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ALÉM DO MUNDO : OS FILHOS DO DESCONHECIDO

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Resumo

ALÉM DO MUNDO: OS FILHOS DO DESCONHECIDO E se o mundo que você conhece fosse apenas uma pequena parte de algo muito maior? Em um planeta cinco vezes maior que a Terra, humanos dividem o mundo com criaturas, povos e seres que vão muito além das lendas conhecidas. Reinos, cidades, florestas, oceanos e territórios desconhecidos escondem coisas que a maioria das pessoas sequer imagina. Kaelion, Arezo e Lyss são três humanos completamente diferentes que jamais deveriam ter se encontrado. Kaelion é um espadachim habilidoso que confia cegamente em sua própria katana. Arezo, de aparência quase sobrenatural, prefere provocar as pessoas e fazer piada até nas situações mais absurdas. Lyss é impulsiva, determinada e não aceita que ninguém decida por ela. Mas um acontecimento inesperado coloca os três no mesmo caminho. O que começa como uma luta pela sobrevivência rapidamente se transforma em uma viagem por um mundo que nenhum deles realmente conhece. Criaturas começam a surgir. Pessoas com habilidades incomuns aparecem. Novos povos cruzam seus caminhos. E, pouco a pouco, os três descobrem que os humanos possuem algo que os torna diferentes de todas as outras espécies. Alguns humanos possuem um sentido além dos cinco conhecidos. E os sentidos de Kaelion, Arezo e Lyss podem ser muito mais extraordinários do que eles imaginavam. Enquanto tentam sobreviver e entender o que está acont

Status
há um mês
Capítulos
3
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

A CHEGADA A VALLARIS

CAPÍTULO 1

O mundo era grande demais para ser conhecido por inteiro.

Não era uma maneira de falar.

Era um fato.

Havia continentes que levavam meses para serem atravessados, oceanos onde navios podiam desaparecer sem deixar qualquer sinal e regiões tão distantes das grandes cidades que poucas pessoas sequer sabiam dizer o que existia depois delas.

Havia reinos.

Repúblicas.

Cidades construídas dentro de montanhas.

Povos que viviam em florestas há milhares de anos.

E havia coisas que não pertenciam a nenhuma dessas categorias.

Criaturas que alguns chamavam de monstros.

Outras pessoas chamavam de deuses.

Algumas simplesmente preferiam não dar nome.

Mas, para a maioria dos habitantes do mundo, tudo isso estava longe.

Pelo menos era o que acreditavam.

---

O som de metal cortando o ar ecoou entre as árvores.

Kaelion girou o corpo no último instante.

A lâmina passou a poucos centímetros de seu rosto.

Ele recuou um passo, segurando a katana com as duas mãos.

À sua frente, uma criatura enorme avançou novamente.

Tinha quase o dobro de sua altura, quatro braços e uma pele escura coberta por placas duras. Os olhos amarelos não piscavam.

Kaelion respirou fundo.

- Você é insistente.

A criatura rugiu.

- Tá. Entendi.

Ela atacou.

Kaelion não esperou.

Avançou também.

Seu corpo se moveu antes mesmo de pensar no próximo golpe.

Um dos braços passou por cima de sua cabeça.

Ele abaixou.

Outro veio pela lateral.

Kaelion girou.

A katana cortou uma das placas do ombro da criatura.

Sangue escuro respingou no chão.

A criatura recuou, surpresa.

Kaelion olhou para a lâmina.

Depois para ela.

- Agora melhorou.

A criatura rugiu novamente.

Kaelion sorriu de canto.

- Vamos acabar com isso.

---

Muito longe dali, em uma estrada cercada por campos, uma garota caminhava carregando uma mochila nas costas.

Lyss estava cansada.

Muito cansada.

Ela parou no meio da estrada e olhou para trás.

Nada.

Olhou para frente.

Também nada.

- Eu devia ter pegado aquela carona.

Continuou andando.

Alguns minutos depois, ouviu um barulho vindo dos arbustos.

Parou.

- Tem alguém aí?

Silêncio.

Lyss estreitou os olhos.

- Se for ladrão, já aviso que não tenho dinheiro.

Outro barulho.

Mais perto.

Ela colocou a mão na pequena faca presa à cintura.

- E se você estiver pensando em me assustar...

Uma criatura pequena saiu correndo dos arbustos.

Lyss deu um pulo.

- PORRA!

A criatura também se assustou e correu para o outro lado.

Lyss ficou parada.

Olhou para ela desaparecendo entre as árvores.

Depois soltou o ar.

- ...eu quase matei uma coisa que tinha medo de mim.

Ela continuou andando.

Sem perceber que, alguns quilômetros à frente, a estrada estava prestes a ficar muito mais perigosa.

---

Arezo, por outro lado, estava sentado em cima de uma carroça.

Não ajudava a conduzi-la.

Não carregava mercadoria.

Não fazia absolutamente nada útil.

Só estava ali.

O homem que conduzia a carroça olhou para ele pela terceira vez.

- Você pretende ficar aí até chegarmos?

Arezo abriu um olho.

- Pretendo.

- Você não vai ajudar?

- Estou ajudando.

- Como?

Arezo apontou para a própria boca.

- Estou mantendo ela fechada.

O homem ficou alguns segundos em silêncio.

- Você fala demais.

- Então você percebeu.

Arezo voltou a olhar para o céu.

Seu rosto extremamente pálido fazia com que algumas pessoas olhassem duas vezes quando o encontravam. Seus cabelos claros e sua pele quase sem cor faziam com que parecesse alguém saído de uma história sobre fantasmas.

Ele já estava acostumado.

O problema era que nem todo mundo estava.

O homem olhou novamente para ele.

- Posso fazer uma pergunta?

- Já fez.

- Outra.

- Pode.

- Você é humano mesmo?

Arezo virou lentamente o rosto.

- Não.

O homem arregalou os olhos.

Arezo segurou o riso por alguns segundos.

- Sou um demônio.

O homem ficou pálido.

Arezo não aguentou.

