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A Madrugada Carrega os Mortos

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Resumo

Jack Donovan é um famoso caçador paranormal. Para alguns, um especialista no sobrenatural. Para outros, apenas um charlatão que soube transformar histórias de fantasmas em fama. Quando recebe a ligação de um homem pedindo ajuda, Jack parte para Guervisonvil, um pequeno povoado esquecido no sul da Califórnia, onde uma igreja pegou fogo em circunstâncias que ninguém parece conseguir explicar. O que deveria ser apenas mais um caso logo começa a revelar que há algo errado naquele lugar. Histórias não combinam. A terra parece estar morrendo. E alguns segredos foram enterrados por tempo demais. Ao lado de Thalissa Walter, uma jovem tão determinada a provar que ele é uma fraude quanto Jack está disposto a provocá-la, o caçador começa a seguir as pistas deixadas pelo povoado. Mas, em Guervisonvil, descobrir a verdade pode ser muito mais perigoso do que acreditar em fantasmas.

Gênero
Mystery
Autor
ALBA
Status
há 2 dias
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1 — Jack

O povoado

O Dodge Charger 1969 preto cortava a estrada ruim ao som de AC/DC, levantando poeira por onde passava. Jack mantinha uma das mãos no volante e a outra apoiada na janela aberta, batendo os dedos contra a lataria no ritmo da música.

O sol já tinha desaparecido atrás das montanhas, deixando apenas uma faixa alaranjada no horizonte.

Finalmente.

Jack preferia chegar aos lugares depois que escurecia. A madrugada carregava os mortos — era o que costumava dizer — e, depois de dez anos naquele trabalho, aprendera que a noite revelava coisas que o dia fazia um ótimo trabalho em esconder.

Três dias antes, uma ligação tinha colocado Guervisonvil em seu caminho. Um povoado no sul da Califórnia do qual Jack nunca tinha ouvido falar e um homem que parecia assustado o bastante para oferecer dinheiro para que ele dirigisse até lá e descobrisse o que estava acontecendo.

Não era exatamente uma novidade.

Aos vinte e oito anos, Jack tinha transformado o paranormal em profissão. Aos trinta e dois, uma reportagem na televisão o tornara nacionalmente conhecido. Agora, aos trinta e oito, metade das pessoas o amava e a outra metade tinha certeza de que ele era um charlatão.

Jack não dava a mínima para nenhum dos dois grupos. A fama pagava a gasolina, os quartos de hotel e algumas garrafas de uísque. Para ele, já estava de bom tamanho. Só queria continuar vivendo na estrada e mandando de volta aqueles que já não deveriam estar neste mundo.

A velha placa de BEM-VINDO A GUERVISONVIL apareceu iluminada pelos faróis. As letras desbotadas mal podiam ser lidas. Jack tirou o pé do acelerador e abaixou o volume da música, deixando o ronco do motor tomar seu lugar enquanto procurava pelo bar onde o desconhecido da ligação havia dito que o esperaria.

Algumas quadras pelas ruas de terra foram suficientes para Jack perceber uma coisa.

Não sentia absolutamente nada.

Nenhum arrepio subindo pela nuca, nenhuma sensação estranha no estômago, nenhum daqueles pequenos avisos que seu corpo aprendera a reconhecer muito antes de seus olhos encontrarem alguma coisa.

Nada.

Jack tamborilou os dedos no volante enquanto observava as casas passando devagar pela janela. Não seria a primeira vez que atravessava quilômetros por causa de um trote. A fama tinha trazido dinheiro suficiente para mantê-lo na estrada, mas também uma quantidade impressionante de idiotas com tempo livre e acesso a um telefone.

Ainda era cedo para decidir. Primeiro conversaria com os moradores. Depois descobriria se Guervisonvil tinha realmente um problema ou apenas uma imaginação coletiva muito fértil.

Encontrou o bar alguns minutos depois. O letreiro indicava que o lugar também funcionava como pousada, o que resolvia pelo menos um de seus problemas. Jack estacionou em frente ao prédio e desligou o motor.

