CAPÍTULO 36 — A MENINA QUE O FIRMAMENTO NÃO PODIA PERDER
Horas antes de partirem, os quatro ainda estavam no campo de treinamento de Alasthian.
Marcus.
Matusa.
Spactius.
Fortão.
Heitor permanecia diante deles.
Os quatro respiravam pesadamente.
O chão ao redor estava marcado por fogo, rachaduras, cortes e círculos dourados deixados pelas energias de Aureon, Argyros, Vaylar e Crimston.
Spactius mantinha as duas espadas nas mãos.
As lâminas arcanas ainda queimavam.
Chamas prateadas percorriam o metal como se fossem vivas.
Fortão estava coberto de poeira.
Uma parte da arena havia desabado sobre ele minutos antes.
Ele simplesmente saíra dos escombros.
Matusa ainda não conseguia decidir se aquilo era impressionante ou irritante.
— Quantas vezes? — perguntou ela.
Marcus respirava com dificuldade.
— Dezessete.
Fortão balançou a cabeça.
— Dezesseis.
Matusa olhou.
— Você bateu a cabeça?
— Provavelmente.
Spactius levantou uma das mãos.
Fez dois sinais rápidos.
Matusa observou.
— Ele disse dezessete.
Marcus virou para ela.
— Está entendendo?
— Algumas coisas.
Spactius fez outro gesto.
Matusa estreitou os olhos.
— Esse eu não entendi.
Marcus sorriu.
— Melhor assim.
— Marcus.
— Disse que você aprende quando quer.
Matusa encarou Spactius.
— Eu ainda vou aprender o suficiente para discutir com você sem intérprete.
O canto da boca dele subiu.
Heitor bateu a ponta da lança no chão.
A conversa acabou.
— Outra vez.
Matusa deixou a cabeça cair para trás.
— Pelo Criador...
Heitor apontou para o extremo da arena.
— Vocês vão me Impedir que eu atravesse.
Fortão fechou os punhos. — Isso eu gosto. — Claro que gosta — disse Matusa. — Tem alguma coisa para você derrubar. Fortão sorriu. — Finalmente um treino bem planejado.
Marcus assumiu posição.
— Fortão no centro.
O gigante avançou.
— Spactius, direita.
Spactius assentiu.
As inscrições sobre as duas espadas ficaram mais intensas.
— Matusa, esquerda.
Fogo correu pelas mãos dela.
Marcus ergueu os braços.
Energia dourada espalhou-se pelo campo como linhas geométricas.
Heitor avançou.
Fortão o encontrou primeiro.
O impacto fez as placas da arena estremecerem.
Fortão deslizou para trás.
Um metro.
Dois.
Três.
Parou.
Os pés afundaram parcialmente na superfície.
Mas ele continuou de pé.
Heitor tentou atravessar pela lateral.
Fortão acompanhou.
Como uma parede que se movia.
Spactius apareceu.
Uma espada veio por cima.
A outra por baixo.
Heitor bloqueou a primeira.
Desviou da segunda.
Spactius girou.
A chama arcana de uma das lâminas se alongou e percorreu o espaço em forma de arco.
Heitor mudou o passo.
Era exatamente o que Marcus queria.
— Agora!
Matusa ergueu uma parede de calor.
Não de fogo.
Calor.
O ar se deformou.
Marcus fechou a outra saída com uma barreira dourada.
Spactius cruzou as espadas.
As chamas prateadas das duas lâminas tocaram-se.
Uma onda arcana rasgou a arena.
Fortão avançou novamente.
Heitor parou.
Por um instante.
Apenas um.
Os quatro viram.
Então Heitor desapareceu.
Matusa sentiu a haste da lança tocar suas costas.
Caiu.
Marcus perdeu as pernas.
Spactius tentou girar.
Heitor já estava atrás dele.
A lança tocou seu ombro.
O espadachim foi lançado vários metros.
Fortão foi o último.
Recebeu o golpe no peito.
Voou.
Atravessou uma estrutura.
Silêncio.
Matusa ergueu o rosto.
— Fortão?
Uma mão apareceu entre os escombros.
Depois a outra.
Fortão saiu.
— Estou bem.
Matusa deixou a cabeça cair outra vez.
— Claro que está.
Heitor olhou para os quatro.
— Melhor.
Marcus sentou-se.
— Isso vindo dele é praticamente uma celebração.
Spactius sinalizou.
Matusa reconheceu.
— Ele perguntou quantos segundos.
Heitor respondeu:
— Vinte e sete.
Fortão sorriu.
— Recorde.
— Continuam mortos — disse Heitor.
O sorriso desapareceu.
— Ah.
Heitor caminhou entre eles.
— Antes, vocês lutavam ao mesmo tempo.
Olhou para Marcus.
Depois para Matusa.
Para Spactius.
Por fim, Fortão.
— Agora começam a lutar juntos.
Matusa se levantou.
— “Começam” parece pouco depois de tudo isso.
— É pouco.
Antes que ela respondesse...
os alarmes de Alasthian começaram.
Um.
Depois outro.
As torres acenderam.
Projeções surgiram sobre o campo.
Aureon.
Argyros.
Vaylar.
Crimston.
