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Correr, Matar ou Sobreviver

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Resumo

O fim não chegou com um aviso. Chegou com gritos. Em poucas horas, as cidades se transformaram em corredores de fuga, portas foram arrombadas e o medo passou a andar pelas ruas. Quem não conseguiu fugir, morreu. Quem conseguiu, descobriu que estar vivo era apenas o começo. No meio do caos, um grupo de jovens se encontra sem saber se está diante de uma salvação ou de outra sentença de morte. Eles precisam seguir juntos, mesmo quando a confiança começa a apodrecer e cada um carrega coisas que prefere manter enterradas. Não há heróis. Não há regras. Não há garantia de que o amanhecer encontrará todos vivos. Para continuar respirando, será preciso correr quando houver uma saída, matar quando não houver outra escolha e sobreviver quando até isso parecer impossível. E, quando a humanidade começa a desaparecer aos poucos, talvez o maior perigo seja descobrir o que ainda resta dela dentro de você.

Status
há 16 horas
Capítulos
2
Classificação
5.0 (1 avaliação)
Classificação Etária
18+

1° Capítulo - Fome, Flechas e Gritos.

• Pietra

A noite engolia tudo. As ruas estavam vazias, escuras, uma névoa fina rastejava pelo asfalto rachado como respiração de coisa morta. Eu pisava leve, tão leve quanto conseguia, os pés doendo dentro do tênis furado, a barriga roncando tão alto que tinha medo de atrair eles antes mesmo de os verem. Dois dias. Dois dias sem comer nada além de um gole de água turva que achei numa garrafa jogada. A fome não era só incômodo — era agulha, era fogo, era coisa que me comia por dentro.


Avistei o mercado. Vidro quebrado, placa pendurada, porta emperrada, meio entupida de entulho. E eles — uns três, talvez quatro, perambulando devagar, corpos tortos, roupas podres, pele cinza e gretada, olhos vidrados sem brilho. Não me viram ainda. Sei disso. Eu respirei fundo, me abaixei, e atravessei a rua rastejando entre carros batidos, latas enferrujadas, cacos de vidro que cortavam a palma da mão. Quando um virava, eu parava, imóvel, coração batendo tão forte que doía no peito. Passou. Avancei.


Cheguei à porta. Estava trancada, emperrada, sujeira acumulada embaixo. A brecha era estreita, quase não dava. Me apertei, costas raspando na madeira podre, barriga comprimida, respiração presa. Dois deles se aproximaram, rosnando baixo, cabeças viradas pro lado como se farejassem. Eu me esforcei mais, doeu, arranhei a pele, mas passei. Caí do outro lado no chão sujo, sem fazer som.


O mercado era silencioso, escuro, cheiro de mofo e comida estragada. Caminhei devagar, olhando pra tudo, pra cada som, pra cada sombra. Prateleiras quase vazias. Peguei tudo que prestei — biscoito amassado, lata de feijão, pacote de arroz meio rasgado, barra de cereal velha — e joguei na mochila, rápido, sem barulho. Quase cheia. Quase.


Um som. Baixinho, de vidro se mexendo. Parei. O sangue gelou. Recuei devagar, pé atrás de pé, sem tirar os olhos da escuridão. Bati em algo duro. Firme. Girei rápido.


Estava bem ali. A um palmo de mim. Pele pútrida, olhos sem vida, boca aberta babando gosma amarela, dentes sujos e afiados. Rosnou — som gutural, de garganta rasgada — e me agarrou. Mão suja e fria fechou no meu braço com força brutal, dedos rígidos cravando na carne, puxando pra perto. Gritei, mas a voz saiu engasgada. Ele me empurrou pra trás, me prensou contra a prateleira, a outra mão agarrando minha garganta, aperto sufocante. O cheiro — carne apodrecida, sangue velho, sujeira — invadiu tudo. Abocanhou o ar bem na frente do meu rosto, dentes batendo querendo morder, e eu desviei a cabeça pra um lado, pescoço escapando por um triz.


Lutei. Chutei, bati com os punhos fechados no peito dele, mas não sentia nada. Era como bater em parede. Ele me segurou mais forte, unhas rasgando a pele do pescoço, e abriu a boca pra morder. Eu empurrei com tudo, gritando alto, desesperada, sem ninguém pra ouvir — e de repente ele parou. Ficou duro. E caiu pesado no chão, sem som.


Uma flecha espetada no meio da testa, bem funda.


Me virei tremendo. Homens. Vários, na entrada, vindo devagar. Roupas de combate, armas na mão, olhares pesados em cima de mim. Recuei, peguei a primeira coisa que vi — um cabo de vassoura, seco e rachado — e segurei firme, apontando pra eles.


Pietra:

— CHEGAR MAIS PERTO E EU QUEBRO ESSE PEDAÇO DE MADEIRA NA CABEÇA DE VOCÊS! AFASTEM!


