolando a massa no garfo.
“O que quer dizer?”
“Você é quieta. Observadora. Você não fala apenas para preencher o silêncio.” Ele mastigou pensativo, com os olhos no rosto dela. “Você também tem medo de mim, mas veio mesmo assim. Isso diz-me que você é curiosa.”
As bochechas de Adelle coraram. “Eu não tenho medo.”
“Sim, você tem.” A sua voz era gentil, quase carinhosa. “Tudo bem. Eu gosto que você seja corajosa o suficiente para ter medo.”
A honestidade nas suas palavras tirou-lhe o fôlego. Ela buscou a sua taça de vinho, dando um longo gole para esconder a sua confusão. O vinho era escuro e encorpado, e aqueceu o seu estômago.
“Por que quis que eu viesse neste passeio?”, perguntou ela.
“Porque eu queria vê-la”, disse Silvio. “Simples assim. Eu acho você fascinante, Adelle. Não apenas bonita, mas inteligente, ponderada. Uma combinação rara.”
“Eu não sou nada de especial”, murmurou ela.
“É aí que você se engana.” Silvio inclinou-se para a frente, com os cotovelos na mesa, diminuindo a distância entre eles. “Você não se vê claramente. Isso é parte do seu charme.”
Adelle olhou para o seu prato, a comida esquecida. O restaurante parecia desaparecer, o murmúrio dos outros clientes a dissolver-se num zumbido baixo. Tudo o que ela conseguia sentir era o olhar de Silvio, pesado sobre a sua pele, e a atração estranha e vertiginosa da atenção dele.
“Eu não sei o que você quer de mim”, ela sussurrou.
Silvio esticou-se pela mesa e ergueu o queixo dela com um dedo, de forma suave, mas firme. “Quero que você veja o que eu vejo”, disse ele. “O poder que você nem sabe que tem.”
A respiração dela falhou. O dedo dele estava quente contra seu queixo; seu toque era tão leve que parecia uma pergunta. Ela deveria se afastar. Deveria colocar distância entre eles. Mas seu corpo se recusou a obedecer.
“Você está tremendo”, murmurou Silvio. “Por quê?”
“Porque eu não entendo você.”
“Sim, você entende.” O polegar dele roçou o lábio inferior dela, e o contato foi elétrico. “Você só não quer admitir.”
Então ele a soltou e recostou-se na cadeira, no momento em que o garçom chegou para retirar os pratos. O encanto foi quebrado, e Adelle puxou o ar profundamente, com as mãos tremendo sobre o colo.
A viagem de volta para a mansão foi silenciosa. Silvio não a tocou novamente, nem disse uma palavra, mas o silêncio entre eles estava carregado, pesado com algo que não foi dito. Adelle olhou pela janela para a cidade que passava e tentou acalmar seu coração.
Na porta da frente, Silvio pegou sua mão e a levou aos lábios, depositando um beijo suave em seus nós dos dedos. A barba dele era áspera contra sua pele, e sua boca estava quente.
“Jantar hoje à noite”, disse ele. “Vou mandar alguém ajudar você a se vestir.”
“Eu tenho roupas”, disse Adelle fracamente.
“Don Silvio”, corrigiu ele com um sorriso. “E eu vou mandar alguém de qualquer jeito.”
Ele soltou a mão dela e entrou na casa, deixando-a parada no saguão, com a pele ardendo onde os lábios dele a tinham tocado.
O vestido chegou às seis horas, trazido ao seu quarto em um cabide acolchoado por uma jovem de expressão vazia e mãos rápidas e eficientes. Era de seda preta, longo, com uma fenda lateral que chegava quase até o quadril de Adelle. O decote era alto, mas as costas eram dramaticamente abertas, deixando sua coluna exposta até a cintura.
“Signorina”, disse a mulher, estendendo o vestido. “O Don pede que a senhorita use isto esta noite.”
Adelle o pegou, com os dedos afundando na seda. Era a coisa mais linda que ela já tinha tocado.
Sozinha, ela vestiu o traje e fechou o zíper lateral. Ficou perfeito, como se tivesse sido feito para ela; a seda se moldava a cada curva e a fenda expunha uma longa linha de perna a cada movimento. Ela completou o visual com os brincos de diamante e um sutiã sem alças, e ficou diante do espelho, mal reconhecendo a mulher que a encarava de volta.
