Prólogo
No momento em que o céu se abriu acima de Montgomery Manor, um rugido grave e ressonante abalou as fundações daquela estrutura antiga. As vigas de carvalho retorcidas, escurecidas por séculos de intempéries, gemiam como se estivessem sob um peso impossível. As paredes de pedra, antes sólidas, tremeram, expelindo lascas de argamassa e pedregulhos que deslizavam pelo chão úmido pela chuva como insetos assustados. Um estrondo de trovão ecoou pelas colinas distantes, cada trovoada batendo contra as vigas de carvalho e fazendo as telhas do telhado inclinado chacoalharem. Então veio a chuva; lençóis de água tão pesados e implacáveis que pareciam metal derretido despejando-se sobre os terraços e balaustradas, cada gota um tamborilar incessante sobre o arenito desgastado. Nuvens cor de tinta revolviam-se acima, devorando a luz do dia em sua voracidade. E, em um clarão intenso, um raio rasgou o salão principal ao meio: colunas de mármore brilharam como esculturas de gelo, tapeçarias de seda congelaram no ar e partículas de poeira pairaram luminosas na claridade súbita, antes de o mundo mergulhar novamente em um silêncio tão profundo que parecia que a própria tempestade havia engolido o som.
Dentro desse silêncio pesado estava Finella Montgomery, encharcada e trêmula. Seu vestido de seda, antes cor de marfim, era agora um véu fantasmagórico colado ao seu corpo esguio, brilhando sob a luz vacilante das tochas. Cachos escuros, pesados pela água, pingavam sobre sua nuca, traçando dedos frios ao longo de seus braços. O ar cheirava a pedra úmida, argamassa com musgo e o cheiro forte de ozônio; um perfume úmido que dava um nó em seu peito e acelerava seu pulso, até que cada batida do coração parecia um eco frenético da fúria da tempestade.
Das sombras densas emergiu Charles Montgomery, alto e imponente como um sentinela sombrio. Seu pesado casaco de montaria estava ensopado, com fios de água escorrendo pela gola e formando poças no chão. Os anéis de aço nos saltos de suas botas tilintavam como correntes distantes a cada passo calculado. Seu chapéu de abas largas estava inclinado para baixo, pingando no assoalho, mas, sob ele, seus olhos brilhavam — avermelhados, selvagens de acusação, queimando através das sombras que se formavam. “Você o trouxe para cá”, ele sibilou, cada palavra como um estilhaço de gelo. “Para a minha casa. Para a minha cama.” A acusação atingiu o salão como uma lâmina, cortando o silêncio em duas metades trêmulas.
A respiração de Finella travou em sua garganta. Ela ficou estática, lábios tremendo, peito ofegante, como se as próprias paredes conspirassem para esmagá-la sob as palavras dele. Um tremor de medo percorreu seus membros; até as pedras frias sob seus pés pareciam sufocantes.
Das sombras profundas atrás de Charles, surgiu Alaric Croft, Barão de Blackwood, parecendo um nobre guerreiro mesmo sob a chuva torrencial. Sua camisa de linho, encharcada e colada ao corpo, delineava a força esguia de seu peito e ombros. O cabelo escuro estava grudado na testa, com gotas de água brilhando nos cílios longos como lágrimas cristalinas. Sob a luz trêmula das tochas, seus olhos brilhavam com determinação inabalável e uma ternura feroz escondida — um voto silencioso de dedicar sua vida à proteção dela.
Por um instante, o tempo parou. A mente de Finella transbordou com memórias tão vívidas e tumultuadas quanto a tempestade lá fora: o aperto firme do seu pai forçando sua mão trêmula contra a de Charles; o salão de banquetes iluminado por tochas douradas e risadas tão vazias quanto os ecos no teto abobadado; o murmúrio suave de Alaric entre os bosques de bétulas, sua voz uma melodia quente que fazia seu coração florescer como a primeira flor da primavera. Ela se lembrou da doce dor que percorreu suas veias na primeira vez que compreendeu o amor.