Um deles, mais na frente, soltou uma risada seca, sarcástica. Postura ereta, olhar afiado, arrogante, calmo demais pro meu gosto.


???:

— Olha só. A menina acha que um pedaço de pau assusta alguém. Que graça.


Pietra:

— NÃO RIA DE MIM! EU TÔ FALANDO SÉRIO! DÃO UM PASSO A FRENTE E EU ACABO COM VOCÊ!


Ele não ligou. Andou devagar na minha direção. Eu levantei o cabo, tremendo, ameaçando bater. Ele passou do meu lado, nem olhou direito, se agachou perto do corpo no chão, puxou a flecha com força seca — som de carne rasgando —, limpou a ponta na roupa do morto, guardou no coldre das costas e voltou pro lugar onde estava, calmo como se tivesse apanhado uma folha do chão.


Outro homem deu um passo à frente. Mais alto, ombros largos, olhar firme, voz profunda. O líder.


???:

— Não vamos te machucar. Ninguém vai te tocar. Baixa isso.


Pietra:

— COMO EU VOU SABER? VOCÊS APARECERAM DO NADA, ARMADOS, ENCARAM COMO SE FOSSEM ME COMER! EU NÃO SOU NINGUÉM PRA VOCÊS!


???:

— Eu sei. Mas os dois lados não conseguem conversar com uma vara apontada pra cara. Baixa. Por favor.


Abri a boca pra responder — e o som veio. Batidas fortes na porta da frente. Vidro estilhaçando. Rosnadas altas, muitas, vindo de fora. Eles vinham. Muitos.


???:

— Ótimo. Perfeito. Agora vamos morrer aqui dentro. Que dia lindo.


A porta tremeu, rachou, cacos voaram. Cabeças surgindo pelo buraco, olhos brilhando na escuridão, bocas abertas.


???:

— SAINDO AGORA! PELA PORTA DOS FUNDOS, RÁPIDO!


Os outros correram. Ele ficou. Parado, me olhando, enquanto os barulhos aumentavam. Estendeu a mão, palma aberta.


???:

— Vem.


Olhei a mão dele. Olhei pra porta quebrada, os vultos avançando. Olhei pro cabo de vassoura na minha mão. O vidro estourou de vez. Eles entraram aos montes. Soltei o pau e peguei a mão dele.


Corremos. Ele segurava forte, me puxando, guiando entre corredores escuros e pilhas de coisas jogadas. Saímos pelos fundos pra rua, mas estavam lá também — saindo de becos, de carros, de qualquer buraco. Corpos sujos se movendo rápido demais, espertos demais, braços esticados pra me agarrar. Desviamos de um, ele puxou pra trás quando outro saltou de trás de um carro, o rosto a palmos do meu.


Entramos num beco estreito e escuro. Lá na frente, um portão de ferro aberto, e os outros acenando.


???:

— CORRAM! MAIS RÁPIDO! TÃO QUASE LÁ!


Os zumbis vinham atrás, batendo nas paredes, gritando sons que não deveriam existir. Olhei pra trás — e pisei errado. Escorreguei. Caí no chão de pedra, ralando a perna, dor aguda subindo. Um deles estendeu a mão, quase me tocou — e ele me puxou com força bruta, me levantando no impulso.


???:

— CORRE!


Chegamos ao portão. Ele me puxou junto, saltamos juntos, e o portão bateu forte fechando — com um som cortante quando a lâmina embaixo desceu e cortou a mão que estava esticada por baixo. O sangue escorreu pelas grades.


Caímos os dois no chão, ele por baixo, eu em cima, ofegantes, suando, corações disparados. O peito dele subia e descia rápido. Os olhos nos meus, perto demais.


???:

— Desculpa. — Se levantou rápido, estendeu a mão pra me ajudar. — Vem. Tá segura aqui.


Me levantei tremendo. Os outros nos olhavam, sérios, cautelosos.


Pietra:

— Não fui mordida. Nada. Olhem. — Mostrei braços, pescoço, pernas. — Nada.


???:

— Entrem. A noite já foi longa demais.


Passamos por um corredor comprido, porta grossa fechada e trancada com ferrolhos pesados atrás de nós. O lugar era diferente — limpo, organizado, mapas na parede, lanternas acesas, prateleiras com comida e remédios. Segurança. Algo que não sentia há muito tempo.


???:

— Senta aí. — Apontou pra um sofá de tecido desbotado.


Pietra:

— Não precisa, eu tô bem.


???:

— Senta. Por favor.


Sentei. Ele foi até mim, agachou perto dos meus pés.


???:

— Deixa eu ver sua perna. Tem uma ferida.


Pietra:

— Ferida?


Ele já tinha saído. O mais novo, o que gritou lá fora, veio sentar do meu lado, abrindo uma lata de conserva.