Luzes amarelas e fracas iluminavam os poucos postes espalhados pela rua. Não havia ninguém andando, nenhuma conversa atravessando as janelas, nenhuma música escapando das casas.

Quieto demais.

Jack ficou alguns segundos dentro do carro, observando. Para um povoado supostamente assombrado, Guervisonvil parecia decepcionantemente normal.

Ou todo mundo estava assustado demais para colocar a cara para fora depois que escurecia.

Essa possibilidade era mais interessante.

Jack pegou as chaves e saiu do carro. Não levou nenhum equipamento. Ainda não. Primeiro queria ouvir a história de quem o fizera dirigir até aquele fim de mundo.

Empurrou a porta do bar e entrou. A sola enlameada da bota bateu contra o assoalho, arrancando um rangido comprido da madeira velha. Algumas conversas diminuíram. Outras morreram de uma vez. Um rosto depois do outro se virou em sua direção.

Jack parou por um instante perto da porta.

Ótimo.

Nem cinco minutos em Guervisonvil e já era a atração da noite.

Também não podia culpar ninguém. Jaqueta preta, botas cobertas pela lama da estrada, cabelo comprido preso de qualquer jeito no topo da cabeça e quase um metro e noventa ocupando mais espaço do que o necessário. O carro provavelmente tinha anunciado sua chegada antes mesmo de ele encontrar o bar.

Não precisava falar com os mortos para saber que não pertencia àquele lugar.

Enquanto caminhava até o balcão, Jack fez um leve sinal com a cabeça para algumas das pessoas que ainda o encaravam. Duas mulheres cochicharam entre si sem qualquer preocupação em disfarçar e mantiveram os olhos nele. Jack sustentou os olhares por um instante, deixando um sorriso discreto aparecer antes de se sentar em um dos bancos.

— Uísque.

Não precisou escolher. Aparentemente, a casa só tinha um.

O homem atrás do balcão devia ter idade suficiente para que os cabelos já estivessem completamente brancos, embora o resto dele parecesse discordar. Era grande, estava em forma e carregava uma barba que faria mais sentido em um lenhador do que em alguém servindo bebidas.

Ele colocou a dose diante de Jack.

— Se perdeu na estrada?

— Muito pelo contrário. Recebi uma ligação.

O homem o observou melhor.

— Jack Donovan?

— Popularmente conhecido assim desde 1982.

Jack sorriu e virou a dose de uma vez.

Péssima decisão.

O uísque desceu queimando da língua até o estômago, e ele precisou de uma quantidade constrangedora de esforço para não tossir na frente do velho.

Aquilo definitivamente não era uísque.

Ou era o pior já produzido em solo americano.

— Fui eu quem ligou. Walter.

Ele estendeu a mão por cima do balcão. Jack apertou rapidamente antes de lançar outro olhar ao redor. Já tinha dirigido longe demais para perder tempo com conversa fiada.

— Você não quis me dizer muita coisa pelo telefone, mas conseguiu me deixar interessado. O que exatamente está acontecendo aqui?

Walter passou a mão pelos cabelos brancos e deu a volta no balcão para se sentar ao lado dele. De perto, Jack percebeu o que a aparência forte tinha escondido à primeira vista. O homem estava cansado. Muito. As marcas ao redor dos olhos, por trás dos óculos, deixavam isso claro.

— Ninguém no nosso povoado consegue dormir. Isso acontece há alguns anos, mas parece piorar a cada ano que passa. Os últimos acontecimentos me fizeram procurar por você. — Walter respirou fundo. — Preciso dar paz para essas pessoas.

Jack apoiou um dos braços no balcão.

— Você é o prefeito?

— Não. — Walter soltou uma risada sem graça. — Só sou um homem velho demais que mora aqui a vida inteira e tenta ajudar essas pessoas como pode.

Interessante.

— O que aconteceu? Pelo que você está me dizendo, seja lá o que for, está aqui há muito tempo. O que mudou?

— Não sabemos. Todo mundo sabe que alguma coisa está acontecendo. E parece ficar pior quanto mais o tempo passa.