A sombra de Charles avançou novamente, cada músculo tenso de fúria. Alaric levantou os braços — não em agressão, mas em defesa firme da mulher que amava, uma promessa silenciosa de que nenhuma ameaça passaria por ele sem resistência. “Ela é minha”, Charles rosnou, cada sílaba cuspida como veneno. “Nunca será sua”, respondeu Alaric, com a voz tão firme e inabalável quanto um pinheiro antigo. “O coração dela, a alma dela... não pertencem a nenhum tirano.”
Em um movimento rápido, Charles desferiu um soco potente. O som do impacto contra o osso ecoou sob os arcos altos enquanto Alaric caía para trás, sua capa espalhando-se como tinta derramada no mármore. O grito de Finella, cru de terror, perfurou o ar carregado. Ela avançou, mas Charles a segurou pelo braço. A seda rasgou com um som úmido. A borda de uma pedra afiada arranhou seu pulso, fazendo uma dor aguda florescer em tons de vermelho vivo sob sua pele. “Você envergonhou esta casa”, ele sibilou, puxando-a para trás com tamanha violência que seu cabelo encharcado chicoteou contra o casaco dele. “Você me humilhou.”
Quando a tempestade finalmente diminuiu, o salão principal mergulhou novamente em um crepúsculo sombrio. Brasas brilhavam fracamente na lareira, chiando conforme as faíscas morriam nas cinzas. Charles sentou-se ereto em sua cadeira de carvalho esculpido, como uma gárgula de pedra que ganhara vida. Finella estava encolhida em um banco baixo, seu cabelo uma coroa emaranhada de mechas pingando, uma bochecha inchada em um hematoma da cor de uma ameixa ao luar. A barra de seu vestido estava em farrapos.
Um silêncio sufocante pairou entre eles até que Charles se levantou com uma lentidão deliberada. Suas botas estalaram no chão frio enquanto ele falava, a voz fria e clara como gelo deslizando sobre a rocha: “Você está grávida.” As palavras a atingiram como uma marretada nas costelas. Ele parou ao lado dela, impondo-se. “É dele?”
Finella apenas conseguiu olhar, seu coração batendo em um silêncio tão profundo que ela temeu que pudesse se despedaçar.
Sem aviso, o punho dele cortou o ar e atingiu sua outra bochecha com um estalo estrondoso. O fogo floresceu em seu rosto. “Você vai embora”, sussurrou ele, de forma baixa e terrível. “Leve esse bastardo para bem longe daqui. Quando você retornar, terá que me dar filhos — ou eu a enterrarei ao lado dele.”
Ele se virou, com o casaco esvoaçando, e caminhou em direção à penumbra. A última brasa na lareira apagou-se, deixando o salão em uma escuridão opressiva.
Por três dias e noites intermináveis, o quarto de Finella tornou-se sua prisão. A única janela fechada admitia o uivo lamentoso da tempestade, mas nunca a luz. Os pavios das velas queimaram até o fim, chorando lágrimas amarelas que se acumulavam em rastros de sal no parapeito. Ela sentava-se a uma pequena escrivaninha, pena em punho, diante de uma única folha de pergaminho tão imaculada que parecia zombar de seu vazio.
Na terceira noite, quando uma lua pálida, branca como osso, ousou esgueirar-se entre as nuvens revoltas, ela se curvou sobre a mesa e deixou que sua pena sangrasse sua alma sobre a página:
Alaric,
Vejo as garras de sua suspeita em cada sombra que ele projeta. Não consigo respirar sob esse ódio — não consigo dormir, não consigo comer, não suporto o peso de sua fúria pressionando minhas costelas. Estou me desfazendo. Encontre-me ao anoitecer em nosso bosque de bétulas. O olhar de Montgomery não pode nos alcançar lá. Não posso permanecer mais um momento nesta casa de medo, não com nosso filho crescendo sob meu coração. Recuso-me a deixá-lo reivindicar o que é nosso ou ver nosso bebê crescer em meio à violência e ao terror. Estou fugindo deste casamento, desta prisão — mas não posso ir sozinha. Minha força vacila; meu corpo treme. Preciso de você agora, Alaric, como uma mulher lutando por sua vida e pela vida de nosso filho. Venha por mim antes que toda esperança se perca.
