Uma Segunda Chance Para Viver A Sua Vida by Nauana at Inkitt
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Uma segunda chance para viver a SUA vida

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Summary

Natália é uma jovem de 28 anos que ganha uma segunda chance: volta para viver os anos de 2010–2020, com todas as lembranças e lições da vida anterior — onde deixou de ser ela mesma, teve um relacionamento secreto e infeliz com Carlos, e nunca teve coragem de escolher o que realmente queria. Dessa vez, ela vai recomeçar devagar, descobrir seu valor e fazer escolhas diferentes.

Genre
Romance
Author
Nauana
Status
Ongoing
Chapters
20
Rating
n/a
Age Rating
13+

O caminho de volta

Caminhava pelas ruas em direção à casa da minha amiga. O pôr do sol pintava o céu de laranja, rosa e roxo, como se alguém tivesse espalhado tinta sobre as nuvens. Parei no meio da calçada e ergui os olhos. Era lindo.

Será que eu realmente revivi?

Respirei fundo, deixando o ar fresco preencher meus pulmões. Um pensamento se firmou dentro de mim.

Desta vez, tudo será diferente. Eu não vou repetir o mesmo destino.

Continuei a caminhar sem pressa, apreciando cada passo, cada detalhe ao redor — coisas que antes nunca chegava a notar. Ao chegar à casa dela, meus olhos se demoraram em tudo com cuidado especial, como se estivesse gravando cada imagem para sempre.

Maria estava ali, na porta, mais linda do que nunca, vestida com seu vestido preferido. A casa brilhava: luzes suaves, guirlandas e arranjos de flores compunham uma decoração impecável, preparada para o seu aniversário de 24 anos.

Ela veio correndo até mim e me envolveu num abraço apertado.

— Pensei que você não ia vir, Natália! Estou tão feliz em te ver finalmente saiu do seu apartamento!

Sorri para ela, um sorriso tranquilo e cheio de propósito, e estendi a sacola que carregava comigo.

— Aqui está o seu presente. É simples, mas vem do fundo do coração.

Maria pegou a sacola com cuidado, abriu-a devagar e seus olhos brilharam de imensa alegria.

— Nossa! Você comprou mesmo! Não pensei que estava falando sério quando disse que ia me dar o meu kit completo da Malu! Muito obrigada — disse ela, puxando-me para outro abraço, ainda mais caloroso.

— Maria, você está me esmagando! Estou ficando sem ar! — gritei, com um toque de brincadeira, mas realmente sentindo a falta de oxigênio.

Ela me soltou rapidamente e pediu desculpas, com um sorriso envergonhado, antes de sair correndo para cumprimentar os outros convidados que acabavam de chegar. Fiquei sozinha na entrada, peguei o celular e comecei a mexer, tentando me acostumar com a agitação da festa.

De repente, senti alguém atrás de mim — não tive tempo de reagir antes que duas mãos me puxassem para um abraço. Meu corpo congela instantaneamente, não consigo mexer, como se todas as minhas músculos tivessem se bloqueado de repente.

— Amor, você está linda usando esse vestido. Não sabia que o azul combinava tão bem com você — disse uma voz familiar, ao meu ouvido.

Fiquei com o rosto completamente vermelho, e olhei para ele por cima do ombro. Era Carlos, meu namorado — lindo como sempre, vestido com um terno preto impecável, como se tivesse acabado de sair de uma cena de filme. Fiquei tão nervosa que a voz simplesmente não saiu da garganta.

Ele percebeu logo o meu desconforto e me soltou devagar, pedindo desculpas:

— Desculpa, princesa. Esqueci que você não gosta muito de toques físicos em lugares tão cheios. Mas está tudo bem?

Olhei para ele, ainda com as bochechas queimando de vergonha, e respondi:

— Sim, estou bem. Só preciso me acostumar com esse tipo de carinho assim de repente.

Ele abriu um sorriso calmo, que parecia querer me acalmar:

— Vou esperar o seu tempo, sem pressa. Quer uma bebida? Água ou refrigerante?