Ela parecia poderosa. Parecia perigosa.
O jantar daquela noite aconteceu novamente na sala de jantar formal, mas desta vez, a mesa estava posta para apenas dois. Sofia estava ausente e, quando Adelle perguntou, Silvio explicou que ela estava jantando em seu quarto, descansando.
“Eu queria você só para mim”, disse ele, puxando uma cadeira para ela.
Adelle sentou-se, a seda do vestido deslizando contra suas coxas quando ela cruzou as pernas. Silvio sentou-se à sua frente, seus olhos percorrendo-a com uma admiração que fazia a pele dela formigar.
“Você está estonteante”, disse ele.
“Obrigada pelo vestido.”
“Ele foi feito para você.” Ele serviu vinho na taça dela, com movimentos confiantes. “A cor combina com você. Realça o fogo do seu cabelo.”
Eles comeram quase em silêncio, a tensão aumentando a cada momento. Adelle sentia o vinho relaxar seus membros, suavizando as pontas de sua ansiedade. Ela estava ciente de cada movimento de Silvio: o jeito que suas mãos seguravam a taça, a tensão de seu maxilar ao mastigar, e como seus olhos voltavam sempre para os lábios dela.
“Você sabe por que eu trouxe você para cá?”, perguntou ele finalmente, pousando o garfo.
Adelle balançou a cabeça negativamente, com a boca seca demais para falar.
“Eu a vi na festa de formatura da Sofia”, disse ele. “Dois anos atrás. Você estava parada perto da poncheira, lendo um livro enquanto todos dançavam. Você não percebeu que eu estava observando você.”
“Eu não me lembro disso.”
“Você não lembraria.” Ele sorriu, de forma lenta e calculada. “Mas eu lembro. Eu pensei: lá está uma garota que não sabe o quão bonita é. E eu queria ser aquele que a mostraria isso.”
As palavras enviaram uma onda de calor pelo corpo de Adelle, concentrando-se na parte baixa de seu ventre. Era lisonjeiro e aterrorizante ao mesmo tempo: a ideia de que aquele homem vinha pensando nela há anos, observando-a, desejando-a.
“Silvio”, disse ela, com a voz trêmula, “isso é errado.”
“É mesmo?” Ele se levantou e deu a volta na mesa, parando atrás dela. Suas mãos pousaram sobre os ombros nus dela, quentes e pesadas. “Você é uma adulta, Adelle. Você é livre para escolher. A questão é: o que você quer?”
Os polegares dele traçavam círculos lentos na pele dela, causando arrepios em sua espinha. Adelle fechou os olhos, respirando de forma curta e ofegante. Todo pensamento racional dizia que ela deveria sair dali, correr, escapar daquela gaiola de ouro antes que se trancasse ao seu redor.
Mas ela estava assustada demais para se mover.
Os lábios de Silvio roçaram a curva de seu pescoço, macios e quentes. “Eu tenho sido paciente”, murmurou ele contra a pele dela. “Eu esperei por este momento. Mas, por natureza, não sou um homem paciente. Você está testando o meu controle.”
As mãos dele deslizaram pelos braços dela, com os dedos percorrendo sua pele e deixando arrepios por onde passavam. A cabeça de Adelle pendeu para trás, expondo ainda mais sua garganta para a boca dele. Ele aceitou o convite, pressionando uma sucessão de beijos ao longo da nuca dela.
Os lábios de Adelle se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu. Sua mente ficou silenciosa, abafada pelo som estrondoso de sua própria pulsação. Ela não tinha consciência de nada, exceto da boca de Silvio, de suas mãos e do calor do corpo dele colado às suas costas.
“Eu não posso”, ela ouviu a si mesma dizer, com a voz embargada.
“Não pode o quê?”
“Fazer isso…”
As mãos dele apertaram os braços dela, não com dor, mas com uma pressão possessiva que a fez arfar. Ele girou a cadeira, levantando-a até ela ficar de pé, com os olhos escuros de desejo. As costas dela pressionaram contra a borda da mesa, e ele invadiu seu espaço, alinhando o corpo dele ao dela.
“Seja uma boa garota”, ele rosnou, e então sua boca estava sobre a dela.
