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Ellie
Hoje esbarrei num cadáver.
Estava tão perdida nos meus pensamentos que nem estava a prestar atenção ao meu redor, isto é, até tropeçar em alguma coisa, quase perdendo o equilíbrio. O meu olhar então é desviado para o chão, como que à procura de uma resposta. Foi então que reparei no que me fez tropeçar, ou melhor, em quem. Diante de mim encontra-se um homem estendido no pavimento, envolvido numa poça de sangue. Sinto os meus músculos ficarem tensos com a cena diante de mim. Se o meu dia já estava uma porcaria, acabara de piorar. Coloco-me de joelhos diante do corpo jacente, pressionando o meu dedo contra o seu pescoço, à procura da artéria. Tenho a certeza que está morto, mas não consigo deixar de verificar mesmo assim.
Tal como pensei, não encontro nenhuma pulsação, a sua pele encontra-se mais fria do que a temperatura regular, mas não tão gélido como a temperatura ambiente. Foi morto durante as últimas vinte e quatro horas, no máximo. Não há sinais de que o sangue circule pelo seu corpo, pelo que, devido à gravidade, estagna nas partes inferiores do corpo, deixando a pele num tom roxo escuro, tal como manchas. Os seus músculos estão endurecidos, devido ao rigor mortis, o que significa que morreu entre quatro a oito horas antes .
Sinto-me enjoada, nunca tinha visto um cadáver na vida, e definitivamente não precisava de ver um agora. Um sabor amargo forma-se na minha boca, suor gélido começa a escorrer pelo meu corpo. Levanto-me apressadamente. A minha mente só gritava: “Foge!”, mas não posso simplesmente ignorar a minha descoberta. Ligo à polícia e vou-me embora, após responder a algumas perguntas e deixar o meu número, claro. Consigo ouvir o som das sirenes enquanto me afasto, o que me deixa ainda mais abatida. Era verdade. Eu acabei de reportar um cadáver. Só quero me ver livre daquela imagem, ainda consigo sentir o cheiro a sangue todas as vezes que inspiro. Só quero me ver livre de todos os problemas que surgem na minha vida. Só quero morrer.
Inconscientemente, caminho para um pequeno bar que costumo frequentar, o meu corpo encaminha-se para lá, quase automaticamente, sempre que me sinto em baixo (o que acaba por ser quase todos os dias). Já sou cliente habitual naquele espaço, situado longe das atenções. Outra coisa que gosto. Fugir dos olhares das pessoas. Odeio sentir-me observada.