|1.| Coração Partido
Everly
“EVERLY, VOCÊ VAI SE ATRASAR PARA O SEU CASAMENTO!”, minha madrasta gritou descontrolada.
“BIANCA EVERLY JENNINGS!”, continuou ela, berrando.
O motor rugiu sob mim enquanto eu pisava no acelerador. Com um sorriso, acenei para minha madrasta, que estava com o rosto vermelho de fúria. Decidindo provocá-la ainda mais, bati a porta com força.
“Diga a ela que ela pode ir se arrumar, porra. Não preciso dela por perto”, ordenei a um dos seguranças que estava próximo. Ele ergueu a sobrancelha por baixo de seus óculos escuros estilo Aviador.
Pisei fundo no acelerador e arranquei, soltando uma risada enquanto os gritos da minha madrasta desapareciam no retrovisor. Honestamente, ela precisa de uma distração. Claro, é da família, mas é um pé no saco e nem somos tão próximas.
Segurando firme o volante, fiz a curva e acelerei pela estrada.
A luz do sol beijava minha pele clara enquanto eu serpenteava pela estrada sem fim em minha mais nova obsessão: uma Lamborghini Urus, recém-saída da minha loja.
Papai me deu essa beleza rara de presente de casamento. É um presente incrível, mas já planejo vendê-lo. Agradeço o gesto, de verdade, mas meu coração está voltado para outros planos. Assim como cada carro que consigo colocar as mãos.
Talvez pareça que estou atrás de dinheiro, mas isso é a última coisa na minha mente. Como a maior vendedora de carros de luxo da Califórnia, eu busco reconhecimento, não riquezas.
Viver em uma sociedade onde lobisomens e humanos coexistem é difícil. Não só porque temos que manter nossa raça em segredo, mas porque, como híbrida, sou julgada.
Sim, me julgam por ser diferente. Outros lobos me veem de um jeito estranho, como deveriam, enquanto minha loba, Ivy, os ignora. Mas, por enquanto, o pior é que quebrei outra regra ao me casar com um humano, alguém que não é meu companheiro de alma.
Sim, Jonathan London Smith, dono das dez maiores empresas de petróleo e meu amor da faculdade.
Jonathan e eu estamos juntos há seis anos. O motivo? Ainda não encontrei meu companheiro; nem acho que tenha um.
Já passei da idade em que se encontra o companheiro. Tenho vinte e oito anos e estou sozinha. Viajei o suficiente para saber que não existe ninguém lá fora para mim. Então, Jonathan me pediu em casamento há um ano, e hoje era o dia do nosso casório.
Ainda assim, eu estava dirigindo meu carro novo na estrada, quando deveria estar me arrumando.
Meus olhos se voltaram para o painel.
Eu ainda tinha mais três horas até o casamento, tempo suficiente para passear com essa belezura pela cidade. Parando no sinal vermelho, meus olhos se moveram para o lado. A mais nova Cadillac Escalade Platinum estava ao lado da minha. Lentamente, levantei a armação dos meus óculos Gucci, abaixando-os um pouco.
Não é o carro que vendi recentemente?
Surpresa ao ver um dos meus carros, sorri. Duas semanas atrás, vendi uma Cadillac Escalade preta para um cliente. O nome dele era anônimo, então eu ainda não sabia quem era o comprador. Mas saber que estava em boas mãos era o bastante. Segurando o volante, buzinei e segui meu caminho.
“Eu não acredito! Você está tão atrasada!”, minha madrasta repetiu pela quinta vez nos últimos dez minutos.
“Eu não estou atrasada; todo mundo é que chegou cedo demais.” Esse era o meu lema. Um que eu sempre repetia, especialmente quando os clientes ficavam impacientes.
Revirando os olhos em sinal de derrota, esperei pacientemente enquanto o segurança abria a porta. Então, descendo do meu Rolls Royce favorito, entrei no hotel grandioso.
Jonathan e eu decidimos fazer nossa cerimônia e recepção em um dos melhores hotéis da Califórnia.
O hotel Grand Luna. O nome era estúpido e nada do meu gosto.
Tudo o que eu sabia sobre os rumores era que a rede de hotéis Luna pertencia a um Alfa. Quem? Eu não sabia e não me importava. Porra, eu nem sabia quem era o Alfa da nossa alcateia.
A vida entre os humanos me mudou. A cada dia que passa, sinto-me menos loba e mais humana. Apertando meu vestido branco esvoaçante, entrei no saguão, com os nervos subitamente à flor da pele.
Forcei um sorriso radiante e segui em frente. Estávamos com uma hora de atraso, mas não é esse o privilégio de uma noiva?
Finalmente, cheguei ao salão da cerimônia, com minha madrasta mexendo no meu vestido. Do outro lado do salão, os repórteres pairavam como abutres, famintos por um escândalo.
“Aí está você!”, a voz alegre da minha melhor amiga, Tatiana, chegou aos meus ouvidos. Um sorriso brilhante e olhos marejados me receberam.
“Nem começa, Tatiana”, ordenei, rosnando. Tatiana apenas revirou os olhos e balançou os braços no ar antes de finalmente me abraçar.
“Eu não consigo evitar”, disse ela, rindo enquanto um soluço escapava de seus lábios.
Eu queria dizer que estava bem, mas as palavras ficaram presas. Uma inquietação tomou conta dos meus pensamentos. Minha loba ficou agitada, mas por quê? O que a estava perturbando agora?
“Everly, você está bem?”, minha melhor amiga perguntou, mas minha mente estava em outro lugar. Minha loba choramingava na minha cabeça. O que havia de errado?