Jack estreitou os olhos. Até ali, nada que justificasse sua presença.

— O que faz você acreditar que é sobrenatural?

Walter abriu a boca, mas não chegou a responder.

Uma porta sanfonada atrás do balcão foi empurrada com força, rangendo tão alto que Jack virou o rosto na mesma hora. Uma mulher entrou carregando uma bandeja de comida, distraída demais para perceber que tinha acabado de interromper a conversa.

Jack olhou.

E continuou olhando por um segundo a mais do que precisava.

A primeira coisa que chamou sua atenção foi o cabelo. Cachos escuros e volumosos cercavam o rosto e caíam pelos ombros. Depois veio o resto: pele negra, calça jeans apertada, regata colada ao corpo e botas.

Jack lançou um olhar rápido pelo salão antes de voltar para ela.

Definitivamente não tinha recebido o mesmo memorando que as outras mulheres daquele povoado.

Ela levantou os olhos e encontrou os dele.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

Os olhos escuros da mulher se arregalaram levemente. Depois se estreitaram enquanto ela analisava o rosto dele com atenção.

Jack conhecia aquela expressão. Ela sabia que já tinha visto aquele rosto em algum lugar. Só ainda não tinha decidido onde.

Walter se levantou.

— Essa é minha filha. Thalissa Walter.

Jack estendeu a mão, deixando um sorriso diferente aparecer no rosto. Thalissa, por outro lado, não pareceu nem um pouco receptiva. Ignorou a mão estendida e estreitou ainda mais os olhos.

— Eu já vi você na TV.

Claro.

Jack recolheu a mão e soltou uma risada baixa. Já tinha ouvido aquela frase vezes suficientes para saber que existiam apenas dois caminhos possíveis depois dela. Pelo jeito como Thalissa o encarava, dificilmente seria o agradável.

— Um autógrafo?

A expressão de reprovação veio imediatamente.

Definitivamente não era o agradável.

Thalissa apoiou a bandeja sobre o balcão e colocou uma das mãos na cintura, mantendo os olhos diretamente nos dele.

— É melhor você ir embora. Eu não vou deixar você arrancar dinheiro do meu pai.

— Thalissa!

Ah.

Então era esse tipo de reportagem.

— Eu te avisei, pai. Não era para o senhor ligar para esse charlatão.

Jack levou a mão ao peito, fingindo sentir o golpe.

Charlatão.

Um clássico.

Walter abriu a boca, provavelmente disposto a defendê-lo, mas Jack levantou uma das mãos antes que ele tivesse a oportunidade.

— Fique tranquilo, Sr. Walter. No meu ramo, isso é o mais comum.

— Encontrar pessoas inteligentes que não se deixam enganar? — Thalissa deu de ombros. — Acho difícil. Se fosse assim, você não estaria aqui. Mas do meu pai você não vai receber nada.

Jack pressionou os lábios um contra o outro.

Talvez Guervisonvil não fosse tão decepcionante quanto parecia.

— Eu tenho uma proposta para você, Thalissa.

Ela nem piscou.

— Não me interessa.

— Você vai ter a chance de desmascarar um charlatão.

— Eu não quero.

Certo.

Era das complicadas.

O mais sensato seria levantar, pegar o carro e ir embora. Não era a casa de Jack que estava sendo amaldiçoada. Se a própria filha do homem que o havia chamado não queria sua ajuda, ótimo. Economizaria trabalho e ganharia alguns dias de estrada sem nenhum morto tentando conversar com ele.

Só precisava levantar.

Jack continuou sentado.

— Seu pai está desesperado. Eu estou disposto a procurar qualquer atividade paranormal sem cobrar nada antes de resolver o caso.

Thalissa permaneceu em silêncio, os braços cruzados e a expressão tão pouco convencida quanto antes.

— Se eu não encontrar nada, vou embora. Nenhum dinheiro perdido.

— Aceita, filha. Precisamos tentar.

— Você deveria ligar para um cientista. Ou para alguém do jornal, pai.

— Aceita por mim, Thalissa. Não vai te custar nada.

O silêncio durou alguns segundos. Walter olhava para a filha. Jack também.

