Chapter 1
Uma garota gentil
Em uma pequena cidade do interior, vivia Florencia. Aos 25 anos, ela carregava no rosto a suavidade da pele morena e a força de um olhar que, embora gentil, guardava profundezas desconhecidas. Seus cabelos pretos e longos costumavam balançar ao ritmo da brisa noturna enquanto ela se sentava em sua cadeira de fio azul para admirar a lua.
Ao seu lado, a pequena Farah, de apenas 5 anos, era o seu oposto em cores, mas o seu espelho em alma. De pele clara e cachos pretos bem apertados, a menina bocejava sob o céu estrelado.
— Já está tarde, pequena. Vamos dormir — murmurou Florencia, conduzindo a filha para dentro.
O dia amanheceu claro. Após a rotina matinal de café e preparo, as duas seguiram caminhos distintos. Florencia trabalhava como assistente de classe, uma função que exercia com a pontualidade de um relógio. Antes de se despedirem, Farah agarrou sua mão:
— Não esquece da minha apresentação, mamãe!
— Eu estarei lá, minha filha. Prometo.
No trabalho, enquanto Florencia organizava a sala para os pequenos alunos, o tempo parecia voar. No recreio, uma colega de trabalho, alta e exuberante, aproximou-se com um sorriso insistente.
— Sabe que dia é hoje, Florencia? Sexta-feira! Vamos sair?
— Não — respondeu Florencia, curta e direta.
— Ah, por que você é assim? Eu prometi a um amigo que levaria uma colega bonita.
— Chame outra pessoa.
— Quem? Não tem ninguém mais bonita que você aqui.
Florencia não gostava de sextas-feiras e sua voz carregava uma autoridade que encerrava qualquer discussão. A escola, respeitando sua dedicação rara, permitiu que ela saísse 35 minutos mais cedo para o compromisso com Farah.
Ela dirigia seu carro preto antigo pela estrada sinuosa. Ao passar perto de uma imponente montanha, o rádio pareceu perder a estática e uma voz, vinda de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo, sussurrou: *"Suba a montanha"*.
O pé atingiu o freio bruscamente. O coração de Florencia disparou em um misto de pânico e um estranho conforto, como se aquela voz a conhecesse há séculos.
— Estou precisando de férias... — disse a si mesma, soltando uma gargalhada nervosa para espantar o medo antes de acelerar novamente.
Na escola de Farah, a apresentação já havia começado. A menina buscava a mãe na plateia com olhos marejados, o brilho sumindo a cada segundo. Mas, quando Florencia cruzou a porta, os olhares se encontraram. Farah sorriu, e sua performance foi impecável.
Mais tarde, em casa, enquanto saltitava com um lanche na mão, a menina perguntou:
— Eu fui bem, mãe?
— Você foi a estrela mais brilhante, minha pequena.
Naquela noite, porém, o silêncio era diferente. Sentada novamente na cadeira de fio azul, Florencia refletia sobre o convite da amiga e sobre a imagem que via no espelho: uma mulher jovem, bela, mas que escolhera ser o pilar inabalável de um lar solitário.
A lua, que antes parecia uma companhia, agora parecia vigiá-la. O olhar gentil de Florencia deu lugar a uma profundidade negra e fria. Algo em seu passado, ou quem sabe o isolamento daquela cidade remota, a puxava de volta para o mistério da montanha.
Florencia uma garota gentil








