Capítulo 1 — AS TRÊS BATALHAS PRIMORDIAIS
PRÓLOGO I —MILHÕES DE ANOS ATRÁS…
Antes que houvesse tempo,
Antes que as estrelas tivessem voz,
Antes que o sopro da vida aquecesse mundos, existia apenas o silêncio.
Um silêncio absoluto.
Tão profundo que até o próprio Nada parecia temê-lo.
Então, do coração do vazio, brotou uma centelha.
E com ela… floresceu a semente.
Houve luz.
E antes que a luz se expandisse, houve a essência mais pura da Criação — uma força sem nome, sem forma, sem limites.
Foi dessa essência que o Ser Desconhecido se ergueu como o Grande Criador.
Quando a escuridão ainda reinava soberana, a centelha da criação rompeu o silêncio eterno. O Criador, em sua infinita sabedoria, moldou os primeiros pilares do Firmamento, tecendo luz, energia e vida como fios de um destino ainda não escrito.
Assim nasceram os universos.
E, no coração deles, surgiu um lugar singular — o Firmamento da Vida, onde a harmonia deveria reinar para sempre.
Mas nenhum equilíbrio é eterno.
Além do Criador, outros deuses despertaram. Seres de poder incomensurável, forjados pela própria essência do Firmamento. Por eras incontáveis, dançaram entre as estrelas, mantendo o frágil equilíbrio entre luz e trevas, ordem e caos, criação e destruição.
Planetas nasceram em chamas.
Oceanos rasgaram desertos.
Ventos moldaram montanhas.
E no ápice da Criação ergueram-se os Seres Primordiais, deuses destinados a governar o equilíbrio de tudo o que existia.
Nesse Firmamento, cinco planetas tornaram-se joias incomparáveis, pilares da ordem cósmica:
Aureon, o Planeta Ouro, brilhante como o próprio sol.
Argyros, o Planeta Prata, de reflexos eternos.
Vaylar, o Planeta Diamante, puro e indestrutível.
Esmyralis, o Planeta Esmeralda, vivo e exuberante.
Crimston, o Planeta Rubi, ardente como o fogo primordial.
Unidos, formavam o Círculo da Luz, um equilíbrio perfeito contra qualquer treva.
E no centro desses mundos erguia-se Alasthian, a Cidade Suspensa dos Extraordinários — obra-prima do Criador, farol de esperança entre os planetas.
Mas onde há luz…
A sombra sempre busca domínio.
A Primeira Guerra do Firmamento não começou com uma espada erguida, nem com um exército marchando. Começou com um sussurro. Um desejo oculto, enraizado no coração daqueles que tinham tudo: poder, eternidade, mas não possuíam o domínio absoluto.
Do orgulho nasceu a ruína.
Quando o primeiro deus rompeu o pacto sagrado, o universo tremeu. Constelações colapsaram. Galáxias foram engolidas pelo fogo. O espaço foi manchado pelo sangue de mundos inteiros.
E naquele instante, o Firmamento compreendeu uma verdade inevitável:
A criação jamais estaria a salvo daquilo que ela mesma havia gerado.
PARTE I – ECOS DO DESPERTAR
Capítulo 1 — AS TRÊS BATALHAS PRIMORDIAIS
O primeiro a trair o equilíbrio foi o deus Grythar, Senhor da Guerra, cujo coração ardia em ambição por poder absoluto. Seus exércitos devoraram mundos inteiros e, sob seu comando, surgiram os Pretréfios — aberrações forjadas de sangue, pedra e ódio puro. Ao lado dele ergueram-se outras três forças sombrias: Zyphor, deus da Destruição; Selestia, deusa da Ilusão; e Malaus, a própria encarnação do Mal.
Pretréfios era o nome dado à junção dos Desoladores, Reflexos, Guerreiros Flagrath, Guerreiros das Sombras, entre outros soldados das trevas, esses é apenas uma parte das aberrações sombrias moldados para a guerra eterna.
Os Desoladores, liderados pela general Miltre, serviam a Zyphor, deus da Destruição, oriundos do reino de Abyssos.