Esmyralis.
Sinais negros apareciam em todos.
Muitos.
Demais.
Heitor mudou imediatamente.
Não era mais o mestre do treinamento.
Era o comandante.
— Marcus.
— Sim.
— Prepare-os.
Matusa olhou para as projeções.
— Todos os mundos?
— Sim.
Heitor ampliou Esmyralis.
O planeta verde estava coberto por pontos de invasão.
— Vocês vão primeiro para lá.
Marcus assentiu.
Heitor olhou diretamente para Matusa.
— Quando chegarem...
Pausa.
— encontre Agonthor.
Matusa não perguntou por quê.
Não houve tempo.
Pouco depois...
eles já estavam partindo.
Esmyralis não parecia um mundo em guerra.
Não de longe.
Do espaço, o planeta ainda brilhava em verde.
Oceanos profundos.
Continentes cobertos por florestas.
Cinturões líquidos de energia envolvendo regiões inteiras.
Grandes formações cristalinas refletindo a luz de sua estrela.
Era belo.
Quase sereno.
Então a nave atravessou a camada superior da atmosfera.
E Matusa viu as primeiras cidades queimando.
— Criador...
A palavra escapou antes que pudesse contê-la.
Não eram chamas como as de Crimston.
Matusa conhecia fogo.
Conhecia o cheiro da combustão.
Conhecia fumaça.
Conhecia destruição térmica.
Aquilo era diferente.
Grandes manchas negras se espalhavam sobre as florestas de Esmyralis como feridas.
Árvores cristalinas estavam partidas.
Rios haviam mudado de direção.
Estruturas translúcidas emergiam da água quebradas ao meio.
E acima delas...
fendas.
Muitas.
Marcus estava diante do painel de navegação.
— Setor leste perdeu comunicação.
Spactius observava outra projeção.
Fez dois sinais rápidos.
Marcus acompanhou.
— Norte também.
Fortão aproximou-se.
— Quantos inimigos?
Marcus ampliou o mapa.
— Não sabemos.
Fortão olhou para a quantidade de sinais.
— Muitos.
Matusa respondeu:
— Excelente análise.
Fortão virou para ela.
— Estou aprendendo com Spactius.
Spactius nem olhou.
Apenas ergueu a mão.
Negação.
Matusa quase sorriu.
— Ele discorda.
Fortão olhou para o espadachim.
— Você ainda vai admitir.
Outro sinal.
— Continua discordando — disse Matusa.
Mesmo naquela situação...
quase sorriu.
Heitor permanecia em Alasthian.
Não porque a batalha fosse pequena.
Justamente pelo contrário.
Os cinco mundos haviam sido atacados.
Ele precisava enxergar o todo.
Coordenar portais.
Reforços.
Evacuações.
Frentes que surgiam e desapareciam quase simultaneamente.
Marcus recebera uma ordem simples:
Esmyralis primeiro.
Mas a ordem seguinte fora dirigida especificamente a Matusa.
Quando chegarem, encontre Agonthor.
Ela não perguntara por quê.
Agora começava a entender.
Algo explodiu abaixo da nave.
O casco sacudiu.
Fortão segurou uma coluna.
— Isso foi perto.
Spactius fez um gesto.
Matusa olhou.
Reconheceu.
— Ele disse: “novamente, excelente análise.”
Fortão encarou Spactius.
— Está ficando engraçado.
Spactius negou.
Matusa abriu um pequeno sorriso.
— Ele disse que não.
Marcus interrompeu:
— Pouso impossível.
Matusa aproximou-se.
— Então não pousamos.
Marcus virou lentamente.
— Não.
Ela apontou para baixo.
— Eu consigo.
— Matusa.
— Consigo.
— Você está a quatro quilômetros de altura.
— Já pulei de mais alto.
Marcus permaneceu olhando.
Matusa acrescentou:
— Uma vez.
— Isso não melhora.
Outro impacto.
A nave inclinou.
Alarmes.
Spactius segurou o banco.
Fortão bateu contra a lateral.
— Quem está atirando?
Marcus analisou.
— Não são baterias convencionais.
Matusa viu sombras compridas subindo do solo.
Pareciam fios.
Não.
Ossos.
Estruturas esbranquiçadas e negras cresciam das ruínas e disparavam contra o céu como lanças vivas.
Matusa conhecia aquilo.
Não exatamente aquelas criaturas.
Mas o princípio.
Abyrion.
Coisas que não deveriam existir segundo as mesmas regras da matéria.
— Pretréfios.
Marcus assentiu.
— E não vieram apenas destruir.
A nave desviou.
Matusa viu uma cidade abaixo.
Parte dela estava construída dentro de um lago.
Torres translúcidas emergiam da água como cristais.
Pontes vivas ligavam bairros inteiros.
Milhares de pessoas corriam.
E criaturas avançavam pelas margens.
Matusa respirou fundo.
— Marcus.
— Não.
— Você nem sabe o que eu ia dizer.
— Ia pular.
— Sim.
— Não.
Spactius fez um sinal.
Matusa apontou imediatamente.
— Ele disse que eu consigo.
Marcus virou para o espadachim.
— Não ajude.
Spactius abriu as mãos.
