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CÓDIGO DE BARRAS

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Resumo

Cinco estranhos morrem simultaneamente e despertam numa loja de conveniência liminar, onde descobrem que a máquina registadora permite que apenas um regresse à vida, mas a escolha exige o consenso absoluto e o sacrifício voluntário dos outros quatro.

Gênero
Horror
Autor
Jucanol
Status
há 14 horas
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Cento e noventa e três

Cento e noventa e três.

Foi o último número que passou pela cabeça de Beto antes do poste. Cento e noventa e três vídeos removidos naquele turno, contados um por um, porque contar era mais fácil do que sentir qualquer coisa sobre o que tinha dentro deles. O poste veio rápido demais pelo para-brisa. Ele nem tentou desviar. Só pensou, com a mesma calma vazia de quem já viu coisa pior numa tela de dezessete polegadas, *cento e noventa e quatro*, e depois nada.

Agora tinha chão embaixo da cara. Frio. Meio grudento, tipo alguém tinha passado um pano sujo ali e deixado secar.

Não abriu os olhos de cara. Um zumbido enchia o ar, e por baixo dele um cheiro de produto barato - o cheiro de empresa de limpeza terceirizada tentando disfarçar um cheiro pior. A cabeça latejava sem lugar certo pra doer. *Hospital*, ele pensou. Depois: *não. Hospital não cheira assim.*

Abriu os olhos. Uma prateleira de salgadinho laranja de queijo artificial, vermelho de pimenta, um azul que não existia em nada que já tivesse crescido do chão. Ele conhecia esse tipo de cor. Passou três anos catalogando imagem processada até o pixel sangrar - vídeo remarcado, comprimido de novo, comprimido de novo, até virar aquilo. A ferramenta que ele usava passava tudo pra preto e branco antes de mostrar, "pra reduzir o impacto psicológico", dizia o treinamento. Aqui não tinha preto e branco.

As pernas não obedeceram direito na primeira tentativa. Na segunda, ele ficou de pé.

Loja de posto. Geladeira zumbindo ao fundo. Caixa vazio. Duas portas de vidro na frente, sujas de dedo - e atrás delas, nada que devesse estar ali. Sem estrada, sem poste, sem nada do que ele lembrava vindo rápido na direção do carro. Só névoa branca, parada, encostada no vidro por fora, e nenhum som vindo de lá. Nenhum.

- Alguém abre essa porta. ABRE ESSA PORTA.

Uma mulher batia as duas mãos abertas contra o vidro perto do caixa. Sessenta e tantos anos, blazer, cabelo preso apertado. Batia com ritmo - pausa, força, pausa, força - como quem já bateu em muita porta fechada e sabe controlar a própria raiva pra ela render mais.

- Isso não abre no soco, dona.

Ela virou. Olhou Beto de cima a baixo - tênis, jaqueta, postura - e voltou pra porta sem responder, como se ele já tivesse sido processado e arquivado.

- Ninguém aqui trabalha pra rede de televisão? - Ela não parou de bater enquanto falava. - Porque eu vou processar todo mundo. Já tirei família de imóvel judicial em situação pior que essa. Reintegração de posse não é bicho de sete cabeças. Isso também não vai ser.

Um homem grande estava sentado no chão perto do corredor de bebidas. Jaqueta xadrez, mãos de quem passa a vida segurando volante - calo grosso na base dos dedos. Ele esfregava o polegar contra a palma da outra mão, devagar, repetido.

- Não tem rede nenhuma - ele disse, sem olhar pra ninguém. - Eu vi os moleque na pista. Desviei. Depois disso não lembro de nada.

- Moleque, é? - Um garoto magro, moletom, saiu de trás da prateleira de chocolate com o celular erguido, câmera ligada, girando devagar pra filmar tudo. - Cuidado com a palavra, meu chapa. Pode ter um bem do seu lado.

A mão dele não tremia. Beto reparou nisso antes de reparar em qualquer outra coisa sobre o garoto - a mão seguindo reta, firme, enquadrando a cena com calma.

Todo mundo ali tinha pulso acelerado, respiração curta, e o garoto tinha o corpo de alguém assistindo televisão.

- Zero barra de sinal. - Ele abaixou o celular só pra checar a tela, sorriu pra ela mesma. - Perfeito.

Numa das mesinhas plásticas perto da máquina de café, uma mulher de uns trinta e poucos anos estava sentada com uma mão sobre a barriga. Não afagando. Só ali, parada, do jeito que alguém segura o próprio pulso pra contar batimento.

