Capítulo 1
Os sapatos de couro com cadarços surrados batiam contra o belo e cuidado caminho de pedras que se destacava em meio às ruas pavimentadas da vibrante cidade. O centro da Cidade Imperial exalava um frescor e antiguidade sem igual, o garoto gostaria de estar ali em uma situação diferente.
Levi suspirava, as mechas loiras de suas franjas caiam teimosamente contra o seu rosto, quando o menino se debatia no aperto daquele desconhecido. Ambos suspiravam mas o mais velho parecia cansado, ele segurava os pulsos do mais novo firmemente.
Os dois adentraram a mansão branca e azul e Levi não pôde deixar de se impressionar com o imóvel por dentro. Cortinas brancas, tapetes com belos desenhos, móveis de madeira nobre, vasos com detalhes únicos e pinturas de espalhavam pelo salão principal. Pequenas bolas de fogo dançavam perto do alto teto, lançando luz para a sala, provavelmente, cortesia do Salamandreano Theodoro, um dos membros do Conselho. Este, que se encontrava inquieto, balbuciando, todos sentados em uma longa mesa que ficava na parede esquerda.
Grandes janelas enfeitavam o lugar, mas estas estavam fechadas e cobertas pelas citadas cortinas, o único motivo pelo quarto não estar em escuridão total, eram as orbes flutuantes de Theodoro.
O homem que segurava o jovem praticamente arrastou Levi para mais perto, parando de caminhar à alguns metros de distância dos Conselheiros. Ele acenou, gesto que foi reconhecido pelo líder deles, que levantou a mão, logo em seguida a abaixando. O homem soltou o menino e começou a caminhar para sair do salão, seus sapatos ecoando pela sala. Levi segurou seus pulsos, massageando-os, antes de subir o olhar para os seniores à frente.
— Bom dia, Conselheiros — ele acenou rapidamente, sua voz firme porém baixa, ecoou pelas paredes.
— Aproxime-se, Levi — ordenou Theodoro, sua pele escamosa brilhava levemente ao brilho de suas próprias orbes luminosas. Os olhos verdes e redondos atentos aos movimentos do menino, que se aproximava.
Um dos membros que apenas observava, um homem com uma carranca e uma careca, cuja pele morena era iluminada pela tímida luz das bolas e os olhos azuis nunca piscavam,
Se levantou sem o mínimo de pressa e caminhou devagar, parando perto de Levi. Ele retirou um objeto do bolso da calça e o aproximou do menino, que não recuou. Entretanto, seus olhos foram forçados a fechar e seus braços se levantaram, em uma tentativa de se proteger do intenso brilho que o objeto emitiu.
— Ele não usa Nixian — concluiu o careca, guardando o objeto em suas vestes.
Levi piscou várias vezes, antes de erguer uma sobrancelha. Ele sairia dali naquele momento. Ele não sabia quem eram seus pais de verdade, mas ele não tinha o porquê ou como usar Nixian. Ele se perguntou se os Conselheiros estavam se fazendo de sonsos quanto à clara pobreza de Levi, representada por suas roupas velhas e remendadas. Onde eles achavam que ele havia conseguido Nixian? Era por isso que não estavam usando lâmpadas mas o poder de Theodoro.
Ele se virou antes que alguém pudesse sequer abrir a boca. Uma voz feminina e rouca se pronunciou.
— Levi... Tome cuidado — ele ignorou e marchou em direção à saída da mansão.
Ele respirou fundo, enquanto caminhava pelo jardim bem cuidado da mansão. Os pássaros assobiavam e animais silvestres como tatus tentavam se esconder quando percebiam o menino.
O cheiro de pão com manteiga encontrou suas narinas ao primeiro passo na rua pavimentada, atrás do animado som de um narrador que explodia em alegria num rádio, comentando algum jogo, provavelmente. Algumas pessoas passeavam com cavalos, outras com carros e outras com motos.
Ele piscou algumas vezes, nada adiantava ficar ali, ele deveria voltar para sua casa. E no entanto, o que ele faria a respeito do Conselho? A respeito de sua magia?