Começou a rir.

- Calma, caralho.

- Isso não tem graça.

- Tem um pouco.

- Você é estranho.

- Essa eu já ouvi.

A carroça continuou pela estrada.

Arezo voltou a olhar para frente.

O sorriso desapareceu lentamente.

Alguma coisa havia chamado sua atenção.

Muito distante.

Um som.

Baixo.

Quase imperceptível.

Ele virou a cabeça.

- Para.

O homem puxou as rédeas.

- O quê?

Arezo ficou olhando para a floresta.

- Você ouviu?

- Ouvi o quê?

Arezo não respondeu.

Havia alguma coisa ali.

Ele não sabia o que era.

Mas sabia que estava se aproximando.

E, pela primeira vez naquela viagem, Arezo não estava com vontade de fazer uma piada.

---

Na floresta, Kaelion ergueu a katana.

A criatura estava caída.

Por alguns segundos, apenas o som da respiração dele ocupou o espaço entre as árvores.

Então...

Um estrondo veio de longe.

Kaelion virou o rosto.

Outro.

Mais próximo.

Ele franziu a testa.

Aquilo não parecia fazer parte da floresta.

E, pela primeira vez naquela manhã, teve a sensação de que aquela criatura talvez não fosse o verdadeiro problema.

Ele guardou a katana.

E começou a caminhar na direção do som.

Sem saber que, em algum lugar daquela mesma região, duas pessoas estavam fazendo exatamente a mesma coisa.

E que os três estavam prestes a se encontrar

Kaelion correu.

Não havia mais tempo para caminhar.

Os gritos continuavam vindo da mesma direção.

Ele passou por uma árvore caída, saltou uma raiz grossa e atravessou um trecho de vegetação tão fechado que os galhos rasgaram parte da manga de sua roupa.

Outro estrondo.

Mais perto.

Kaelion apertou o cabo da katana.

- Aguentem.

Ele nem sabia quem estava ali.

Só sabia que alguém precisava de ajuda.

---

Na estrada, tudo estava acontecendo rápido demais.

A carroça havia perdido uma das rodas.

Ramon tentava controlar os cavalos enquanto Daren e Mikel estavam no chão, cercados por caixas e mercadorias espalhadas.

Diante deles, o ogro avançava.

A criatura tinha quase três metros de altura.

Sua pele verde-acinzentada estava coberta por cicatrizes. Os braços eram enormes e musculosos, e um velho pedaço de couro estava preso sobre seu peito. Nas mãos, segurava um tronco arrancado de uma árvore.

Daren levantou a espada.

- Fica atrás de mim!

Mikel estava pálido.

- Daren, isso não vai segurar essa coisa!

- Eu sei!

Ramon gritou:

- PULEM!

O ogro levantou o tronco.

Os três olharam para cima.

O tronco desceu.

Daren tentou se colocar na frente dos outros.

- CORRAM!

Não havia tempo.

O golpe estava a centímetros deles.

Então-

CLANG!

O tronco parou.

Uma lâmina havia surgido entre o tronco e os três homens.

Kaelion estava ali.

Ele segurava a katana com as duas mãos.

Os pés estavam firmes na terra.

O impacto fazia seus braços tremerem.

Daren ficou completamente imóvel.

Mikel abriu a boca.

Ramon não conseguiu dizer nada.

Kaelion ergueu os olhos lentamente para o ogro.

- Você quase acertou eles.

O ogro rugiu.

Kaelion empurrou o tronco para o lado.

A criatura perdeu o equilíbrio por um instante.

Era tudo que ele precisava.

Kaelion girou o corpo.

A katana cortou.

SHIIING!

Um corte profundo apareceu no braço do ogro.

A criatura recuou.

Kaelion ficou entre ela e os três homens.

Daren ainda segurava a espada.

- Quem é você?

Kaelion não respondeu.

O ogro atacou novamente.

Kaelion desviou.

A criatura tentou esmagá-lo com o punho.

Ele abaixou.

O golpe atingiu o chão.

Terra e pedras voaram.

Kaelion deslizou por baixo do braço da criatura e cortou sua lateral.

O ogro rugiu.

Kaelion saiu rolando e levantou imediatamente.

Daren olhou para Mikel.

- Ele está lutando sozinho.

Mikel respondeu:

- Eu percebi.

- Você consegue correr?

- Consigo.

- Então espera ele abrir espaço.

O ogro avançou novamente.

Kaelion recuou.

Um golpe.

Desvio.

Outro.

Desvio.

O terceiro quase acertou.

Kaelion saltou para trás.

O ogro avançou como uma avalanche.

Kaelion respirou fundo.

Seus olhos ficaram fixos nos movimentos da criatura.

Ele esperou.

Esperou mais um instante.

E então entrou.

Um passo.

Dois.

A katana cortou a parte interna do braço.

O ogro gritou.

Kaelion girou.

Outro corte.

A criatura cambaleou.

Kaelion preparou o próximo golpe.

Mas o ogro conseguiu acertá-lo no peito.

Kaelion foi lançado contra uma árvore.

BOOM!

Ele caiu de joelhos.

Mikel gritou:

- ELE ESTÁ FERIDO!

Kaelion respirou fundo.

Levantou.

Passou a mão pela boca.

Havia sangue.

Olhou para a mão.

- Só isso?

O ogro rugiu.

Kaelion sorriu de leve.

- Então vem.

---

Alguns minutos antes, Lyss estava caminhando pela estrada.

Ela carregava uma mochila simples nas costas e usava uma blusa vermelha escura, calças marrons e botas de viagem.

Ouvira os primeiros sons da luta de longe.

Primeiro ignorou.

Depois ouviu um grito.

Parou.

Olhou para a floresta.

- Droga.

Ela poderia continuar.

Mas não conseguiu.

Virou e entrou na mata.

Quanto mais avançava, mais alto ficavam os sons.

Quando finalmente chegou perto da estrada, ouviu um rugido.

Lyss afastou um galho.

E viu o ogro.

- Puta merda.

