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O Último Sinal - 23:17

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Summary

O ÚLTIMO SINAL Todas as noites, exatamente às 23h17, um sinal de rádio surge em uma região isolada e esquecida pelos mapas. Quando o Dr. Daniel Varek e sua equipe captam a transmissão, acreditam estar diante de uma interferência incomum. Até que uma voz começa a repetir coordenadas. Seguindo-as, os pesquisadores encontram os restos de uma expedição desaparecida há mais de trinta anos. Entre barracas destruídas, fotografias e equipamentos abandonados, descobrem antigas gravações. Em uma delas, algo impossível acontece: uma voz registrada décadas atrás pronuncia os nomes de todos eles. A partir desse momento, caminhos desaparecem, relógios deixam de marcar o mesmo tempo, pessoas somem e vozes conhecidas começam a surgir nos rádios — até mesmo quando estão desligados. Enquanto alguma coisa os observa e aprende suas vozes, a equipe continua seguindo as coordenadas em direção à origem da transmissão. Mas existe algo que eles ainda não compreenderam. O sinal nunca esteve chamando por socorro. Estava tentando mantê-los afastados. Alguns mistérios deveriam permanecer em silêncio.

Status
2mo ago
Chapters
7
Rating
5.0 (1 review)
Age Rating
16+

Capítulo 1 - O Mapa

CAPÍTULO 1 — 23:17

Trinta e dois anos antes, alguém tentou deixar um aviso.

Ninguém o encontrou.

Durante décadas, uma fita permaneceu esquecida em algum lugar onde a umidade, o tempo e o silêncio deveriam tê-la destruído.

Não destruíram.

O aparelho que a guardava estava coberto de ferrugem. Os fios haviam apodrecido. Não havia eletricidade. Não havia bateria. Não havia ninguém por perto para apertar qualquer botão.

Ainda assim, naquela tarde, alguma coisa se moveu dentro dele.

A fita girou alguns centímetros.

Parou.

Girou novamente.

Uma voz surgiu entre ruídos antigos.

— Se alguém encontrar...

Estática.

A fita continuou.

— ...não respondam.

Silêncio.

Então uma segunda voz apareceu na gravação.

Muito mais baixa.

Não pertencia ao homem que havia deixado a mensagem.

— Eles estão vindo.

A fita parou.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Então o contador mecânico do gravador começou a se mover sozinho.

Um número.

Depois outro.

Até parar em:

23:17.

Naquele mesmo instante, muitos quilômetros dali, seis pessoas avançavam por uma estrada que desaparecia lentamente sob a floresta.

Nenhuma delas sabia que estava sendo esperada.

Nenhuma sabia que seus nomes já haviam sido pronunciados naquele lugar mais de trinta anos antes.

E nenhuma delas sabia que, naquela noite, exatamente às 23h17, alguma coisa voltaria a transmitir.

---

A primeira coisa que desapareceu foi o sinal do GPS.

Ninguém percebeu imediatamente.

O veículo avançava lentamente pela estrada estreita, sacudindo sobre pedras e raízes enquanto a mata se fechava dos dois lados. Havia horas que não cruzavam com outra pessoa, uma casa, uma cerca ou qualquer indício de que alguém ainda utilizasse aquele caminho.

Daniel Varek olhou novamente para o aparelho preso ao painel.

A pequena seta que representava o veículo permanecia imóvel.

Como se, para o restante do mundo, eles já não estivessem mais ali.

— Elias.

O homem ao volante não respondeu imediatamente.

— Elias.

— Estou ouvindo.

— O GPS travou.

Elias Navarro lançou um olhar rápido para o aparelho.

— Eu avisei que isso aconteceria.

Daniel franziu a testa.

— Você disse que o sinal poderia ficar fraco.

— E ficou.

— Não. Ele desapareceu.

Elias continuou dirigindo.

— Para onde estamos indo, dá quase na mesma.

No banco traseiro, Tomás Reis abaixou a câmera.