Os Reflexos, comandados pelo general Donel, eram servos de Selestia, deusa da Ilusão, vindos do reino de Mirroria.
Os Guerreiros das Sombras, liderados pelo general Boryus, serviam a Grythar, deus da Guerra, do reino de Vorynth.
Os Guerreiros Flagrath, não tinha generais soldados de Ottar, seguia somente a profana Malaus, era uma extensão da sua vontade.
Assim, a harmonia não durou para sempre, e nasceu a Primeira Discórdia no Firmamento.
Do outro lado, a luz ergueu seus campeões. No Trono Eterno, o Grande Criador nomeou seu general supremo: Heitor, o Guerreiro da Luz, o Primeiro Escudo, forjado no fogo das estrelas e invencível em coragem. Ao seu lado estavam guerreiros cujas lendas atravessariam eras.
Catânia Rudy, a Lâmina Rubra, cujo olhar era tão fulminante quanto sua espada.
Agonthor, o Portador das Correntes, tão imenso que sua sombra cobria exércitos.
E com eles, as linhagens mais puras da luz.
As Valquírias do Sol Ancestrais — Anarya, Vandira e Odryel — senhoras da luz que guiavam os ventos como sinfonias de fogo.
Os Guerreiros Solares Antigos, antepassados de Ravi, que brandiam espadas como extensões do próprio sol. Entre eles estavam Azhared, Tharvos e Elryan.
Juntos, esses extraordinários formaram um exército formidável de guerreiros e guerreiras.
Foi nesse tempo que a Cidade Suspensa de Alasthian ergueu suas muralhas no centro dos cinco planetas — um refúgio inatingível, onde a luz fez sua última resistência. À frente da linha estava Heitor, o Escudo do Firmamento, empunhando a lança dourada que continha o coração de uma estrela. Ao seu lado lutava Catânia, tão bela quanto mortal, a guerreira que fazia até os ventos se curvarem. E com eles estava o indomável Agonthor, cuja força fazia estremecer os campos de batalha.
Não estavam sozinhos. Ao redor deles marchavam ancestrais cujos nomes ecoariam pelas eras: Anarya, Vandira e Odryel, as primeiras Valquírias do Sol, guardiãs do pacto sagrado; e os guerreiros que a história quase esqueceu — Azhared, Tharvos e Elryan, protetores das Valquírias, que lutaram até a última gota de sangue para que a luz não fosse apagada.
Foram Azhared, Tharvos e Elryan que ergueram os escudos sobre as gerações futuras. Foram eles que selaram com a própria vida a profecia que ainda ecoa. Nessa árdua batalha, o destino poupou apenas Azhared:
“Quando a sombra rasgar as estrelas e os deuses caminharem outra vez, dois filhos da Terra despertarão. Um herdará a força da raiz; outro, a fúria das águas. E uma Valquíria renascerá quando o último raio do sol sangrar.”
O universo estava em perigo.
E a primeira batalha pelo Firmamento estava prestes a começar.
Foi assim que nasceu a Guerra no Firmamento.
PRIMEIRA BATALHA
Caos. Terror. Destruição total.
Antes que houvesse silêncio, existiu um grito — um som que não nasceu de garganta alguma, mas das fibras do próprio cosmos. O Firmamento estremeceu, e as galáxias, coroas cintilantes sobre o nada, tremeram sob forças que jamais deveriam ter despertado.
Naquele tempo não havia céu nem chão, nem fronteiras do real. Havia apenas a luz da Criação e as sombras que invejavam seu brilho. E quando ambas colidiram, o universo sangrou.
O primeiro golpe não foi desferido por mãos mortais, mas por deuses e seus generais. Entre eles, um nome se ergueu como muralha: Heitor, o Escudo Solar, forjado pela chama do Criador para manter a ordem. Ao seu lado estavam Catânia, a Guerreira da Aurora, cuja lâmina cantava como a primeira luz do dia, e Agonthor, o Quebrador de Correntes, o Dobrador das Sombras. Juntos, eles formavam a linha que separava a existência do abismo.