Thalissa soltou o ar pelo nariz.

— Isso não é da minha conta. A cidade não é minha. Fique o tempo que precisar, sabendo que não vai levar nosso dinheiro.

Ela virou de costas, claramente disposta a voltar ao trabalho e encerrar aquela conversa.

Jack ainda não tinha terminado.

— Claro. Eu fico se você procurar comigo.

Thalissa congelou no meio do caminho.

Jack sorriu.

Devagar, ela se virou.

— Jamais.

— Está com medo?

Ela quase riu.

— Do que não existe?

— Então por que não aceita?

— Porque não quero passar mais nenhum minuto com você.

Jack levou a mão ao peito outra vez.

— Essa doeu.

Thalissa revirou os olhos.

— Ela vai aceitar, Jack — Walter interferiu. — Sua proposta é mais do que justa. Desde que isso não coloque a vida dela em risco.

— Fique tranquilo. Comigo, ela estará segura.

Dessa vez, a gargalhada de Thalissa explodiu pelo bar. Algumas cabeças se viraram novamente na direção deles.

— Segura? Pelo amor de Deus. Eu estou dentro da minha casa, na minha cidade. Não tem nada aqui.

Jack inclinou a cabeça.

— Isso está começando a ter cheiro de medo.

— Eu não tenho medo. Deixa de ser ridículo.

A brincadeira perdeu um pouco da graça.

Jack apoiou os dois braços no balcão e olhou para ela.

— Ridículo é você dizer isso enquanto todas essas pessoas estão com medo.

Dessa vez, Thalissa não respondeu. Seus olhos deixaram os dele e percorreram o salão. Jack acompanhou o movimento. As pessoas que minutos antes conversavam e bebiam agora observavam os três. Algumas desviaram o olhar quando Thalissa as encontrou. Outras não.

Cansaço. Preocupação. Medo.

Aquilo, Jack conhecia bem.

Quando voltou a olhar para Thalissa, os braços dela já não estavam tão firmemente cruzados. Os ombros haviam caído um pouco.

Finalmente.

— Por mim, filha — Walter pediu.

Thalissa fechou os olhos por um segundo e suspirou.

— Tudo bem. Eu vou fazer isso por vocês. Mas fique claro que continuo achando uma enorme perda de tempo.

Jack bateu a mão contra o balcão.

— Perfeito.

Levantou-se.

Thalissa recuou meio passo antes de conseguir evitar.

Jack precisou conter o sorriso. Só então ela pareceu perceber que, sentado, ele escondia uma parte considerável do problema. Em pé diante dela, os quase um metro e noventa ficavam bem mais difíceis de ignorar.

— Então vamos começar?

— Agora?

— Você já viu alguém procurar atividade paranormal ao meio-dia?

— Para de chamar de “atividade paranormal”. Você é um caçador de fantasmas. Igual ao Gasparzinho. Não faz disso algo maior do que é.

Jack ficou alguns segundos olhando para ela.

— Você acabou de comparar meu trabalho com o Gasparzinho?

— Quer que eu desenhe?

Walter soltou uma risada atrás deles.

Jack balançou a cabeça.

Ia ser uma noite longa.

— Você não quer descansar hoje, Jack? — Walter perguntou.

— Não, Sr. Walter. Gosto de sentir o lugar na primeira noite. — Jack voltou os olhos para Thalissa. — No caminho, sua filha pode me contar um pouco da história da cidade e me levar até onde aconteceu o último incêndio.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Está pronta? — ele perguntou.

Jack já esperava pelo não. Se viesse, talvez aquela semana de férias que começava a parecer cada vez mais atraente ainda pudesse ser salva.

— O bar fecha em uma hora. — Thalissa pegou novamente a bandeja. — Se esperar, estarei pronta.

Jack a acompanhou com os olhos enquanto ela se afastava.

Uma hora.

Pegou o copo e olhou para o resto do uísque.

Talvez desse tempo de descobrir se a segunda dose continuava com gosto de combustível.

E, depois, descobriria se Guervisonvil tinha fantasmas.

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