— Aceito um refrigerante sim, amor. Obrigada.

— Certo, vou buscar para você já.

Assim que ele se afastou, fiquei ali parada, perdida em pensamentos: Como eu pude me apaixonar tanto por ele? Na minha vida passada… Lembrei-me daquele momento em que ele soube que seu amor de infância voltava para a cidade depois de cinco anos fora — e de como tudo mudou logo depois. Soltei um suspiro baixo. As pessoas mudam com o tempo, não há como negar isso.

Uma voz tomou conta da minha mente — ninguém a falara ao meu ouvido, mas era nítida, inconfundivelmente familiar:

Ela fica perdendo tempo com esse idiota. Mal ela sabe que ele só liga para ela quando quer dinheiro quando ela descobrir vai ficar arrasada, vai surtar… e ela mesma vai sofrer também. Escolher um homem desse? Sem palavras, sem caráter… Por que ela foi logo escolher ele?

Olhei ao redor devagar, com o coração batendo mais forte, até pousar o olhar no primo de Maria. Ele permanecia afastado dos outros, com uma postura ereta e impassível — personalidade fria, distante, como um príncipe de gelo que ninguém consegue tocar.

Fiquei parada, os olhos ainda fixos nele, e aquele pensamento não desapareceu — antes, pareceu abrir uma porta trancada há muito tempo dentro de mim. De repente, as luzes da festa, as vozes dos convidados, tudo pareceu se afastar, ficando borrado e distante. E eu voltei para lá: o meu último dia na vida anterior.

Lembrei-me claramente: depois que Carlos sumiu, passei semanas tentando contato, sem resposta. Até que recebi uma mensagem de uma amiga com uma foto: ele, abraçado com sua paixão de infância, numa praia no litoral sul. E uma frase curta, que veio acompanhada de um aviso de transferência bancária: “Obrigada por tudo, Natália. O dinheiro vai nos ajudar a recomeçar.”

Naquele momento, senti como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés. Tudo o que eu tinha feito por ele passou diante dos meus olhos: adiei meus sonhos, deixei de visitar minha mãe, afastei-me de Maria quando ela tentou me avisar para ter cuidado, entreguei minhas economias e até vendi o colar que minha avó me dera, pois ele disse que precisava “resolver um problema urgente”. Eu me entreguei por inteiro, e ele levou tudo — inclusive a minha esperança.

Saí de casa sem rumo, andando até chegar à beira-mar, naquela praia escura e vazia onde costumávamos ir. O mar estava agitado, as ondas quebravam forte sobre as pedras, e pareciam chamar por mim. Sem ver mais nenhuma saída, sem ter para onde voltar, sem ninguém que eu achasse que poderia me acolher… caminhei para a água.

Lembrei-me da sensação fria envolvendo meu corpo, invadindo minhas roupas, subindo pelo peito até apertar minha garganta. Lembrei-me de como o ar pareceu fugir de mim, de como as luzes da orla foram se apagando aos poucos diante dos meus olhos, até só restar o silêncio e a escuridão total.

Um arrepio tão forte me sacudiu que eu quase perdi o equilíbrio, e voltei de repente para a festa, de volta à luz suave e às vozes ao meu redor. Levei a mão ao peito, sentindo o coração bater vivo, forte, dentro de mim.

Eu estava aqui. Viva. E dessa vez, não iria deixar ninguém destruir o que restou de mim.

Respirei fundo, tentando acalmar as batidas descompassadas do meu coração, e voltei a olhar para o primo de Maria. Ele ainda estava ali, imóvel, os braços cruzados, como se não tivesse notado nada — mas eu sabia agora: foi ele quem falou dentro da minha mente.

Antes que eu conseguisse pensar em algo para fazer, ouvi a voz de Carlos se aproximando:

— Aqui está, meu amor. Seu refrigerante.