Mas o abismo tem paciência.
De lá vieram Grythar, o Deus da Guerra, senhor do caos armado, e sua companheira inseparável, Malaus, a personificação viva do mal. De sua união nasceram legiões, mares de aço negro que avançaram pelas galáxias consumindo mundos. Veltri, o deus escravo, cujo reino já havia sido subjugado, marchava sob o domínio de Grythar e Selestia a deusa da Ilusão, juntos deles Zyphor o deus da destruição. Ao lado deles vinham os generais: Boryus, cuja lâmina erguia tempestades de morte; Donel, mestre das ilusões e ladrão de destinos; e Miltre, a devoradora de luz, capaz de arrancar o brilho do peito das estrelas.
Por eras incontáveis, a guerra arrastou-se como fogo incontrolável. Planetas tombaram. Civilizações foram apagadas como desenhos na areia. Até mesmo outros deuses da luz estremeceram — e alguns caíram.
Foi então que Alasthian se fortificou: a Cidade Suspensa, erguida entre os planetas na constelação de Órion, inatingível pelas garras da sombra. Ali, os últimos defensores reuniram-se para um ato desesperado: trancar os horrores em correntes forjadas pelo próprio Criador.
E, por um instante, a luz venceu.
Mas toda vitória tem um preço, e a guerra não terminaria ali.
SEGUNDA BATALHA
Pouco tempo depois das regiões mais distantes do caos, surgiram criaturas disformes frutos da inveja e da corrupção: os Pretréfios, seres que se alimentavam do medo e da destruição. Sua natureza era rasteira e covarde. Não atacavam sozinhos. Vinham em hordas, disfarçados, muitas vezes assumindo formas Humanas — Vaylarianos, Argyrianos e de outros seres do cosmo — infiltrando-se nos mundos para semear discórdia.
Por trás dessas criaturas estavam os deuses sombrios. Dos portais proibidos ergueram-se novamente os generais do caos: Boryus, o Ceifador das Sombras; Donel, o Tecelão de Ilusões; e Miltre, a Arauto da Destruição. Cada um comandava legiões que nem a morte ousava enfrentar. As forças mais sombrias cresciam, compostas por guerreiros poderosos, rebeldes contra a ordem, movidos pela ganância, pela sede de poder e por um ódio ancestral contra o Grande Criador.
O alvo era o Firmamento, o maior de todos os mistérios: a Semente da Vida — um poder tão antigo quanto a criação, capaz de gerar ou extinguir universos. Se caísse em mãos erradas, tudo estaria perdido.
Para impedir essa tragédia, ergueram-se novamente aqueles cujos nomes ecoariam por eras: Heitor, o Guerreiro da Luz; Catânia, a Lâmina Rubra; e Agonthor, o Portador das Correntes. Forjados pela luz do Criador e dotados de poder incomensurável, eles tornaram-se outra vez escudo, corrente e espada da justiça, ao lado das Valquírias do Sol e dos bravos Guerreiros Solares.
A batalha retornou às margens do espaço-tempo, quando mundos ainda eram jovens. Os céus sangraram luz e trevas. Estrelas inteiras foram arrancadas do firmamento como tochas apagadas pelo vento da morte.
Os generais da sombra avançaram com fúria.
Boryus, braço direito de Grythar, brandia sua lâmina devoradora de almas.
Miltre, serva de Zyphor, trazia destruição em cada passo.
Donel, o ilusionista, transformava amigos em inimigos com um sussurro.
O primeiro choque fez estremecer os alicerces da criação.
Heitor ergueu sua lança solar e bradou:
— Pelo Criador! Pela luz que sustenta o Firmamento!
O grito ecoou como mil trovões, e a guerra começou.
As Valquírias desceram dos céus como auroras ardentes. Seus cânticos fizeram as sombras recuarem. Agonthor abriu caminho entre legiões de Pretréfios, suas correntes girando como tempestades de aço. Catânia lançou-se sobre Boryus; o impacto de suas lâminas rasgou o vazio, incendiando luas inteiras.