Ela viu também o espadachim.

Um desconhecido.

Não sabia quem ele era.

Mas ele estava sozinho.

Lyss olhou ao redor.

Pegou uma pedra.

- Tá.

Ela respirou fundo.

- Vamos ver se isso funciona.

Arremessou.

A pedra bateu na cabeça do ogro.

A criatura virou.

Lyss arregalou os olhos.

- Funcionou.

Ela começou a correr.

- EI!

O ogro olhou para ela.

Lyss apontou para o lado oposto.

- Aqui!

A criatura avançou.

Lyss saiu correndo.

- É, talvez tenha funcionado até demais!

Kaelion percebeu a distração.

Aproveitou.

Correu.

Saltou sobre uma caixa caída.

Passou pelo lado do ogro.

E cortou profundamente sua perna.

A criatura caiu sobre um joelho.

Daren e Mikel correram para longe.

Ramon puxou os cavalos para uma distância segura.

Kaelion avançou para finalizar.

Mas o ogro ainda tinha força.

Ele girou o corpo e acertou Kaelion com o braço.

Kaelion caiu.

Lyss pegou outra pedra.

- De novo!

Ela acertou a criatura no rosto.

O ogro virou para ela.

Kaelion levantou.

- Agora!

Lyss não sabia se ele estava falando com ela.

Mas entendeu.

Ela correu para o lado.

Kaelion correu para o outro.

O ogro ficou preso entre os dois.

Kaelion atacou.

Um corte.

Outro.

E então o golpe final.

A criatura caiu pesadamente.

A poeira subiu.

Tudo ficou silencioso.

Kaelion permaneceu de pé.

A katana ainda estava em sua mão.

Ele respirou fundo.

Então guardou a espada.

Lyss parou alguns metros distante.

Os dois se olharam.

Nenhum conhecia o outro.

- Você está bem? - perguntou Lyss.

Kaelion olhou para o próprio peito.

- Estou.

- Ótimo.

Ela apontou para o ogro.

- Porque eu não faço ideia do que fazer com isso.

Kaelion quase respondeu.

Mas uma voz masculina surgiu atrás deles.

- Eu também não.

Lyss virou.

Um rapaz de roupas pretas estava parado na estrada.

Era Arezo.

Ele tinha chegado à região acompanhado por Jonas, o homem que estava levando-o de carroça para Vallaris.

Arezo olhou para o ogro morto.

Depois para Kaelion.

Depois para Lyss.

- Parece que perdi a parte interessante.

Kaelion franziu a testa.

- Você estava aqui?

- Não exatamente.

Jonas apareceu atrás dele.

- Ele ouviu a luta e quis vir.

Arezo olhou para Jonas.

- Quis não. Vim.

Jonas cruzou os braços.

- E ficou parado.

Lyss olhou para Arezo.

- Você viu a luta?

Arezo assentiu.

- Parte dela.

Kaelion perguntou:

- E por que não ajudou?

Arezo respondeu tranquilamente:

- Porque tinha três pessoas na minha frente e eu não sabia quem estava atacando quem.

Kaelion ficou em silêncio.

Arezo continuou:

- Se eu entrasse correndo no meio daquilo, podia acabar acertando alguém que não devia.

Ele apontou para Daren, Mikel e Ramon.

- Eles estavam assustados. Você estava lutando. A criatura estava tentando matar todo mundo.

Arezo deu de ombros.

- Preferi esperar para ter certeza.

Kaelion continuou olhando para ele.

Arezo sorriu.

- Além disso, você parecia estar dando conta.

Lyss soltou uma risada curta.

- Ele tem razão nessa parte.

Kaelion olhou para ela.

- Você também não precisava ter entrado.

- Eu ouvi pessoas gritando.

- E entrou.

- Entrei.

- Sem saber o que tinha lá.

- Sim.

Kaelion balançou a cabeça.

- Vocês dois são malucos.

Lyss apontou para ele.

- Você literalmente entrou sozinho para lutar contra um ogro.

Kaelion ficou em silêncio.

Arezo sorriu.

- Ela tem um ponto.

Kaelion respirou fundo.

- Eu não pedi opinião.

Os três ficaram se encarando.

Eles ainda não eram amigos.

Não confiavam uns nos outros.

Não sabiam absolutamente nada sobre a vida dos outros.

E nem sequer tinham trocado seus nomes.

Daren se aproximou.

- Acho que seria bom vocês saberem os nomes uns dos outros.

Lyss olhou para ele.

- Faz sentido.

Ela apontou para si mesma.

- Lyss.

Arezo levantou a mão.

- Arezo.

Os dois olharam para o espadachim.

Ele demorou alguns segundos.

- Kaelion.

Era a primeira vez que os três ouviam os nomes uns dos outros.

Daren sorriu.

- Obrigado, Kaelion.

Kaelion fez apenas um aceno.

Ramon e Mikel começaram a recolher o que ainda podia ser salvo da carroça.

Depois de alguns minutos, Daren voltou com uma pequena bolsa de couro.

- Não temos muito.

Ele abriu a bolsa.

Algumas moedas brilhavam lá dentro.

- Mas vocês salvaram nossas vidas.

Daren dividiu as moedas em três partes iguais.

Entregou uma para Lyss.

Uma para Arezo.

E a última para Kaelion.

- É pouco, mas é o que podemos oferecer.

Lyss olhou para as moedas.

- Não precisava.

Ramon respondeu:

- Precisava, sim.

Arezo guardou as moedas no bolso.

- Obrigado.

Kaelion apenas fechou a mão sobre a pequena recompensa.

Os três homens terminaram de arrumar a carroça.

Daren subiu primeiro.

Mikel sentou ao lado dele.

Ramon pegou as rédeas.

Antes de partir, Daren olhou para os três.

- Espero que nossos caminhos não precisem se cruzar assim outra vez.

Arezo respondeu:

- Eu também.

Lyss riu.

Kaelion não disse nada.

A carroça começou a se afastar.

Os três homens desapareceram pela estrada.

