EPISÓDIO 1 — A Mulher Que Dá Quando Quer
Havia duas regras na vida de Mônica, e ela as repetia como quem reza: nunca deixe o desejo esperar; nunca deixe ninguém ficar. Uma cuidava do corpo. A outra, do coração. Ela acreditava, com a sinceridade de quem nunca foi desmentida, que eram regras diferentes.
Na sexta-feira, o Edifício Aurora vestia a segunda pele. Pelas seis da tarde, os estudantes desciam em bando, mochilas pesando nas costas como culpas de domingo, e o saguão cheirava a cigarro, jasmim e maconha leve escapando de alguma janela do quarto andar. O prédio era um organismo: uma senhora de 1964 que aceitara, com a elegância de quem não tem mais o que perder, ser repartida em quitinetes. As portas de madeira rangiam, o elevador cantava uma nota desafinada a cada parada, e nas cordas de varal esticadas entre as janelas do pátio interno, calcinhas de vinte anos conviviam com cuecas de dezenove. Um censo involuntário de quem morava ali e do que ali se fazia.
Mônica chegou no táxi de sempre, o taxista conhecendo o caminho como quem conhece o próprio pulso, e cruzou o saguão com o estojo de câmera pendurado no ombro. Seu Elias, o porteiro, ergueu o jornal na altura do peito num cumprimento que era quase uma reverência.
— Noite boa, dona Mônica.
— Noite boa, Elias. Movimento?
— Dizem que vão despejar o pessoal do 55. Fizeram festa terça, quarta e quinta.
— Então o 55 rendeu bem a semana. É o que importa.
Ele riu, um riso de homem que já viu de tudo e por isso não se espanta mais com nada. O Edifício Aurora era isso: um prédio onde as paredes finas guardavam os segredos uns dos outros, e o porteiro era o cofre.
O apartamento dela era o 41: quatro cômodos, janelão para o pátio, e um cheiro de madeira velha e revelador que ela demorou três meses para entender que era o cheiro da própria casa. Mônica era fotógrafa, e não daquelas que fotografam casamentos. Fotografava corpos. Nus, quase nus, corpos em todas as idades, em todas as formas, corpos de homens que choravam depois, corpos de mulheres que se descobriam no visor. Tinha um estúdio perto da Praça da República, três paredes brancas e um tripé, e uma tese que defendia em toda entrevista: o corpo não mente. As pessoas mentem com a boca o dia inteiro. O corpo só sabe ser verdadeiro. Por isso ela o amava. Por isso o fotografava. Por isso o usava.
Nas paredes do 41, pendurados sem moldura, os retratos faziam fila: um ombro, um pescoço, a curva de uma cintura, o mapa de uma pele. Quem visitava o apartamento pela primeira vez sempre demorava um segundo a mais olhando, sem saber se devia ou não olhar. Mônica gostava dessa hesitação. Era a prova de que o corpo, mesmo na parede, continuava mandando.
Bia invadiu o apartamento sem bater, porque moradores de prédio de estudantes não batem, abrem a porta com o pé e uma pergunta na boca.
— Mônica! Você viu o homem novo do 72?
Bia tinha vinte e um anos, cursava artes plásticas, morava no 43 e vivia daquela forma desesperada e bonita de quem ainda acredita que tudo é possível. Mônica jogou o estojo de câmera no sofá.
— Quem?
— O homem novo do 72! Alugou mês passado. Todo mundo já viu. É um negócio… — Bia levou as duas mãos ao peito, como quem segura um coração que quer sair pela boca. — Cabelo preto, pele branca, corpo de escultura grega. O pessoal do 3º andar diz que ele é uma coisa, que anda pela escada sem camisa quando vai descer pra rua.
Mônica abriu a geladeira, pegou uma água, não disse nada. O silêncio, para ela, era um direito.
— E tem mais — prosseguiu Bia, incansável. — Metade do prédio já passou pela cama dele. A outra metade está na fila de espera. A Carol, do 32, me contou que ele é… — baixou a voz, num pudor que não era dela — …exigente. E paciente. Diz que ele espera a mulher querer. E quando ela quer, ele sabe.