Mas para cada vitória, dez derrotas sangravam. Grythar rugiu, e os Pretréfios se multiplicaram como pragas. Zyphor ergueu o punho, e planetas ruíram sob tempestades de magma. Selestia cobriu os campos de batalha com ilusões cruéis — irmãos lutavam contra irmãos, Malaus distribuía maldades — seus soldados Flagrath maldosos profanos como sua mestra, destruía mundos.
No auge do massacre, as Valquírias ancestrais, caídas e ensanguentadas, ergueram suas espadas ao céu. Seus últimos cânticos tornaram-se profecia:
“Quando os céus forem silenciados e as sombras voltarem a dançar, da Terra se erguerão três sopros de luz. Seus nomes ecoarão como rios: Terra, Água e Sol. E a lâmina do Firmamento encontrará novamente seu escudo.”
As últimas luzes se apagaram. O Firmamento mergulhou em cinzas. Heitor permaneceu de pé. Catânia caiu, ferida por uma arma mortal, antes que Agonthor pudesse salvá-la.
— Catânia! — o grito de Heitor atravessou o cosmos.
Então, silêncio.
O Criador surgiu como a aurora, claro como a alva da manhã. Onde o Ser Supremo passava, emanava luz, e onde havia luz, as trevas não permaneciam. A sombra recuou para o submundo.
Eles retornaram a Alasthian para curar suas feridas.
A guerra terminou sem vencedores. Os deuses recuaram, mas a cicatriz permaneceu. Sob os destroços da eternidade, uma promessa aguardava: a guerra voltaria.
TERCEIRA BATALHA
A Terceira Batalha aconteceu eras depois, quando o silêncio deixado pela guerra anterior já parecia ter se tornado parte do próprio Firmamento — mas ainda antes que os homens contassem histórias, antes que existissem mapas e nomes, o Firmamento respirava em ordem. Tratados começaram a ser forjados entre criadores de mundos, leis foram erguidas. Mas nem toda criação aceitou a paz. Forças antigas levantaram-se mais uma vez — os mesmos senhores da guerra e da destruição cobiçando aquilo que a luz havia moldado.
A devassidão retornou. Constelações tombaram. Campanhas incineraram mundos inteiros. Quando a balança pendeu novamente para a ruína, ergueram-se outra vez os guardiões da luz: Heitor, cuja coragem atravessaria eras; Catânia, lâmina de fogo e riso; e Agonthor, o Quebrador de Correntes.
A primeira reunião aconteceu no Trono de Luz, no coração do Firmamento — um plano fora do tempo, sustentado pela vontade do Criador. Ali, Heitor ajoelhou-se diante da chama viva.
— As trevas marcham. Grythar ergueu seus exércitos novamente. Se ele subjugar os mundos do arco estelar, tocará as Correntes da Criação — disse Heitor.
Da chama veio a resposta:
— Então lute, meu filho. Mas não com ódio, e sim com propósito. Pois quem odeia já se parece com o inimigo.
Heitor voltou ao conselho. Ao seu lado estavam Agonthor, dono das Correntes forjadas no núcleo de uma estrela caída, e Catânia, a Lança Rubra, cuja beleza só era menor que sua fúria em batalha. Atrás deles marchavam os ancestrais dos Guerreiros do Sol e as Valquírias do Amanhecer: Anarya, Odryel e Vandira. Entre os Guerreiros do Sol, destacava-se Azhared, ancestral de Ravi.
A assembleia foi interrompida por uma vibração que fez os pilares de luz estremecerem.
A invasão havia começado.
Capítulo 2 — A BATALHA PARA PROTEGER ALASTHIAN
CIDADE DOS EXTRAORDINÁRIOS
Grythar não marchou sozinho.