Kaelion observou até não conseguir mais vê-los.

Então olhou para Lyss.

Depois para Arezo.

Sua expressão mudou.

- Vocês dois.

Lyss virou.

- O quê?

Kaelion apontou para a estrada.

- Eu estava lutando sozinho.

Arezo ergueu uma sobrancelha.

- Sim.

- Eu não precisava de ajuda.

Lyss colocou as mãos na cintura.

- Mas ajudamos.

- Eu sei.

- Então qual é o problema?

Kaelion ficou alguns segundos em silêncio.

- Vocês atrapalharam.

Arezo soltou uma risada.

- Ah.

Lyss cruzou os braços.

- Você é sempre assim?

- Assim como?

- Irritado quando alguém salva sua vida.

Kaelion encarou-a.

- Você não salvou minha vida.

Arezo entrou na conversa:

- Eu também não.

Kaelion olhou para ele.

- Você principalmente não.

Arezo abriu um sorriso.

- Pelo menos nisso estamos de acordo.

Kaelion soltou um suspiro irritado.

Pegou sua mochila.

Colocou-a nas costas.

- Vou embora.

Lyss perguntou:

- Para onde?

Kaelion começou a andar.

- Para onde eu estava indo.

Arezo observou-o se afastar.

Depois olhou para Lyss.

- Ele é simpático.

Lyss respondeu:

- Muito.

Kaelion continuou andando sem olhar para trás.

Ele ainda não sabia que aqueles dois desconhecidos apareceriam novamente em sua vida.

E, naquele momento, se alguém perguntasse a Kaelion se ele queria encontrar os dois outra vez...

A resposta provavelmente seria um sonoro não.

.Kaelion continuou pela estrada.

A figura dele foi ficando menor até desaparecer entre as árvores.

Lyss ainda ficou alguns segundos olhando para o caminho.

- Que cara...

Ela ajeitou a mochila no ombro e voltou a andar.

Não tinha andado nem cinco minutos quando ouviu o som de rodas atrás dela.

O rangido da madeira veio primeiro.

Depois, o ritmo pesado dos cascos.

Toc.

Toc.

Toc.

Lyss olhou por cima do ombro.

Uma carroça vinha pela estrada.

Era relativamente grande, feita de madeira escura, com as laterais reforçadas por barras de ferro. A parte de trás era aberta, e algumas cordas prendiam duas caixas grandes e uma sacola de viagem para que não ficassem balançando durante o percurso.

Na frente, dois cavalos puxavam a carroça.

Um era castanho, com uma mancha branca descendo pela testa até o focinho. O outro tinha a pelagem quase preta e uma pequena cicatriz perto da orelha esquerda.

No banco dianteiro estava Jonas, segurando as rédeas.

Quando a carroça se aproximou, Lyss reconheceu quem estava sentado atrás.

Arezo.

Ele estava encostado na lateral da carroça, com uma perna esticada e a outra dobrada, observando distraidamente a paisagem.

Ao perceber que ela estava andando sozinha, Arezo se inclinou um pouco para frente.

- Ei!

Lyss olhou.

- O quê?

- Vai continuar a pé até Vallaris?

- Essa é a ideia.

Arezo olhou para a estrada.

Depois para ela.

- Você sabe que ainda faltam algumas horas, né?

Lyss olhou para a cidade distante.

As muralhas de Vallaris mal apareciam no horizonte.

- Algumas horas?

Jonas respondeu do banco:

- Se o caminho continuar tranquilo, pouco mais de duas.

Lyss fez uma careta.

- Tá brincando.

Arezo sorriu.

- Eu não.

Ele bateu duas vezes na madeira ao lado dele.

- Sobe. A gente te deixa lá.

Lyss olhou para a carroça.

- Essa carroça é sua?

Arezo apontou para Jonas.

- É minha.

Jonas virou o rosto.

- Minha também, aparentemente.

Arezo deu uma risada.

- Tecnicamente é minha. Mas ele que dirige.

Jonas balançou a cabeça.

- Ele comprou a carroça. Eu trabalho para ele. É diferente.

Lyss olhou novamente para Arezo.

- Você comprou mesmo?

- Comprei.

- E esses cavalos?

Arezo apontou para os dois.

- Também.

Jonas acariciou de leve o pescoço do cavalo castanho enquanto mantinha as rédeas na outra mão.

- Os dois são dele.

- Você entende de cavalo? - perguntou Lyss.

Arezo deu de ombros.

- O suficiente para saber que eles não gostam quando alguém chama um de "cavalo grande" e o outro de "cavalo menor".

Jonas riu.

- Isso aconteceu uma vez.

- E foi humilhante.

Lyss soltou uma risada.

A carroça diminuiu o ritmo.

Arezo estendeu a mão.

- Vai ficar aí parada até Vallaris?

Lyss hesitou por um instante.

Depois segurou a mão dele e subiu.

A madeira rangeu quando ela colocou o peso no assoalho.

Arezo puxou a mão de volta e abriu espaço para ela se sentar.

Lyss colocou a mochila ao lado do corpo.

- Obrigada.

- De nada.

Jonas estalou a língua.

Os cavalos voltaram a aumentar o passo.

A carroça começou a balançar suavemente conforme as rodas passavam pelas irregularidades da estrada.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Lyss olhou para a estrada ficando para trás.

Depois para os cavalos.

- Como eles se chamam?

Jonas respondeu imediatamente:

- O castanho é Brasa.

Arezo apontou para o outro.

- E aquele é Nox.

Lyss sorriu.

- Brasa e Nox?

- Não fui eu que escolhi os nomes.

Jonas levantou uma sobrancelha.

- Foi você.

- Eu estava cansado.

- Você escolheu "Brasa" para um cavalo castanho.

- É um bom nome.

Lyss olhou para Nox.

- E Nox porque ele é preto?

Arezo assentiu.

- Exatamente.

- Criatividade impressionante.

- Obrigado.

- Não foi elogio.

- Eu sei.

Ela riu.

A conversa começou de forma simples, quase sem que percebessem.

