Quem o mundo ignora
18 de fevereiro de 2023 — 15:35
( Fortaleza, Ceará )
Helena Albuquerque era uma garota de quinze anos que carregava uma solidão maior do que ela mesma.
Com seus olhos verde-esmeralda, cabelos loiro-mel e apenas 1,54m de altura, ela parecia apenas mais uma estudante comum entre centenas de outras. Filha de Eduardo Albuquerque, um empresário extremamente bem-sucedido que havia construído uma escola pública para a comunidade local, Helena era conhecida por praticamente todos os alunos.
Mas ser conhecida não significava ser compreendida.
Todos sabiam quem ela era.
Ninguém realmente a conhecia.
Durante os intervalos, grupos se formavam naturalmente ao redor do pátio. Risadas preenchiam os corredores. Conversas surgiam por todos os lados.
Helena nunca fazia parte delas.
Não porque fosse odiada,
Não porque fosse estranha.
Era porque ela simplesmente era... diferente.
Enquanto os outros pareciam viver em um mundo que compartilhavam entre si, Helena observava tudo de fora, como alguém olhando através de uma janela.
Naquela tarde, durante o intervalo, ela subiu sozinha até o terraço da escola.
Lá havia um pequeno banco de madeira esquecido em um canto, distante das vozes e do movimento dos outros estudantes.
Era Seu lugar favorito, O seu lugar de Conforto.
Sentando-se ali, ela colocou a mochila ao lado e puxou algo debaixo do moletom.
Um velho ursinho de pelúcia.
A pelagem rosa-clara já estava desgastada pelo tempo. Sua barriga amarelo-manteiga estava um pouco desbotada, e um dos braços havia sido costurado várias vezes.
Era seu companheiro desde a infância,
Seu único amigo.
Ou pelo menos o único que nunca a abandonava.
O problema era que ela nunca conseguia decidir qual era o nome dele.
Às vezes era Teddy.
Às vezes era Knight.
Às vezes Teddy Knight.
Nem ela mesma sabia qual era o verdadeiro.
Helena sorriu fracamente.
— Pra onde vamos hoje, Knight?
O ursinho permaneceu em silêncio como sempre.
Seu sorriso desapareceu devagar.
Ela observou o horizonte por alguns segundos.
— É...
Sua voz saiu quase como um sussurro.
— Eu também não sei pra onde ir.
O vento passou suavemente pelo terraço.
E, pela primeira vez naquele dia, o silêncio pareceu pesado demais.
16:40 daquela mesma tarde
O sinal final tocou.
Pouco a pouco os corredores foram esvaziando, os portões se abriram e os estudantes seguiram seus próprios caminhos.
Helena caminhava sozinha.
Como sempre.
Sua casa ficava relativamente perto da escola, então ela costumava voltar a pé.
Teddy Knight balançava suavemente em sua mão enquanto ela seguia pelas ruas.
Após alguns minutos de caminhada, seus olhos encontraram um pequeno caminho que cortava entre construções abandonadas.
Um atalho.
Escuro.
Silencioso.
Estranhamente vazio.
Do outro lado daquela passagem ficava exatamente a rua que ela precisava alcançar para chegar em casa.
Helena parou por um instante e
Observou o local.
Franziu levemente a testa e pensou:
"Será que eu vou por aqui?"
Não gostou da sensação que aquele lugar transmitia.
Mas já estava cansada.
Além disso, o caminho normal era mais longo.
Respirou fundo.
E seguiu pelo atalho.
Os primeiros minutos transcorreram em absoluto silêncio.
Até que ela viu alguém.
Um homem.
Sentado próximo a uma parede.
Parecia ter entre quarenta e quarenta e cinco anos.
Possuía cabelos longos e bagunçados, uma barba mal cuidada e roupas gastas pelo tempo.
O forte cheiro de álcool podia ser sentido mesmo à distância.
Helena diminuiu os passos.