A seu lado estavam Zyphor, Selestia. E Malaus — a deusa da escuridão, parceiras inseparáveis em sua cruzada, Malaus a mais maléfica profana sombria, escravizava a própria criação sem remorso, junto às divindades vinham os generais, escolhidos entre os piores flagelos do cosmos: Boryus, o Ceifador de Sóis, trajando uma armadura negra tingida com sangue estelar; Donel, senhor das ilusões, cuja risada era capaz de enlouquecer multidões; e Miltre, a tirana forjada do caos, braço direito de Zyphor. Atrás deles marchavam os exércitos sombrios — criaturas retorcidas conhecidas como Pretréfios, deformidades vivas que absorviam energia vital.
Quando as portas dimensionais se abriram sobre os campos de Órion Primordial, o céu inteiro se incendiou. Dragões de cristal e titãs de ferro avançaram contra os exércitos da luz. A galáxia primordial tremeu, e oceanos se ergueram como muralhas de água, desafiando a própria gravidade.
Heitor desceu como um meteoro, abrindo caminho com a eclipse, Luz da Primavera. Ao seu lado, Catânia rodopiava como uma tempestade rubra, enquanto Agonthor esmagava monstros com golpes capazes de partir luas. Azhared e as Valquírias conduziam os esquadrões, rasgando o céu com lanças reluzentes e hinos de guerra que ecoavam pelo firmamento.
O som da batalha não era feito apenas de gritos e aço: era a constelação inteira de Órion colidindo, estrelas chorando no firmamento dilacerado.
O SACRIFÍCIO E O SELO
A guerra por Alasthian durou três ciclos. Cada golpe movia constelações inteiras. Mas as trevas eram muitas, e sua fome, infinita. Grythar, empunhando sua lâmina devoradora de luz, feriu Agonthor. O guerreiro desmoronou, mas, antes de cair no esquecimento, lançou um juramento que ecoou pela eternidade:
— Enquanto restar uma estrela no céu, minha linhagem lutará. E as sombras hão de sangrar.
Mas não foi ali que o guerreiro imortal tombou. No caminho de seu destino, existia ainda uma pequena princesa: Reluz.
Catânia, ferida e coberta de cinzas, segurou a mão de Heitor no último instante da batalha.
— Se eu perecer, não permita que meu nome seja esquecido.
Mas, para Heitor e Catânia, o destino ainda pregaria peças cruéis. Mesmo exaustos pela guerra, suas forças foram momentaneamente revigoradas, como se o próprio firmamento se recusasse a deixá-los cair.
Asas flamejantes cortavam o vazio. Exércitos inteiros de luz e trevas colidiam entre constelações despedaçadas, e estrelas que um dia foram faróis do cosmos agora ardiam como tochas agonizantes. Cada golpe de espada criava fendas na eternidade. Cada queda transformava um planeta em pó.
Na vanguarda da resistência erguia-se Heitor, o Primeiro Escudo. Um guerreiro colossal, forjado não apenas na guerra, mas na promessa. Seus olhos queimavam como sóis aprisionados, e a Lança Solar, viva em suas mãos, pulsava em desafio à escuridão.
Ao seu lado lutava Catânia, cuja presença era como uma aurora entre tempestades. Seus cabelos ruivos ondulavam em chamas, e sua lâmina de cristal rubro ressoava com a música da esperança. Onde ela passava, a luz florescia.
E entre eles avançava um gigante de voz grave: Agonthor, Senhor dos Portais, Portador das Correntes, capaz de abrir caminhos entre dimensões. Ele brandia o Martelo dos Ecos, arma que fazia estremecer colinas estelares.
— Heitor! — rugiu Agonthor, esmagando Pretréfios com um único golpe. — Eles cercam o pilar central! Se o Portal cair, o coração de Alasthian ruirá!
— Então não vamos deixá-lo cair — respondeu Heitor, cravando a lança no peito de um titã sombrio.
Ao redor, a batalha se dilatava. As hostes de Grythar avançavam lideradas por Boryus, o general da Guerra. Seus Pretréfios moviam-se como enxames vivos, moldados para destruir tudo que respirasse luz. Ao longe, no horizonte de cristais, Selestia, a deusa da Ilusão, surgia como um reflexo entre véus sombrios. Sua risada soava como vidro estilhaçado.