Mônica tomou um gole de água e olhou para a parede, para a foto de um pescoço de homem, a sombra da clavícula, o pulso.
— Então, chegou mês passado e já comeu metade do prédio? E ele tem uma fila... — disse, sem emoção. — Eu não tenho fila, Bia. Eu sou o balcão. Quem quer, chega e pede.
Bia riu, mas era um riso nervoso, e Mônica percebeu que a menina estava com medo de alguma coisa que ainda não tinha nome. Deixou que ela falasse mais um pouco, porque era assim que o prédio funcionava. Informação era moeda, e quando Bia foi embora, Mônica ficou de pé no meio da sala, a água gelada na mão, e percebeu que tinha armazenado o detalhe. Cabelo preto. Pele branca. Corpo de escultura. Paciente. Aquele último era o único que realmente a incomodava.
Às onze e meia, ela ligou para Gustavo.
Gustavo tinha vinte e três anos, cursava filosofia, morava no 28 e a amava com a devoção confusa de quem ainda não entendeu que Mônica não era para ser amada, era para ser chamada. Atendeu no segundo toque, a voz mole de sono, e quando ela disse “sobe”, ele subiu. Era assim: Mônica não pedia, não negociava, não explicava. Dava quando queria dar. E naquela noite, com o nome do homem do 72 ainda fresco na memória como uma queimadura, ela quis.
Gustavo entrou no 41 com a pressa dos que têm medo de perder a vez. Mônica não se levantou do sofá. Estendeu a mão, puxou-o pelo punho da camisa, e beijou-o com uma fome que o assustou. E ele gostou de ter medo. Era essa a mecânica: Mônica sabia que os homens a amavam pelo que ela lhes fazia sentir, e fazia-os sentir-se caçados sem perceberem. Nenhum deles percebia que, na verdade, era ela a caçadora.
Ela o tirou da camisa devagar, como quem desembrulha, e o examinou à luz baixa da sala. A pele clara de rapaz, os ombros ainda sem história, o peito liso. Beijou-lhe o pescoço, e foi descendo. A clavícula, o esterno, o lugar onde o coração batia descompassado. Sentiu-o estremecer quando a boca chegou à cintura. Levantou os olhos para olhá-lo nos olhos enquanto as mãos trabalhavam o botão da calça, porque Mônica gostava de ver o rosto do homem no momento em que ele percebia que não mandava em nada.
— Fica — murmurou ela. — Fica parado. Não é você quem decide hoje.
Ele obedeceu. Os homens sempre obedeciam. Era essa a parte que ela mais amava. Não o poder em si, mas a rendição. Aquele instante em que um homem se entrega e, por um segundo, deixa de ser o que o mundo lhe ensinou a ser.
Ela tirou o pau dele para fora. Estava duro como uma rocha e latejava no compasso do coração acelerado de tesão. Ela lambeu as bolas e foi indo em direção da cabeça que já melada. Ela o olhou nos olhos e começou a chupar devagar pela cabecinha. Como se estivesse degustando um pirulito de uva. Ela era assim. Queria o cinco sentidos: Visão, audição, olfato, tato e… paladar. Adorava sentir o sabor.
O rapaz estava em êxtase. Aquela loira perfeita chupando o seu pau com uma vontade que ele nunca tinha visto. Ela fazia gostoso como ninguém mais. Era perfeito. Era desejo, tesão, prazer tudo misturado. E naquele instante ela era dele. Ao menos era o que passava pela cabeça. Na verdade, ele é que era dela, tal como um inseto preso na teia de uma aranha, que aguarda ser devorado.
Quando ela percebeu os sinais de que ele ira gozar, parou. Caminhou até a poltrona sem tirar os olhos dos olhos dele. Era uma hipnose. Ela sentou sensualmente e puxou a calcinha de lado. Massageou o clitóris e passou a mão pela buceta rosada, depilada, molhada, perfeita. Então ela disse: “Chupa!”