Fortão apontou para o painel.
— Tem uma abertura ali.
Um corredor entre os disparos.
Pequeno.
Marcus calculou.
— Vinte segundos.
Matusa já caminhava para a escotilha.
Marcus fechou os olhos.
— Eu odeio todos vocês.
Spactius ergueu três dedos.
Marcus olhou.
— Eu sei. Ainda somos três.
Fortão levantou a mão.
— Quatro com você.
Marcus respirou fundo.
— Preparem-se.
A nave mergulhou.
Matusa abriu a escotilha.
O vento entrou como um animal.
Abaixo...
Esmyralis.
Verde.
Água.
Cristal.
Guerra.
Ela saltou.
O fogo explodiu ao redor do corpo.
Mas não para queimá-la.
Nunca para queimá-la.
Desceu como uma estrela rubra.
Quando atingiu o chão, uma onda de calor se abriu em círculo.
Três criaturas foram lançadas para trás.
Matusa se levantou.
O primeiro Pretréfio tinha quase três metros.
A pele parecia formada por placas calcificadas.
Entre elas, matéria negra pulsava.
Os braços terminavam em garras ósseas.
Matusa ergueu a mão.
Fogo.
A criatura queimou.
Mas não caiu.
— Claro.
Ela desviou de uma garra.
Girou.
A lâmina curta atingiu uma junção entre as placas.
Outra criatura veio.
Matusa lançou uma linha fina de fogo diretamente pela abertura da boca.
A cabeça explodiu por dentro.
— Melhor.
A nave passou acima.
Spactius saltou.
Diferente dela...
sem hesitação.
Caiu girando.
Antes de tocar o chão, desembainhou as duas espadas.
As inscrições arcanas explodiram em luz.
Chamas prateadas envolveram as lâminas.
Um corte.
Dois.
Quatro.
Spactius aterrissou.
Atrás dele...
quatro Pretréfios desabaram.
Membros separados nos pontos exatos das articulações.
Matusa olhou.
— Exibido.
Spactius sequer virou.
Fortão veio depois.
Matusa olhou para cima.
— Não.
Ele caiu.
O chão tremeu.
Uma fonte próxima se partiu.
O impacto abriu uma cratera.
Matusa cobriu o rosto.
— VOCÊ NÃO SABE POUSAR?!
Fortão se levantou.
Inteiro.
— Pousei.
— VOCÊ FEZ UMA CRATERA!
— Continuo no chão.
Spactius passou por eles.
Fez um sinal.
Matusa reconheceu e olhou para Fortão.
— Ele disse que, tecnicamente, você tem razão.
Fortão sorriu.
— Gostei dele.
Marcus foi o último.
Desceu por propulsão controlada da armadura.
Matusa apontou.
— Viu? Civilizado.
Marcus desembainhou a arma.
— Depois discutimos etiqueta de pouso.
Os quatro avançaram.
E ali começou a primeira diferença entre treinamento e guerra.
No treinamento...
errar significava cair.
Levantar-se.
Tentar novamente.
Ali...
um soldado de Esmyralis morreu a poucos metros de Matusa.
Ela viu.
Não teve tempo de saber seu nome.
O homem estava defendendo duas crianças próximas de uma estrutura caída.
Um Pretréfio atravessou-lhe o peito.
Matusa reagiu.
Fogo.
Violento.
Direto.
A criatura desapareceu dentro da chama.
Matusa correu.
Segurou o soldado antes que caísse.
Os olhos dele ainda estavam abertos.
Mas não havia mais nada neles.
Uma das crianças chorava.
Matusa sentiu alguma coisa antiga abrir dentro do peito.
Ramsés.
Olga.
A nave.
A ausência.
Não.
Fechou os olhos por um segundo.
Apenas um.
Depois chamou:
— Fortão!
Ele virou.
— Aqui!
— Essas crianças!
Fortão entendeu.
Correu.
Dois Pretréfios vieram em sua direção.
O primeiro acertou o peito dele.
Fortão sequer parou.
A criatura foi jogada para trás pelo próprio impacto.
A segunda saltou.
Fortão a agarrou no ar.
Atirou-a contra uma parede.
Continuou correndo.
Pegou uma criança em cada braço.
— Onde?
Um soldado esmyraliano apontou.
— Abrigo submerso! Duzentos metros!
Fortão correu.
Três criaturas tentaram bloqueá-lo.
Ele abaixou o ombro.
Atravessou as três.
Como uma muralha em movimento.
Matusa ficou olhando por meio segundo.
Então voltou à batalha.
Não faça tudo.
A voz de Heitor estava dentro dela.
Não literalmente.
Mas estava.
Marcus gritou:
— Formação!
Dessa vez...
Spactius voltou.
Matusa percebeu.
Ele poderia ter avançado.
Teria feito isso semanas antes.
Mas voltou.
Marcus indicou:
— Matusa, lado esquerdo! Spactius, corta os que atravessarem! Fortão volta no centro!
Funcionou.
Não perfeitamente.
Mas funcionou.
Matusa levantou uma parede de calor.
Não uma muralha de fogo.
O ar distorceu.
As criaturas avançaram.
Ao atravessarem...
as placas ósseas começaram a dilatar.