E com ela… Donel. O ceifador silencioso, servo fiel, olhos vazios de cor e coração sem pulsar. Movia-se como uma sombra sem dono, embora suas ordens viessem das trevas mais puras.
Entre as fendas do vazio, os Pretréfios Flagrath, soldados de Ottar, moviam-se em silêncio. À frente deles, Malaus caminhava soberana. Flagrath — criaturas deformadas, moldadas da carne e do medo.
Heitor ergueu os olhos para o firmamento dilacerado. Restava apenas a cidade de Alasthian em pé. Lá, correntes douradas envolviam uma prisão colossal — um altar suspenso no vácuo. Em um ato de bravura suprema, Heitor, empunhando a Lança Solar, viva, com a Luz da Primavera, confrontou Zyphor. Dentro daquele altar, conseguiu aprisioná-lo. Zyphor, o Deus da Destruição, urrava, contorcendo-se contra algemas forjadas da própria luz primordial. Cada vibração das correntes fazia mundos inteiros estremecerem.
Os outros deuses sentiram.
— Ele não pode se libertar! — gritou Catânia, fendendo Pretréfios com destreza mortal. — Se Zyphor se libertar, será o fim de tudo!
— Então manteremos as correntes firmes — respondeu Heitor, avançando sem hesitar.
O som da guerra era ensurdecedor. Mas, de repente… silêncio. Um silêncio que rasgou a alma de Heitor como uma lâmina invisível. Onde estava Catânia?
Ele girou a tempo de ver Donel atrás dela, um portal negro se abrindo como uma ferida no espaço. Catânia ergueu os olhos, surpresa, quando lâminas de ilusão a envolveram.
— Heitor! — sua voz ecoou, quebrando tudo dentro dele.
Ele correu, mas era tarde demais. Donel e Catânia desapareceram nas sombras. — NÃO! — O rugido de Heitor reverberou pelo espaço-tempo, despedaçando asteroides próximos. Mas apenas o silêncio respondeu… seguido da risada distante de Selestia.
O SELO E O LAMENTO
Três ciclos depois, a guerra cessou — não por vitória, mas por exaustão. Alasthian, a Cidade Suspensa, ergueu muros ainda mais altos, selando os Portais com sete correntes de luz. O universo, ferido, chorou estrelas mortas.
Heitor caminhava sozinho pelo Salão de Marfim. Em seu punho, a Lança Solar pesava como nunca. Ele parou diante do altar onde as correntes aprisionavam Zyphor. O deus urrava, mas sua voz agora soava distante, abafada, quase reduzida ao silêncio.
O guerreiro fechou os olhos. E, na escuridão de suas pálpebras, viu o sorriso de Catânia — um sorriso que jamais retornaria.
Ou assim ele acreditava.
Pois, enquanto sangrava de saudade, Catânia respirava entre véus sombrios, moldada pelas mãos cruéis de Donel e das deusas, Malaus e Selestia.
Com lágrimas que incendiavam o vento, o poderoso Heitor clamou ao Criador:
— Meu Deus, precisamos deixar Alasthian segura. As trevas voltarão, e estamos fracos e debilitados.
Então o Criador ordenou que fosse realizado o Rito do Selamento. Com a Forja Estelar, ergueu-se a prisão eterna: o Firmamento e Alasthian foram selados, e a cidade suspensa foi lançada para um ponto do espaço-tempo em que nenhum mal poderia entrar — um lugar entre dimensões, impenetrável às sombras. Portais secretos foram criados, conhecidos apenas pelos navegadores escolhidos.
Zyphor permaneceu aprisionado ali, embora sua essência ainda pulsasse, aguardando a chance de se libertar. Grythar e Selestia recuaram, jurando vingança, enquanto Malaus se dissolvia em sussurros, sem jamais ser vista.