Lyss passou a observar a carroça com mais atenção.

Havia uma manta dobrada sobre uma das caixas, uma pequena lanterna presa em um gancho e uma bolsa de couro pendurada perto do banco.

- Você viaja sempre assim?

Arezo olhou para ela.

- Assim como?

- Com sua própria carroça, seus cavalos e um motorista.

Jonas respondeu antes dele:

- Quando ele pode, sim.

Arezo apontou para Jonas.

- Ele gosta de falar por mim.

- Porque você demora.

Lyss riu.

- Vocês trabalham juntos há muito tempo?

Jonas pensou.

- Uns três anos.

- Quatro - corrigiu Arezo.

Jonas olhou para trás.

- Quatro?

- Quatro.

- Tem certeza?

- Você está ficando velho, Jonas.

- E você está ficando folgado.

Lyss olhou de um para o outro.

- Vocês parecem se conhecer bem.

Jonas voltou a atenção para os cavalos.

- Infelizmente.

Arezo colocou a mão no peito.

- Isso doeu.

- Sobrevive.

Lyss sorriu.

- Vocês sempre brigam assim?

- Não é briga - disse Arezo. - É uma relação profissional

Jonas soltou uma risada.

- Se isso é saudável, eu tenho medo de saber o que seria uma relação ruim.

Lyss encostou as costas na madeira.

- Então... você está indo para Vallaris por trabalho?

Arezo olhou para ela.

Dessa vez, demorou um pouco mais para responder.

- Também.

- "Também"?

- Tenho algumas coisas para resolver por lá.

- Coisas importantes?

- Algumas.

Lyss percebeu que ele não queria entrar em detalhes.

Não insistiu.

- Eu vou porque quero conhecer a cidade.

Arezo virou o rosto.

- Você está viajando sozinha só para conhecer uma cidade?

- Não é só uma cidade.

- O que ela tem de tão especial?

Lyss apontou para o horizonte.

- É Vallaris.

- Isso não explica nada.

- Você acabou de dizer que já esteve lá.

- Exatamente. Por isso sei que é uma cidade.

Ela riu.

- Quero conhecer lugares diferentes. Ver pessoas diferentes. Talvez arrumar algum trabalho por lá.

- Você não tem trabalho?

- Tenho quando aparece.

- Isso foi uma resposta preocupante.

- Eu me viro.

Arezo observou a estrada.

- Dá para perceber.

Lyss olhou para ele.

- E você? Vive viajando sem ter um lugar fixo?

- Às vezes.

- Não gosta de ficar parado?

- Não muito.

- Por quê?

Arezo ficou alguns segundos pensando.

- Porque quando você fica tempo demais no mesmo lugar, começa a conhecer problemas que não eram seus.

Lyss franziu a testa.

- Essa foi uma resposta estranhamente específica.

- Foi?

- Foi.

Arezo sorriu.

- Então esquece.

- Agora eu quero saber.

- Não.

- Ah, qual é.

- Você acabou de dizer que não queria conhecer só uma cidade. Agora já quer conhecer minha vida inteira?

Lyss riu.

- Só fiquei curiosa.

- Curiosidade dá problema.

- Você parece falar por experiência própria.

Arezo virou para ela.

- Talvez.

Lyss ficou alguns segundos olhando para ele.

Depois decidiu mudar de assunto.

- E aquela coisa de hoje?

- O ogro?

- É.

- O que tem?

- Você ficou observando antes de entrar.

Arezo apoiou os cotovelos nos joelhos.

- Eu precisava entender a situação.

- Você sempre faz isso?

- Tento.

- E se você tivesse chegado antes do Kaelion?

Arezo olhou para ela.

- Eu provavelmente teria esperado mais um pouco.

- Sério?

- Sério.

- Mesmo com aquelas pessoas correndo risco?

- Se eu tivesse certeza de que eram vítimas, teria entrado.

Ele fez uma pausa.

- O problema era não saber.

Lyss assentiu lentamente.

- Entendi.

Arezo percebeu que ela estava realmente tentando entender, e não simplesmente provocá-lo.

- E você? - perguntou.

- Eu o quê?

- Por que entrou?

Lyss olhou para a estrada.

- Porque ouvi alguém gritando.

- Só isso?

- Para mim já era suficiente.

Arezo sorriu de leve.

- Você é impulsiva.

- Talvez.

- Não negou.

- Não tenho por que negar.

Ela olhou para ele.

- E você é cauteloso demais.

- Também não vou negar.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.

Dessa vez, nenhum dos dois pareceu desconfortável.

A carroça avançava pela estrada enquanto o sol começava a descer lentamente.

A luz dourada atravessava os galhos das árvores e batia de lado no rosto de Lyss.

Ela puxou uma mecha do cabelo vermelho para trás da orelha.

Arezo percebeu.

- Seu cabelo chama atenção.

Lyss olhou para ele.

- Isso foi um elogio?

- Foi uma observação.

- Sei.

- É sério.

- Eu também tenho olhos, sabia?

Arezo riu.

- Justo.

Ela olhou para ele por alguns segundos.

- E o seu também chama atenção.

- Minha pele ou meu cabelo?

- Os dois.

Arezo fez uma expressão resignada.

- Já me acostumei.

- As pessoas costumam perguntar?

- Muito.

- Sobre a sua pele?

- Sobre tudo.

Lyss esperou.

Arezo continuou:

- Tem gente que acha que eu sou uma criatura. Tem gente que pergunta se sou albino. Tem gente que simplesmente fica encarando.

- E o que você responde?

- Depende do meu humor.

- E hoje?

Arezo pensou.

- Hoje estou cobrando cinco moedas por pergunta.

Lyss riu.

- Então já estou te devendo umas vinte.

- Exatamente.

- Eu não vou pagar.

- Eu sabia.

A estrada se abriu novamente.

E então Vallaris apareceu.

Dessa vez, não era apenas uma linha distante no horizonte.

As muralhas ocupavam quase toda a visão à frente.

Torres de pedra se erguiam acima delas.

