Chapter 1 Onde você está?
A tinta ainda estava fresca quando Elena guardou os pincéis.
Não porque o quadro estivesse pronto — longe disso —, mas porque já passava das sete e ela prometera ao professor Hayes que devolveria a chave do ateliê antes do fechamento. Ele sempre fingia se importar com o horário, e ela sempre fingia acreditar que ele se importava.
Olhou para a tela mais uma vez antes de cobri-la com o pano manchado.
Era mais um retrato.
A composição estava correta, a luz estava correta, as proporções estavam corretas. Tudo nele estava certo, e era exatamente isso que a incomodava. Fazia três anos que ouvia a mesma frase nas avaliações:
Técnica impecável, mas onde está você nisso?
Ninguém sabia responder o que faltava.
Ela menos que ninguém.
Guardou o material, vestiu o casaco e saiu.
A faculdade ficava a uns vinte minutos a pé do apartamento, um trajeto que ela fazia desde o segundo ano sem prestar muita atenção nele. Passou pela banca de jornais que fechava sempre um pouco mais tarde do que devia, pelo café onde nunca tinha coragem de pedir nada além do mesmo cappuccino de sempre, pela livraria de segunda mão cuja vitrine checava por hábito, não por interesse.
O celular vibrou no bolso.
A mãe.
Lembra de ligar pro seu pai amanhã, é aniversário dele.
Elena sorriu sozinha na rua vazia e digitou um lembrei sim, pode deixar, que era mentira — ela só tinha se lembrado naquele instante. Já estava se programando para comprar alguma coisa no caminho de volta da faculdade no dia seguinte. Talvez aquele uísque de que ele gostava. Talvez só ligasse, e bastasse.
Era uma vida pequena.
Ela sabia disso.
Mas era dela, construída sozinha, sem ajuda além do necessário, e havia um tipo de orgulho silencioso nisso que ninguém perguntava e ela nunca contava.
O sinal da Rua Hartley ficou verde para pedestres.
Ela atravessou no ritmo de sempre, sem pressa, ainda pensando no quadro que tinha deixado pela metade, no presente do pai, no que faria de jantar.
O som chegou antes da luz dos faróis.
Um motor em rotação alta demais para aquela rua. Um motor que não estava desacelerando quando deveria.
Ela teve tempo de virar a cabeça.
Não teve tempo de mais nada.
O impacto não doeu do jeito que ela esperaria que doesse. Foi mais como um som — um estalo seco que pareceu vir de dentro dela mesma — e depois o chão, frio e duro contra o lado do rosto, e o céu errado, girando devagar no lugar onde deveria estar a rua.
Vozes.
Passos correndo.
Alguém gritando um número de telefone para outra pessoa.
Uma luz vermelha piscando longe, ou perto; ela já não sabia dizer a diferença.
Tentou respirar, e o ar não veio do jeito certo.
Pensou, de forma absurda e nítida, na tela coberta pelo pano no ateliê.
Pensou que precisava terminar aquele retrato.
Pensou que precisava ligar para o pai.
Depois não pensou em mais nada.
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Não havia escuridão.
Não havia luz.
Não havia a sensação de tempo passando nem de tempo parado.
Havia apenas um vazio sem textura, sem som, sem peso — como se o mundo inteiro tivesse sido apagado de uma vez e ninguém tivesse se dado ao trabalho de desenhar outro no lugar.