Capítulo 3 — LAMENTOS E SILÊNCIOS
Quando o silêncio voltou, os campos estavam cobertos de cinzas. As Valquírias do Amanhecer jaziam ao lado dos Guerreiros do Sol. Seus corpos foram transformados em constelações de estrelas, no espaço onde outrora Alasthian brilhava no centro dos Cinco Planetas, para que jamais fossem esquecidos.
Heitor caminhou sozinho entre as ruínas, com a lança quebrada em uma mão e a coroa de Catânia na outra. Agonthor, gravemente ferido, tomou sua nave, a Luz Errante, e partiu para além dos mapas conhecidos. Viajou até Vyrian, seu mundo de origem — um planeta distante e silencioso — onde permaneceu isolado para curar as próprias feridas, aguardando, sem saber, o cumprimento de seu destino.
Heitor ergueu o olhar para o céu e falou, não para si mesmo, mas para a eternidade:
— Se algum dia as trevas retornarem… os filhos da luz também se erguerão.
O eco dessa promessa tornou-se profecia. Uma profecia que, milhões de anos depois, despertaria dois jovens de nomes estranhos em um pequeno planeta azul chamado Terra.
Ainda assim, as feridas permaneceram abertas. Deuses e Generais sombrios, antigos e implacáveis, foram lançados ao esquecimento: Grythar, Selestia e Malaus nomes destinados a assombrar sonhos e presságios se voltaram para o outro lado de Abyrion. Seus lacaios, entre eles Boryus, Donel e Miltre, a general do deus aprisionado Zyphor, foram arrastados para a escuridão junto a exércitos que devastariam mundos inteiros. Agora mundos do outro lado de Abyrion sentiria o pesadelo chegando até eles, onde pequenos seres supremos começavam a ver o peso crescente das sombras.
O preço da vitória foi amargo. Mundos caíram, rios de fogo engoliram cidades, e portais foram selados com correntes que nenhum mortal poderia quebrar. Mas até as correntes vibram… quando a escuridão respira.
As eras passaram. Heitor permaneceu como sentinela em Alasthian, guardião dos ecos da guerra. Catânia desapareceu — alguns diziam que havia morrido; outros, que fora levada pelas trevas. Agonthor vagou entre os reinos, tornando-se lenda… exceto para uma criança.
Princesa Reluz.
No dia em que as sombras invadiram seu lar, Agonthor a ergueu nos braços e rompeu muralhas de fogo para levá-la de volta à luz. Muitos chamaram aquele ato de milagre; ele o chamou de promessa. A promessa de que, se um dia a guerra retornasse, aquela menina seria mais do que um nome esquecido.
Agora, as correntes vibram outra vez.
O silêncio das estrelas não é paz… é o prenúncio da tempestade.
E no coração de um pequeno planeta azul, dois jovens ignoram que respiram a última calmaria antes do fim.
Como precaução, Heitor conjurou novamente o Rito do Selamento. A Luz ergueu um refúgio além do tempo: Alasthian — cidade-fortaleza, obra-prima das defesas, lugar onde se forjavam naves e armas, e onde os Extraordinários um dia se reuniriam. O selo foi poderoso; as correntes douradas do Portão Proibido foram cravadas na própria realidade… e o Firmamento, enfim, suspirou em alívio.
Mas correntes não são eternas quando alguém decide puxá-las.
Em uma noite sem hora, no coração de Alasthian, as correntes vibraram novamente. Heitor viu, no brilho rasgado do céu, a promessa de um retorno. Sentiu outra vez a ausência que o marcara: Catânia — levada pelas trevas, perdida em um instante que ele, por eras, jurou enterrar. A voz dos Oráculos ecoou em sussurros... A aurora que viria exigiria sacrifícios. Prece e ultimato.
Muito longe dali, na Terra, o vento trouxe um presságio. Um maquinista chamado Cícero olhou para o firmamento e murmurou que o tempo das correntes havia voltado a cantar. Em povoados e palácios, o mesmo rumor se espalhava. Algo se erguia; os Guerreiros do Firmamento precisariam, em breve, escolher os seus.