— Essa frase deveria me tranquilizar?

Ninguém respondeu.

Tomás apontou a câmera para Elias.

— Repete olhando para cá.

— Não.

— Excelente. Muito natural.

Helena Moura soltou uma risada discreta.

Daniel não achou graça.

Retirou o GPS do suporte e tocou algumas vezes na tela.

Nada.

A última posição registrada aparecia quase quarenta quilômetros atrás.

Depois dela, nenhuma informação.

Daniel desligou o aparelho.

Esperou alguns segundos.

Ligou novamente.

A tela acendeu.

PROCURANDO SATÉLITES.

— Quanto falta?

Elias olhou rapidamente para o relógio.

— Se a estrada continuar transitável, umas duas horas.

Caio Ferraz, espremido entre caixas de equipamentos, inclinou-se para a frente.

— E se não continuar?

Elias olhou pelo retrovisor.

— Caminhamos.

— Quanto?

— Depende de onde ela acabar.

Caio balançou a cabeça.

— Ótimo planejamento.

— O planejamento foi seu.

— A rota foi sua.

— E vocês me contrataram justamente porque ninguém mais quis trazer vocês até aqui.

O silêncio encerrou a discussão.

Daniel voltou a olhar pela janela.

A floresta parecia não terminar.

Árvores enormes disputavam espaço, formando uma muralha irregular de troncos, cipós e folhas. Em alguns pontos, os galhos avançavam sobre a estrada e raspavam a lateral do veículo.

O céu quase desaparecera.

Ainda era tarde, mas sob aquela cobertura vegetal a luz já parecia pertencer ao início da noite.

Daniel conhecia isolamento.

Passara boa parte dos últimos vinte anos trabalhando em lugares onde telefone era inútil e a civilização ficava a vários dias de distância.

Mas aquele lugar era diferente.

Não sabia explicar por quê.

Talvez fosse a estrada.

Talvez o silêncio.

Ou talvez fosse Elias.

Desde que haviam deixado o último povoado, o guia estava diferente.

Falava menos.

Olhava constantemente para os lados.

E sempre que Daniel perguntava alguma coisa sobre a região para onde estavam indo, respondia apenas o necessário.

— Você já veio até aqui? — Daniel perguntou.

Elias demorou alguns segundos.

— Até esta parte.

— E depois?

— Não.

— Tem certeza?

Os dedos do guia apertaram o volante.

— Tenho.

Daniel observou seu perfil.

Não acreditou.

Antes que pudesse insistir, Maya Torres falou:

— Talvez seja melhor guardar o interrogatório para quando não estivermos dependendo dele para encontrar o caminho de volta.

Daniel olhou para ela.

Maya sorriu.

— Sugestão médica.

— Isso não é medicina.

— Prevenção de acidentes é.

Tomás levantou novamente a câmera.

— Doutora Maya Torres, mantendo a paz desde o primeiro dia de expedição.

— Abaixe isso.

— Estamos documentando tudo.

— Então documente a floresta.

Tomás virou a câmera para a janela.

— A floresta não reclama.

— Ainda — respondeu Maya.

Caio riu.

Dessa vez, Daniel também sorriu.

A descontração durou pouco.

Um ruído atravessou o veículo.

KRRRRSHHHH.

Helena ergueu imediatamente a cabeça.

O rádio instalado no painel havia produzido uma breve descarga de estática.

Elias girou um botão.

O som desapareceu.

— Interferência — disse Caio.

Helena continuou olhando para o rádio.

— Talvez.

— Estamos no meio do nada — Tomás comentou. — Interferência de quê?

— Existem dezenas de possibilidades.

— Alienígenas?

Helena olhou para ele.

— Cinquenta quilômetros dentro da mata e você já começou?

— Estou apenas considerando hipóteses científicas.

— Então considere ficar quieto.

Tomás sorriu.

Daniel percebeu algo que os outros aparentemente não notaram.

Elias não participara da brincadeira.