As portas duplas brancas rangeram quando minha assistente espiou para fora.
Levantei a cabeça rapidamente. Eu não tinha tempo a perder com sentimentos estúpidos. Eu estava prestes a me casar, pelo amor de Deus, mesmo que não fosse com meu companheiro. Eu era a mais feliz das mulheres.
Meu pai se aproximou de mim, me dando uma bronca. Dei um beijo em sua bochecha e toquei seu braço.
“Está na hora; vamos não fazer os convidados esperar”, sorri abertamente.
Mas meu sorriso desapareceu assim que cheguei à frente. O buquê de rosas brancas caiu no chão de mármore enquanto uma única lágrima escorria pelo meu rosto. Os suspiros da multidão tornaram-se um zumbido enquanto meus olhos permaneciam fixos no meu noivo.
“O QUE SIGNIFICA ISSO, JONATHAN?”, meu pai gritou enquanto uma veia saltava em sua testa enrugada. Eu podia ver que ele estava tentando controlar seu lobo.
Com os olhos grudados na frente, comecei a sentir náuseas. Estariam meus olhos me enganando?
Parada diante de mim estava minha suposta amiga Maxime, com uma barriga enorme e um teste de gravidez que dizia que Jonathan era o pai. Minhas mãos foram à boca. Meu estômago revirou, e os copos de uísque que tomei antes ameaçaram subir.
“Everly”, meu noivo sussurrou, mas eu levantei a mão.
Uma risada escapou dos meus lábios. Jonathan parecia surpreso com minha reação. Ergui a cabeça e encarei-o.
Um olhar de culpa atravessou seu rosto pálido. Era a confirmação que eu precisava.
Soluçando, virei-me e saí correndo do salão. Cobri a boca, sentindo-me humilhada.
Deixei o lugar.
Meu coração estava em pedaços. Essa dor indescritível apertava meu peito.
Ouvi as vozes da minha madrasta e da minha melhor amiga enquanto eu engasgava e caía no choro. Como ele pôde me trair desse jeito?
Corri para o elevador, apertando o botão com as mãos trêmulas.
Eu precisava escapar, me transformar, desaparecer. Quando as portas se abriram, entrei tropeçando, caindo de joelhos. A dor veio, mas mal notei.
Tudo o que eu queria era fugir dessa desilusão, desse pesadelo, dessa mentira.
Encolhida no canto, rasguei meu vestido, com a raiva queimando dentro de mim. Se ele não fosse humano, eu poderia tê-lo matado ali mesmo. Em vez disso, deixei minha fúria arder.
Chegando ao saguão, levantei-me e, de cabeça baixa, saí correndo do elevador. Por acidente, esbarrei em alguém.
“Sinto muito”, minha voz falhou enquanto eu me desculpava. Então, sem me importar com quem era, continuei correndo em direção ao meu carro. Felizmente, meus seguranças ainda estavam lá.
Chutando os sapatos para longe, desci os degraus da entrada. Olhos curiosos me seguiam; claro, todos queriam um vislumbre da noiva abandonada que tinha acabado de ser traída.
“ABRAM A PORTA!”, ordenei furiosa.
Eu sentia minha loba querendo assumir o controle. Quanto mais longe eu estivesse agora, melhor. Tudo o que eu precisava era ir para longe e me acalmar.
Ouvi os seguranças dando ordens. Um deles abriu as portas. Ao dar um passo, uma mão agarrou meu braço. Puta da vida, virei-me.
Por favor, que não seja o Jonathan.
Meus olhos embaçados se voltaram para a pessoa. Um homem enorme, com um olhar preocupado, me observava de cima.
Uma aura inebriante me pegou de surpresa. Fazendo-me puxar meu braço de seu toque, recuei.
Lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto melequento. Limpei o rosto com as costas da mão. Aposto que meus olhos pareciam os de um guaxinim. Todos borrados e horríveis.
O homem não disse uma palavra. Ele apenas me observava. Seus olhos buscavam algo que eu não conseguia entender. O que aquele estranho estava pensando?
“Vai se foder”, ordenei e entrei no carro. Tentando fechar a porta, o homem colocou sua mão enorme, porém bem cuidada, sobre a moldura da porta.
“Que porra é essa!”, cuspi com raiva.
Sem ceder, fiquei irritada e fiz o que ninguém esperaria. Tirei minha pistola Winchester Magnum 9mm. O cabo de prata frio parecia familiar na minha mão. Apontando para a testa dele, vi os olhos do homem se arregalarem.
Rosnados baixos chegaram aos meus ouvidos. Olhando por trás dele, vi vários seguranças cercando-o. A raiva era evidente em seus rostos.
Meus olhos voltaram a focar no homem à minha frente.
“Agora fecha essa porra de porta, ou vou ter certeza de foder com o seu cérebro.” Então, levantando ambas as mãos em sinal de rendição, ele recuou lenta e firmemente.
Abaixando minha arma, ele bateu a porta. O olhar dele não passou despercebido. Ele ficou com raiva de verdade? Ninguém pediu para ele me impedir.
Finalmente, dando a ordem para partir, entramos no trânsito. Meu carro e outros três SUVs pretos nos seguiam.
“Para onde, senhora?”, perguntou meu chefe de segurança. Suas sobrancelhas estavam franzidas de preocupação.
“Vamos para a minha casa em Santa Barbara”, sussurrei, apoiando a cabeça nos joelhos. Então, abraçando-os com força, deixei um soluço escapar. Como ele pôde fazer isso comigo? Ele não disse que só me amava?
Afundando no desespero, deixei minhas lágrimas fluírem, sabendo que odiaria o reflexo que me aguardava mais tarde.



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