Gustavo se ajoelhou e caiu de boca naquela fruta suculenta. Era uma delícia. Ela segurou a cabeça dele e sussurrou: “Devagar. Sente o sabor. Sente o cheiro. Veja como é linda. Lisinha. Rosinha. Percebe? Deguste.”
Ele fez exatamente como ela disse. “Ela sabe das coisas”, ele pensou. Ele estava no paraíso. Aquela visão da loira do 41, de corpo perfeito, de pernas abertas só para ele, era algo que o fazia sonhar. A visão das feições dela sentindo prazer, os gemidos, aquela pele lisa e macia, o perfume de mulher, e o sabor doce da buceta melada. Os cinco sentidos...
Ela docemente segurou suas mãos e ele parou. O guiu até a cama e a noite desceu sobre o 41 como um incêndio controlado. A cidade brilhava lá fora, o pátio do prédio devolvia o eco de uma música distante, e Mônica cavalgou o corpo de Gustavo com a precisão de quem conhece o próprio ritmo. O quadril descendo, subindo, o suor colando a testa dela na dele, as mãos dele buscando a cintura dela como quem procura uma âncora, e ela afastando-as, porque não queria ser segurada, queria ser sentida. A cama rangeu no compasso, a madeira do prédio antigo protestando como um coro, e quando ela veio, veio inteira, o corpo arqueado, o grito preso na garganta por puro hábito, os dedos cravados nos ombros dele. Gustavo veio depois, com um gemido de alívio e derrota, e ficou ali, ofegante, os olhos procurando os dela para entender o que tinha acontecido.
Mônica não o deixou entender. Beijou-lhe a boca com doçura, o que era pior do que qualquer palavra, e disse:
— Vai. Amanhã você tem aula cedo.
Ele vestiu a camisa do avesso e saiu. A porta bateu com a suavidade dos derrotados. E Mônica ficou deitada no escuro, o teto do 41 desenhando sombras, o corpo satisfeito, os músculos soltos, a respiração voltando ao ritmo do mundo. Deveria dormir. Dormia sempre depois disso, com a consciência leve de quem pagou a conta.
Mas naquela noite, alguma coisa ficou de braços cruzados no fundo dela. Não era remorso. Mônica não sabia o que era remorso. Era outra coisa: uma porta que não tinha fechado direito. O corpo dela agradeceu, como sempre agradecia. O resto ficou em silêncio, e o silêncio dela, naquela noite, tinha um formato de homem que ela ainda não conhecia.
No sábado de manhã, Mônica desceu para comprar pão. O saguão estava em silêncio de ressaca, os estudantes ainda dormindo as próprias escolhas, e foi seu Elias quem lhe entregou a informação com a naturalidade de quem entrega o correio.
— A senhora sabe do novo inquilino do 72? — perguntou ele, sem tirar os olhos do jornal.
— Já ouvi falar. As meninas estão em polvorosa.
— Pois ele perguntou pela senhora. — Elias ergueu os olhos por cima da borda do jornal, e havia neles aquele brilho de quem sabe exatamente o que está fazendo. — Perguntou quem era a moça loira do 41, a fotógrafa. A senhora quer que eu diga alguma coisa?
Mônica sentiu o gelo da água da noite anterior voltar à nuca. Segurou o saco de pão com as duas mãos.
— Não precisa dizer nada, Elias. Se ele quiser saber, que suba e pergunte.
Subiu. Mas não subiu direito: no elevador, sozinha, viu-se refletida no espelho fosco da cabine e demorou um segundo a mais encarando os próprios olhos azuis, como se procurasse neles uma resposta para uma pergunta que ainda não tinha sido feita.
No domingo à noite, o elevador parou no térreo e Dante entrou.