Estendi a mão para pegar o copo, mas meus dedos tremiam tanto que ele quase escorregou. Segurei com força, sem conseguir olhar diretamente para ele. Aquele sorriso gentil, o tom calmo da voz… tudo parecia uma máscara perfeita, escondendo a traição que eu já conhecia tão bem.

— Você está pálida — ele notou, aproximando o rosto. — Quer que eu te leve para sentar um pouco?

Na minha vida passada, eu teria aceitado de imediato, me agarrado à sua preocupação como se fosse a única coisa verdadeira no mundo. Agora, porém, a lembrança do abismo em que caí me deu forças para recuar um passo devagar.

— Não precisa, obrigada — respondi, mantendo a voz firme, apesar do frio na barriga. — Só vou me sentar ali perto da janela, para pegar um pouco de ar.

Ele franziu a testa por um instante, mas logo sorriu de novo:

— Tudo bem. Fico aqui se precisar de qualquer coisa.

Assenti e me afastei sem olhar para trás. Ao passar perto do primo de Maria, ele virou levemente a cabeça em minha direção — e seus lábios não se moveram, mas a voz soou nítida só para mim:

Você finalmente enxerga quem ele é. Não baixe a guarda.

Senti os olhos se arregalarem, mas continuei caminhando até chegar ao canto mais silencioso da sala. Sentei-me e segurei o copo com as duas mãos, deixando o frio do vidro me acalmar.

Fico ali, abraçando o copo gelado contra mim, e a mente não para de girar: Como posso mudar tudo isso? Como vou terminar com ele sem revelar que já vi cada passo da sua traição, que já vivi todo esse sofrimento antes?

Lembrei então do meu maior sonho — ser designer de moda. Na outra vida, Carlos riu na minha cara toda vez que eu tocava no assunto: dizia que era perda de tempo, que não dava dinheiro, que eu devia esquecer essas “ideias bobas” e ficar só ao lado dele. Mas dessa vez… dessa vez vou fazer o meu curso. Vou entrar na faculdade. Vou trabalhar duro até conseguir ser uma das maiores designers de moda, até construir o meu próprio shopping. Só preciso ir devagar, um passo de cada vez.

Preciso me acalmar, penso. Vou só esperar o momento do parabéns, cantar junto, dar um abraço na Maria… depois me despeço e vou embora. Nunca gostei de lugares tão cheios assim.

E as dúvidas voltam: E o primo de Maria? Por que foi justamente ele que ouvi? Será que consigo escutar outros pensamentos? Não faço ideia… tantas perguntas girando sem resposta.

Solto um suspiro trêmulo. Queria só poder ir pro meu quarto e pensar com calma… Mas agora nem sei mais por onde começar. Estou com tanto medo… minha mente não para.

Maria me vê sentada de longe, sem falar com ninguém, e logo vem até mim.

— Ei Nati? Você está bem? Por que está aí sozinha? Vem, vamos dançar! Olha só, os meninos chegaram também, você não precisa ficar aí parada sozinha.

— Ai Mari… estou bem, só estou cansada. E também… você sabe que não gosto muito de lugares cheios, sabe como eu sou.

— Sim, eu sei. Mas você precisa se soltar mais um pouco! Vem comigo, vai ser legal.

— Hm… tá bom. Só vou porque hoje é o seu dia mesmo.

Maria me puxa pela mão até o grupo dos nossos amigos: João, Artur, Lucas e Noah estavam todos ali, junto com Íris e Sofia. Cumprimento cada um com um aceno e um sorriso fraco. Artur fala logo em seguida, todo brincalhão:

— Nossa, finalmente apareceu! Pensei que tinha morrido, nunca mais falou com a gente depois que se mudou para aquele apartamento na praia!

— Para com essa graça! — respondo, balançando a cabeça. — Eu sempre mando mensagem para vocês conversar, ou mando vídeos aleatórios no Instagram!

João me olha atentamente, mas não diz nada. Lucas solta uma risada alta e já começa a falar:

— Nossa, o bolo deve estar uma delícia! Vai ser uma tristeza grande se a Maria cair de cabeça no bolo, não é João? — ele diz com um sorriso safado.