O guia continuava olhando para a estrada.

Mas seus dedos estavam apertados demais ao redor do volante.

---

17h42

A estrada terminou.

Não gradualmente.

Terminou.

Uma árvore gigantesca havia caído atravessada sobre o caminho. O tronco era grosso demais para ser removido, e a vegetação ao redor impossibilitava qualquer desvio com o veículo.

Elias desligou o motor.

O silêncio entrou imediatamente.

Tomás abriu a porta.

— Finalmente.

Desceu com a câmera.

Caio veio atrás.

— Finalmente nada. Agora começa a parte ruim.

Daniel consultou o mapa impresso.

— Coordenadas do ponto-base?

Helena verificou o aparelho portátil.

— Aproximadamente seis quilômetros.

— Aproximadamente?

Ela mostrou a tela.

O GPS oscilava.

— Ele encontra três satélites, perde dois, encontra outro... Não confio nisso.

Caio abriu uma das caixas.

— Temos bússolas.

Elias já retirava sua mochila.

— Usem.

Daniel o observou.

— Você sabe o caminho?

— Sei.

— Mesmo sem GPS?

Elias colocou a mochila nas costas.

— É para isso que serve um guia.

Maya aproximou-se do tronco caído.

— Vamos montar acampamento aqui?

Elias respondeu imediatamente:

— Não.

Todos olharam para ele.

— Por quê? — perguntou Daniel.

O guia demorou.

— Terreno ruim. Se chover, essa parte alaga.

Caio examinou o solo.

— Ele tem razão.

Daniel assentiu.

— Então seguimos.

Tomás fotografou o veículo abandonado diante da árvore.

O clique pareceu alto demais naquele silêncio.

Ele conferiu a imagem.

Franziu a testa.

— Estranho.

Maya olhou para ele.

— O quê?

— Nada.

Tomás limpou a lente.

Fotografou novamente.

A segunda imagem parecia normal.

Guardou a câmera.

Mas, antes de acompanhar os outros, olhou mais uma vez para a primeira fotografia.

---

A caminhada levou mais tempo do que Elias previra.

Quando finalmente encontraram uma clareira adequada, o relógio de Daniel marcava 19h06.

Um rio estreito passava próximo dali. De um lado, um paredão rochoso oferecia proteção contra o vento. O terreno era relativamente plano.

Daniel examinou a área.

— Ficamos aqui.

Começaram imediatamente.

Caio e Elias montaram as barracas.

Maya organizou os suprimentos médicos.

Tomás instalou duas câmeras automáticas nas árvores.

Helena preparou os equipamentos de comunicação.

Daniel abriu o caderno.

Dia 1.

Chegada ao ponto-base.

GPS instável desde aproximadamente 15h.

Escreveu:

Nenhum incidente relevante.

Parou.

Riscou.

Substituiu por:

Nenhum incidente até o momento.

Fechou o caderno.

— Daniel.

Helena estava ajoelhada diante de uma mesa dobrável.

Dois rádios portáteis, um receptor e um pequeno computador estavam ligados.

— Venha ver isso.

Ele se aproximou.

— Problema?

— Ainda não sei.

Ela apontou para a tela.

— Estou fazendo uma varredura.

— E?

— Tem alguma coisa aqui.

Tomás aproximou-se imediatamente.

— Alienígenas?

Helena nem sequer olhou para ele.

— Se repetir isso, vou jogar sua câmera no rio.

— Retiro a pergunta.

Daniel inclinou-se sobre a tela.

Uma linha irregular atravessava o monitor.

— O que estou vendo?

— Ruído.

— Isso é ruim?

— Normalmente, não.

Helena ajustou alguns controles.

A linha mudou.

— Mas existe um padrão.

Caio apareceu carregando uma lanterna.

— Padrão de quê?

— Ainda não sei.

Ela aumentou o volume.

Estática.

KRRRRSHHHH...

Helena girou lentamente o seletor.

O ruído aumentou.

Diminuiu.