???:

— Essa aqui. — Apontou pro meu pé. A calça estava rasgada, a pele ralada e sangrando. — Ficou feia, né?


Comia com vontade, suco escorrendo pelo queixo. Ofereceu a lata.


???:

— Quer?


Pietra:

— Não, obrigada. Tô bem.


Meu estômago roncou alto, tão alto que dava vergonha. Ele sorriu de canto, divertido.


???:

— Claro que tá. — Me entregou a lata. — Come. Não vai fugir.


Comi depressa, quase engasgando, o sabor simples parecendo a coisa mais gostosa do mundo. Dois dias sem comer. Engolia pedaços grandes sem mastigar direito.


???:

— Devagar. Ninguém vai tomar de você. Tem mais. — Me deu uma garrafa de água. — Bebe. Vai.


Bebi, devagar dessa vez, sentindo a água descer e acalmar o fogo.


Ele voltou com um pote e um pano. Se agachou de novo.


???:

— Posso? Na sua perna?


Assenti. Ele levantou a barra da calça com cuidado. O arranhão era comprido, fundo o bastante pra sangrar, sujo de terra.


???:

— Não é profunda, mas tá suja. Se infeccionar, vai doer mais do que já dói. O mundo lá fora é contaminado. Nada é limpo.


???:

— Ele gosta de assustar as pessoas! Não é tão ruim assim!


???:

— Não tô assustando, tô avisando. — Sorriu leve, e o clima pesado afrouxou um pouco. — Vai arder. Segura.


Passou o pano com o remédio. Ardeu, queimou forte, apertei os dentes.


O arrogante apareceu na porta, girando o bastão na mão com agilidade, sem esforço. Olhou pra todos, depois pra mim, fixo, sem piscar.


???l:

— Tão alegres pra quem quase morreu. Deveríamos examinar ela direito. Ninguém sabe onde andou, o que tocou. Ninguém aqui é médico. — Os olhos dele eram gelados, diretos. — Não é?


Desviei o olhar, desconcertada. Notei alguém parado na outra porta, imóvel, encostado na sombra. Alto, cabelo escuro, olhar pesado, frio, sem expressão. Não se mexeu. Não falou. Todos olharam pra ele.


???:

— Esse é... — Hesitou. — Ainda não nos apresentamos. Eu sou Derick. Esse aqui é Yuri.


Yuri:

— Prazer!


O desconhecido bufou, girou o bastão mais forte.


???:

— Bobagem. Ela não fica. Não precisa de nomes. — Saiu, passando perto, sem me olhar.


Outro surgiu. Sem camisa, peito e braços cobertos de cicatrizes velhas e tatuagens escuras, músculos definidos pelo esforço, não academia. Me olhei e arregalei os olhos sem querer. Ele percebeu. Sorriu, de lado, convencido.


???:

— Nunca viu um homem sem camisa? Relaxa, não mordo. — Passou a mão num braço, olhando as marcas. — A menos que peça.


Fiquei sem palavras, apenas olhando. Ele riu baixo e seguiu o corredor escuro onde o outro tinha ido.


Derick:

— Vou te mostrar onde vai dormir. Vem.


Me ajudou a levantar. Yuri veio junto. Caminhamos por corredores escuros, paredes com quadros tortos, chão de assoalho rangendo.


Pietra:

— Isso é uma escola?


Yuri:

— Era. Até o mundo acabar. Como não percebeu antes?


Pietra:

— Tava ocupada tentando não morrer.


Subimos escadas. O segundo andar era silencioso, cheiro de pó.


Yuri:

— Se não tiver quarto livre, pode dormir no meu! Tem espaço!


Derick:

— Ela vai ter um quarto, Yuri. Deixa ela descansar.


Pietra:

— Obrigada, Yuri. Muito gentil.


Ele sorriu, corou leve.


Yuri:

— Boa noite! Meu quarto é o terceiro porta à esquerda, se precisar de algo!


Andamos mais um pouco.


Pietra:

— Obrigada. Por me puxar. Por não me deixar lá.


Derick:

— Era o certo a fazer. Boa noite.


Entrei. Quarto simples, cama arrumada, cômoda, cadeira, janela com madeira pregada nas laterais mas com uma fresta pra ver fora. Joguei a mochila no chão, me sentei na beira da cama. O cansaço pesava mais que o medo.


Fui até a janela. Lá embaixo, no pátio escuro, Hariel treinava. Sem camisa, suando, o bastão cortando o ar com precisão, movimentos rápidos, fortes, repetidos mil vezes. Fiquei observando — não por ele, mas pelo jeito, pela técnica, pra guardar cada movimento. Quando ele virou na minha direção, me afastei rápido.


Deitei. O colchão era duro, mas parecia nuvem. Fechei os olhos e a última coisa que pensei foi: Quem são eles? E por que eles me olhavam como se eu fosse a única mulher do mundo?


E dormi.

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