Bandeiras tremulavam no alto.

O portão principal estava cheio de movimento.

Carroças entrando.

Mercadores saindo.

Viajantes conversando com guardas.

Animais sendo conduzidos de um lado para o outro.

Lyss se inclinou um pouco para frente.

- Caramba...

Arezo sorriu.

- Agora entendi por que você queria vir.

- Ainda não entrou e já estou gostando.

Jonas olhou por cima do ombro.

- Então aproveita. Depois do portão começa a parte difícil.

Lyss franziu a testa.

- Como assim?

Jonas sorriu.

- Descobrir para onde ir.

Arezo riu.

- Ele está certo.

Lyss olhou para os dois.

- Vocês vão ficar na cidade?

- Eu sim - respondeu Arezo.

- Por quanto tempo?

- Não sei.

- Então talvez a gente se encontre por lá.

Arezo olhou para ela.

- Talvez.

A carroça avançou em direção aos portões.

Nenhum dos dois sabia ainda quanto tempo aquela conversa duraria em suas vidas.

Mas, pela primeira vez desde que haviam se encontrado na estrada, já não eram apenas dois desconhecidos que tinham participado da mesma luta.

Agora sabiam um pouco um do outro.

E isso, naquele mundo enorme, já era alguma coisa.

A estrada começou a ficar mais movimentada conforme a carruagem se aproximava de Vallaris.

Depois de horas viajando, Lyss finalmente conseguiu enxergar os portões da cidade.

Eram enormes.

Duas grandes portas de madeira reforçada ficavam abertas entre muralhas de pedra que se estendiam para os dois lados. Torres de vigia se erguiam acima delas, com soldados observando o movimento da estrada.

Havia uma fila de carroças esperando para entrar.

Mercadores descarregavam algumas mercadorias para serem verificadas. Viajantes conversavam enquanto aguardavam. Cavalos relinchavam de vez em quando, impacientes com a demora.

A carruagem de Arezo avançou lentamente.

Brasa e Nox mantinham um passo tranquilo, enquanto Jonas segurava as rédeas com uma das mãos.

- Chegamos - disse Jonas.

Lyss se inclinou um pouco para conseguir enxergar melhor.

- Então essa é Vallaris...

Arezo olhou para a cidade.

- É.

A carruagem chegou até o ponto de entrada.

Um dos guardas se aproximou.

Era um homem de meia-idade, usando uma armadura simples de metal sobre uma túnica escura. Tinha uma espada presa à cintura e segurava uma pequena prancheta de madeira.

- Nomes.

Arezo respondeu primeiro.

- Arezo Veyran.

O guarda escreveu.

Depois olhou para Lyss.

- E você?

- Lyss Aveline.

Mais uma anotação.

O guarda levantou os olhos por um instante.

- Motivo da entrada?

Arezo respondeu naturalmente:

- Viagem.

Lyss acrescentou:

- Vou procurar um lugar para ficar e trabalho.

O guarda assentiu.

- Podem entrar.

Jonas fez um pequeno movimento com as rédeas.

- Vamos.

A carruagem atravessou os portões.

Assim que passaram para dentro de Vallaris, Lyss ficou alguns segundos olhando para todos os lados.

A cidade era muito maior do que parecia do lado de fora.

As ruas principais eram largas e movimentadas. Prédios de pedra e madeira ocupavam os dois lados das vias. Havia lojas, oficinas, tavernas, hospedarias e pequenas bancas espalhadas pelas calçadas.

O cheiro de comida vinha de algum lugar próximo.

Uma mulher gritava o preço de frutas.

Um ferreiro martelava alguma coisa dentro de uma oficina aberta.

Crianças corriam entre os adultos enquanto eram perseguidas pelas reclamações dos pais.

Era barulhento.

Era movimentado.

E Lyss parecia gostar de cada segundo.

Jonas conduziu a carruagem alguns metros para dentro da cidade antes de puxar as rédeas.

Brasa e Nox pararam.

Arezo desceu primeiro.

Depois olhou para Lyss.

- Vamos.

Ela desceu logo depois.

Jonas permaneceu junto da carruagem.

- Vou procurar um lugar para deixar os cavalos e depois vejo onde paramos - disse ele.

Arezo assentiu.

- Beleza.

Lyss ajeitou a bolsa no ombro.

- Acho que vou andar um pouco.

Arezo começou a caminhar.

- Eu também.

Sem combinar exatamente, os dois acabaram seguindo pela mesma rua.

Por alguns minutos, caminharam lado a lado.

Lyss olhava para as lojas.

Arezo observava o movimento.

A conversa não precisava acontecer o tempo inteiro.

Às vezes, apenas caminhavam.

Até Lyss perceber uma coisa.

As pessoas estavam olhando para Arezo.

Uma mulher que passava com uma cesta virou o rosto para observá-lo.

Dois homens que conversavam perto de uma banca interromperam a conversa por alguns segundos.

Uma criança ficou olhando para ele até a mãe puxá-la pela mão.

Um comerciante acompanhou Arezo com os olhos enquanto ele passava.

Lyss percebeu.

Olhou para Arezo.

Depois para as pessoas.

- Elas sempre fazem isso?

Arezo nem precisou perguntar do que ela estava falando.

- Fazem.

- Você se acostuma?

Ele deu de ombros.

- Mais ou menos.

Uma mulher passou novamente por eles e olhou para Arezo de cima a baixo.

Arezo percebeu.

Olhou de volta.

A mulher desviou os olhos imediatamente.

Lyss segurou uma risada.

- Você fez de propósito.

- Fiz.

- Por quê?

- Se ela quer olhar, pode olhar direito.

Lyss riu.

- Você é estranho.

- Já me disseram isso algumas vezes.

Ela voltou a olhar para ele.

- É por causa da sua pele?

Arezo assentiu.

- Principalmente.

- Você tem alguma doença?

Ele respondeu sem se incomodar.

- Tenho uma condição na pele. Sempre fui assim.

Lyss fez que sim com a cabeça.