Spactius entendeu sem que ela explicasse.
As duas espadas flamejantes ganharam intensidade.
Ele entrou.
Primeira lâmina.
Junção do ombro.
Segunda.
Pescoço.
Giro.
Joelho.
A chama arcana penetrava justamente onde o calor de Matusa havia fragilizado as placas.
Uma.
Duas.
Três criaturas.
Depois quatro.
Spactius passou por elas.
Só depois os corpos começaram a cair.
Fortão retornou.
Uma criatura tentou golpeá-lo.
Ele segurou o braço dela.
Puxou.
Pegou-a pelo torso.
E arremessou contra outras cinco.
Matusa olhou.
— Isso foi desnecessário.
— Foi eficiente.
Spactius fez um sinal.
Matusa arregalou os olhos.
— Você acabou de dizer que foi divertido?
Spactius negou imediatamente.
— Disse sim.
Negou outra vez.
Marcus gritou:
— DEPOIS!
Mais inimigos.
Então os gritos começaram.
Não de soldados.
De civis.
Todos vindos da região norte.
Marcus abriu o mapa.
— Palácio.
Um esmyraliano respondeu:
— Não é mais palácio.
Matusa olhou para ele.
O homem tinha sangue verde-azulad escorrendo pelo rosto.
— O que aconteceu?
— Caíram sobre nós primeiro.
— Quem?
O soldado hesitou.
— Reflexos.
Matusa sentiu o corpo endurecer.
Já conhecia aquele tipo de horror.
Criaturas capazes de vestir rostos.
Copiar formas.
Transformar confiança numa arma.
O soldado continuou:
— Entraram usando nossas próprias faces. Guardas. Servidores. Pessoas que conhecíamos.
Marcus perguntou:
— A família real?
O homem abaixou os olhos.
Resposta suficiente.
Matusa olhou ao redor.
— Sobreviventes?
O soldado demorou.
— A princesa.
Marcus virou.
Matusa percebeu imediatamente.
Alguma coisa mudara nele.
Não reconhecimento.
Ainda não.
Mas atenção.
— Onde?
— Não sabemos.
Uma explosão atravessou o céu.
Todos olharam.
Algo enorme entrou na atmosfera.
Matusa ergueu a arma.
Spactius levou as mãos às espadas.
As chamas arcanas começaram a nascer.
Fortão fechou os punhos.
Marcus sorriu.
— Guardem.
Matusa olhou.
— Você conhece?
A coisa atravessou as nuvens.
Não era uma nave comum.
Era enorme.
Escura.
Marcada por linhas luminosas que pareciam correr pelo casco como veias.
Ela não rugia.
Não tremia.
Deslizava.
— Luz Errante — disse Marcus.
Matusa conhecia aquele nome.
Antes mesmo de a nave pousar...
um homem saltou.
E por um instante Matusa esqueceu de respirar.
Ele era enorme.
Não do tamanho de Fortão.
Era outra espécie de presença.
Pesado.
Antigo.
O guerreiro caiu entre dezenas de Pretréfios.
Uma energia escura se abriu ao redor dele.
Matusa preparou fogo por instinto.
Marcus segurou o braço dela.
— Não.
A escuridão não o devorava.
Obedecia.
Correntes surgiram.
Não de metal.
De energia.
A primeira enrolou-se no torso de uma criatura.
A segunda atravessou outra.
A terceira puxou cinco Pretréfios para o mesmo ponto.
O Guerreiro ergueu um martelo.
Impacto.
Matusa sentiu a onda até onde estava.
Quando a poeira baixou...
dezenas de inimigos estavam no chão.
Fortão falou:
— Gostei dele.
Spactius fez um sinal curto.
Matusa olhou.
— Ele disse: “Claro.”
Fortão sorriu.
Agonthor se levantou.
Matusa entendeu imediatamente por que tantas histórias pareciam pequenas quando tentavam descrevê-lo.
Ele não tinha a serenidade de Heitor.
Nem a precisão controlada de Marcus.
Agonthor parecia alguém que aprendera a entrar no escuro...
e voltar.
Marcus caminhou até ele.
— Agonthor.
O imortal virou.
— Marcus de Gold.
Os dois se abraçaram rapidamente, como guerreiros que não precisavam de cerimônia.
Agonthor olhou para os outros.
Spactius.
As duas espadas ainda fumegando com energia arcana.
Fortão.
Coberto de poeira e sangue que, em grande parte, nem era dele.
Por último...
Matusa.
— Crimston.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Todo mundo olha para mim e diz isso?
Agonthor observou as linhas rubras sob a pele dela.
— Você não dificulta.
Fortão riu.
Agonthor voltou-se para Marcus.
— Heitor mandou vocês?
— Sim.
— Ótimo.
Matusa percebeu.
— Você esperava ajuda.
Agonthor olhou para o horizonte.
— Eu esperava chegar antes.
O humor desapareceu.
— Antes de quê? — perguntou Marcus.
Agonthor não respondeu imediatamente.
Abriu uma projeção.
Um rosto surgiu.
Adolescente.
Cabelos marcados por tons que refletiam a luz esmeralda.
Olhos vivos.
Jovens demais para aquele mundo em ruínas.