Ela o reconheceu antes de vê-lo, o que é impossível, e por isso o corpo inteiro dela soube primeiro: a pele arrepiou no braço, o estômago fez um nó que subiu até a garganta, os olhos… os olhos traíram tudo. Ele era alto, muito mais alto do que as histórias deixavam adivinhar. O cabelo preto caía-lhe na testa, a pele branca quase translúcida à luz fraca da cabine, e o corpo… o corpo era exatamente o que as meninas do prédio diziam, o que era pior, porque Mônica vivia de ver corpos e sabia reconhecer um corpo verdadeiro de um corpo fabricado. Aquele era verdadeiro. Os ombros largos, o peito que se adivinhava sob a camisa preta, as mãos grandes pendendo ao lado do corpo com uma calma que não era preguiça, era reserva. Dante olhava para ela como quem já sabia quem ela era, e isso a desarmou mais do que a beleza dele.
— Quatro — disse ela, e a voz saiu firme, o que foi uma vitória.
Ele apertou o botão sem tirar os olhos dela. Dois andares subiram em silêncio, o elevador cantando a nota desafinada de sempre, e Mônica percebeu que estava respirando pelo nariz, devagar, como quem atravessa um campo minado. O cheiro dele chegou até ela: sabão, pele, uma nota de madeira. Nada de perfume. Perfume era para impressionar; ele não precisava.
— Você é a fotógrafa do 41 — disse ele, e não era pergunta. A voz era baixa, grave, sem pressa. A voz de um homem que nunca precisou subir o tom para ser ouvido.
— E você é o homem do 72.
Um canto da boca dele subiu. Não era um sorriso. Era um reconhecimento.
— As meninas do prédio falam muito de você — disse ela, porque Mônica nunca recuava, nunca deixava um silêncio vencer.
— E as do seu andar?
— As do meu andar são mais discretas. Ou mais exigentes.
O elevador parou no quatro. As portas se abriram com o gemido de sempre, e Mônica sentiu a decisão se formar no peito: sair. Sair agora, enquanto ainda era dona da própria respiração. Deu um passo, e a voz dele veio de trás, sem pressa, como uma mão que não toca:
— Mônica.
Ela parou. Virou-se devagar, e o nome dela na boca dele tinha um peso que nenhum dos outros nomes tinha tido, e ela percebeu, num relâmpago, que nunca tinha contado o nome dela a ele. Elias tinha contado. Ou ele tinha perguntado. Uma ou outra coisa era verdade, e as duas a desarmavam do mesmo jeito.
— Vou te dizer uma coisa — continuou ele, sem tirar os olhos dela, e o elevador começou a fechar as portas. — Eu já estive com muita gente neste prédio. Mas nunca estive com você.
As portas se fecharam. O elevador cantou a nota desafinada e subiu, levando-o embora, e Mônica ficou parada no corredor do quatro, o coração batendo no lugar errado, as pernas estranhamente firmes, uma palavra se formando na boca dela sem que ela a tivesse convocado.
“Nunca estive com você.”
E foi ali, no corredor frio do Edifício Aurora, diante da porta do 41, que Mônica entendeu pela primeira vez o que o prédio inteiro já sabia: ela não tinha fila, era o balcão. Mas havia um homem, um único homem, que não tinha pedido nada. E era exatamente por isso que ela não conseguia tirá-lo da cabeça.
Na segunda-feira de manhã, seu Elias a cumprimentou com o jornal na altura do peito e uma pergunta que ficou suspensa no ar, sem resposta:
— Dona Mônica, o senhor do 72 pediu para eu dizer que, se a senhora um dia quiser, ele está no 72. Devo dar algum recado?
Mônica segurou o estojo de câmera com força. O coração, aquele traidor, acelerou.
— Diga que sim, Elias.
— Sim o quê, dona Mônica?
Ela sorriu, e era o sorriso mais perigoso que o velho porteiro já tinha visto naquele prédio cheio de gente perigosa.
— Ainda não sei. Mas ele vai esperar.
E o Edifício Aurora, com suas paredes finas e suas portas rangentes, com sua fila de espera no 72 e seu balcão no 41, aguardou o resto do dia. Como um leitor aguarda, episódio a episódio, pelo momento em que duas pessoas que nunca dizem não a nada na vida, enfim, se encontrariam cara a cara com a única coisa que sempre recusaram: uma à outra.