- Entendi.

Ela não continuou perguntando.

E Arezo pareceu apreciar isso.

Continuaram andando.

Mais à frente, Lyss percebeu uma pequena praça.

- Acho que vou procurar uma hospedaria por ali.

Arezo apontou para outra rua.

- Tem algumas naquela direção também.

- Você conhece a cidade?

- Um pouco.

- Já veio antes?

- Algumas vezes.

Lyss sorriu.

- Então talvez você sobreviva por aqui.

- Espero.

Os dois caminharam mais alguns metros.

Então um som diferente chamou a atenção de ambos.

Cascos.

Vindos da estrada atrás deles.

Tum.

Tum.

Tum.

Lyss virou o rosto.

Um cavalo negro se aproximava dos portões.

Era grande e musculoso, com a crina escura balançando enquanto caminhava.

Sobre ele estava o homem que os dois já conheciam.

Kaelion.

Ele se aproximou da entrada sem pressa.

O guarda levantou a mão.

- Nome.

Kaelion parou o cavalo.

Desceu da sela e segurou as rédeas.

- Kaelion Arashima.

O guarda escreveu o nome.

- Motivo da entrada?

Kaelion olhou rapidamente para dentro da cidade.

- Passagem.

O guarda assentiu.

- Pode entrar.

Kaelion conduziu o cavalo para dentro.

O animal caminhava tranquilamente ao lado dele.

- Qual o nome dele? - perguntou o guarda, apontando para o cavalo.

Kaelion olhou para o animal.

- Raijin.

O guarda fez uma última anotação.

- Certo.

Kaelion entrou em Vallaris.

Do outro lado da rua, Lyss reconheceu o samurai.

- É ele.

Arezo olhou.

- O homem da katana.

Kaelion percebeu os dois.

Por um instante, os três trocaram olhares à distância.

Mas nenhum deles foi até o outro.

Ainda não.

Arezo voltou a olhar para Lyss.

- Bom...

Ela entendeu.

- Acho que é aqui que cada um segue seu caminho.

- Acho que sim.

Lyss sorriu.

- Foi bom te conhecer, Arezo.

- Também gostei de te conhecer.

Ela estendeu a mão.

Arezo apertou.

- Boa sorte, Lyss.

- Pra você também.

Ela soltou a mão dele e seguiu pela rua, olhando as placas das hospedarias.

Arezo ficou parado por alguns segundos.

Depois virou para o lado oposto.

Cada um tinha seus próprios planos.

Lyss precisava encontrar um lugar para ficar e descobrir como começaria sua nova vida em Vallaris.

Arezo tinha negócios para resolver.

E Kaelion, alguns metros adiante, caminhava pelas ruas da cidade ao lado de Raijin, sem imaginar que aquela chegada seria apenas o começo.

Vallaris continuava movimentada ao redor deles.

Três pessoas.

Três caminhos.

E, naquele momento, nenhum dos três sabia quanto tempo levaria até seus caminhos se cruzarem novamente.

Vallaris continuava viva mesmo depois que o sol começou a descer.

As sombras dos prédios se estendiam pelas ruas, enquanto comerciantes começavam a recolher parte das mercadorias. Algumas lojas acendiam lanternas nas portas. O cheiro de comida quente ficava cada vez mais forte, misturado ao de madeira queimada vindo das chaminés.

Lyss caminhava sozinha.

Depois de alguns minutos procurando, encontrou uma hospedaria de dois andares espremida entre uma pequena padaria e uma loja de roupas.

Uma placa de madeira pendia acima da porta.

A Raposa Dourada.

Lyss entrou.

O salão não era luxuoso, mas era confortável.

Havia algumas mesas ocupadas, uma lareira acesa no canto e um balcão onde uma mulher organizava algumas chaves.

Lyss se aproximou.

- Tem quarto?

A mulher levantou os olhos.

- Temos alguns.

- Quanto?

Ela informou o preço.

Lyss abriu a pequena bolsa que carregava e contou algumas moedas.

Não era muito.

Mas era suficiente.

- Vou ficar.

- Por quantos dias?

Lyss pensou.

- Ainda não sei.

A mulher entregou uma chave.

- Então começa com três noites.

Lyss pegou.

- Obrigada.

Subiu as escadas carregando a bolsa.

O quarto era pequeno.

Uma cama.

Uma mesa.

Uma cadeira.

Um armário simples.

Uma janela com vista para parte da rua.

Lyss colocou a bolsa sobre a cama e ficou parada por alguns segundos.

Ela tinha conseguido.

Estava em Vallaris.

Sozinha.

Longe de casa.

Um sorriso apareceu em seu rosto.

- Finalmente...

Ela abriu a janela.

O barulho da cidade entrou imediatamente.

Vozes.

Risos.

Cavalos.

Rodas passando pelas pedras.

Uma música distante.

Lyss apoiou os braços no parapeito.

Não sabia exatamente o que faria no dia seguinte.

Não sabia onde trabalharia.

Não sabia quanto tempo ficaria.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, sentia que tinha espaço para descobrir.

---

Do outro lado da cidade, Arezo estava sentado em uma mesa de uma pequena casa de comércio.

O lugar era bem diferente da hospedaria.

Caixas estavam empilhadas perto das paredes.

Papelada cobria uma mesa.

Alguns homens conversavam ao fundo.

Arezo analisava uma lista enquanto batia os dedos sobre a madeira.

- Isso aqui está errado.

O homem sentado à frente dele franziu a testa.

- O quê?

Arezo apontou para uma linha.

- Essa quantidade.

- Tem certeza?

- Tenho.

Ele empurrou o papel de volta.

- Se você recebeu tudo isso, então alguém está mentindo.

O homem pegou a folha.

Arezo recostou-se na cadeira.

Não parecia preocupado.

Depois de alguns segundos, o homem suspirou.

- Vou verificar.

- Verifica.

O homem levantou e saiu.

Arezo ficou sozinho.

Por alguns instantes, olhou pela janela.

Vallaris parecia diferente daquele ângulo.

