Um bom relacionamento
Já passavam das 3 da manhã.
Eu não conseguia dormir de forma alguma.
Vários pensamentos rodavam em minha mente, criando diversos quadro, cenários e hipóteses para todas as situações possíveis.
Pensar na viagem.
Em como seria estar no interior.
Em como seria estar com a família.
Pensar em como seria rever algumas pessoas.
Tudo era muito caótico e difícil de prever.
Associado a isso, eu me sentia extremamente deixada de lado por Rafael.
Há tempos não tínhamos nenhum contato íntimo.
Para além do sexo, afinal intimidade não se resume apenas no ato sexual de penetrar e gozar.
Mas eu sentia falta das provocações.
De vê-lo me olhar com malícia quando eu colocava uma lingerie mais provocante, ou até de sentir um volume crescendo de sua excitação quando ele vinha me abraçar por trás do nada.
Talvez até de um beijo mais apaixonado, muito aleatoriamente.
Mas não havia sequer uma preocupação em se manter atraente.
Seja com um simples escovar os dentes ou um banho antes de deitar, até um manter um visual agradável.
Não o culpo, afinal, eu também havia me tornado muito desleixada em casa.
Não faltava em questões de higiene, quanto a isso eu tentava me manter “limpinha” porque a sensação de estar suja me incomodava.
Mas – com o tempo – eu passei a preferir roupas mais largadas, não fazer um penteado e deixar o cabelo bagunçado até a próxima lavagem, passei a não me maquiar.
Antes eu sentia que ele admirava isso porque era gritante em seus olhos que estava excitado com o batom vermelho novo que eu havia usado ou com a roupa mais curta que eu havia colocado.
Mas depois de um tempo passei a perceber apenas uma admiração com um “tá linda!” sem muito mais do que isso.
Os “hmmm...” seguido de uma aproximação já querendo apertar meu bumbum ou algum comentário mais ousado, não haviam “sumido” mas eram infinitamente mais raros.
Raros, em consequência, se tornaram os momentos em que eu fazia por merecer esse comportamento.
Dizem que a rotina vira cíclica e nunca o “cair na rotina” é culpa apenas de uma pessoa.
Culpei Rafael, em meus pensamentos, infinitas vezes por não sermos mais um casal quente, que se desejava ardentemente e fazia sexo sempre que tinha oportunidade.
Mas passei a entender que embora eu tenha assumido – de fato – a obrigação de nos tirar da rotina com massagens tântricas, lingeries provocantes, técnicas com brinquedos e óleos e até mudança de posições; não era toda a culpa dele.
Parei de me fazer atraente e deixar claro o que eu queria.
Eu sempre ouvia um “não sabia que você queria...” e isso me causava frustração.
Porque ele pedia que eu fosse clara e objetiva, sem insinuações, sem “ilustrações” como estar deitada nua, com o bumbum esfregando nele ou pedindo para ele deitar pelado também.
Era, na falta de uma palavra melhor, humilhante ter que ser clara e objetiva para que meu marido entendesse que eu queria que ele me comesse.
Antes de me casar eu tinha uma preocupação de se iria conseguir manter a libido, porque via muitas mulheres e muitos perfis na internet (sérios e de piadas) ressaltando que o homem acaba sempre mais disposto a querer sexo o tempo todo enquanto a mulher tenta “fugir”.
Imaginei que seria assim comigo.
Que eu chegaria em muitos momentos meio “sem vontade” enquanto meu esposo insistia com beijinhos e carícias para me fazer mudar de ideia.
Infelizmente nunca aconteceu.
Eu não sabia se havia caído em um desses casos que se é uma exceção ou se as pessoas divulgavam mais uma ideia controversa (e por que não dizer “machista”?) de que o homem sempre vai ter disposição e a mulher não ou até de que ela não tem tanto desejo e libido em comparação a ele.
Por um tempo tentei aceitar de que estávamos em momentos diferentes.
Tentei deixar claro que não queria que ele fosse uma máquina de sexo e que respeitava quando ele não estava afim.
Pedi para que ele – assim como eu já fazia – fizesse uma terapia para entender questões internas que pudessem ajudar nisso, afinal ele só me falava que não sabia por que não sentia tanta vontade de fazer sexo quanto antes.
Comecei a comparar o início de nosso relacionamento.
Em como éramos puro fogo e excitação.
Houve certa feita que fomos ao cinema e não paramos de nos beijar e nos tocar durante todo o filme, também tiveram situações em que ele teve que ficar um longo tempo com minha bolsa ou uma sacola no colo para disfarçar o volume.
E ainda houveram momentos em que eu tive que voltar para a casa disfarçando a excitação de meus shorts, que estavam tão molhados como se eu tivesse feito xixi.
No começo do nosso relacionamento, praticamente não conseguíamos ficar muito tempo sem nos tocar. Eu vivia assada e dolorida, mas era delicioso me sentir assim.
Das vezes que comparei, abertamente, em alguma conversa com ele sobre o começo e o atual momento de nossa relação, ele deixava claro que era uma comparação injusta, afinal, estávamos no auge do desejo que é esse comecinho de namoro onde se tem pressa e todo esse fogo advém de uma insegurança de se vai dar certo ou não e hoje estávamos mais brandos e mais seguros.
Com total sinceridade, eu concordei com ele.
Mas nunca imaginei que com – apenas – 4 anos de relacionamento (contando namoro e casamento) começaríamos a entrar nessa situação tão neutra.
Ele tinha um cuidado comigo como no começo do namoro, as vezes até era mais dedicado e carinhoso hoje do que antes.
Rafael queria sempre deixar claro que me amava e sempre me falava isso.
Também me abraçava e me beijava carinhosamente na testa ou cabeça sempre que tinha oportunidade.
Ele também cuidava em demonstrar seu amor, cuidado e carinho, em seus inúmeros gestos, desde um abrir a porta do carro para mim ou pegar água para eu tomar uma medicação até fazer meu café todas as manhãs.
Por que isso não me era o suficiente?
Minha mente oscilava entre sentir culpa por estar “procurando defeitos” em um relacionamento “incrível” e ficar irritada por estar empurrando uma relação que não tinha mais fogo e não me satisfazia enquanto mulher.
O sexo com Rafael era bom. Nada tão maravilhoso e elaborado. Mas pouco antes de entrarmos nesse momento em que passávamos dias (e até meses) sem sexo, parecia que o sexo seguia um roteiro ainda mais tedioso.
Hoje, nem o roteiro “tradicional” eu tinha mais.
Olhei para ele deitado ao meu lado, já adormecido, diante da tamanha facilidade que ele tinha de dormir logo (o que – com o tempo – passou a ser um agravante da minha frustração) e não sabia o que sentir.
Pensei que talvez eu estivesse cansada demais para conversar de novo com ele sobre esse assunto.
Pensei que talvez eu – apenas – deveria colocar um “remedinho” numa bebida dele e esperar fazer efeito me entregando uma noite longa e interminável de um sexo onde ele não conseguisse se satisfazer logo e me proporcionando horas de prazer e talvez até a antiga (e saborosa) sensação de ter transado tanto que me sentia dolorida e assada.
Pensei em propor um relacionamento aberto.
Mas nada do que eu pensava me dava um vislumbre de que a solução – para a gente – seria permanente.
Respirei fundo.
Buscando alívio de minhas aflições.
Haviam tantas coisas para se pensar da viagem amanhã.
A questão do sexo não deveria me dominar agora.
Tampouco a questão geral do relacionamento de merda que eu estava tendo e não abria mão porque era confortável afinal ele era "um bom homem" para mim... Muito embora não me fizesse sentir mulher de verdade.