O fio do destino já estava lançado. Dois nomes, plantados na Terra pelo Criador — sementes destinadas a florescer quando os mundos precisassem — começavam a mover-se:
Bob Earth Carter
Ana Water Carter
E, mais distante ainda, uma criança nascida de sangue solar guardava uma luz que não podia se apagar.
Sanya Thurin.
A Última Valquíria do Sol.
PRÓLOGO 2 — A RECONSTRUÇÃO DO UNIVERSO
O silêncio antecede o som.
E depois do princípio e da destruição, surgiu um novo princípio um novo recomeço.
Quando as trevas quase dominaram tudo, não havia vento, nem luz, nem voz. Apenas o vazio — frio, absoluto, eterno. Após as três guerras no Firmamento, o universo do Criador estava destruído, reduzido a pó. Restara somente o vazio. Apenas o Firmamento e Alasthian sobreviveram, lançados para além do espaço-tempo.
Então, o Criador falou.
Suas palavras não foram ouvidas. Foram sentidas. Um sopro eterno rasgou o nada e fez brotar a essência da existência. Dessa essência nasceram as Chamas Primordiais, que reacenderam de novo os primeiros sóis e moldaram, outra vez, as primeiras galáxias.
Mas o universo ainda era silêncio.
E então, ao ecoar a voz do Criador — que existe desde o princípio — Ele gritou.
Não era um grito de dor, nem de ira. Era um canto imenso. Uma sinfonia de luz que moldava mundos e fazia galáxias girarem em perfeita harmonia. No coração dessa melodia, ergueram-se os Filhos da Eternidade — seres cujo poder tecia as tramas do espaço-tempo.
Cada um carregava em si uma essência: luz, guerra, ilusão, destruição e sombras insondáveis. Eram seres incorruptíveis, criados na essência mais pura da Criação, denominados os Alvas do Amanhã. Seu reino era desconhecido, oculto em algum ponto da aurora do amanhecer — obra do Criador, um lugar onde, um dia, os justos descansariam.
Eles eram o último alento contra a sombra.
A esperança erguida contra deuses caídos.
E da Criação nasceu a profecia:
“Quando a sombra se levantar pela última vez e o deus caído acreditar que venceu, Eis que virá a salvação na aurora do amanhecer.”
Mas aquilo que nasce da harmonia, cedo ou tarde, prova o sabor da discórdia.
Quando o primeiro lampejo de orgulho incendiou uma antiga alma divina, milênios depois, o Firmamento se romperia mais uma vez.
Então, onde havia luz, a sombra voltou a despertar.
Entre as centelhas do Criador, quatro fragmentos do caos — que haviam recusado a ordem desde o princípio — tornaram a emergir. Esses fragmentos obscuros despertaram consciências vorazes, ávidas por poder. Por milênios haviam permanecido adormecidos nos portões do submundo, onde apenas sussurros eram ouvidos.
Entre eles estavam Grythar, senhor da devastação e da guerra; Miltre, general do deus aprisionado, mestre da perfídia; Selestia, rainha da ilusão; e Malaus, o sussurro que habita o medo.
Eles não criavam mundos.
Desejavam apenas corromper aqueles que já existiam.
Para contê-los, o Criador ergueu os Guerreiros do Firmamento, forjados na luz eterna. Entre eles estava Heitor — o mais poderoso após o Criador — chamado Escudo dos Céus, comandante da Primeira Lança Solar.
Ao seu lado marchavam guerreiros e guardiões como legiões de estrelas vivas. Cada um carregava a centelha do fogo eterno, para que nenhum abismo pudesse engoli-los novamente.
Entre esses defensores surgiram a linhagem dos Guerreiros do Sol e as lendárias Valquírias da Luz — ancestrais daqueles que, um dia, herdariam seus nomes.
Eles não tinham dúvida.
Nem medo.
Mas sabiam: outra guerra seria inevitável.
Milênios se passaram.
E agora…
O silêncio voltou a se romper.
As correntes vibraram.
As estrelas estremeceram.
E o Firmamento sussurrou uma única palavra:
“Eles voltaram após milhares de eras”