- Ninguém fala mais nada até a gente entender uma coisa - ela disse, a voz baixa e reta. - Isso não pode ter testemunha. Nada disso. Documento nenhum sobre isso pode existir em lugar nenhum, entendeu?

- Documento sobre o quê? - perguntou o caminhoneiro.

- Não interessa.

- Interessa, sim, você que -

- NÃO INTERESSA.

Silêncio de dois segundos, só o zumbido.

No teto tinha uma câmera de CCTV preta apontava pra baixo, luz vermelha piscando devagar. Atrás do caixa, um monitor pequeno mostrava a loja num ângulo levemente diferente do ao vivo.

A imagem tremeu. Estática, um segundo de preto - e por menos que um piscar de olhos não parecia mais a loja e sim um teto branco demais, um tubo saindo de uma boca, uma linha verde fina subindo e descendo devagar num monitor cardíaco.

Voltou pra loja. Corredor vazio.

*Anota*, pensou Beto, no mesmo reflexo automático de três anos catalogando coisa pra outra pessoa decidir depois. *Categoria: indefinida. Revisar de novo antes de aprovar.*

Ninguém mais tinha olhado no momento certo.

- Tem rádio aqui - disse o garoto, já com a mão livre girando o dial de um aparelho velho em cima do balcão. Estática. Girou mais. Uma frequência se firmou por três segundos:

*"...Corpo de Bombeiros confirma a substância no leito do rio, moradores de trinta e quatro bairros sem captação de água até segunda ordem..."*

Estática de novo. O caminhoneiro tinha parado de esfregar a mão. Ficou olhando pro rádio como se ele fosse morder.

- Desliga isso - ele disse.

- Por quê? Achei que ia ser útil.

- Desliga.

O garoto desligou, mas ficou sorrindo pro aparelho, tipo tinha achado a peça que faltava num quebra-cabeça.

- Escuta - disse Beto, e cinco pares de olhos foram nele, meio surpresos que ele tivesse voz. - A gente bateu. Todo mundo bateu, de um jeito diferente, na mesma hora. Brigar sobre quem fez o quê não vai abrir aquela porta.

- E o que você sugere, moço? - A mulher do blazer nem virou o rosto todo. - Que a gente sente e espere educadamente?

- Sugiro descobrir a regra antes de gastar energia com drama.

Foi nesse momento que a impressora ligou sozinha.

Vinha de trás do caixa - a velha impressora térmica de cupom, presa numa base de metal do lado da máquina registradora. Um clique seco e o papel começou a sair. *Trrr. Trrr.* Fino, branco, curvando pra fora da fenda.

Todo mundo parou.

- Isso não tava ligado - disse o garoto, e pela primeira vez a voz dele perdeu o verniz.

Beto foi até o balcão e puxou o papel com mais força do que precisava, o rolo ainda girando atrás, cuspindo mais linha enquanto ele lia as primeiras. Sem preço. Sem nome de loja. Só letra maiúscula, matriz de ponto, ocupando o cupom inteiro:

**APENAS UM DE VOCÊS PODE VOLTAR.**

**OS OUTROS QUATRO DEVEM ACEITAR.**

**OS CINCO DECIDEM QUEM.**

**PARA CONFIRMAR: IDENTIFICAÇÃO DO ESCOLHIDO NO LEITOR.**

**SEM CONSENSO, SEM SAÍDA.**

Ele leu alto, devagar. A própria voz saiu esquisita nos próprios ouvidos - a mesma voz neutra que ele usava pra narrar denúncia pra um formulário, sem deixar transparecer o que os olhos tinham acabado de processar.

Ninguém disse nada. O caminhoneiro tinha voltado a esfregar a mão, mais rápido agora. A mulher da mesa apertou os dedos na própria barriga, um segundo, e soltou de novo. O garoto olhava pro cupom com os olhos parados, sem sorrir, pela primeira vez desde que Beto tinha acordado.

Foi a mulher do blazer quem falou primeiro, e a frase dela caiu no meio do silêncio como se já estivesse pronta havia muito tempo.

- Então já sabemos qual é a pauta.

Beto olhou pro caixa registradora. O leitor a laser vermelho estava ali, apagado, esperando. Uma luzinha de standby piscava no canto, devagar, no mesmo ritmo do zumbido fluorescente - como se já soubesse que ia ter trabalho.

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