Prólogo
Prólogo – Sob os olhos do dragão
Por Clara Avelar
Dizem que todas as coisas possuem um fim.
Um último suspiro. Uma última chama. Um instante derradeiro em que a matéria cede antes de finalmente se desfazer.
Estão errados.
Algumas coisas não chegam ao fim. Elas simplesmente deixam de existir.
Aprendi isso muito antes de compreender o peso do que aquilo significava. O primeiro objeto que desapareceu estava preso entre as minhas mãos. Não houve fogo para consumi-lo, nem a poeira de uma explosão. Não houve sequer o rastro fraco de fumaça subindo ao ar.
Apenas a ausência.
Desde então, aprendi a governar a fenda que existe entre a existência e o nada. Aprendi a fazê-la obedecer, a dobrá-la aos meus comandos, a contê-la no fundo do peito e a sobreviver a ela.
O que nunca aprendi... foi o que fazer no dia em que o Vazio decidiu não me obedecer.
O homem diante dele ergueu a lâmina de aço pesado, a lâmina refletindo o brilho pálido da tarde. O metal tremia ligeiramente, mas o aço continuava firme.
— Você não pode me matar — rosnou o guerreiro, dando um passo à frente, o peso de sua armadura rangendo sobre as folhas secas.
O garoto permaneceu imóvel. A brisa fria apenas roçava as pontas do seu cabelo escuro. A postura era ereta, ombros largos sob a túnica simples, mas desprovida de qualquer tensão. Seus olhos permaneciam frios, em um tom profundo de azul-acinzentado.
— Eu sei — disse o garoto. Sua voz, embora ainda jovem, carregava um peso absoluto, sempre mansa e calma.
A espada avançou em um corte limpo, projetado para decepar-lhe a garganta.
O garoto apenas ergueu a mão direita, os dedos longos se entreabrindo no ar.
E então... não houve mais espada.
O metal não caiu no chão. Não se partiu em estilhaços brilhantes. Não derreteu sob o calor de uma chama repentina.
Simplesmente não estava mais ali.
O homem continuou com o braço estendido, o punho fechado em volta do nada. Ele piscou, os olhos arregalados encarando a própria mão vazia, antes de lentamente deslocar o olhar apavorado para o garoto diante de si. O ar ao redor da mão do jovem parecia ter ficado subitamente mais frio, uma pressão invisível que fazia a própria luz ao redor parecer ligeiramente distorcida.
Pela primeira vez, o guerreiro compreendeu. Aquilo não era fogo. Não era feitiçaria. Não era destruição.
Era ausência pura.
O garoto abaixou a mão devagar, ajustando o punho da túnica escuro sobre o pulso. O azul acinzentado de seus olhos continuava intocado, indiferente ao pânico que se instalava diante dele.
— Agora você sabe por que deveria ter corrido.