O beijo não foi gentil. Foi feroz, exigente; a língua dele varreu seus lábios para reivindicar o interior quente de sua boca. Ela sentiu o gosto do vinho e de algo mais sombrio, algo amargo e doce ao mesmo tempo. Suas mãos subiram até o peito dele, pressionando os músculos rígidos e sentindo o pulsar do coração dele. A barba de Silvio raspou sua mandíbula, uma ardência vívida que a fez soltar um gemido contra a boca dele.
Ele se afastou apenas o suficiente para respirar, com a testa encostada na dela. “Você não faz ideia do que fez”, disse ele com a voz rouca. “Das coisas que eu quero fazer com você.”
Adelle soltou um gemido baixo.
Os olhos de Silvio brilharam e, por um momento, ela viu algo selvagem neles — algo indomado e faminto. Ele a levantou com facilidade, colocando-a na borda da mesa e afastando os pratos e copos com um movimento do braço. O som do vidro estilhaçando ecoou pelo cômodo, mas nenhum dos dois recuou.
Ele se posicionou entre as coxas dela, com as mãos agarrando seus quadris através da seda do vestido. “Afaste as pernas”, ordenou ele, com a voz baixa e áspera.
Adelle obedeceu; seu corpo relaxou e suas coxas tremeram ao se abrirem. A fenda do vestido se abriu completamente, deixando a perna exposta até o quadril, e os olhos de Silvio seguiram a linha de pele nua com uma fome que a fez estremecer.
Ele levou a mão entre eles e enganchou o dedo na tira fina de sua calcinha, puxando-a para o lado. A seda já estava úmida, colada à sua carne inchada. Silvio soltou um suspiro ofegante, um som arrastado que fez o íntimo dela se contrair.
“Olhe para você”, murmurou ele. “Já tão pronta para mim.”
O polegar dele encontrou seu clitóris, pressionando em círculos lentos e firmes que fizeram as costas dela arquearem e um grito agudo escapar de sua garganta. Ele não foi devagar; deu-lhe toda a intensidade do toque de uma vez, implacável e preciso, com os olhos fixos no rosto dela enquanto ela movia os quadris contra a mão dele.
“Isso mesmo”, ele incentivou. “Deixe-me sentir você.”
Ela se agarrou aos ombros dele, com as unhas cravando no couro da jaqueta dele. As sensações eram avassaladoras: a ponta do polegar dele, a borda fria da mesa, o calor do corpo dele tão próximo ao seu. Suas paredes internas flutuavam, ansiando por mais.
Silvio deslizou um dedo dentro dela, depois outro, curvando-os para frente para acariciar aquele ponto oculto que fez sua visão embaçar. Ela soltou um grito, a cabeça pendendo para trás enquanto seus quadris se esfregavam contra a palma dele. O som de seus próprios gemidos ecoava na sala vasta, indecente e cru.
Ele fez um som profundo no peito — um rosnado que vibrou através dela — e então soltou o cinto, abrindo o zíper da calça jeans e libertando seu membro. Estava grosso e pesado, a ponta já escorregadia com o fluido pré-ejaculatória. A respiração de Adelle falhou ao vê-lo, e uma nova onda de umidade encharcou suas coxas.
“Eu vou foder você agora”, disse Silvio, a palavra obscena caindo de seus lábios como uma promessa. “Nesta mesa, nesta casa, onde todos podem ouvir você gritar meu nome.”
Ele se alinhou, pressionando a cabeça larga de seu membro contra a abertura dela. Ela estava apertada. Ele entrou nela lentamente, centímetro por centímetro, deixando-a sentir cada nervura e veia, esticando-a até ela pensar que iria romper.
No momento em que ele estava totalmente encaixado, ele pausou, com a respiração pesada em seu ouvido. “Você parece o paraíso”, ele gemeu. “Tão apertada. Tão perfeita.”
Então, ele começou a se mover.
Suas estocadas eram profundas e ritmadas no início, um ritmo punitivo que tirava o ar dos pulmões dela a cada golpe. A mesa rangeu sob eles, o chão tremendo com a força de seus quadris. O vestido de Adelle subiu até a cintura, suas costas deslizavam contra a madeira polida e suas unhas deixavam marcas leves na jaqueta dele.