Aumentou novamente.

Então desapareceu.

— Perdeu? — Daniel perguntou.

— Sim.

— Pode ter sido qualquer coisa.

— Pode.

Helena desligou o volume.

Continuou encarando a tela.

Daniel conhecia aquele olhar.

— Você não acha que foi qualquer coisa.

— Não.

— Por quê?

Ela hesitou.

— Porque parecia estar muito perto.

Caio olhou ao redor.

— Quanto?

— Sem triangular, impossível saber.

Tomás apontou para a mata.

— Cem metros?

— Não funciona assim.

Daniel olhou para Elias.

O guia havia parado de trabalhar.

— Elias?

— O quê?

— Existe alguma estação de rádio por aqui?

— Não.

— Torre?

— Não.

— Posto militar?

— Não que eu saiba.

Helena cruzou os braços.

— Comunidade?

— Não.

— Então de onde veio?

Elias voltou ao que estava fazendo.

— Vocês são os especialistas.

Daniel observou-o por alguns segundos.

Outra resposta que não parecia resposta.

---

Depois das nove, jantaram.

A temperatura havia caído rapidamente.

Durante o dia, a floresta parecera apenas fechada.

À noite, tornou-se outra coisa.

Insetos.

Folhas.

Água.

Galhos quebrando ao longe.

Tomás deixou uma câmera gravando.

— Primeiro jantar oficial da expedição. Avaliação da comida, Caio?

— Dois.

— De dez?

— De cem.

Maya riu.

— Está comendo pela terceira vez.

— Sobrevivência.

Daniel mexeu no prato.

— Amanhã começamos cedo.

Tomás virou a câmera para ele.

— Objetivo?

— Reconhecimento do setor norte. Caio verifica as formações próximas ao paredão. Helena continua a varredura. Você documenta.

— E Maya?

— Garante que vocês sobrevivam às próprias decisões — respondeu ela.

— Função mais importante.

Daniel apontou para Elias.

— E ele nos mantém no caminho.

Elias não respondeu.

Estava olhando para a mata.

— Elias?

O guia levantou os olhos.

— Sim.

— Algum problema?

— Não.

— Está olhando para quê?

Todos ficaram em silêncio.

Elias voltou os olhos para a escuridão.

— Pensei ter ouvido alguma coisa.

Caio pegou a lanterna.

— Animal?

— Provavelmente.

— Grande?

Elias demorou.

— Não sei.

Tomás levantou a câmera.

— Agora ficou interessante.

Maya revirou os olhos.

— Você é o único ser humano que fica feliz quando o guia diz que ouviu alguma coisa na mata.

— Documentário sem perigo é vídeo de férias.

Daniel levantou-se.

Iluminou as árvores.

Nada.

O feixe alcançava apenas os primeiros metros.

Depois, escuridão.

— Não tem nada.

Elias continuou olhando.

— Eu sei.

Daniel baixou a lanterna.

A resposta o incomodou.

Não acho que não tem.

Não deve ter ido embora.

Eu sei.

Como se Elias soubesse exatamente o que havia ouvido.

---

22h48

Quase todos estavam nas barracas.

Helena continuava trabalhando.

Daniel encontrou-a diante do receptor.

— Ainda nisso?

— Mais cinco minutos.

— Você disse isso há vinte.

— Agora são cinco de verdade.

Daniel ficou observando.

— Encontrou novamente?

— Não.

— Então talvez tenha sido interferência.

— Talvez.

— Você odeia essa palavra.

— Cientistas adoram essa palavra. É ela que impede a gente de transformar suposição em conclusão.

Daniel sorriu.

— Então qual é sua suposição?

Helena olhou para a tela.

— Existe uma transmissão nesta região.

— E sua conclusão?

— Ainda não tenho.

O rádio estalou.

Os dois olharam.

Silêncio.

Helena verificou o relógio.

22h56.

— Viu?

— Um estalo.

— Não deveria ter acontecido.

— Por quê?