O homem ergueu lentamente a cabeça.
Os olhos dele eram estranhos.
Eram Cansados.
Profundos.
Como se tivessem visto coisas demais.
Por alguns segundos, os dois apenas se encararam.
Então ele falou:
— Não continue andando, garota.
A voz era pesada,
Rouca. Mas surpreendentemente firme.
— Não entre num poço quando você sabe que não vai ter uma corda pra sair.
Helena piscou.
Estava Confusa.
Antes que pudesse responder, o homem perdeu o equilíbrio e caiu deitado novamente no chão.
Ele Parecia completamente bêbado.
Ela apertou Teddy Knight contra o peito.
"Que cara estranho..."
Sem dizer nada, continuou andando.
Deixando-o para trás.
Sem saber que aquelas palavras carregavam um peso muito maior do que pareciam.
Poucos minutos depois...
Algo mudou.
Primeiro veio uma sensação:
Pequeno desconforto.
Incômodo,
Como um arrepio percorrendo sua nuca.
Helena olhou discretamente para os lados.
Nada.
Continuou andando.
Mas a sensação permaneceu.
E ficou mais forte.
Seu coração acelerou. Podia ouvir seu coração bombeando sangue A metros de distância Do próprio corpo.
Os passos começaram a soar altos demais.
O silêncio ao redor parecia sufocante.
Ela apertou o ursinho contra o peito.
"Tá tudo bem..."
Tentou convencer a si mesma.
"Só preciso continuar andando."
Mas algo estava errado,
Muito errado.
Ela conseguia sentir.
Era Como um instinto gritando dentro dela...
Corra,
Corra agora.
Porém seus pés continuaram avançando,
Até que enfim chegou a uma área mais aberta.
E Foi então que tudo aconteceu...
Quatro figuras surgiram ao seu redor.
Duas à frente,
Duas atrás.
Bloqueando completamente qualquer rota de fuga.
Helena congelou.
Seu sangue pareceu parar por alguns segundos.
Dois eram adolescentes,
Os outros dois eram homens adultos.
Todos carregavam facas Extremamente afiadas E mortais,
As lâminas refletiam a luz do fim da tarde.
E O líder deu alguns passos à frente, e,
Um grande sorriso torto surgiu em seu rosto.
— Então você é a filha daquele ricaço, né?
Helena não respondeu.
E O homem riu.
— Parece que acertamos.
Outro criminoso segurou seu braço com força, e
Ela tentou se soltar.
Inutilmente.
Logo,
Um tapa atingiu seu rosto.
A garota caiu ao solo
E Sua visão ficou turva por alguns segundos.
Teddy Knight escapou de suas mãos e rolou pelo asfalto.
— Knight...
Ela tentou alcançá-lo.
Mas uma bota bloqueou seu caminho.
— Acabem logo com isso, seus inúteis
— O chefe está esperando.
O líder ergueu a mão.
Pronto para fazê-la apagar.
E Foi nesse instante que uma voz rouca e trêmula ecoou pelo beco.
— Deixem... a garotinha... em paz, porfavor...
Todos se viraram.
Era o homem do atalho.
O bêbado.
Ou pelo menos, parecia ser ele...
Marcus caminhava lentamente na direção deles.
Seus passos eram tortos, como um boneco De posto.
Os ombros estavam caídos.
Mas algo em seu olhar havia mudado,
A névoa do álcool parecia desaparecer pouco a pouco,
E no lugar dela surgia algo muito pior.
Um dos homens começou a rir.
— Quem é esse retardado?
— outro daqueles mendigos que estavam pedindo esmola lá em casa?
Outro gargalhou.
— Tá querendo brincar de herói, velho fudido?
Então o mais novo dos adolescentes deu um passo à frente. Com um sorriso Arrogante Se aproximou do rosto de Marcus e Falou:
— O que foi, Velhinho?