Sua para sempre, Finella
Seus dedos tremiam enquanto ela pressionava cera carmesim derretida sobre o selo. Lágrimas caíram, manchando a tinta com fitas translúcidas. Ela guardou a carta perto do coração e esperou, com cada nervo em alerta.
No brilho suave do pôr do sol, Alaric veio. Encapuzado contra o frio, ele estava entre as bétulas esguias — suas cascas prateadas fantasmagóricas na luz fraca — com a respiração formando pequenos sopros brancos. A floresta estava silenciosa, como se ela também não ousasse trair o segredo deles.
Mas Finella nunca apareceu.
Das sombras surgiu Charles, com a espada desembainhada, seu aço cruel sussurrando uma promessa de sangue. Em um instante, o mundo tornou-se vermelho quando ele avançou. Alaric caiu em uma fonte de sangue, colapsando nas folhas úmidas sob os carvalhos antigos. Ele ergueu a cabeça uma única vez — os olhos ainda brilhando com amor e agonia — antes de mergulhar na escuridão. Charles ajoelhou-se, pressionando o barão caído contra a terra macia, então sussurrou: “Ela nunca mais o verá”, enquanto cobria a forma sem vida com terra.
As estações passaram sobre os pântanos fustigados pelo vento. Finalmente, Finella encontrou refúgio em uma solitária cabana de pedra cinzenta situada em uma costa banhada pelo sal. Uma cama rústica, uma parteira bondosa e o grito incessante das gaivotas eram seus únicos confortos. Em uma noite, sob um manto de estrelas de inverno, o trabalho de parto a dominou com força impiedosa. Ela agarrou as colunas de sua cama simples, suor e lágrimas se misturando em sua testa, até que os primeiros dedos pálidos do amanhecer surgiram no horizonte. Quando a dor diminuiu, o choro feroz de um recém-nascido preencheu seus braços — uma menina, de cabelos escuros e viva, dando seu primeiro suspiro contra o coração trêmulo de sua mãe.
Naquela manhã, a porta da cabana rangeu ao abrir. Charles estava parado na luz pálida, alto como uma sombra. “Ela não é minha”, declarou ele, com a voz plana como o céu de inverno. “Nunca a reconhecerei.” Seu olhar passou pela mãe e pela criança. “Fique com ela, então. Mas se você algum dia retornar, me dará filhos — ou virei buscar a menina.”
Ele bateu a porta, o eco ainda ressoando nos ossos de Finella.
Acariciando sua filha, Finella pressionou a cabecinha contra sua bochecha machucada. Entre lágrimas, ela sussurrou o nome que carregava há tanto tempo: “Celia” — um nome que significava dádiva dos céus, a esperança corporificada em um batimento cardíaco frágil.
Quando os primeiros raios suaves do amanhecer douraram o bosque de bétulas, Finella estava mais uma vez sob sua copa prateada. Um pequeno montículo marcava o lugar onde Alaric dormia, e ela se ajoelhou, pressionando a palma da mão contra a terra fria e escura. “Eu tenho uma filha”, sussurrou ela ao vento. “Ela tem seus olhos.” As folhas farfalharam acima, como se oferecessem uma bênção.
Acariciando Celia, Finella levantou-se e deu um passo em direção ao brilho suave da manhã, carregando cada fragmento de sua tristeza e cada fio luminoso de uma nova esperança que ela ousava tecer.