— Porque desliguei a entrada.

Daniel aproximou-se.

— Então como...

KRRR.

Outro estalo.

Helena colocou os fones.

— Espere.

Ajustou o aparelho.

Nada.

23h03.

Daniel bocejou.

— Helena...

Ela levantou um dedo.

— Só mais um pouco.

23h08.

Nada.

Daniel levantou-se.

— Vou dormir.

— Boa noite.

Ele deu três passos.

O rádio explodiu em estática.

KRRRRRRRRRRRSHHHHHH.

Helena arrancou os fones.

Daniel voltou.

Uma das barracas se iluminou.

Caio apareceu.

— Que diabos é isso?

Maya saiu logo depois.

Tomás surgiu segurando a câmera.

— Está gravando? — Daniel perguntou.

— Claro.

Helena mexia nos controles.

— Não estou conseguindo localizar a frequência.

— Como assim?

— Ela está mudando.

23h14.

Elias apareceu por último.

Quando ouviu a estática, parou.

Seu rosto mudou.

Daniel percebeu.

— Você conhece isso?

— Não.

Rápido demais.

23h15.

Helena aumentou o ganho.

A estática ficou mais forte.

Tomás aproximou a câmera.

— Tem alguma coisa no meio.

— O quê? — perguntou Maya.

— Escutem.

Todos permaneceram imóveis.

KRRRRSHHHH...

Nada.

SHHHHHHHH...

Daniel inclinou-se.

— Parece...

Helena levantou a mão.

Silêncio.

O relógio do computador mudou.

23:16.

Então a estática cessou.

Completamente.

A floresta também.

Daniel percebeu primeiro.

Os insetos pararam.

O vento desapareceu.

Até o som do rio pareceu distante.

Maya olhou para as árvores.

— Vocês estão ouvindo?

Caio respondeu quase em um sussurro:

— Não estou ouvindo nada.

Tomás continuava filmando.

Elias deu um passo para trás.

— Desligue.

Helena virou-se.

— O quê?

— Desligue o rádio.

— Por quê?

— Desligue.

Daniel colocou-se entre eles.

— Elias, o que está acontecendo?

— Nada.

— Então por que quer que ela desligue?

Elias permaneceu calado.

Helena olhou para o relógio.

Os números mudaram.

23:17.

O rádio ligou sozinho.

KRRRRRRRRRRRRR—

Helena recuou.

— Eu não fiz isso.

Daniel se aproximou.

— Abaixe o volume.

— Não estou controlando.

Ela girou o botão.

Nada.

Caio desconectou um cabo.

O rádio continuou funcionando.

Retirou outro.

Nada.

— Helena...

— Eu sei.

Tomás baixou lentamente a câmera.

A estática permaneceu durante alguns segundos.

Sem voz.

Sem números.

Sem mensagem.

Apenas ruído.

Uma interferência áspera, irregular, impossível de localizar.

Então cessou.

O som da floresta voltou de uma vez.

Insetos.

Água.

Folhas.

Vento.

Todos permaneceram imóveis.

Daniel olhou para o relógio.

23:17.

— Quanto tempo?

Tomás verificou a gravação.

— Onze segundos.

Helena respirou fundo.

— Quero analisar.

Elias avançou.

— Não.

Ela virou.

— Preciso saber o que foi.

— Apague.

Tomás soltou uma risada nervosa.

— Não vamos apagar.

Elias olhou diretamente para ele.

— Apague a gravação.

O sorriso desapareceu do rosto de Tomás.

Daniel aproximou-se.

— Você vai nos explicar por quê.

— Não tem nada para explicar.

— Você sabia que alguma coisa aconteceria.

— Não.

— Sabia.

Elias desviou o olhar.

Helena voltou-se para a tela.

— 23h17.

Todos olharam para ela.

— A transmissão começou exatamente às 23h17.

Caio cruzou os braços.

— Coincidência.

Helena não respondeu.

Salvou os dados.

ARQUIVO 001 — 23:17.