João concorda, rindo também:

— Vai ser engraçado de ver, mas depois quem morre é a gente, garanto!

Maria olha para os dois com cara séria, cruzando os braços:

— Vocês tão pensando em fazer isso? Se fizerem, eu mato vocês dois, viu bem?

Eu dou uma risada de verdade — a primeira desde que cheguei:

— Nossa, mesmo depois de ficar velha continua sendo agressiva desse jeito? — falo brincando.

Maria me olha de lado e ri também:

— Olha quem fala! A mais calma do grupo? A primeira oportunidade que você tem de xingar alguém ou bater, faz isso sem pensar duas vezes né?

De repente, a voz da mãe de Maria se eleva por sobre a música:

— Filha! Venha logo cantar o parabéns para não ficar muito tarde!

Maria vai até a frente pulando de alegria, os olhos brilhando mais do que as luzes da decoração. Todos se ajuntam ao redor da mesa do bolo, cantando juntos em vozes altas e animadas.

Vejo Carlos ali, parado com um grupo de amigos ao lado da mesa. Ele franze a testa e olha ao redor, procurando por mim — nota que não fui para ficar junto dele, e isso deixa ele claramente estranhado. Na vida passada, eu sempre ia correndo ficar ao seu lado, mesmo que fosse só para fazer companhia, sem querer atrapalhar ninguém. Agora, estou bem longe: fico logo ali, ao lado dos meninos e das meninas do nosso grupo.

Terminamos de cantar, aplaudimos alto, e Maria pega a faca para cortar o bolo. Ela corta o primeiro pedaço — grande, generoso, cheio de cobertura — e antes de me entregar, levanta o olhar para todos e faz um pequeno discurso:

— Esse primeiro pedaço é para a pessoa que eu mais queria ver aqui hoje, que demorou muito para aparecer, mas quando vem deixa tudo mais especial: a Natália!

Ela vem até mim e me abraça forte de novo, antes de colocar o prato na minha mão.

— Obrigada, Mari — digo eu, sorrindo de verdade.

Os amigos começam a fazer graça logo em seguida:

— Nossa, que puxa-saco! — brinca Lucas.

— Nós não contávamos com essa preferência toda não! — completa Artur, rindo.

Pego o prato com cuidado e vou me sentar no sofá mais afastado para comer. O primeiro pedaço vai devagar à boca — e na mesma hora meus olhos se arregalam: uma mistura perfeita de maracujá azedinho com chocolate doce, derretendo na língua. É tão gostoso que solto até um gritinho baixo de alegria:

— Nossa, que bolo maravilhoso!

Do outro lado da sala, Carlos fica parado, me observando de longe. Vê toda a minha reação, o brilho nos olhos e a satisfação estampada no rosto, e deixa escapar um sorriso de lado — daquele jeito que ele acha que me conquista fácil.

De repente, aquela voz suave invade minha mente de novo:

Nossa, até parece uma criança comendo esse bolo… é tão fofa que dá até vontade de morder.

Levanto o olhar de leve, devagar, e encontro os olhos do primo de Maria. Ele estava apoiado na parede bem ali perto, fingia olhar para outro lado — mas no instante em que nossos olhares se cruzam, ele fica vermelho de repente, vira o rosto depressa e cruza ainda mais os braços, como se nada tivesse acontecido. Aquele jeito frio e distante voltou rápido, mas eu já tinha percebido: foi ele sim.

De repente, ouço a voz de Maria chamar de longe:

— Ei Leo! Leonardo! Vem cá um segundo, preciso te apresentar para uma pessoa!

Ele vira depressa na direção da prima, e eu guardo o nome com cuidado na memória: Leonardo. Então esse é o seu nome. Ele só acena com a cabeça para mim antes de ir até ela, sem saber que eu já tinha ouvido o seu pensamento, nem que eu sei como ele se chama.

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