— Princesa Reluz — disse Agonthor.
Matusa olhou.
Alguma coisa aconteceu com sua chama.
Pequena.
Quase imperceptível.
O fogo que percorria os canais da arma inclinou-se em direção à projeção.
Matusa franziu a testa.
Marcus percebeu.
Agonthor também.
Nenhum comentou.
— Selestia está procurando por ela — disse Agonthor.
Spactius levantou o rosto.
Fez um sinal.
Agonthor observou.
Marcus ia traduzir, mas o imortal respondeu:
— Se eu soubesse por que Selestia deseja tudo que deseja, dormiria ainda menos.
Matusa olhou para Agonthor.
— Você também entende?
— Algumas línguas são úteis quando se vive tempo demais.
Spactius inclinou a cabeça.
Matusa olhou para a adolescente novamente.
— Onde ela está?
— Em movimento.
— Sozinha?
Agonthor endureceu.
— Não por escolha.
A projeção mudou.
Floresta.
Água.
Cristais quebrados.
Três sinais fugindo.
Centenas perseguindo.
Agonthor fechou o punho.
— Os pais dela morreram.
Matusa ficou imóvel.
Não precisava perguntar como.
Olhou outra vez para aquela menina.
E por alguns segundos não viu uma princesa.
Viu a si mesma.
Depois da nave.
Depois de Ramsés.
Depois de Olga.
Depois do desaparecimento do pai.
Mas havia uma diferença.
Matusa tivera idade para escolher o que fazer com a dor.
Aquela menina talvez ainda nem compreendesse o tamanho dela.
— Vamos buscá-la.
Agonthor olhou.
— Sim.
Marcus analisou o mapa.
— Há dois corredores.
— Não — respondeu Agonthor.
Marcus virou.
Agonthor apontou.
— O primeiro é falso.
Matusa aproximou-se.
— Como sabe?
— Porque eu faria igual.
Fortão franziu a testa.
— Você faria?
Agonthor sorriu sem alegria.
— Passei tempo demais aprendendo como as sombras pensam.
A mão dele tocou uma das correntes presas ao braço.
Matusa viu.
Não eram ornamentos.
Havia história naquilo.
Muito mais antiga do que ela.
— Então por onde?
Agonthor indicou a região inundada.
— Por baixo.
Spactius olhou para a água.
Fez um sinal.
Matusa entendeu.
— “Água.”
Olhou para ele.
— Você sabe nadar?
Spactius assentiu.
Fortão respondeu:
— Eu afundo.
Silêncio.
Matusa virou devagar.
— Você está brincando.
— Não.
— Um homem do seu tamanho não aprendeu a nadar?
— Aprendi.
— E?
— Afundo com técnica.
Agonthor soltou uma gargalhada grave.
Matusa olhou surpresa.
— Pelo menos um imortal aqui acha graça.
Spactius fez uma expressão ofendida.
Matusa apontou.
— Você não conta. Você riu com o rosto.
Agonthor indicou Fortão.
— Você vem comigo.
Fortão olhou para a água.
— Para afundar?
— Exatamente.
O plano foi rápido.
Agonthor e Fortão atravessariam o sistema inferior.
Marcus e Spactius abririam uma rota pela superfície.
Matusa seguiria pelo corredor central.
Ela olhou para Marcus.
— Separados?
— Temporariamente.
Matusa sabia o que Heitor diria.
Não confundir unidade com permanecer fisicamente juntos.
Cada um precisava cumprir uma função.
— Certo.
Agonthor segurou o braço dela antes que partisse.
— Matusa.
Ela olhou.
Era a primeira vez que ele dizia seu nome.
— Se encontrar Reluz primeiro...
Pausa.
— não deixe que ela use tudo.
Matusa franziu a testa.
— Tudo o quê?
Agonthor soltou o braço.
— É justamente isso que eu não quero que você descubra hoje.
E saiu.
Matusa ficou olhando.
Fortão passou.
— Gosto dele.
— Você já disse.
— Continuo gostando.
Spactius passou em seguida.
Fez um gesto.
Matusa reconheceu.
— Você também?
Spactius assentiu.
— Ótimo. Todo mundo gosta do homem assustador das correntes.
Seguiu para o corredor central.
A guerra fechou-se ao redor dela.
Era uma região de florestas baixas.
Folhas esmeraldas gigantescas.
Rios rasos.
Cristais formando arcos naturais.
Bonito demais para aquilo.
Matusa correu.
Dois Pretréfios surgiram.
Fogo.
Mais três.
Lâmina.
Chama.
Giro.
Ela estava ficando melhor.
Não mais forte.
Melhor.
Havia diferença.
Não explodia tudo.
Não inundava o campo de fogo.
Escolhia.
Uma chama pequena podia matar melhor que uma tempestade se colocada no ponto correto.
Ilyra ficaria satisfeita.
Kharon provavelmente reclamaria da postura.
Ramsés...
Matusa parou o pensamento.
Não porque doesse.
Porque podia lembrar dele sem transformar toda memória em ferida.
Um ruído.
Ela parou.
Passos.
— Ajuda!
Voz feminina.
Jovem.
Matusa correu.