“
Ele começou a investir contra ela com uma ferocidade que a fez soluçar. O quarto dissolveu-se em uma névoa de sensações: o som da pele batendo contra a pele, os sons úmidos da união deles, o cheiro de sexo e fumaça. As mãos dele percorriam o corpo dela, apertando seus seios através da seda, enroscando-se em seu cabelo, agarrando seus quadris para puxá-la contra o membro dele com uma força que deixaria hematomas.
O clímax dela chegou rapidamente, uma pressão que começou em seu centro e irradiou para fora, consumindo-a por inteiro. Ela tentou se segurar, prolongar o momento, mas Silvio mudou o ângulo, atingindo um ponto profundo dentro dela que destruiu todas as suas defesas.
“Goze para mim”, ordenou ele. “Agora.”
E ela obedeceu, seu corpo convulsionando ao redor dele, um grito escapando de sua garganta enquanto o prazer a consumia. Silvio seguiu um momento depois, com as estocadas ritmadas e um rugido gutural escapando de seus lábios enquanto ele se esvaziava dentro dela.
Por um longo momento, nenhum dos dois se moveu. Adelle estava estirada na mesa, com a respiração curta e os membros relaxados. Silvio permaneceu dentro dela, com a testa apoiada no peito dela e o corpo ainda tremendo com os espasmos finais.
Finalmente, ele levantou a cabeça e olhou para ela. Seus olhos estavam suaves agora, quase ternos, e um sorriso curvou seus lábios.
“Você é minha agora”, disse ele, as palavras marcando-a como uma cicatriz.
Adelle abriu a boca para responder, mas um estalo seco ecoou pela sala, cortando a névoa do ato sexual.
“Que comovente”, disse uma voz feminina da entrada, fria e cortante como vidro quebrado. “Deixo você sozinho por uma noite, Silvio, e você já está fodendo uma garota com a metade da sua idade.”
O corpo de Silvio ficou rígido contra o dela, e Adelle virou a cabeça para ver quem tinha falado.
Uma mulher estava parada na porta, alta e elegante, com os cabelos escuros presos em um coque severo. Ela vestia um vestido vermelho que abraçava cada curva, e seus olhos — escuros e cintilantes — fixaram-se em Adelle com desdém absoluto.
“Ana”, disse Silvio, com a voz plana. “O que você está fazendo aqui?”
“Sofia me ligou”, respondeu a mulher, entrando no cômodo. “Ela achou que eu deveria saber o que tem acontecido na minha própria casa.”
O sangue de Adelle congelou. Silvio saiu dela, ajeitando a calça jeans, seu rosto uma máscara de fúria mal contida.
“Sua casa?”, disse Ana, com a voz pingando desdém. “É assim que estamos chamando agora?”
Silvio explodiu: “Saia daqui.”
Mas Ana sorriu, de forma lenta e perigosa, e caminhou para dentro do cômodo. “Não, acho que não vou.” Seu olhar voltou para Adelle, ainda jogada sobre a mesa, com o vestido embolado na cintura e as coxas úmidas e expostas.
“Você é uma coisinha bonita”, disse Ana, com a voz quase gentil. “Mas não faz ideia do que entrou. E eu vou adorar ver isso destruir você.”
O quarto pareceu girar, e Adelle apertou a mesa com força. Silvio ficou à frente dela, bloqueando a visão de Ana, com os ombros erguidos.
“Esta é a minha casa”, disse ele, com a voz baixa e mortal. “E você não é mais bem-vinda nela.”
Ana riu — um som frio e seco que ecoou nas paredes. “É aí que você se engana, Silvio. Eu dito as regras agora.”
Antes que Silvio pudesse responder, Adelle saltou da mesa, ajeitando o vestido e caminhando com as pernas trêmulas. Ela passou por ele, passou por Ana e fugiu escada acima em direção ao seu quarto, batendo a porta atrás de si e trancando-a com os dedos trêmulos. Atrás dela, a casa ecoava com vozes alteradas, e depois veio o silêncio — um silêncio tão absoluto que parecia a calmaria antes de uma tempestade.
Os brincos de diamante brilhavam em sua mesa de cabeceira, e Adelle pressionou a mão sobre o coração acelerado, percebendo que não fazia ideia do que tinha acabado de fazer — ou do que aconteceria a seguir.