Quando ele estava prestes a caminhar para longe, um outro garoto se chocou contra si. Não foi forte o suficiente para fazer os dois caírem, mas forte o suficiente para causar-lhes uma imensa dor de cabeça.
Levi fechou um dos olhos, apenas para abri-lo novamente. — Desculpe, eu sou distraído.
O outro garoto mal deixou Levi terminar, antes de explodir em uma calma desesperada, pitadas de urgência apareceriam em seu tom de voz controlado. — Não temos tempo para desculpas. Ouça, Levi, você precisa vir comigo para encontrarmos a Fazenda e salvarmos nossos pais.
— Como você sabe o meu nome? — o loiro perguntou, surpreso.
— Sou seu primo Dante.
— Primo? Conhece meus pais? Por que eles me abandonaram?! Espere, você disse que eles precisam ser salvos?
— Sim! Não há tempo para conversarmos.
— Espere! Me explique direito!
A barriga de Levi roncava de fome, o que fez o loiro instintivamente colocar uma de suas mãos contra a mesma, apertando o suspensório.
Sua outra mão descansava no banco da lanchonete, que era limpa e bem cuidada. À sua frente, o “doido” estava sentado.
— Como eu estava dizendo, você é o herdeiro da Casa de Machado. Eu sou seu primo.
— Mas se isso é verdade, você não pode simplesmente voltar pra Fazenda? Você não veio de lá? — ergueu uma sobrancelha. — E é melhor você pagar um milkshake pra mim.
— Quem você acha que sou? Eu já ordenei os refrescos — seu tom, antes inquieto e perturbado, agora estava calmo e desinteressado. Seu olhar fixo no primo.— Escute, Levi, eu não sei onde a Fazenda está mais. Eu precisei lutar contra alguns bandidos e perdi a memória.
O revisor de linha lançava não tão sutilmente olhares julgadores para as duas crianças, que caminhavam em direção aos assentos vazios. Levi sentiu a maciez da poltrona e sorriu brevemente. Enquanto recostava suas costas contra a poltrona e afundava sua cabeça na mesma, sentiu seus olhos arderem e lágrimas rolaram pelo seu rosto, molhando sua blusa.
Dante piscou algumas vezes e olhou o primo. — Está tudo em ordem, Levi?
— C-Claro... Droga. Pareço uma menininha, não é? — riu, enxugando suas lágrimas em um movimento rápido, não se importando em secar as seguintes. — É que, eu nunca pensei que fosse encontrar meus pais.
— Ah — o de cabelos pretos fez silêncio. Ele estava cansado e não havia imaginado a reação do primo. Viajar e lutar cansaria qualquer um. Ele sentia pena de Levi, mas sabia que o primo podia alcançar um potencial infinito e que era a salvação da Casa. Ele faria de tudo para fazer o loiro se sentir em casa, mesmo que ele mesmo não se sentisse. — Você terá tempo de sobra para aproveitá-los quando você salvar a Fazenda.
Levi virou um pouco a cabeça, os olhos brilhavam com esperança. — Eu não sei controlar bem a minha magia pura... Mas eu vou fazer até o impossível para salvar os meus pais e o seu.
— Tenho certeza que sim — Dante abriu um pequeno sorriso, um gesto de consolo.
— Como são os meus pais?
Dante pensou um pouco, antes de responder. — Eles são pessoas poderosas.
Levi riu. — Não deveria me dizer se são boas pessoas primeiro? — o mais velho deu de ombros.— Você me disse que eles são da Casa Machado. Que Casa é essa?
— É a Casa das Probabilidades.
— Probabilidades? Eles manipulam as probabilidades?
Dante confirmou. — Exato. Eu, por exemplo, posso aumentar ou diminuir as probabilidades de algo, desde que não seja um Evento Fixo na História. Mudar a história é para os manipuladores do tempo.
— Que legal! — disparou Levi, cujos olhos começavam a pesar.
Dante balançou a cabeça levemente. “Primeiro ele come o que eu pago, depois ele dorme... Meu pai já teria me mandado treinar. Heh... E no entanto, acredito que sua vida foi mais difícil que a minha”.