Encontrou uma garota parcialmente escondida entre formações cristalinas.
Não era Reluz.
Tinha ferimentos.
Matusa aproximou-se.
— Está segura.
A garota chorou.
— Eles mataram todos.
— Quem?
— As sombras.
Matusa ajoelhou.
— Há outros sobreviventes?
A menina assentiu. — Mais à frente.
Matusa estendeu a mão.
A garota hesitou. Depois segurou.
Fria.
Demais.
Matusa franziu a testa.
A mão da menina apertou a dela.
Não como alguém procurando ajuda.
Como alguém tentando impedir que soltasse.
Matusa sentiu uma fisgada na palma.
Pequena.
Quase uma picada.
Seus olhos se estreitaram.
— Solta.
A garota não soltou.
Apertou mais.
E ficou olhando diretamente para o rosto de Matusa.
Não para os olhos.
Para o rosto inteiro.
Como se estivesse memorizando.
Matusa compreendeu.
— Reflexo.
Puxou a mão.
A criatura tentou segurá-la com as duas.
Matusa girou o braço e se libertou.
Fogo explodiu entre elas.
A falsa menina recuou.
Por um instante, o rosto dela pareceu vacilar.
Não se transformou em outra pessoa.
Apenas perdeu a perfeição.
Como uma imagem refletida numa superfície quebrada.
Matusa olhou para a própria mão.
Uma pequena marca escura começava a aparecer onde a criatura a tocara.
— Veneno...
O Reflexo avançou.
Matusa desviou.
A lâmina curta atravessou o braço da criatura.
Ela gritou.
Então outros surgiram entre as árvores.
Homens.
Mulheres.
Soldados.
Civis de Esmyralis.
Rostos que pertenciam a pessoas daquele mundo.
Pessoas que aquelas criaturas haviam encontrado.
Visto.
Tocado.
Copiado.
Matusa olhou ao redor.
E então percebeu algo pior.
Perto de uma formação cristalina havia um corpo.
Uma jovem esmyraliana.
O mesmo rosto da garota que havia acabado de pedir ajuda.
Os olhos estavam abertos.
A pele marcada por veias escuras.
Veneno.
Matusa voltou lentamente o olhar para a criatura.
— Então era ela.
O Reflexo sorriu usando o rosto da morta.
Aquilo provocou em Matusa algo diferente de medo.
Nojo.
Raiva.
A criatura avançou.
Matusa ergueu a mão.
— Você escolheu o rosto errado para tentar me enganar.
Fogo.
A chama atingiu o peito do Reflexo e o lançou contra as árvores.
Os outros vieram juntos.
Matusa recuou um passo.
Não podia permitir que nenhum deles a segurasse.
Ela entendia a regra.
Olhar.
Contato.
Veneno.
Cópia.
Um soldado avançou com o rosto de outro esmyraliano.
Matusa desviou antes que suas mãos chegassem perto dela.
Outro tentou agarrá-la pelas costas.
Ela girou e lançou uma linha fina de fogo contra o braço da criatura.
— Nem pense.
O combate foi rápido Matusa queimou todos.
Mas quando terminou...
Matusa percebeu algo.
Os Reflexos não estavam tentando vencê-la.
Nem mesmo estavam tentando copiá-la a qualquer custo.
Estavam ocupando seu tempo.
Forçando-a a parar.
Atrasando.
Matusa olhou na direção das ruínas do palácio.
— Não...
Abriu o comunicador.
— Marcus!
Ruído.
— Estou ouvindo.
— Eles estão prendendo a gente nas rotas.
— Também percebi.
Agonthor entrou na frequência:
— Então estamos perto.
Uma nova projeção surgiu no bracelete.
Movimento.
Matusa correu.
Saiu da floresta.
E viu.
Uma formação gigantesca de cristal erguia-se sobre um lago.
No topo havia ruínas de uma antiga estrutura real.
E sobre uma ponte parcialmente destruída...
uma garota.
Reluz.
Dois guardas ainda estavam com ela.
Um caiu.
O outro foi atravessado por uma lança negra.
Reluz gritou.
Matusa correu.
— RELUZ!
A menina virou.
Por um instante, seus olhos se encontraram.
E a chama de Matusa...
inclinou-se novamente.
Dessa vez não pouco.
Todas as chamas ao redor dela se voltaram na direção da adolescente.
Matusa parou.
Reluz também.
— O que...
O céu escureceu.
Uma voz feminina atravessou o lago.
Suave.
Elegante.
Terrível.
Voz ameaçadora que parecia vidro estilhaçado;
— Finalmente.
Matusa olhou para cima.
Espelhos começaram a aparecer no ar.
Um.
Dez.
Cem.
Em cada superfície...
o mesmo rosto.
Uma mulher observando.
Selestia.
Matusa nunca a tinha visto pessoalmente.
Mesmo assim...
soube.
O corpo inteiro soube.
Reluz recuou.
Selestia sorriu através dos reflexos.
— Venha comigo, pequena luz.
Reluz ergueu as mãos.
Energia começou a surgir.
Matusa viu o lago inteiro responder.
Os cristais vibraram.
O ar dobrou.
Não.
Aquilo não era poder comum.
Não era sequer próximo.