Mais escura.

Mais silenciosa.

Ele estreitou os olhos.

Havia alguma coisa naquela cidade.

Não sabia dizer o quê.

Talvez fosse apenas impressão.

Talvez fosse o cansaço da viagem.

Arezo fechou a cortina.

- Não começa...

Voltou para os papéis.

---

Kaelion caminhava pelas ruas enquanto Raijin seguia ao seu lado.

O cavalo carregava a sela e algumas bolsas presas nas laterais.

Kaelion passava os olhos pelos prédios.

Procurava um lugar para ficar.

Encontrou uma hospedaria algumas ruas depois.

Parou diante da entrada.

Olhou para Raijin.

- Você fica aqui fora.

Raijin mexeu a cabeça.

- Não começa.

O cavalo soltou um pequeno som pelas narinas.

Kaelion suspirou.

- Eu volto.

Prendeu as rédeas em uma estrutura de madeira e entrou.

---

A noite chegou completamente.

Vallaris mudou.

As ruas que durante o dia estavam cheias de comerciantes agora eram iluminadas por lanternas.

Algumas tavernas estavam lotadas.

Músicos tocavam em determinados pontos da cidade.

Carroças voltavam para suas casas.

As portas das lojas eram fechadas uma por uma.

No alto de uma das torres, um sino tocou.

Uma vez.

Depois outra.

E outra.

Um soldado caminhava pela muralha quando parou.

Olhou para fora da cidade.

A estrada estava quase vazia.

O vento mexia a vegetação distante.

Nada parecia errado.

Ele continuou andando.

Alguns metros depois, porém, parou novamente.

Havia alguma coisa.

Um som.

Muito baixo.

Quase imperceptível.

O soldado colocou a mão sobre a espada.

- Quem está aí?

Nenhuma resposta.

Ele se aproximou da borda da muralha.

Olhou para baixo.

Nada.

Apenas a estrada escura.

O soldado permaneceu ali por alguns segundos.

Então ouviu uma voz atrás dele.

- Tudo certo?

Ele se virou.

Outro guarda estava se aproximando.

- Achei que tivesse visto alguma coisa.

- O quê?

- Não sei.

O outro soldado olhou para fora.

- Não tem nada.

O primeiro continuou encarando a escuridão.

- É...

Ele finalmente se afastou.

Os dois voltaram para a ronda.

Sem perceber que, muito além dos muros, alguma coisa observava Vallaris.

Não se aproximava.

Não atacava.

Apenas observava.

---

Na hospedaria, Lyss estava deitada.

Não conseguia dormir.

Virou para um lado.

Depois para o outro.

A cama era confortável, mas sua cabeça estava cheia demais.

Pensava na viagem.

Na cidade.

Nas pessoas.

No homem de pele extremamente clara que conhecera naquela estrada.

No samurai que havia enfrentado o ogro.

E em tudo que ainda queria descobrir.

Ela fechou os olhos.

Foi então que sentiu alguma coisa.

Uma sensação estranha.

Como se, por um instante, tivesse percebido a presença de alguém muito distante.

Lyss abriu os olhos.

Sentou-se na cama.

Olhou ao redor.

Nada.

Apenas o quarto escuro.

Ela ficou imóvel.

Esperou.

A sensação desapareceu.

- Estranho...

Deitou novamente.

Sem saber explicar o que havia sentido.

---

Em outro ponto de Vallaris, Arezo também estava acordado.

Sentado perto da janela.

O quarto estava quase completamente escuro.

Ele olhava para a rua.

As pessoas passavam lá embaixo.

Uma carroça.

Um homem bêbado.

Dois soldados.

Uma mulher fechando uma janela.

Tudo normal.

Até que Arezo franziu a testa.

Alguma coisa estava faltando.

Ele não sabia explicar.

Seu olhar percorreu a rua.

Nada.

Mas seus sentidos insistiam.

Havia um espaço que parecia errado.

Como se alguma coisa estivesse ali...

E, ao mesmo tempo, não estivesse.

Arezo se levantou.

Foi até a janela.

Abriu-a.

O vento frio entrou.

Ele olhou para o céu.

- Que merda...

Fechou a janela.

---

Kaelion também não dormia.

Sentado na cama da hospedaria, mantinha uma das mãos próxima às katanas.

Raijin estava do lado de fora.

A cidade parecia tranquila.

Mas Kaelion havia sentido algo desde que entrara em Vallaris.

A mesma sensação que tivera antes de deixar a estrada.

Alguma coisa estava errada.

Ele se levantou.

Abriu a janela.

Olhou para as ruas.

Pessoas.

Lanternas.

Casas.

Nada.

Kaelion ficou alguns segundos observando.

Então fechou a janela.

---

Naquela noite, Vallaris parecia uma cidade comum.

Milhares de pessoas dormiam.

Outras trabalhavam.

Algumas bebiam.

Algumas chegavam.

Outras partiam.

Ninguém sabia que três pessoas haviam chegado naquele mesmo dia.

Lyss Aveline.

Arezo Veyran.

Kaelion Arashima.

Eles não eram amigos.

Não eram companheiros.

Nem sequer tinham motivos para confiar uns nos outros.

E, naquele momento, suas vidas ainda pertenciam a caminhos completamente diferentes.

Lyss queria conhecer o mundo.

Arezo queria resolver seus próprios negócios.

Kaelion queria seguir sua própria jornada.

Nenhum deles sabia o que encontraria em Vallaris.

Nenhum deles sabia por que seus sentidos haviam reagido daquela maneira.

E nenhum deles sabia que, muito antes de seus caminhos se cruzarem novamente, alguma coisa já havia começado a se mover.

Algo que não pertencia apenas àquela cidade.

Algo relacionado ao próprio mundo.

Ao que os humanos eram.

E ao motivo pelo qual algumas pessoas conseguiam sentir coisas que ninguém mais conseguia.

A história deles ainda nem tinha começado de verdade.

Mas Vallaris já os havia encontrado

.

FIM DO CAPÍTULO 1

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