Tomás desligou a câmera.

— Bom primeiro dia.

Ninguém achou graça.

Daniel olhou para Elias.

— Amanhã conversamos.

O guia assentiu.

Mas não voltou para a barraca.

Ficou sentado diante da fogueira por muito tempo.

Olhando para a mata.

---

02h13

Tomás ainda estava acordado.

Dentro da barraca, transferia as fotografias do dia para o computador.

Veículo.

Estrada.

Floresta.

Árvore caída.

Acampamento.

Rio.

Equipe.

Parou na primeira fotografia feita quando encontraram a árvore bloqueando a estrada.

Era aquela que parecera estranha.

Ampliou.

Nada.

Reduziu.

Ampliou novamente.

No fundo da estrada, quase escondido entre as árvores, havia algo.

Tomás aproximou mais.

Pixels.

Sombras.

Folhas.

E uma forma vertical.

Franziu a testa.

Aumentou a imagem.

Seu sorriso desapareceu.

Parecia uma pessoa.

Um homem.

Muito distante.

Parado no meio da estrada.

Tomás abriu a fotografia seguinte, tirada poucos segundos depois.

O caminho estava vazio.

Voltou para a primeira.

A figura permanecia ali.

Imóvel.

Observando.

Pegou a câmera e conferiu o arquivo original.

Não era erro da transferência.

Olhou para a entrada da barraca.

Pensou em chamar Daniel.

Desistiu.

Uma árvore.

Uma sombra.

Provavelmente nada.

Fechou o computador.

Deitou.

Por alguns minutos permaneceu olhando para o teto.

Então ouviu:

KRRRSHHHH.

Sentou-se.

O rádio portátil estava sobre sua mochila.

Desligado.

Tomás ficou imóvel.

Esperou.

Nada.

Aproximou-se.

Pegou o aparelho.

A chave permanecia na posição OFF.

— Estou ficando paranoico.

Colocou o rádio de volta.

Deitou.

Fechou os olhos.

Nada aconteceu.

Um minuto.

Dois.

Então ouviu alguma coisa do lado de fora.

Um passo.

Depois outro.

Folhas sendo esmagadas.

Lentamente.

Contornando a barraca.

Tomás pegou a câmera.

Os passos pararam.

Esperou.

Nada.

Finalmente abriu lentamente o zíper.

Olhou para fora.

A clareira estava vazia.

A fogueira quase se extinguira.

As outras barracas permaneciam fechadas.

Elias estava sentado perto das brasas, aparentemente dormindo.

Tomás saiu.

Iluminou o chão.

Nenhuma pegada.

Virou-se para a floresta.

Nada.

— Idiota — murmurou.

Voltou para a barraca.

Antes de entrar, olhou novamente para as árvores.

Por um instante, pensou ter visto alguém.

Muito longe.

Entre dois troncos.

Uma silhueta.

Piscou.

Não havia nada.

Tomás entrou.

Fechou o zíper.

Do outro lado da clareira, Elias abriu os olhos.

Não estava dormindo.

Nunca estivera.

Olhou para a barraca de Tomás.

Depois para a floresta.

Seu rosto estava pálido.

Muito baixo, para que ninguém pudesse ouvi-lo, murmurou:

— Não respondam.

---

A quilômetros dali, escondido em algum ponto da região, um aparelho que não deveria funcionar havia mais de trinta anos despertou.

Uma pequena luz se acendeu.

Uma engrenagem girou.

Depois outra.

Uma fita antiga começou a avançar.

Devagar.

Uma voz surgiu para uma sala vazia.

— Se alguém estiver ouvindo...

KRRRRSHHHH.

A gravação falhou.

Voltou.

— ...não sigam...

Nova interferência.

A fita continuou.

Então houve uma longa pausa.

E a voz pronunciou um nome.

— Daniel Varek.

A fita parou.

No escuro, alguma coisa respondeu.

Clique.

---

FIM DO CAPÍTULO 1

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