Matusa lembrou imediatamente da advertência de Agonthor.
Não deixe que ela use tudo.
Correu.
— RELUZ!
A adolescente olhou.
— Quem é você?!
Matusa atravessou uma explosão.
— Alguém que também já achou que precisava destruir tudo para não perder mais ninguém!
Reluz hesitou.
Selestia riu.
— Ela não pode compreender você.
Matusa chegou à ponte.
Colocou-se entre a adolescente e os espelhos.
— Talvez não.
Olhou para Reluz.
— Mas entendo perder os pais.
A energia vacilou.
O rosto da menina mudou.
Não princesa.
Não portadora de algum poder incompreensível.
Filha.
Apenas filha.
— Eles morreram — disse Reluz.
Matusa sentiu o peito apertar.
— Eu sei.
— Eu não consegui...
— Eu sei.
Reluz chorava.
— Eu podia ter...
Matusa segurou os ombros dela.
— Não.
Reluz ficou quieta.
— Não faça isso.
— O quê?
— Não transforme cada poder que você tem numa prova de que deveria ter salvado quem ama.
As palavras saíram antes que Matusa percebesse.
Porque não eram apenas para Reluz.
Eram para a menina que ela mesma havia sido.
Selestia perdeu o sorriso.
— Tocante.
Os espelhos explodiram em energia.
Matusa empurrou Reluz para o chão.
Fogo levantou-se.
A primeira colisão quase a fez cair de joelhos.
Selestia não estava verdadeiramente ali.
Matusa entendeu.
Mas algo dela estava.
Uma projeção.
Uma abertura.
Uma extensão de poder através das superfícies.
E aquilo já era monstruoso.
— Matusa! — gritou Marcus pelo comunicador.
Uma espada flamejante atravessou um dos espelhos.
O reflexo explodiu.
Outra lâmina veio logo depois.
Spactius.
Ele surgiu sobre a ponte com as duas espadas envoltas em fogo arcano.
Girou.
As chamas prateadas atravessaram três superfícies de uma vez.
Outro espelho explodiu sob um arco dourado.
Marcus.
Do lago...
algo enorme surgiu.
Fortão.
Matusa piscou.
— Você realmente afundou.
Fortão cuspiu água.
— Com técnica.
Uma criatura avançou contra ele.
Fortão nem desviou.
Recebeu o impacto.
A ponte rachou sob seus pés.
Ele permaneceu no mesmo lugar.
Segurou a criatura.
Jogou-a no lago.
— Estou melhorando.
E então as correntes azul atravessaram o ar.
Agonthor.
Selestia parou de sorrir.
Por um instante...
algo parecido com reconhecimento apareceu nos olhos refletidos.
— Você.
Agonthor caminhou sobre a ponte destruída.
Martelo na mão.
Correntes seguindo-o.
— Eu.
Reluz olhou para ele.
E alguma coisa em sua expressão mudou.
Como se, no meio de toda aquela destruição...
reconhecesse finalmente alguém que chegara por ela.
Agonthor olhou para a adolescente.
Por milhões de anos ele atravessara mundos.
Salvara desconhecidos.
Fechara portais.
Carregara feridos.
Entrara onde outros não voltariam.
Talvez nem ele soubesse quantas vezes estivera próximo da morte.
Mas a promessa permanecera.
Aquele dia antigo não havia sido o fim.
Porque um dia...
uma criança precisaria ser salva.
Agonthor estendeu a mão.
— Reluz.
Ela ficou imóvel.
— Como sabe meu nome?
Agonthor olhou para Selestia.
Depois para a menina.
— Porque eu esperei muito tempo para encontrá-la.
Selestia gritou.
Todos os espelhos avançaram.
Agonthor ergueu o martelo.
Matusa levantou as chamas.
Spactius cruzou as duas espadas.
As chamas arcanas se uniram sobre elas.
Marcus assumiu posição.
Energia dourada espalhou-se pelos braços.
Fortão fechou os punhos.
E Reluz...
ainda chorando...
deu um passo para trás deles.
Não era covardia.
Era a primeira escolha correta daquele dia.
A batalha começou.
Durante os minutos seguintes, Matusa perdeu qualquer noção de ordem.
Pretréfios-de-Ossos subiram do lago.
Reflexos atravessaram os espelhos.
Alguns copiaram soldados.
Outros copiaram Marcus.
Spactius.
Até Matusa.
Fortão ficou diante de uma cópia de si próprio.
A criatura avançou.
Os dois colidiram.
A ponte gemeu.
O Reflexo tentou empurrá-lo.
Fortão não saiu do lugar.
Matusa percebeu.
O falso Fortão tinha sua aparência.
Talvez até parte de sua força.
Mas não tinha aquilo.
Aquela resistência absurda.
Aquela capacidade quase impossível de permanecer de pé.
Fortão sorriu.
— Finalmente alguém bonito.
Deu uma cabeçada na própria cópia.
Depois a ergueu sobre a cabeça.
Matusa gritou:
— CONCENTRA!
— Estou concentrado!
Arremessou o Reflexo contra outros dois.
Do outro lado, dois Reflexos de Spactius avançaram.
O verdadeiro espadachim parou.
Observou.
