Prólogo
Fiquei parada em frente ao espelho de corpo inteiro, lançando um olhar de nojo para o meu reflexo, me perguntando por que eu tinha que ser tão gorda. Tá, eu sei que não precisava ser assim. Não é culpa minha gostar de comer. Processa aí. Por ser uma lobisomem, provavelmente deveria estar em forma, mas não estava, e todos os outros lobos me zoavam por isso. Mal podia esperar para encontrar meu companheiro, no entanto. Meu irmão mais velho por alguns minutos, Alex, tinha me dito que, quando eu encontrasse meu companheiro, ele não ligaria para a minha aparência. Que, não importava o que fosse, ele me amaria pelo que eu era. Nossa, como ele estava enganado. Voltei a lembrar dos acontecimentos do dia, tentando conter as lágrimas silenciosas.
Caminhei pelos corredores da escola, ignorando os olhares de ódio e os cochichos.
— Meu Deus, ela é uma porca gorda.
— Tenho pena de quem tiver que ser companheiro dela.
— Vaca gorda.
— Volta pro chiqueiro.
— Piranha.
Continuei andando. Olhei para as minhas sapatilhas pretas e acabei esbarrando em alguém. O leve toque fez meu corpo formigar, e ignorei a dor no traseiro por ter caído.
Ergui os olhos por entre os cílios grossos e vi o melhor amigo do meu irmão, Cade.
>Companheiro<, minha loba me disse. Assim que entendi o que ela queria dizer, tive vontade de sair pulando de alegria. Cade era meu companheiro! Ele era o próximo na linha para ser Alfa da alcateia dele. A alcateia aliada do meu pai. Eu tinha uma queda por ele desde sempre. Ele era só um ano mais velho que eu. Por um instante, ficamos só nos encarando. Cade pareceu meio aéreo por um segundo, mas então seu rosto lindo se transformou numa carranca.
— Olha por onde anda, sua vadia.
— Hã? — perguntei, confusa. Não entendia por que ele estava sendo tão grosso comigo. Ele não tinha sentido o que eu senti? — Você é meu companheiro. Você sentiu, não sentiu?
Algo brilhou nos olhos dele, mas ele disfarçou rápido demais para eu entender o que era. — Do que você está falando, sua piranha? Sei que você tem uma quedinha por mim, mas dizer que somos companheiros só pra eu cair na sua cama… isso é baixo.
Arfei, chocada com o jeito que ele estava me tratando. — Mesmo que você fosse meu companheiro, não faria diferença, porque eu te rejeitaria de qualquer jeito. Quem ia querer uma gorda, feia, preguiçosa e imatura como companheira?
Tentei segurar as lágrimas. Empurrando o chão, passei correndo por ele, ignorando as faíscas que subiram pelo meu braço com o contato, e andei apressada até a próxima aula, enxugando as lágrimas que escorriam.
Era hora do almoço, e eu estava sentada com minhas amigas. Avery, Alyssa e Tammy. Elas eram minhas únicas amigas e me aceitavam do jeito que eu era, como meu companheiro deveria fazer. Também me defendiam, e por isso eu era grata, mas nem isso impedia as palavras de doerem. Nada conseguia. Estava com a cabeça apoiada nas mãos quando senti os formigamentos percorrendo meu corpo.
— Preciso falar com a Scarlett. — A voz profunda e sexy dele avisou minhas amigas. Elas só assentiram, não queriam arrumar confusão com o Alfa. Pois é, meu companheiro também era o Alfa e o maior pegador do planeta. Cade segurou meu braço e me puxou para fora da cantina, levando-me para uma sala de aula vazia.
— Escuta aqui, sua porca gorda, porque só vou dizer isso uma vez. — Ele começou, duro. — Eu te rejeito. Te rejeito porque você é mais gorda que uma porca. É preguiçosa. Mas, acima de tudo, por que eu ia querer uma companheira feia se posso ter qualquer garota que eu quiser? Você é patética. Sai da minha frente. — Ele me empurrou e saiu da sala. Senti meu coração se partir em um milhão de pedaços.
Fugi das últimas aulas, entrei no meu carro velho e detonado e dirigi para casa como se o diabo estivesse no meu encalço. Quando cheguei, peguei minha mochila e enchi com tudo o que precisava. Dinheiro, roupas e meus pertences mais preciosos.
Virei as costas para o espelho e desci as escadas. Já tinha deixado minha mochila lá embaixo, pronta para ir embora. Faltavam uns 45 minutos para a alcateia começar a voltar. Fui até a cozinha, peguei um papel e uma caneta e comecei a escrever.
Mãe, pai… Alex, sinto muito por estar indo embora. Mas estou cansada de aguentar todo mundo me zoando por ser gorda e feia. Não sei por quanto tempo vou ficar fora. Talvez para sempre. Mas saibam que eu amo vocês, não importa o que aconteça. Desculpem não poder ficar, mas hoje aconteceu algo que virou tudo de cabeça para baixo. Encontrei meu companheiro, mas ele me rejeitou. Não é culpa de vocês eu estar indo embora. Só estou cansada dos amigos do Alex e de todo mundo na escola me enchendo o saco, incluindo o Cade.
Com amor, sempre, Scar. Beijos.
Deixei o bilhete cair sobre a mesa, peguei minhas coisas e saí. Corri para dentro da mata e, depois de um tempo, fui para trás de uma árvore, tirei a roupa, guardei na mochila e me transformei na minha loba branca, disparando entre as árvores com a mochila presa entre os dentes.
Minhas patas batiam no chão enquanto eu corria. Corria para longe de casa. Para longe da minha família. Para longe da antiga eu. Prometi a mim mesma, em silêncio, que iria mudar. Não por ele, mas por mim. Nunca mais seria a garota tímida, gorda e feia. Eu seria a Scarlett Rose Maxwell nova, confiante e melhorada.