— Sua esposa te largou? Outro cara tá comendo ela hoje ?
— e seus filhos? também cansaram de você? Morreram no parto por acaso?
O sorriso desapareceu do rosto de Marcus. Por um segundo,
Apenas por um segundo.
E Um único milésimo de segundo foi o suficiente.
Ninguém viu o movimento.
Um estrondo ecoou pelo beco, o som de vários ossos sendo esmagados podiam ser ouvidos a quilômetros.
O punho de Marcus atingiu o rosto do adolescente em cheio, e o garoto simplesmente foi arrancado do chão.
Bastou apenas um pensamento Em branco para que seu corpo atravessasse vários metros em uma velocidade Absurda antes de colidir desmaiado violentamente contra uma parede.
O Silêncio envolveu todo o local.
Até os criminosos ficaram paralisados.
Marcus abaixou lentamente o braço.
-- ...
Marcus Não falou absolutamente nada. Porém, seu ódio era até mesmo Legível e Entendível apenas pelo tom da sua respiração.
Era
Pesada,
Assustadora, era como se Não fosse mais o mesmo homem respirando naquele corpo, e sim Um monstro.
Aquilo Ergueu uma enorme pressão Encima dos homens A sua frente.
O líder arregalou os olhos, e com a voz trêmula e Intimidada gritou a seus homens:
— MATEM ELE!
Todos avançaram de uma só vez.
Facas cortavam o ar como se fosse Papel a seco,
Socos vieram de todas as direções, chutes vieram de Todos os ângulos.
Marcus simplesmente desapareceu.
Ou pelo menos...
foi essa a sensação.
Um homem caiu.
Depois outro, E depois outro.
Uma faca voou,
Um braço foi completamente destroçado,
Uma joelhada atingiu um estômago,
Um cotovelo acertou uma mandíbula.
Tudo acontecia rápido demais.
Helena não conseguia acompanhar com os olhos Cada movimento era limpo. Era como Uma pintura De sangue sendo feita a sua frente.
Ele era Preciso,
Profissional e Mortal. Era Como se Marcus tivesse repetido aqueles movimentos milhares de vezes durante a sua vida toda.
Os quatro homens não duraram nem um minuto.
Então reforços apareceram,
Mais seis homens correram para dentro do beco
Alguns carregavam facas, karambits,
Outros pedaços de ferro.
Helena sentiu o coração afundar cada vez mais,
Mas Marcus apenas suspirou.
Ele Parecia irritado.
Como alguém que acabara de receber trabalho extra.
Os homens avançaram. E então,
A luta começou, e num piscar de olhos simplesmente terminou.
Alguns minutos depois,
O silêncio retornou.
Facas estavam espalhadas pelo chão.
Pedaços de ferro abandonados.
Gemidos de dor ecoavam entre as paredes.
Exatamente Dez homens armados e Tonificados.
Todos ao solo.
Helena observava a cena sem acreditar.
Marcus passou a mão pelos cabelos bagunçados e
Respirou fundo.
Então caminhou até ela.
Parou à sua frente.
Ele era um homem enorme,
"ele era
Assustador." Pensou Helena.
Cheio de cicatrizes.
Com um olhar que parecia carregar décadas de dor.
Mas então...
Marcus Se viu Sorrindo.
Um sorriso pequeno,
Gentil, e Estranhamente acolhedor.
Marcus pegou Teddy Knight do chão, retirou a poeira da pelúcia e o entregou para Helena.
— Nunca deixe um "cavalheiro" para trás.
Helena segurou o ursinho contra o peito.
Pela primeira vez em muito tempo...
Ela se sentiu segura.
Marcus observou os criminosos
desacordados atrás de si.
Depois voltou seu olhar para ela.
— Está tudo bem agora.
E foi naquele momento...
Eles ainda não esperavam, não perceberam ainda
Mas...
Suas vidas haviam acabado de mudar para sempre.