As cópias tinham espadas.
Tinham postura.
Tinham seu rosto.
Mas não tinham sua história.
Spactius baixou o corpo.
As duas lâminas flamejaram.
Os Reflexos atacaram.
Ele desapareceu entre eles.
Primeira espada.
Bloqueio.
Segunda.
Giro.
Fogo arcano.
Mudança de ângulo.
Uma das cópias tentou reproduzir o golpe.
Spactius já havia mudado o ritmo.
A outra avançou.
Ele cruzou as duas lâminas.
Uma explosão prateada rasgou os dois Reflexos.
Os corpos se quebraram como espelhos atingidos por pedra.
Matusa viu.
Entendeu por que Argyros falava daquele homem.
Não era apenas rápido.
Não era apenas poderoso.
Spactius parecia pensar vários golpes antes do próprio combate chegar até ele.
Marcus gritou:
— Saída!
Agonthor abriu uma passagem.
Marcus conduziu Reluz para ela.
Matusa percebeu o plano.
Não vencer Selestia.
Salvar a menina.
Era isso.
Pela primeira vez, não havia orgulho algum na retirada.
Havia objetivo.
Matusa abriu uma muralha de fogo.
Spactius segurou a esquerda.
As duas espadas flamejantes criaram uma linha que nenhum Pretréfio atravessava inteiro.
Fortão fechou a direita.
As criaturas batiam contra ele.
Ele recuava.
Às vezes.
Mas não caía.
Marcus puxou Reluz.
Agonthor permaneceu atrás.
Sozinho.
— Agonthor! — gritou Matusa.
— LEVEM ELA!
Uma corrente atravessou três criaturas.
Outra fechou um espelho.
Selestia rugiu através de dezenas de rostos.
Matusa hesitou.
O velho impulso voltou.
Ficar.
Salvar Agonthor também.
Resolver tudo.
Marcus segurou seu braço.
— Matusa!
Ela virou.
Reluz.
A menina estava olhando para trás.
Se Matusa voltasse...
Reluz provavelmente voltaria também.
E então entendeu.
Às vezes proteger alguém significava aceitar que outro guerreiro permanecesse onde você queria permanecer.
Matusa recuou.
Com dor.
Mas recuou.
Agonthor viu.
E assentiu uma única vez.
Eles atravessaram a passagem.
Atrás...
o céu de Esmyralis parecia se partir.
Reluz chorava silenciosamente enquanto corria.
Matusa ficou ao lado dela.
Não disse que tudo ficaria bem.
Odiava promessas que ninguém poderia garantir.
Apenas permaneceu.
Então uma nova assinatura surgiu no céu.
Marcus parou.
Spactius olhou para cima.
Naves.
Douradas.
Muitas.
Fortão sorriu.
— Amigos?
Marcus observou os símbolos.
— Heliônides.
As formações desceram em velocidade.
Na primeira nave, uma figura estava de pé junto à abertura frontal.
Cabelos e barba loiros.
Armadura de Alasthian.
Uma lança na mão.
Não qualquer lança.
Uma arma antiga, refeita, marcada por um símbolo que Matusa reconheceu das torres da cidade fora do tempo.
Marcus respirou.
— Finalmente.
Matusa olhou.
— Quem é?
A figura saltou da nave antes que ela tocasse o chão.
Caiu entre os Pretréfios.
A lança descreveu um arco.
Uma dezena de criaturas foi lançada para trás.
O guerreiro ergueu o rosto.
Havia algo nele diferente até de Marcus.
Diferente de Agonthor.
Diferente de Heitor.
Não era juventude.
Mesmo que o corpo parecesse carregá-la.
Era tempo.
Tempo demais.
Marcus respondeu:
— Kael.
O guerreiro atravessou outra formação inimiga.
— Kael, a Última Lança.
Matusa observou.
Não sabia ainda que aquele homem havia atravessado eras.
Que o próprio Agonthor lhe dera o título depois de encontrá-lo lutando com a última arma que lhe restava.
Que Heitor refizera aquela lança e marcara nela o símbolo de Alasthian.
Que Kael se tornara desbravador de mundos, protetor de povos e, através dos séculos, um dos homens de maior confiança da Luz.
Naquele momento...
Matusa sabia apenas uma coisa.
Ele estava do lado deles.
E chegara exatamente quando precisavam.
Kael apontou a lança para as forças de Selestia.
— HELIÔNIDES!
Centenas de guerreiros responderam.
Luz dourada desceu sobre Esmyralis.
Reluz levantou o rosto.
Pela primeira vez desde que Matusa a encontrara...
havia esperança nela.
Matusa apertou a arma.
Spactius reacendeu as duas espadas.
Fortão fechou os punhos.
Marcus avançou um passo.
A batalha ainda não terminara.
Mas agora eles tinham uma saída.
E, em algum ponto atrás deles, Agonthor continuava lutando.
O homem que sobrevivera eras para encontrar aquela menina finalmente cumprira parte de sua promessa.
Apenas parte.
Porque o destino de Agonthor não terminaria em Esmyralis.
Nem o de Reluz.
Nem o de Matusa.
Naquele dia, porém, havia uma única coisa que importava:
a menina precisava viver.
